Beatles e o machismo

Primeiramente, eu gosto de Beatles. Não tô aqui para falar da genialidade de suas músicas, mas sim das assustadoras. Uma vez dentro do feminismo, fica impossível deixar passar uma música, um filme, uma piada por ser somente isso. Claro que, cada coisa tem seu contexto, seu significado e não apenas preconceito implícito ou o que for.

The Beatles em 1965. Com ligeiras modificações 😉

Então, esses dias estava eu cantarolando um álbum dos Beatles, o Rubber Soul e me deparei com a música “Run For Your Life“. Não, nada de “I wanna hold your hand” ou “Close your eyes and I’ll kiss you“, mas sim machismo e misoginia. Depois disso parei de cantarolar, comecei a ouvir mesmo e a prestar atenção. Eis algumas:

Run For Your Life. É toda assustadora, o John Lennon dizia que não gostava da música. Segue a letra:

Well I’d rather see you dead, little girl,
Than to be with another man.
You better keep your head, little girl,
Or I won’t know where I am.

You better run for your life if you can, little girl;
Hide your head in the sand little girl;
Catch you with another man
That’s the end, little girl.

Well, you know that I’m a wicked guy
And I was born with a jealous mind
And I can’t spend my whole life
Trying just to make you toe the line.

Let this be a sermon,
I mean everything I’ve said.
Baby, I’m determined
And I’d rather see you dead

(tradução)

A Hard’s Day Night. Uma clássica, mas que infelizmente não está datada, pois muitos pensam assim. Homem trabalha, mulher fica em casa e ganha tudo do marido que não pode nem descansar direito, pobrezinho.

You know I work all day / To get your money to buy your things / And it’s worth it just to hear you say / You’re gonna give me everything. (…) When I’m home/ Everything seems to be right
When I’m home / Feeling you holding me tight

(você sabe que trabalho o dia todo, para te dar dinheiro para comprar suas coisas. E vale a pena só para te ouvir dizer, que você vai me dar tudo. Quando estou em casa, tudo parece estar bem, sentido que você me abraça forte)

You Can’t Do That. Essa música vem em tom de ameaça sobre o que uma garota não pode fazer num relacionamento. (Talvez ela tenha cansado de ficar em casa.)

I got something to say that might cause you pain
If I catch you talking to that boy again
I’m gonna let you down
And leave you flat
Because I told you before
Oh, you can’t do that

Well, Its the second time
I’ve caught you talking to him
Do I have to tell you one more time I think its a sin
I think I’ll let you down (let you down)
And leave you flat (gonna let you down and leave you flat)
Because I told you before
Oh, you can’t do that

Everybody’s green
Cause I’m the one who won your love
But if they’d seen
You talking that way
They’d laugh in my face.

So please listen to me if you want to stay mine
I can’t help my feelings i’ll go out of my mind
I’m gonna let you down (let you down)
And leave you flat (gonna let you down and leave you flat)
Because I told you before
Oh, you can’t do that

(tradução)

I’ll Cry Instead. Quase tão assustadora quanto “Run For Your Life”. Fala sobre término e vingança (talvez porque a garota percebeu a psicopatia, né? Got a ticket to ride and she don’t care)

If I could see you now / I’d try to make you sad somehow / But I can’t, so I’ll cry instead
Don’t wanna cry when there’s people there / I get shy when they start to stare
I’m gonna hide myself away / But I’ll come back again someday/ And when I do you better hide all the girls / I’m gonna break their hearts all round the world/ Yes, I’m gonna break ‘em in two
And show you what your lovin’ man can do.

(tradução e letra completa)

Getting Better. Sobre um homem que está mudando pra melhor. Pois é, depois de tanto comportamento duvidoso, é bom ouvir sobre arrependimento 🙂

I used to be cruel to my woman / I beat her and kept her apart from the things that she loved/ Man I was mean but I’m changing my scene/ And I’m doing the best that I can

(costumava ser cruel com minha mulher, batia nela e mantia ela longe das coisas que amava. Cara, eu era malvado mas estou mudando. E estou fazendo o melhor eu posso)

É fácil ouvir, sei lá, Raimundos ou Velhas Virgens e reconhecer a pura poesia de “abre essas pernas pra mim, baby”, mas quando se trata de músicas num ritmo cativante, em outro idioma e das bandas que você gosta, as letras às vezes passam despercebidas. E então, o que fazer? Boicotar? Parar de ouvir? É radicalismo ou não?
Bom, pra mim é sempre bom perceber esse outro lado das bandas que admiro, pois acho que tendo a criar uma espécie de aura de perfeição, mas aí, com um pouco mais de atenção – bum! – vem o senso crítico e mostra o que está além. E pra vocês, como é?

O estupro nosso de cada dia

Texto de Ana Rita Dutra.

