Epidemia de sífilis, DSTs e o uso da camisinha: questão de confiança nos relacionamentos ou o machismo e outros preconceitos também influenciam?

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Apesar da necessidade da camisinha para prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) ser bastante difundida aqui no Brasil, seu uso têm diminuído por diversos fatores. As alternativas de prevenção em relações sem penetração são pouco debatidas e diversas questões morais — além da falta de observação à questões de raça, classe, orientação sexual — fazem com que determinados grupos fiquem ainda mais vulneráveis ao contágio e suas consequências. Não é a toda que uma doença como a sífilis tenha voltado a se tornar uma epidemia com um número exponencial de contágios no Brasil e no mundo. Mas, boa parte do material de divulgação desses dados se mostra bastante preconceituoso.

Como toda ação que depende de um acordo de todas as partes, muitas decisões com relação a qual método contraceptivo ou de prevenção de DSTs são consequência de relações de poder. O que isso resulta na prática? Que em relações entre homens e mulheres cis, geralmente cabe ao homem decidir pelo uso ou não da camisinha. Mesmo que a pessoa mais vulnerável às consequências negativas dessas doenças sejam as mulheres, já que lesões no canal vaginal e no colo do útero podem demorar a ser diagnosticadas dificultando a cura e até trazendo sequelas irreversíveis como: o HPV que pode levar ao câncer, a clamídia que pode levar a infertilidade e a sífilis que pode levar a malformação de fetos durante a gravidez, além é claro, do vírus HIV que não tem cura e também pode ser passado na gravidez). São os homens que costumam optar por não usar devido ao “desconforto” que seu uso gera durante as relações.

Outro dado que vejo ser ignorado quando se fala da transmissão é a falta de cuidado com a própria saúde e higiene dos homens. Números apontam que homens cis buscam menos a prevenção de doenças, vão menos ao médico e têm menos cuidado com a higiene do pênis, mas qual a consequência disso nas relações sexuais e na disseminação das DSTs? Bem, algumas que poderiam ser diagnosticadas cedo para evitar seu contágio ou potencial agravante para a saúde são simplesmente ignoradas. Isso impacta diretamente no número de contágios e até a reincidência, já que se apenas a mulher vai no médico ela pode tratar da doença e depois ser novamente infectada. Isso influencia até em casos de candidíase de repetição, por exemplo, mesmo que não seja uma DST é uma condição que pode ser sexualmente transmitida e depende do tratamento de ambos.

Existe ainda todo o falocentrismo que leva as pessoas a ignorarem o potencial de transmissão em outras formas de sexo que não envolvem apenas a penetração pênis-vagina. Diversas DSTs, como herpes, HPV e sífilis, podem ser transmitidas facilmente até no beijo se a boca tiver alguma lesão. Fora isso, há possibilidades de contaminação por sexo oral e anal, a transmissão indireta por brinquedos sexuais e, mesmo a masturbação, sem o devido cuidado com as unhas, pode gerar feridas que aumentam o potencial de transmissão de várias DSTs. A falta de atenção à essas informações faz com que as relações da população LGBT sejam apagadas ou envoltas em moralismo e ignorância.

Outro problema se dá na dificuldade do acesso à camisinha, que ainda que tenha preço baixo e uma grande distribuição pelo SUS, enfrenta algumas barreiras: seja por falta em alguns postos de saúde (e a limitação da mobilidade para a chegada nos mesmos), seu alto custo para uso contínuo, a alergia que algumas pessoas têm ao material (a maioria das camisinhas masculinas é feita de látex, no SUS todas são deste material e nas farmácias além de nem sempre existir alternativa seu custo é muito maior) e, mesmo o tabu envolto nas práticas sexuais fazendo com que muitas pessoas não busquem nunca ou de forma menos frequente que o necessário. Lembrando também que camisinha tem prazo de validade, uma camisinha velha ou mal colocada pode rasgar ou estourar.

