Feminismo e Saúde Mental

Texto de Camila Cerdeira para as Blogueiras Feministas.

Sou bipolar. Essa é uma das frases mais difíceis que eu já tive que falar na vida, por anos isso me causou vergonha, distanciando a mim de todos com quem eu convivia em algum grau e, querendo eu ou não, afetou minha vivencia em militâncias e no feminismo.

Por muito tempo achei que minha saúde mental não iria interferir na forma como eu participo dos movimentos sociais, porque eu achava que isso não precisava de fato fazer parte da minha vida. A verdade é que minha ansiedade, meus momentos de depressão e minha bipolaridade como um todo é parte de quem eu sou e precisam ser parte do meu feminismo tanto quanto minha raça e minha sexualidade.

Eu não me torno menos feminista ao deixar de ir para um ato de protesto porque não consegui encontrar forças para sair da cama numa crise depressiva. Ou, se eu for uma garota de 26 anos que parou de ir para as rodas de discussão depois de ouvir tantos relatos de assédio, pois agora tem crises de ansiedade ao sair de noite pela rua. Ou, se sou aquela feminista que expõe suas opiniões pessoais sobre alguns temas num programa em rede nacional e agora está sendo atacada por ‘feministas’ com opinião divergente da dela e precisou tirar um tempo fora da militância. Estamos esquecendo que o feminismo é um movimento por essência plural, afinal somos muitas mulheres com muitos quereres. Divergência teórica, desde que não agrida a existência do outro, não deveria ser um problema.

Qual o sentido de falar sobre o gaslighting como opressão e ainda chamar alguém que muda de opinião com frequência de “meio bipolar”? Uma vez, em um grupo contendo apenas negras feministas, uma delas destilou inúmeras informações incorretas sobre transtornos psicológicos e ainda estava celebrando parar de tomar medicação, pois “o sistema quando não nos mata, nos enlouquece”. Eu levei mais de dez anos para aceitar que: não apenas preciso de medicação, como não existe vergonha em utilizá-la. Ninguém se envergonha de precisar de insulina.

O que o grupo e muitas outras pessoas não compreendem é que compartilhar informações erradas perpetuam estereótipos contra pessoas neuroatípicas, fazendo com que não nos sintamos seguras. E qual o ponto do feminismo que não inclui a todas? Se é Nenhuma A Menos que seja incluindo a depressiva, a com crise de ansiedade, a que toma medicação e a que ainda não está pronta pra fazer terapia, mas que precisa.

É preciso que compreendamos que as feministas são, antes de qualquer coisa, mulheres humanas. Por mais que nossas lutas sejam importantes, válidas e façam a diferença para outras mulheres, mais na frente, em momento algum devemos coloca-las a frente de nosso próprio bem estar. Se é para ser Nenhuma A Menos que de fato incluamos todas intersecções que existirem.

Autora

Camila Cerdeira é negra, nordestina, bi, escritora, fotógrafa e nerd de criação. Mora em Fortaleza onde faz parte da curadoria do Geekontro, parte da equipe do Preta, Nerd & Burning Hell. Espalhada virtualmente, é mais fácil de encontrar no @CamilaAngel, onde pode estar discursando sobre questões sociais ou sobre nerdiandade, muito provavelmente sobre ambos ao mesmo tempo.

Créditos da Imagem: Cena do espetáculo ‘Colônia’ da Cia. Sapataria, que narra o extermínio de minorias no Hospício de Barbacena. Foto de Carlos Valle e Victoria Lins.

Por uma não-monogamia possível

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Venho tentando escrever sobre esse assunto há algum tempo, com base em várias críticas que li e ouvi, conversas com amigas e companheiras de militância e, por conta de debates que foram surgindo criticando diversas situações problemáticas que apareceram na série de televisão Amores Livres do canal a cabo GNT. A proposta da série é apresentar pessoas em relacionamentos com dinâmicas não-monogâmicas diversas. O foco são as dinâmicas amorosas das relações, como os relacionamentos funcionam e, talvez por isso, muitas questões relacionadas à política tenham sido deixadas de lado.

