Moralismo, racismo e misoginia na novela Verdades Secretas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A novela Verdades Secretas terminou semana passada e poderia ficar conhecida como a “novela da família brasileira” segundo o recém aprovado Estatuto da Família. Na trama central, que envolve pessoas ricas e uma agência de modelos, Angel (Camila Queiroz) era uma jovem de 16 anos que ao entrar para a carreira acaba no ramo da prostituição, conhecida como “book rosa”. Além disso, envolve-se com Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho e rico. Em determinado momento da trama, Alex se casa com Carolina (Drica Moraes), mãe de Angel, para continuar seu caso com a garota.

Ao contrário da comoção negativa com os beijos lésbicos de Babilônia, não houve nenhum repúdio ou movimento conservador contra Verdades Secretas. Pelo sucesso que fez, dá vontade de decupar cada cena, mas os textos dos críticos já apontam o quanto essa foi uma novela com embalagem moderna, mas extremamente moralista. Portanto, vou comentar especificamente sobre dois episódios que aconteceram na última semana, envolvendo personagens secundárias, mas que mostram muito da misoginia presente durante toda novela. Atenção, esse texto contem spoilers!

A direita, Larissa (Grazi Massafera). A esquerda, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.
A esquerda, Larissa (Grazi Massafera). A direita, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.

Larissa: a puta que encontra Deus.

Larissa (Grazi Massafera), modelo que começou a perder trabalhos e tornou-se usuária de crack, teve seu ponto de virada ao sofrer um estupro coletivo na Cracolândia. Desesperada, conta o fato ao namorado, Roy (Flávio Tolezani) que, entorpecido, praticamente não esboça reação. Larissa toma consciência de seu desamparo e decide se juntar ao grupo religioso que oferece comida e pregação no local.

Assustada e impressionada com a atuação de Grazi, comecei a me perguntar: qual o sentido daquilo pra narrativa? Por que Larissa precisava ser estuprada várias vezes numa mesma sequência? Pra querer sair da Cracolândia? Ela já não teria motivos suficientes? Se não, vejamos. Algumas cenas antes, a moça tinha recusado e respondido com deboche ao oferecimento de ajuda do personagem Emanoel (Álamo Facó), missionário que a acode depois do estupro. Quando ele lhe oferece a possibilidade de sair de lá, ela ainda o provoca, dizendo que faz coisas que ele nem imagina, como transar com homens para conseguir mais pedra. A puta “agredindo” o homem de Deus.

Não queria entrar no mérito de que essa “cura” vem pela religião, mas não sei se consigo, porque parece que tudo se mistura. Obviamente, onde o Estado não entra, outra instituição ocupa o espaço. E a religião tem desempenhado o seu papel na atenção e acolhimento a usuários de drogas, mesmo com os problemas da terceirização da saúde. Sei também que, embora a novela se passe em São Paulo, onde a Prefeitura tem realizado um trabalho com resultados positivos no controle de danos e recuperação de usuários, seria mesmo bem difícil que isso fosse sequer mencionado.

Mas, tampouco consigo sublimar a cena de Larissa implorando por “salvação”, ajoelhada com os braços estendidos com uma luz por trás, como uma Madalena arrependida pronta pra receber Jesus. O estupro de Larissa foi sua chegada ao fundo do poço, segundo o próprio autor, o que parece sugerir que ela provocou a violência. Afinal, ela “procurou” por aquilo ao usar drogas, viver naquele lugar e conviver com aquelas pessoas, né? Ela “procurou” por aquilo ao concordar em ir a um lugar ermo com um desconhecido atrás da droga. A culpa pelo estupro teria sido dela, portanto. Ela foi em direção ao fundo do poço. Mas, epa! Não deveriam ser os homens que a estupraram quem teriam chegado ao fundo do poço ao cometer uma violência dessas?

E, mais, sendo essa violência o catalizador para que ela procurasse ajuda, o que podemos presumir? Que o estupro foi necessário para que ela se tornasse consciente de sua situação e, portanto, teve impacto positivo em sua vida? Seria exagero ou uma incorreção fazer uma analogia com o “estupro corretivo”, já que essa violência a teria estimulado a buscar “o lado bom da força” e uma vida dentro da norma, com Cristo, sem drogas e, possivelmente, sem prostituição? Lembrando que ela já se prostituía antes, pela agência de modelos onde trabalhava.