Nesse sentido, as relações entre mulheres lésbicas e bissexuais são as mais ignoradas pelas campanhas de prevenção, existe pouco material que trate do assunto mesmo dentro das campanhas criadas pelos órgãos ligados à saúde. Os profissionais de saúde também não sabem como orientar propriamente as mulheres nestes casos. Por outro lado, o preconceito dentro e fora da comunidade LGBT faz com que se ignore o potencial de risco de determinadas práticas ou se estigmatize determinados grupos, sendo ainda muito comum o discurso que se associa o sexo entre homens gays à contaminação — por essa comunidade já ter sido a mais afetada pelo HIV, e no caso do Brasil ter voltado recentemente a ser o maior grupo de risco — ou as pessoas bissexuais serem vistas como eternos potenciais propagadores dessas doenças.

Tudo isso faz com que na maioria das vezes o único foco das ações de saúde pública voltadas para população LGBT seja o uso da camisinha. Com isso, não se abarcam as outras formas de transmissão de DSTs, além de ignorar as diversas pautas relacionadas a saúde física e mental dessa população. Outro problema é que poucos números (seja de saúde pública, comportamento ou para qualquer outro fim) são registrados sobre a população LGBT levando em conta seu gênero e orientação, o que dificulta a criação de políticas públicas ou mesmo a ação de organizações não governamentais para a prevenção. Muitos dados ainda trazem um viés de coleta e análise moralista e preconceito, o que nos deixa quase às cegas ao fazer campanhas de prevenção.

Daí, ainda vem toda a mística envolvida no compromisso com a exclusividade nas relações e a moralidade envolta na prática do sexo casual. No primeiro caso, muitas mulheres cedem à vontade dos companheiros (e até em relações não heterossexuais acaba prevalecendo uma lógica heternonormativa que gera consequências parecidas) para demonstrar que acreditam e confiam em sua fidelidade. Isso obviamente leva ao descobrimento tardio dessas doenças, porque a maioria não faz exames frequentes ou muitas vezes nenhum exame para verificar a possibilidade de algum dos dois ter adquirido algumas dessas doenças previamente, até em outros meios que não a relação sexual. Vale lembrar que DSTs também podem ser transmitidas por transfusão de sangue infectado, objetos mal higienizados, compartilhamento de seringas no uso de drogas, etc.

Isso também influencia na falta de orientação para aqueles que levam outros arranjos de relacionamento que não o monogâmico. Não existe nenhum protocolo para orientação de prevenção e tratamento de DSTs nesse caso. Um exemplo básico é quando o tratamento de alguma doença ou condição envolve a prática ou tratamento de pessoas com as quais você se relaciona. O protocolo é tratar a pessoa sozinha ou ela e o parceiro ou parceira fixos. O que a medicina entende como parceiro fixo é um mistério e nenhum profissional, bula ou material que eu já tenha visto ou esbarrado trouxe nenhuma orientação para o caso de existir mais de duas pessoas envolvidas numa possível transmissão.

No caso do sexo casual, ainda que atualmente sua prática não seja vista de forma tão negativa quanto era alguns anos atrás, ainda existe toda uma preocupação sobre a tal fama da pessoa ser reconhecida como “promíscua”. Pessoalmente, já vi casos absurdos de mulheres não quererem comprar ou andar com camisinha para não serem reconhecidas como “galinhas”, reportagens que culpam aplicativos de relacionamento pelo aumento na transmissão de algumas doenças entre homens gays e bissexuais, textos que recomendam o celibato para diminuir chances de transmissão de doenças e diversas pessoas que se recusam a fazer exames de sangue porque isso poderia “pegar mal”. O que leva inclusive a muitas delas usarem a doação de sangue como desculpa para serem examinadas.

Aliás, as orientações da própria Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre descarte e recusa da doação de “grupos de risco” ilustra muito bem como determinadas condutas e a orientação sexual são vistas na sociedade. Sexo entre homens e a prática sexual com mais de dois parceiros em um ano são vistos como potencial perigoso, enquanto sexo sem camisinha e falta de exames frequentes não é. Esse exemplo ilustra muito bem como as orientações de prevenção de DSTs são falhas. Também mostra como profissionais da área da saúde, e aqueles com poder que tomam as decisões sobre esse tipo de orientação, preferem fechar os olhos para a realidade e enxergar a prática sexual com uma lente moralista.