Cena da série 'Amores Livres', exibida pelo canal a cabo GNT (2015).
Cena da série ‘Amores Livres’, exibida pelo canal a cabo GNT (2015).

Por não apresentar um discurso mais politizado, reforçando discursos sobre posse, mostrando dinâmicas machistas, bifóbicas e por mostrar casais muito dentro do padrão (branco, classe média, magros, etc,), a série recebeu diversas críticas no meio não-monogâmico. Porém, tenho percebido que algumas dessas críticas a série são, na verdade, críticas à comunidade não-monogâmica como um todo. Outras tem a ver com a falta de representatividade e também com a representação de diversas situações e falas que entendemos como não-saúdaveis num relacionamento desse tipo. Além, é claro, de uma cobrança feita às personagens que observo muitas vezes ocorrendo por parte de mulheres militantes que se envolvem nessas relações.

A vida seria bem mais fácil se existisse uma “receita de bolo”, se em 10 passos ou 7 dias alcançássemos os níveis máximos de inteligência emocional e maturidade política para ter um ideal de relacionamento não-monogâmico, que não fosse opressor de forma alguma. Com algum tempo de experiência alcançaríamos até uma patente que nos blindaria de críticas aos nossos posicionamentos e nos eximiria de passar por qualquer dificuldade ou violência nas relações. Por vezes fico observando que muitas mulheres parecem buscar algum tipo de guia prático de como se tornar uma feminista não-monogâmica politicamente coerente e inabalável emocionalmente.

Se relacionar de forma não-mogâmica é também mudar a forma com que você vê e vive todas suas relações. É conviver com o fantasma do modelo romântico e monogâmico de relacionamentos. Além de termos de lidar com os diversos preconceitos já tão difundidos, não vamos achar numa capa de revista aquele guia básico de como deixar de sentir ciúmes e sentir apenas compersão, ou “escolha a melhor dinâmica de relacionamento não-monogâmico para vocês”, ou “como organizar sua agenda sem negligenciar as necessidades das pessoas com quem você se relaciona”, ou “como finalmente saber separar sentimentos reais de construções sociais impostas pela sociedade”, ou ainda “descubra o momento certo de revelar sua não-monogamia para amigos, familiares e colegas de trabalho”, ou quem sabe “evite constrangimentos ao dialogar sobre novas dinâmicas ou pessoas nas relações”. Ou seja, não temos referências fáceis para buscar soluções para os nossos problemas. E, a bem da verdade, muitas dessas questões nunca serão solucionadas.

A vida, as experiências, as pessoas, os sentimentos, as relações não são tão simples ou lineares. Independente da forma de organização dos relacionamentos temos sempre desafios a enfrentar. Viver a prática dessas relações não-monogâmicas, praticando também o feminismo, é viver um processo de aprendizado contínuo. Conhecimento e experiência podem nos alertar sobre certos desafios, e aí quando possível evitamos certas dificuldades. Mas, nada nos exime de passar por certas experiências, de sofrer ou até mesmo fazer sofrer em determinados contextos.

Um relacionamento não-monogâmico não vai por si só destruir todas as estruturas de poder existentes entre as pessoas, a sociedade já está moldada dessa forma, ainda que desafiemos em algum nível essa lógica. Não vai também resolver todos os problemas emocionais ou curar desilusões de relacionamentos anteriores. Pessoas não-monogâmicas não são seres iluminados a prova de erros ou imunes à armadilhas, violência emocional ou relacionamentos abusivos. Aliás, essa postura — muitas vezes sustentada dentro de determinados grupos e por certas pessoas — só faz com que aumente nossa cobrança interna para ter uma relação tão perfeita quanto essas pessoas dizem ter e que muitas vezes (ou talvez todas) está longe da realidade.