Larrisa sempre foi Madalena. A metáfora da violência sexual como possibilidade de remissão de pecados para uma mulher que cobrava por sexo me parece bem explícita. Assim que concorda em acompanhar o missionário, Larissa é levada direto ao culto para fazer sua conversão. Ela tinha acabado de ser estuprada, estava ferida, suja e ensanguentada, e não foi sequer fazer um exame médico e tomar um banho! Não antes do culto. E, depois, essa parte fundamental de atendimento a uma mulher violentada não apareceu. Porque não importava para narrativa. “Limpar sua alma” era a prioridade.

Lyris: a negra punida com a morte pelo book rosa.

Não satisfeito, nesse mesmo capitulo, o autor ainda nos “brindou” com mais uma cena de violência brutal contra outra personagem feminina. Depois de  participar de um grande desfile, a modelo Lyris (Jessica Cores), única personagem negra da novela, foi assassinada a facadas pelo ex-noivo, Edgard (Pedro Gabriel Tonini). na porta do local do evento, o Museu Afro Brasil — numa “coincidência” cruel e cínica que só me dei conta quando comecei a escrever esse texto.

Lá pelo meio da novela, para esconder do noivo que tinha feito book rosa com Alex, Lyris inventou que ele a teria estuprado. Edgard tenta matar Alex mas é espancado pelos seguranças do empresário. No hospital, Lyris desmente o estupro e confessa que tinha se prostituído. O noivo termina o relacionamento. Esse fato acabou servindo para precipitar uma série de acontecimentos importantes para o andamento da novela. Porém, para o autor, parece que Lyris ainda não tinha sido condenada o suficiente. Depois de tê-la “perdoado”, Edgard esperava por Lyris na porta do Museu e ao vê-la sendo abordada por um desconhecido, supôs que ela continuava se prostituindo e se aproximou com uma faca, atingindo-a várias vezes no abdômen. Horas depois, Lyris não resiste aos ferimentos e morre no hospital.

Lyris acaba sendo mais uma personagem feminina num enredo de novela que morre por razões fúteis. Que ela seja a única personagem negra, acrescenta racismo ao caldo da misoginia. O autor poderia ter usado sua morte para denunciar e derrubar o esquema de prostituição na trama, mas nada disso foi feito, a alegacão final foi que o noivo era violento e ciumento, sendo que não havia nem contexto de relação abusiva. A função narrativa dessa morte foi apenas para lembrar as mulheres que uma de nós sempre pagará pelos “erros” das outras e na, maioria das vezes, será a mulher mais oprimida socialmente. Por que Lyris teve que morrer daquela maneira se, ao contrário do esperado, seu assassinato não foi nem usado para desmascarar Fanny (Marieta Severo)? Para mostrar o que pode acontecer com mulheres comprometidas que se deitam com outros homens, especialmente por dinheiro? Para ser mais um caso de “crime passional”?

Não me parece um detalhe banal que a modelo “punida” com a morte por causa do book rosa tenha sido justamente a única personagem negra da história — outros atores negros aparecem apenas como figurantes nas cenas da Cracolândia. E nem que tenha sido ela a escolhida para concretizar um dos folclores mais usados quando se quer desqualificar uma acusação de violência sexual: ela realmente inventou um estupro numa transa consentida. Em outra novela do autor, Amor à Vida (2013), Inaiá (Raquel Vilar) vivia uma enfermeira apresentada como promíscua que descobriu ter o vírus HIV. A personagem era a única negra que aparecia desde o começo da trama. O autor a “puniu” por sua diversidade de parceiros. O que me faz pensar o quão as histórias de Walcyr Carrasco são misóginas e racistas.

Em apenas um capítulo, tivemos duas personagens femininas “punidas” de forma bárbara por suas transgressões, com atos que caracterizam muito a violência contra as mulheres: violência sexual e violência doméstica. E, com as quais costumamos ser bastante culpabilizadas: estupro (ela provocou) e assassinato (ela mereceu). Porém, também tivemos violências mais leves, embora simbolicamente agressivas.