É fácil ver que o problema não está na prática sexual em si, mas na falta de debate, dinâmicas de poder e abuso nas relações, falta de cuidado com a saúde e principalmente preocupação e cuidado com os parceiros. Todos esses fatores impactam a saúde geral da população de diversas formas, mas em especial a população pobre, negra, indígena e LGBT — estando a população T mais vulnerável às consequências mais devastadoras — que possuem maior dificuldade ao acesso de informações e ferramentas para prevenção.

Imagem: Fevereiro de 2017. Campanha de Carnaval em Santa Catarina. Foto de Paola Fajonni/G1.

A ‘Lei do Amor’ não vale para as mulheres

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas. Atualização sobre o ator José Mayer no fim do texto.

Em 2014, escrevi sobre a novela ‘Amor a Vida’. Achava que ali seria o máximo de misoginia que veria numa novela do século XXI. Afinal, os tempos mudaram, não é mesmo? A violência contra a mulher é assunto constante na mídia, correto? Porém, veio ‘A Lei do Amor’ e não há mesmo como entender a existência dessa novela que escorre machismo e misoginia por todos os poros.

Pelo título, entende-se que o amor prevalecerá como a grande lei. Até aí, não espero muito. Não espero que novelas saiam do maniqueísmo ou da dicotomia de personagens bons e maus. Fora as constantes cenas de tapas e acertos de contas baseados em violência, o que me incomoda é como as mulheres são constantemente humilhadas, violentadas, escorraçadas e muitas vezes mortas; enquanto os homens, bons ou maus, com erros ou acertos, sempre encontram um caminho para redenção.

Até mesmo o mocinho da novela, Pedro (Reynaldo Gianechinni), que sempre pareceu tão correto acaba ficando com uma ex-namorada enquanto mantinha um compromisso monogâmico com Helô (Claudia Abreu). E a cena revive o mesmo drama da personagem quando eles se separaram 20 anos antes. Porque não basta a mocinha ter sofrido uma grande decepção amorosa no passado, ela vai ter que reviver tudo mais uma vez, além de cometer o mesmo “crime” de esconder dele uma gravidez. Enquanto o mocinho, pôde se levantar e apenas dizer que foi só uma noite entre duas pessoas que se gostam e que ela é uma pessoa muito cruel por esconder mais uma vez uma gravidez dele. A trajetória da mocinha é uma constante repetição, enquanto o mocinho pode até se dar ao luxo de cometer erros sem perder sua coroa de bom moço.

A novela tentou tratar do tema da prostituição de luxo. Três jovens bem nascidas decidiram ser prostitutas apenas por dinheiro, como consequência, deixaram suas famílias arrasadas e foram espancadas pelo vilão Tião Bezerra (José Mayer). Nenhum personagem questionou a profissão de prostituta como sendo algo que coloca a mulher numa situação vulnerável, todos condenaram as mulheres por serem vadias, por quererem vida fácil. Sabemos o quanto estamos longe de garantir segurança, oportunidades e direitos trabalhistas para as prostitutas, especialmente as que não estão no mercado de luxo, mas ver uma novela em 2017 tratar o tema como se fosse uma imoralidade cansa demais.

Inclusive, ‘vadia’ é uma palavra que saia o tempo todo da boca de Fausto Leitão (Tarcisio Meira). Um homem que começa como político inescrupuloso, fazendo negociatas, garantindo a prosperidade de seus negócios através da corrupção, mas que após um grave acidente de carro onde morre a mulher que ama, vira um santo que requer cuidados e que quer justiça, pois a culpada de tudo é sua esposa: Magnólia Leitão (Vera Holtz). Quem vê pensa que ele nunca participou de nada, um ingênuo, sabe?

Porém, o mais assustador nessa novela foi acompanhar as trajetórias de Magnólia (Vera Holtz) e sua filha Vitória (Camila Morgado). Especialmente quando comparadas a seus pares masculinos: Tião Bezerra e Ciro (Thiago Lacerda).