Algum dias atrás recebemos a noticia do estupro de uma mulher, pastora de uma igreja evangélica. Isso mesmo, a líder religiosa de uma determinada comunidade foi estuprada por um dos membros de sua congregação. Fato lastimável, inaceitável, absurdo.

Talvez você possa estar pensando: “Bom, pelo menos ela tem os membros fiéis, cristãos de sua comunidade para lhe apoiar…”  A referida pastora foi AFASTADA de sua congregação por CONDUTA IMORAL, pois segundo as lideranças da igreja, se ela foi estuprada e agredida é porque ela não gritou e se defendeu o suficiente.

O que comentar? Espero que no minimo estas pessoas sejam processadas judicialmente, pois é INADMISSÍVEL este tipo de comentário sobre uma mulher vítima de estupro. A acusação de conduta imoral foi divulgada em toda a igreja, a pastora agredida foi humilhada perante sua congregação. Espero que agressor e congregação — tambem agressora — sejam exemplarmente punidos e que a Pastora tenha forças para seguir em frente, apesar de tamanha violência que sofreu.

Culpar mulheres por estupros, duvidar de sua palavra, alegar que a mesma pode ter seduzido o estuprador, infelizmente, é rotina no Brasil. Existe um senso comum de que nós mulheres somos dotadas de pecado e sedução, assim temos o poder de despertar a “besta” que há dentro de cada homem. “Ele não se controlou”; “Ele estava bêbado”; “Ela estava provocando”; converse sobre casos de violência sexual na sua familia, na sua vizinhança e certamente ouvirá estas frases.

Outra idéia comum é de que existem mulheres estupráveis. Em alguns casos o  estupro é encarado como cortesia, quem sabe um bem para a mulher, ele pode gerar bons frutos. No Orkut, popular site de relacionamentos da internet, temos uma comunidade que faz apologia a penetração corretiva, uma “bem intencionada” ação para que mulheres deixem de ser lésbicas.

Se uma mulher é “solteirona” e considerada feia, o estupro dela toma uma forma de favor, “quem sabe ela até gostou”, é uma frase chavão que aparece nesses casos. Aqui entram também as piadinhas sobre a violência sexual e mulheres fora do dito “padrão de beleza”.

Uma outra questão ainda nesse tema: nada mais estuprável que uma prostituta. Você acha que as prostitutas denunciam as agressões que sofrem durante a realização de programas, ou mesmo quando estão andando pelas ruas? Muitas não denunciam. E, no caso das que conseguem denunciar, você acha que as autoridades dão ouvidos? Não, não dão. A prostituta é estuprável.

O Coletivo Feminino Plural, entidade feminista da qual sou assistente, desenvolveu um documentário chamado ‘Canto de Cicatriz’ falando sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes, onde dentro da proposta de trabalho, foram coletados depoimentos não somente de vitimas de violência sexual, mas também de pessoas nas ruas sobre o assunto.

[vimeo=http://vimeo.com/27586763]

 

Ao falar sobre violência contra meninas adolescentes, boa parte dos entrevistados levantou a questão da menina que “provoca” o homem: elas usam roupas curtas, elas estão pedindo, elas estão cada vez mais assanhadas. Quão cruel é imputar à vítima a culpa sobre a violência extrema que sofreu. NADA justifica ou minimiza um estupro. Independente da situação da mulher, ela é vitima de uma agressão. Questões circunstanciais não podem servir para amenizar a pena ou culpa do agressor. De forma alguma um homem será menos culpado por causa da vestimenta da vitima, do horário em que ela andava na rua. Não há nada que lhe dê direito a violentá-la.

Na comunidade ‘Feminismo e Libertação’ do Orkut, uma companheira usou o seguinte termo uma vez: “o direito inalienável da foda masculina”. E é isso que vemos, o homem naturalmente tem o direito de “cobrir” todas as fêmeas, ele é o senhor do mundo e pode tudo.

A pornografia esta aí, cada vez mais violenta, criminosa, incentivando a violência contra a mulher, alimentando o fetiche sobre o estupro e o quanto nós gostamos da mistura de sexo e violência. Digitando “novinha sendo estuprada” no google você terá mais de 500 mil referências. E isso alimenta nossa sociedade, alimenta nossos filhos, irmãos, pais, amigos, maridos e colegas. Isso é cruel.

A cada 2 minutos, 5 mulheres sofrem algum tipo de violência no Brasil. Mas podemos ignorar tudo isso, podemos simplesmente continuar culpabilizando aquela que historicamente é tida como serva do demônio, porta do pecado, ardilosa.