Mulheres presas a estereótipos machistas, racistas e moralistas

Houve o episódio do aborto de Pia (Guilhermina Guinle), com muita culpa, julgamento moral e a prisão do médico que tinha feito o procedimento. Pra completar, a personagem foi apontada por todos como o símbolo da mãe relapsa, que não percebeu que o filho estava se drogando. Ela mesma assume esse papel, culminando com um discurso “a la madre Teresa” no final. E o “personal”, que desde o começo pretendia engravidá-la pra dar o golpe do baú, posando de bom moço.

Fanny foi dopada pelo amante para perder seu grande momento de conquista na carreira, o desfile final. Ao ser abandonada por Anthony (Reinaldo Gianechinni) se ajoelha e implora para ele ficar. Depois, precisa de outro boy pra levantar a autoestima. Nesse momento, vira para o telespectador e diz: – Serve. Uma cena que foi celebrada nas redes sociais, mas que é frustrante quando pensamos em sua altivez. Sua agência atingiu o topo entre as concorrentes depois do desfile, mas realização mesmo só com um homem do lado.

Finalmente, olhemos para os finais das duas mulheres principais da novela: Carolina e Angel. Ao descobrir o caso da filha com o marido, Carolina se mata, pagando com a vida a pena pela própria ingenuidade. Aliás, sua morte foi também a punição de Angel, já que depositou sobre a moça a culpa por tudo o que tinha acontecido. Além disso, Angel precisou perder a mãe de maneira tão trágica para enxergar o ciclo de abuso que vivia e se libertar de Alex, matando-o. Para coroar, ela se casa com Guilherme (Gabriel Leone) no final, pois sua busca por felicidade precisa começar com um marido, mesmo que ela tenha apenas 17 anos de idade.

E, aí, me pergunto: de que adianta a estética moderna, se o antigo continua no enredo? Aliás, é mesmo tão inovadora assim uma novela pretensamente criativa na linguagem, mas que mantém a mesma lógica machista, racista e moralista das tramas mais tradicionais?

Eu, noveleira que sou, gosto de boas tramas, boa técnica, bom elenco. Posso lidar com lugares-comuns, desde que inseridos num enredo interessante, e consigo entender as limitações de certas obras. Mas, me sinto bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituicao e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

+ Sobre o assunto:

[+] Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira. Por Iara Avila no Biscate Social Club.

[+] A verdade secreta é que a família brasileira não liga para abuso. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista.

Sobre o corpo e a dicotomia entre subjetivo e material

Texto de Éris Grimm.

Vamos falar sobre essa dicotomia que algumas pessoas insistem em manter:

(1) subjetividade, amigues, não é uma alminha desencarnada que paira como se fosse nossa sombra, só para ser objeto de juízo: “você vai pro céu / você vai pro inferno / você reencarna / etc”. Subjetividade é algo que existe no corpo. Se expressa pelo corpo. É algo que afeta o corpo, que muda o corpo. Sendo mais radical: subjetividade É corpo. Portanto, subjetividade é Material.

E corpo, amigues, é um objeto de interesse por parte de TUDO o que constitui as tramas econômicas da nossa sociedade capitalística. Porque é através do corpo que as pessoas trabalham nas fábricas, escritórios, lojas, etc. É através do corpo que as pessoas realizam trabalhos domésticos (limpeza, comida, cuidados, etc.). É através do corpo que as pessoas se reproduzem (e por conseguinte reproduzem mais corpos pras engrenagens do capital). É através do corpo que as pessoas formam unidades domésticas e instituições (tais como a família) encarregadas de educar/preparar outros corpos para serem socialmente úteis.

Foto de galaxies and hurricanes no Flickr em CC. alguns direitos reservados.
Foto de galaxies and hurricanes no Flickr em CC. alguns direitos reservados.

Se a gente entender que corpo e subjetividade são duas coisas intimamente ligadas
tudo o que afeta a subjetividade afeta o corpo, afetando assim fluxos de trabalho e consumo, tornando-se assim parte dos cálculos que estruturam a sociedade que nós vivemos.