Primeiro, o mais importante é que estamos falando de relações. Isso quer dizer que além dos fatores pessoais, estamos lidando com aquilo que está na(s) outra(s) pessoa(s). E além disso, existe esse negócio muito simples e ao mesmo tempo extremamente complexo que é a comunicação. Precisamos numa relação não-monogâmica desafiar a lógica do silêncio que permeia a sociedade e se abrir para a(s) pessoa(s) com quem nos relacionamos, para falar sobre coisas que aprendemos durante toda a vida que deveríamos ignorar ou sentirmos culpa de sentir.

Não quero dizer com isso tudo que devemos parar de buscar melhores arranjos de relações, melhores formas de diálogo, desconstruir sentimentos e opressões (como o racismo, o machismo, o ciúme, a carência, dependência emocional, etc.). Ou ainda que é ok negligenciar as demandas ou os sentimentos das pessoas que vivem opressões que nós não vivemos. Pelo contrário. Mas, observo muito a cobrança para que um relacionamento não-monogâmico atinja um ideal político e essa pressão acaba caindo muito mais em cima das mulheres envolvidas. Isso nos expõe (e quanto mais opressões sofremos mais expostas ficamos) e nos traz ainda mais desgaste, além do que já existe dentro de um relacionamento fora da norma.

Não é a toa que tantas críticas tem sido feitas sobre quão privilegiadas costumam ser as pessoas praticantes da não-monogamia. Para as mais oprimidas o peso é maior, e as cobranças são maiores ao se assumir um relacionamento fora do padrão. É muito importante buscar uma forma não-opressora de se relacionar, e essa busca deve vir principalmente das pessoas mais privilegiadas (especialmente homens brancos, heterossexuais, cisgêneros, classe média, etc). São essas pessoas que devem ser cobradas. Porém, o que tenho observado é exatamente o contrário. Aliás, já vi muitas mulheres extremamente oprimidas sendo colocadas na fogueira por escolhas que seus parceiros impuseram nas relações. Precisamos mudar esse cenário.

+ Sobre o assunto:

[+] Abrindo o código dos ciúmes: sobre sentir compersão desde a monstruosidade.

[+] Às mulheres dos meus companheiros*, ou o que eu posso dizer sobre não-monogamia.

[+] “Amores Livres”: escolhas possíveis.

[+] A violência de gênero e o amor romântico.

[+] Monogamia, Liberdade e Feminismo.

[+] Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia.

[+] Sin tiempo para el amor: el capitalismo romántico.

[+] El poliamor ‘is the new black’*.

[+] 9 Strategies For Non-Oppressive Polyamory.

Feminismo, Militância e Autocuidado

Texto de Manuela Melo para as Blogueiras Feministas.

A nós mulheres foi delegado o cuidado. O cuidado da casa, dos filhos e filhas, dos irmãos e irmãs, do marido, dos animais domésticos. O cuidado na profissão: somos maioria na enfermagem, no serviço social, na pedagogia. O cuidado (dos outros) perpassa nossa realidade desde muito cedo.

Quando as mulheres brancas de classe média alta saíram de casa para “trabalhar” (como dizem, né, porque sabemos que em casa o que se faz é trabalho também), passaram a pagar (muito pouco) outras mulheres (muitas vezes negras e sempre pobres) para fazer o cuidado. Com a casa, com filhos/as, animais. O cuidado pode ser menos rotina na vida de algumas mulheres que de outras, mas segue sendo uma atividade implacavelmente feminina, por conta do patriarcado e da divisão sexual do trabalho.

Foto de Eduardo Fonseca Arraes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Eduardo Fonseca Arraes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

As mulheres reivindicam há muitas décadas o espaço público. O espaço político, institucional, a participação e reconhecimento nos movimentos sociais, no trabalho, na mídia. Queremos, com razão, ocupar a rua, espaço historicamente masculino. A rua era deles, a casa, nossa — e digamos, nem isso, porque por séculos nos foi negado inclusive o direito de propriedade. Queremos o espaço público e por isso ainda hoje saímos às ruas para dizer: O corpo é meu, a cidade é nossa!