Desde o início, havia a expectativa de que Magnólia seria uma grande vilã. A riqueza, o cabelo platinado, a ironia. Logo descobrimos que era uma mulher impetuosa, vingativa e má. Quando jovem, ela queima o peito do peão Tião Bezerra com o ferro em brasa usado para marcar os tijolos da olaria de seu pai. É claro que imaginava que Mag ia sofrer as consequências disso, até porque ela matou pessoas, mentiu, fez todas as maldades possíveis. O problema é que a partir do momento em que é desmascarada, Mag passa a sofrer inúmeras humilhações até o fim da novela, enquanto seus parceiros de crime, Fausto e Ciro, são perdoados totalmente. Foram manipulados, coitadinhos. Tião, que também mata, violenta e faz todas as maldades possíveis não sofre humilhações públicas, no máximo gritam com ele.

E nesse caso há mais perversidade na misoginia. A grande humilhação de Mag, arquitetada pelos personagens bonzinhos, é expor numa festa um vídeo dela transando com o genro, Ciro. Ninguém sabia que os dois tinham um caso. A mulher é corrupta e assassina, mas como podemos realmente humilhá-la? Expondo sua vida sexual para as pessoas, não é mesmo? Ainda bem que não me lembro de ter ouvido algum personagem questionar a idade de Mag para transar. Ciro saiu quase ileso desse episódio.

Após isso, ela sofrerá inúmeras humilhações sendo obrigada a se casar com Tião Bezerra, um personagem tão inverossímil quanto misógino. Tião era um peão numa olaria que virou banqueiro apenas movido pelo sentimento de vingança que nutria por Magnólia. É o sonho dourado da meritocracia capitalista. A única função de Tião é infernizar a vida das pessoas sem razão. Persegue Helô sem amá-la, espanca todas as prostitutas, mata qualquer um que atravesse seu caminho, mas deixa as pessoas que sabem tudo sobre ele vivas. Em determinado momento da trama descobre-se que ele é pai de Flávia (Maria Flor) e que ela é fruto de um estupro, aí começa uma trama para Flavia ter sua paternidade reconhecida. Sim, esse absurdo mesmo. O sujeito é assassino e estuprador, mas sabe o que vai acontecer com ele no fim da novela? Vai ter um AVC e terminará a novela num quarto de hospital. Mag morrerá, se jogará na frente de um trem para fugir da perseguição de Tião.

Paralelo a tudo isso, há a trama de Vitória. Pobre menina rica que desde jovem frequentava baladas e aparecia constantemente bêbada. Apaixonada pelo professor do cursinho, foi obrigada pela mãe a se afastar dele e casar com Ciro, que nunca a amou e com quem sempre teve uma relação abusiva. Vinte anos depois, quando descobre que está grávida, se separa e retoma o relacionamento com Augusto (Ricardo Tozzi). Parece que tudo vai dar certo. Porém, Vitória descobre que o pai de seu filho não é Ciro, mas sim que ela foi estuprada. Várias vezes as pessoas dizem que ela não deve fazer a menor ideia de quem é o pai da criança, pois vivia bêbada. Vitória entra em depressão, não quer mais saber do bebê e nem do casamento com Augusto. Até que o estuprador aparece na trama, ele é Leonardo (Eriberto Leão), amigo de Augusto que a estuprou num lavabo durante uma festa.

Ao contar para Augusto que Leonardo a violentou, aconteceu o seguinte diálogo: – “Eu sinto te desapontar, mas esse teu amigo não vale nada. Foi ele que me estuprou no lavabo”. – “Você tem certeza de que o Leo é pai do Caio? Desculpe, meu amor, mas você estava embriagada! Até pouco tempo nem se lembrava que tinha sido estuprada”.