(2) Você talvez seja bitoladamente incapaz de entender isso. Mas, a despeito do que você queira pensar, essa ligação entre subjetividade e economia é algo que praticamente todos os administradores de grandes empresas já entenderam. E fazem uso disso. É algo que todas grandes articulações políticas já entenderam. E fazem uso disso.

Não é à toa. Existe uma diversidade de sistemas midiáticos que investem PESADAMENTE (muita grana) veiculando imagens que atuam no nosso imaginário, nos nossos sentimentos de insegurança/bem-estar. Bem como, para além da mídia temos também aparelhos pedagógicos (escolas, igrejas, redes familiares) que trabalham constantemente a forma como nos comportamos, como sentimos, como nos afetamos.

Para dar só alguns exemplos: se existem imagens que bombardeiam constantemente as mulheres para que sintam-se mal com seus corpos, para que sintam desprezo pela gordura, para que aprendam que magreza é bonito (instituindo um contexto generalizado de gordofobia), isso se dá porque existem MUITOS interesses econômicos (da indústria médica, da indústria farmacêutica, dos profissionais de saúde) em lucrar com a gordofobia.

Que pessoas trans sintam-se constantemente humilhadas, inseguras… é uma questão subjetiva, sim. Mas há também um interesse farmacêutico, médico e das indústrias na fabricação desse medo e terrorismo em nossos corpos para nos venderem tratamentos, terapias, cosméticos, etc. que prometem corrigir todos os corpos que desviam do padrão prometido.

O medo constante que pessoas não-homens sentem em transitar pelos espaços públicos não nos afeta apenas emocionalmente — afeta também a transitabilidade dos nossos corpos pelo espaço, coisa que interfere diretamente nas nossas possibilidades econômicas.

A possibilidade constante de pessoas trans — bem como das pessoas bissexuais, lésbicas, gays — serem rechaçadas por suas famílias, não é apenas um “drama privado e individual”, mas afeta diretamente redes de apoio social e financeiro, forçando muitas dessas pessoas a situações de precariedade e subemprego.

Os efeitos “subjetivos” da transfobia, bifobia, da gordofobia (pra citar só alguns sistemas de opressão que costumam ser tomados como “meramente individuais”) não são simplesmente “dramas individuais”. São efeitos estruturantes de todo um sistema social/econômico no qual vivemos.

Lutar contra esse sistema implica lutar contra essas opressões. E lutar contra essas opressões implica construir mecanismos de resistência TAMBÉM contra os efeitos subjetivos dessas opressões. Que passa por construirmos outras formas de nos subjetivarmos, buscando modos de empoderamento que transgridam aqueles já cooptados pelas redes de trabalho e consumo do capital. Isso não é liberalismo. É luta anticapitalista mesmo, levada às últimas conseqüências. É luta antipatriarcal, também levada às últimas conseqüências.

O que algumas pessoas fazem, ao dizer que certas questões são “meramente subjetivas” frente a outras que seriam “verdadeiramente materiais” é criar uma hierarquia de opressões apagando a vivência de boa parte dos corpos que são oprimidas pelo patriarcado e pelo capital. Esse apagamento de vivências NÃO é anticapitalismo. Nem antipatriarcal. Não possui nada de transformador, nada de radical.

Resistência anticapitalista e antipatriarcal se fazem construindo apoio e potência TAMBÉM aos afetos e aos modos de subjetivação que possibilitem fugir e desviar daquilo que é lucrativo a quem está no controle. “O pessoal é político”.

Autora

Éris Grimm é graduada em Gêmeos, com mestrado em Aquário, doutoranda em Peixes, pelo Programa de Sobrevivência ao Saturno em Escorpião. Lésbixa trrransmutante, pornoterrorista em potencial. Aprendiz de dançarina e massoterapia na escola da auto-gestão. Esse texto foi originalmente publicado em seu perfil no Facebook no dia 05/06/2015.

Seria o machismo o patrimônio da Universidade Federal do Paraná?

Texto de Mariana Bonadio para as Blogueiras Feministas.

A Universidade Federal do Paraná, neste maio de 2015, evidencia-­se como mais uma instituição universitária em que ainda predomina a violência de gênero contra a mulher e onde o machismo se apresenta de forma institucionalizada.