No tempo do Brasil colônia, mulheres eram trancafiadas em casa por suspeita de conduta imoral, a Igreja tecia novenas e rezas para controlar os instintos satânicos das mulheres que seduziam os homens. Na Idade Média Européia fomos chamadas a tribunais, fomos mortas por acusações de atos libidinosos incentivados pelo demônio, por compactuarmos com satanás. Hoje, nas igrejas, somos chamadas e excluídas da congregação por conduta imoral, ao sermos violentadas..

Parece que o tempo parou… Ou será que fomos nós?

Violência contra a mulher: o que você tem a ver com isso?

Texto de Maíra Avelar.

Esta semana estou completamente transtornada com relatos de violência psicológica que uma conhecida anda sofrendo, sendo agredida por um ex-namorado misógino que tive. Você deve estar pensando aí com seus botões: “E o quico?”

Fui vítima de violência psicológica por parte desse sujeito durante meses. Consegui ser amparada pela lei porque ele escorregou feio e tentou me atingir com uma garrafa quebrada. Embora, ele jure por Deus que tentou atingir o meu pai. Agora você deve estar pensando aí: “E o quico? Você que não soube escolher seu namorado” .

Apesar de ter feito boletim de ocorrência, prestado queixa e ter medidas protetivas, meu ex-namorado agressor não foi até a delegacia depor. Agora você deve estar pensando: “E o quico? A polícia foi negligente e é culpa do Estado”. Numa versão mais otimista você talvez diga: “Nossa, que horrível! Mas não vejo o que posso fazer para que a sua situação melhore”.

Pois bem, depois que as medidas protetivas chegaram, o sujeito se acalmou. Mas quem disse que eu tinha coragem de ir a determinadas regiões da cidade? Fiquei meses sem frequentar a Savassi em Belo Horizonte, meu ex-lugar predileto de sair, porque poderia me encontrar com o sujeito e começar tudo de novo. Agora, numa versão otimista, você deve estar pensando: “Muito bem, parabéns por ter sido prevenida!” Na versão indiferente, seu pensamento pode ser: “E o quico? Esse é um problema entre você e seu ex. Não tenho culpa dele ser louco”.

No fundo, meu ex-namorado agressor saiu impune da história. Passado um tempo, o que ele está fazendo? Atormentando a vida e a saúde psicológica de outra mulher. Porque de repente ele descobre que, diante do fato de que ele não se conforma que mulheres são donas de seus desejos e podem se sentir no direito de terminar o namoro com ele, e ele simplesmente as ameaça, nada acontece com ele. Fora se sentir mais poderoso e com mais direito de ameaçá-las, embora, ele jure por Deus que seja só insistência, jamais ameaça. Agora, você já deve estar irritado e pensando: “E o quico? Não sou assim e não conheço nenhuma mulher que foi estuprada (e você jura por deus que elas ou alguém comentaria o assunto se uma coisa dessas tivesse acontecido) ou ameaçada por um cara”.

Aí lanço o seguinte dado: a cada dois minutos cinco mulheres são espancadas no Brasil. Por isso, vale a pena você conferir outros dados relativos a violência doméstica por meio da pesquisa: ‘Mulheres brasileiras e gênero nos espaços públicos e privados’.

A grande maioria dos homens (91%) diz considerar que “bater em mulher é errado em qualquer situação”. Embora, apenas 8% digam já ter batido “em uma mulher ou namorada”, um em cada quatro (25%) diz saber de “parente próximo” que já bateu e metade (48%) afirma ter “amigo ou conhecido que bateu ou costuma bater na mulher”. Dos homens que assumiram já ter batido em uma parceira, 14% acreditam que agiram bem e 15% afirmam que o fariam de novo.

Então, platéia, pergunta: entre os 8% dos homens que assumem que cometem violência e os 48% que conhecem homens que batem ou já bateram em mulher, onde estão os 40% que sobraram? Traduzindo em bom português: homens, onde vocês escondem o machismo de vocês?

O problema é que essa pergunta só terá resposta quando quem pergunta “E o quico?” (de maneira mais compassiva ou mais indiferente) começar a se implicar no combate ao machismo e a reconhecer que, em maior ou menor grau, PRATICA E NEGA A PRÁTICA de atitudes machistas.

Como combater o machismo se os próprios homens — que culturalmente costumam ser os principais propagadores dessa prática — negam-na até a morte? Tenho certeza absoluta de que esse meu Ex-namorado não acredita estar ameaçando mulheres, do mesmo jeito que ele nega que tentou me agredir fisicamente e que me agrediu psicologicamente. Ele só se acha um cara insistente. Agora vocês, completamente sem paciência, devem estar pensando: “Ah, mas isso é porque ele é louco”. E eu respondo a vocês: Não, isso é porque ele não reconhece, de maneira extrema, o machismo que pratica. Provavelmente, se ele ler esse texto, ele também perguntará: “E o quico?”.