Acredite, isso é dito pelo personagem bonzinho que a ama na novela. Para finalizar, Vitória não denuncia Leonardo, mas Augusto bate nele e o manda nunca mais aparecer. Coitada da mulher que não tem um homem para defendê-la nesses casos. Separado de Vitória, Ciro posa de magnânimo por ter “assumido” um filho que não era seu, decide colaborar com a polícia para colocar Mag na cadeia e retoma o relacionamento que viveu há 20 anos com Yara (Emanuelle Araújo). No fim, será condenado a 12 anos de prisão, mas a namorada promete esperá-lo com lágrimas nos olhos. É isso, não importa se o cara passou 20 anos sendo corrupto e comparsa de Magnólia em diversos crimes, no fim ele receberá o que eu desejaria para todos os vilões, um julgamento justo.

Como em todas as vezes que falamos sobre novelas, muita gente vai olhar esse texto e dizer: mas pra que você continua vendo isso? Novela da Globo nunca ensina nada de bom. Por isso, vale lembrar que as novelas da Globo ainda são responsáveis pelas maiores audiências da televisão brasileira, um meio de comunicação que está presente na grande maioria dos lares brasileiros. Influenciam a maneira como as pessoas se vestem e também a maneira como discutem questões sociais. São produto de entretenimento, mas que ainda agregam valor na formação da moralidade brasileira. Portanto, é preciso analisar essa violência explícita e recorrente contra as mulheres nas novelas e como os personagens homens sempre são tratados de forma absurdamente diferente. O recado continua sendo o de que a lei e o amor só devem pertencer aos homens.

Atualização em 31/03/2017: A Folha de São Paulo publicou no blog #AgoraQueSãoElas o relato de Su Tonani, figurinista que trabalhou na Rede Globo e fala sobre o assédio e abuso que sofreu do ator José Mayer durante a novela A Lei do Amor; “José Mayer me assediou”. Todo apoio a Su Tonani!

[+] Machismo, confusão e mais do mesmo: 10 erros difíceis de perdoar em ‘A Lei do Amor’.

Imagem: cenas dos personagens da novela ‘A Lei do Amor’, divulgada pelo jornal Extra.

Moralismo, racismo e misoginia na novela Verdades Secretas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A novela Verdades Secretas terminou semana passada e poderia ficar conhecida como a “novela da família brasileira” segundo o recém aprovado Estatuto da Família. Na trama central, que envolve pessoas ricas e uma agência de modelos, Angel (Camila Queiroz) era uma jovem de 16 anos que ao entrar para a carreira acaba no ramo da prostituição, conhecida como “book rosa”. Além disso, envolve-se com Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho e rico. Em determinado momento da trama, Alex se casa com Carolina (Drica Moraes), mãe de Angel, para continuar seu caso com a garota.

Ao contrário da comoção negativa com os beijos lésbicos de Babilônia, não houve nenhum repúdio ou movimento conservador contra Verdades Secretas. Pelo sucesso que fez, dá vontade de decupar cada cena, mas os textos dos críticos já apontam o quanto essa foi uma novela com embalagem moderna, mas extremamente moralista. Portanto, vou comentar especificamente sobre dois episódios que aconteceram na última semana, envolvendo personagens secundárias, mas que mostram muito da misoginia presente durante toda novela. Atenção, esse texto contem spoilers!

A direita, Larissa (Grazi Massafera). A esquerda, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.
A esquerda, Larissa (Grazi Massafera). A direita, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.

Larissa: a puta que encontra Deus.

Larissa (Grazi Massafera), modelo que começou a perder trabalhos e tornou-se usuária de crack, teve seu ponto de virada ao sofrer um estupro coletivo na Cracolândia. Desesperada, conta o fato ao namorado, Roy (Flávio Tolezani) que, entorpecido, praticamente não esboça reação. Larissa toma consciência de seu desamparo e decide se juntar ao grupo religioso que oferece comida e pregação no local.