Demonstrações de tal ordem vem se estendendo desde o ano passado em diversas instituições universitárias: ofensas transfóbicas nos banheiros da UNICAMP; professor de Direito da PUCRS — que em meio a uma série de comentários misóginos tornados comuns em sala de aula — discursa que “as leis são como as mulheres, foram feitas para serem violadas”; a omissão da USP para coibir os abusos em trotes e festas universitárias do curso de medicina e sua participação no silenciamento das estudantes vítimas de estupro que denunciaram seus agressores; entre outros tantos casos denunciados.

Em realidade, evidências do machismo presente na UFPR não são novidade. Por exemplo, em 2012, o centro acadêmico do curso de Direito (na época comandado pelo Partido Democrático Universitário) distribuiu um manual de sobrevivência aos calouros ensinando como se dar bem na vida sexual utilizando artigos da legislação brasileira. Um manual de apologia ao estupro sem grande reação por parte da universidade em resposta, mesmo após manifestação de repúdio promovido pelo Grupo de Gênero de Direito. Isso, sem consideramos o cotidiano misógino e LGBTfóbico que predomina no ambiente acadêmico. Mas, a mais recente violência estampada revela a perversa associação do sexismo à lesbofobia, e uma das faces cruéis da violência de gênero: a ameaça de estupro as mulheres lésbicas em um cartaz encontrado no espaço do curso de Arquitetura e Urbanismo em que se lê: “suas sapatas filhas da puta vou estourar suas bucetas e encher seus cus de porra”. Assim como a adição de escritos pejorativos à sexualidade das estudantes em cartazes expostos neste espaço, que eram resultados de uma intervenção feminista realizada no campus Centro Politécnico.

Marcha das Vadias de Curitiba/PR em 2014. Foto de Foto: Giselle Durigan/Arquivo pessoal.
Marcha das Vadias de Curitiba/PR em 2014. Foto de Foto: Giselle Durigan/Arquivo pessoal.

Esse discurso de ódio é a exteriorização da cultura do estupro usada como arma para silenciar mulheres em processo de luta por representatividade dentro da universidade, alimentada pela omissão (pelo menos até o momento) da própria instituição. Para além da banalização do estupro, essa violência é dupla. À frase perturbadora do cartaz, soma­-se à explícita apologia a agressão sexual e física, o ódio latente ao “atrevimento” das mulheres, aos olhos dos agressores, em negar o valor superior da masculinidade na sociedade. Um ódio movido pelo senso distorcido de inferioridade e subjugação do feminino e de uma relação de controle e dominação da sexualidade das mulheres, típica da cultura patriarcal. Demonstra que vivemos em uma cultura pouco tolerante às expressões de gênero e às diversidades sexuais. Mais, que as intolerâncias quanto a luta feminista adquirem perversidade agravada contra lésbicas e bissexuais, cujas vivências e violências são ainda mais invisibilizadas.

O ato ocorrido na UFPR é sintomático da ordem simbólica das feminilidades e masculinidades construídas socialmente em uma matriz binária, heteronormativa, sexista e cisgênera. A partir das construções de diferenciação de gênero em domínios de desigual valoração — (re)produzidas nas instituições, na cultura e na linguagem, nos meios de comunicação, etc. — ­percebemos a subjugação do feminino pelo masculino como traço constitutivo da organização social no Brasil, e da marginalização das pessoas que não se adequam a essa binaridade e cis/heteronormatividade das (re)produções de gênero. Essa dominância institucionalizada viabiliza as tentativas de regulação e limitação da conduta das mulheres ­ tentativas em formas de ameaça de domesticá-­las e controlá­las, como vemos neste ato. Se essas tentativas são silenciadas, como aparentemente tem ocorrido na instituição em pauta, legitima­-se a exclusão simbólica e social das mulheres e de grupos minoritários enquanto sujeitos políticos.