Reivindicar o espaço público não é negar o privado. É negar, em verdade, a dicotomia público-privado, que só serve à desvalorização do chamado espaço privado, espaço destinado a nós historicamente. Faz tempo que se diz que o pessoal é político, isto é, o que se faz no “privado” tem conotações políticas, de opressão e dominação. E que o político é pessoal: as relações políticas precisam considerar as dimensões dos sentimentos, da emoção, da vivência subjetiva das pessoas.

Não devemos negar o cuidado. O cuidado é essencial, e é por isso que o patriarcado o mantém tão intacto. Não há como viver sem cuidado. Não há porque viver sem cuidado. O cuidado nos fortalece para a luta. O cuidado faz parte da luta.

Nesse sentido, se cuidar é uma tarefa militante. Vivemos em um mundo capitalista de fluxo de informações e pressão pela produtividade que nos oprime na dimensão subjetiva e objetiva e nos ameaça a saúde física e mental.

As mulheres militantes, em geral, são responsáveis pelas atividades de cuidado da casa, dos/as filhos/as, do seu trabalho fora de casa, da sua capacitação e educação (mais mulheres têm educação formal que homens, mas isso não se reflete na oferta de empregos para nós, então em geral nos capacitamos cada vez mais para tentar, sem sucesso, compensar essa diferença), e também das atividades militantes. Para além da tal dupla jornada de trabalho. Para muito além.

As atividades militantes também envolvem cuidados. Cuidados com os companheiros e companheiras, com as populações oprimidas: com as mulheres vítimas de violência doméstica, com os drogadictos, com as mulheres que abortam; e o cuidado com o próprio funcionamento da atividade desenvolvida.

Nessa tripla ou quádrupla jornada de trabalho e de cuidado, em que momento cuidamos de nós? Esquecemos de nossa saúde física e mental. De nosso lazer, de nosso crescimento pessoal, de nossa conexão com as pessoas. Acabamos, muitas, vezes, adoecendo fisicamente, ou em depressão, por dedicarmos nosso tempo ao externo e negarmos a nós mesmas o cuidado que também merecemos.

Foucault dizia que não é preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. Mas as coisas que combatemos são mesmo abomináveis. As pessoas morrem de fome, são estupradas, assassinadas por homofobia, não têm onde morar, são assassinadas pela polícia, são internadas contra a sua vontade — e a lista é infinita. Militar é se confrontar com o que há de pior no mundo, porque na práxis militante nós vamos aos poucos entendendo melhor como o mundo funciona e ele funciona abominavelmente. Militar é uma tarefa de resistência, porque somos reprimidos pelo estado, pela ideologia dominante, pela mídia, ….e a lista segue. Para resistir é preciso força. Para termos força é preciso cuidado. Já dizia a Gal Costa: é preciso estar atenta e forte.

Como fazer para manter as esperanças, a vontade de viver e de mudar o mundo, quando todos os dias nos reprimem e machucam? É preciso cuidado. Cuidado individual e coletivo. O cuidado deve ser uma tarefa comunitária. Não há relação que seja meramente política. sua(seu) companheira(o) de militância deve te cuidar e você deve cuidar dele também, para que sigamos nos fortalecendo, resistindo e crescendo. Então, repito, cuidar é uma tarefa militante.

E não achemos que o cuidado é egoísmo, perda de tempo, coisa de pequena burguesia; isso só faz reproduzir as estruturas patriarcais capitalistas de cuidado (as mulheres vão seguir cuidando dos outros e não de si) e nos enfraquece perante nossos adversários na luta social, que estão todos muito bem cuidados pelas mulheres que eles pagam para isso.

Emma Goldman uma vez disse que “Se eu não posso dançar, não é a minha revolução”. E é essa a verdade. Não podemos reproduzir a lógica de trabalho capitalista que nos impõe modelos de produtividade e meritocracia em nossa atividade militante. Se não podemos ter lazer, amor, se não podemos nos cuidar, não é a nossa revolução.

Mulheres, cuidem-se. O auto-cuidado é uma tarefa revolucionária!

Autora

Manuela Melo é estudante de Direito da UnB. Mulher negra, nordestina, militante feminista intersecional e que tem coragem de sonhar e lutar com um mundo sem opressões.