Assustada e impressionada com a atuação de Grazi, comecei a me perguntar: qual o sentido daquilo pra narrativa? Por que Larissa precisava ser estuprada várias vezes numa mesma sequência? Pra querer sair da Cracolândia? Ela já não teria motivos suficientes? Se não, vejamos. Algumas cenas antes, a moça tinha recusado e respondido com deboche ao oferecimento de ajuda do personagem Emanoel (Álamo Facó), missionário que a acode depois do estupro. Quando ele lhe oferece a possibilidade de sair de lá, ela ainda o provoca, dizendo que faz coisas que ele nem imagina, como transar com homens para conseguir mais pedra. A puta “agredindo” o homem de Deus.

Não queria entrar no mérito de que essa “cura” vem pela religião, mas não sei se consigo, porque parece que tudo se mistura. Obviamente, onde o Estado não entra, outra instituição ocupa o espaço. E a religião tem desempenhado o seu papel na atenção e acolhimento a usuários de drogas, mesmo com os problemas da terceirização da saúde. Sei também que, embora a novela se passe em São Paulo, onde a Prefeitura tem realizado um trabalho com resultados positivos no controle de danos e recuperação de usuários, seria mesmo bem difícil que isso fosse sequer mencionado.

Mas, tampouco consigo sublimar a cena de Larissa implorando por “salvação”, ajoelhada com os braços estendidos com uma luz por trás, como uma Madalena arrependida pronta pra receber Jesus. O estupro de Larissa foi sua chegada ao fundo do poço, segundo o próprio autor, o que parece sugerir que ela provocou a violência. Afinal, ela “procurou” por aquilo ao usar drogas, viver naquele lugar e conviver com aquelas pessoas, né? Ela “procurou” por aquilo ao concordar em ir a um lugar ermo com um desconhecido atrás da droga. A culpa pelo estupro teria sido dela, portanto. Ela foi em direção ao fundo do poço. Mas, epa! Não deveriam ser os homens que a estupraram quem teriam chegado ao fundo do poço ao cometer uma violência dessas?

E, mais, sendo essa violência o catalizador para que ela procurasse ajuda, o que podemos presumir? Que o estupro foi necessário para que ela se tornasse consciente de sua situação e, portanto, teve impacto positivo em sua vida? Seria exagero ou uma incorreção fazer uma analogia com o “estupro corretivo”, já que essa violência a teria estimulado a buscar “o lado bom da força” e uma vida dentro da norma, com Cristo, sem drogas e, possivelmente, sem prostituição? Lembrando que ela já se prostituía antes, pela agência de modelos onde trabalhava.

Larrisa sempre foi Madalena. A metáfora da violência sexual como possibilidade de remissão de pecados para uma mulher que cobrava por sexo me parece bem explícita. Assim que concorda em acompanhar o missionário, Larissa é levada direto ao culto para fazer sua conversão. Ela tinha acabado de ser estuprada, estava ferida, suja e ensanguentada, e não foi sequer fazer um exame médico e tomar um banho! Não antes do culto. E, depois, essa parte fundamental de atendimento a uma mulher violentada não apareceu. Porque não importava para narrativa. “Limpar sua alma” era a prioridade.

Lyris: a negra punida com a morte pelo book rosa.

Não satisfeito, nesse mesmo capitulo, o autor ainda nos “brindou” com mais uma cena de violência brutal contra outra personagem feminina. Depois de  participar de um grande desfile, a modelo Lyris (Jessica Cores), única personagem negra da novela, foi assassinada a facadas pelo ex-noivo, Edgard (Pedro Gabriel Tonini). na porta do local do evento, o Museu Afro Brasil — numa “coincidência” cruel e cínica que só me dei conta quando comecei a escrever esse texto.

Lá pelo meio da novela, para esconder do noivo que tinha feito book rosa com Alex, Lyris inventou que ele a teria estuprado. Edgard tenta matar Alex mas é espancado pelos seguranças do empresário. No hospital, Lyris desmente o estupro e confessa que tinha se prostituído. O noivo termina o relacionamento. Esse fato acabou servindo para precipitar uma série de acontecimentos importantes para o andamento da novela. Porém, para o autor, parece que Lyris ainda não tinha sido condenada o suficiente. Depois de tê-la “perdoado”, Edgard esperava por Lyris na porta do Museu e ao vê-la sendo abordada por um desconhecido, supôs que ela continuava se prostituindo e se aproximou com uma faca, atingindo-a várias vezes no abdômen. Horas depois, Lyris não resiste aos ferimentos e morre no hospital.