Não surpreendentemente, o posicionamento da reitoria da UFPR foi o de afirmar­-se contrária a toda forma de intolerância e agressividade e, de forma neutra, que “após apuração do caso, todas as medidas cabíveis em coerência a esta posição serão adotadas”. Basta dizer que essa resposta não emitia nenhuma referência explícita ao conteúdo do ocorrido, mas se ateve em assegurar a posição de respeito da instituição à diversidade. Quase como se escrita pela mesma pessoa, assim também posicionaram-­se USP, UNICAMP e outras tantas quanto às suas situações particulares. O que essas instituições parecem ignorar é que apresentarem­-se desfavoravelmente a ações de apologia à crimes e discriminações diversas, sem envidar esforços de superação à cultura sexista e misógina que predomina em seus corredores, é apenas uma forma de eximirem-­se de suas responsabilidades e recusarem­-se a assumir sua conivência.

Porém, neste caso concreto, talvez surpreendentemente, o posicionamento oficial do departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Setor de Tecnologia­ e a reação de professores e de outros centros acadêmicos do referido setor­ foi o caminho inverso: o de reprimir a manifestação contrária ao cartaz misógino, lesbofóbico e de apologia ao estupro. Uma oficina de estêncil foi promovida e o dizer: “Machistas não passarão”, pintado em algumas paredes do campus. A acusação ao grupo que realizou a intervenção foi de “vandalismo” e de depredação do patrimônio, numa tentativa de deslegitimar a manifestação.

Infelizmente, essa reação também é sintomática do machismo institucionalizado na UFPR, ao dar maior peso de repúdio à ação feminista do que ao cartaz machista, sob a ameaça de efetuar um processo administrativo contra as alunas e alunos que participaram da ação. O que aparentemente os representantes do departamento e do setor desatendem é que o estêncil não é apenas uma pichação, mas uma ação política que busca garantir dentro do espaço da universidade o exercício de direitos plenos e iguais a todos os seus usuários e forçar um questionamento e mudança na cultura institucional, ­o que deveria ser responsabilidade da própria instituição. A menor delas: oferecer segurança e integridade às mulheres e grupos minoritários no uso de seu espaço.

Como ato político, a “pichação” reivindica lugares de fala e de representatividade que são limitados para as mulheres e grupos minoritários dentro da universidade. Desta forma, se mostra fundamental como fortalecimento de sujeitos políticos com poder de ação para a transformação das realidades de exclusão e dominação que vivenciam, possibilitando o rompimento com o essencialismo implícito na subordinação da mulher e na marginalização do ‘outro’.  É uma forma de resistência em contraposição aos ideais conservadores e machistas que se apresentam no cotidiano acadêmico.

Se estratégica fosse, a UFPR aproveitaria a oportunidade para utilizar ambos os episódios de forma propositiva e pedagógica, para estimular o debate quanto aos marcadores sociais que produzem diferenças e desigualdades no interior da academia. Deveria problematizar a questão da violência de gênero para, enfim, enfrentá-la. O silenciamento quanto ao machismo sistêmico da instituição e a insistência na repressão do posicionamento de luta por um local de fala legítimo constituem uma resistência injustificada em um contexto de construção de discursos para o desmonte de relações desiguais.

Ao menos a direção do Setor de Ciências Jurídicas e o Laboratório de Investigação em Corpo, Gênero e Subjetividade na Educação se propuseram a organizar uma mesa redonda (a ser realizada no dia 16/06/2015) para debater o enfrentamento da violência de gênero na universidade. Aparentemente sem grandes diálogos entre os setores envolvidos no ocorrido, e não sendo uma resposta oficial da reitoria, mas ainda assim um passo mais que necessário para abrir o debate na UFPR.

A pergunta que a Universidade Federal do Paraná deverá ainda responder é: qual o “patrimônio” que deseja preservar? Alguns pares de paredes pintadas ou o machismo? A resposta contra o machismo institucionalizado irá definir se esta pretende servir como ferramenta legitimadora das opressões de gênero ou como espaço para a transformação social. Irá determinar se é um “ambiente pluralista, onde o debate público é instrumento da convivência democrática”, e se sua missão é efetivamente “contribuir para a formação do cidadão e o desenvolvimento humano sustentável”. Ou não.

Aguardamos. Mas enquanto aguardamos, Machistas não passarão!

Autora

Mariana Bonadio é feminista, mestre em desenvolvimento territorial sustentável, com uma atuação orientada pelo campo feminista interseccional.

+ Sobre o assunto: Nota de solidariedade às mulheres da UFPR do Coletivo Quebrando Muros.