Lyris acaba sendo mais uma personagem feminina num enredo de novela que morre por razões fúteis. Que ela seja a única personagem negra, acrescenta racismo ao caldo da misoginia. O autor poderia ter usado sua morte para denunciar e derrubar o esquema de prostituição na trama, mas nada disso foi feito, a alegacão final foi que o noivo era violento e ciumento, sendo que não havia nem contexto de relação abusiva. A função narrativa dessa morte foi apenas para lembrar as mulheres que uma de nós sempre pagará pelos “erros” das outras e na, maioria das vezes, será a mulher mais oprimida socialmente. Por que Lyris teve que morrer daquela maneira se, ao contrário do esperado, seu assassinato não foi nem usado para desmascarar Fanny (Marieta Severo)? Para mostrar o que pode acontecer com mulheres comprometidas que se deitam com outros homens, especialmente por dinheiro? Para ser mais um caso de “crime passional”?

Não me parece um detalhe banal que a modelo “punida” com a morte por causa do book rosa tenha sido justamente a única personagem negra da história — outros atores negros aparecem apenas como figurantes nas cenas da Cracolândia. E nem que tenha sido ela a escolhida para concretizar um dos folclores mais usados quando se quer desqualificar uma acusação de violência sexual: ela realmente inventou um estupro numa transa consentida. Em outra novela do autor, Amor à Vida (2013), Inaiá (Raquel Vilar) vivia uma enfermeira apresentada como promíscua que descobriu ter o vírus HIV. A personagem era a única negra que aparecia desde o começo da trama. O autor a “puniu” por sua diversidade de parceiros. O que me faz pensar o quão as histórias de Walcyr Carrasco são misóginas e racistas.

Em apenas um capítulo, tivemos duas personagens femininas “punidas” de forma bárbara por suas transgressões, com atos que caracterizam muito a violência contra as mulheres: violência sexual e violência doméstica. E, com as quais costumamos ser bastante culpabilizadas: estupro (ela provocou) e assassinato (ela mereceu). Porém, também tivemos violências mais leves, embora simbolicamente agressivas.

Mulheres presas a estereótipos machistas, racistas e moralistas

Houve o episódio do aborto de Pia (Guilhermina Guinle), com muita culpa, julgamento moral e a prisão do médico que tinha feito o procedimento. Pra completar, a personagem foi apontada por todos como o símbolo da mãe relapsa, que não percebeu que o filho estava se drogando. Ela mesma assume esse papel, culminando com um discurso “a la madre Teresa” no final. E o “personal”, que desde o começo pretendia engravidá-la pra dar o golpe do baú, posando de bom moço.

Fanny foi dopada pelo amante para perder seu grande momento de conquista na carreira, o desfile final. Ao ser abandonada por Anthony (Reinaldo Gianechinni) se ajoelha e implora para ele ficar. Depois, precisa de outro boy pra levantar a autoestima. Nesse momento, vira para o telespectador e diz: – Serve. Uma cena que foi celebrada nas redes sociais, mas que é frustrante quando pensamos em sua altivez. Sua agência atingiu o topo entre as concorrentes depois do desfile, mas realização mesmo só com um homem do lado.

Finalmente, olhemos para os finais das duas mulheres principais da novela: Carolina e Angel. Ao descobrir o caso da filha com o marido, Carolina se mata, pagando com a vida a pena pela própria ingenuidade. Aliás, sua morte foi também a punição de Angel, já que depositou sobre a moça a culpa por tudo o que tinha acontecido. Além disso, Angel precisou perder a mãe de maneira tão trágica para enxergar o ciclo de abuso que vivia e se libertar de Alex, matando-o. Para coroar, ela se casa com Guilherme (Gabriel Leone) no final, pois sua busca por felicidade precisa começar com um marido, mesmo que ela tenha apenas 17 anos de idade.

E, aí, me pergunto: de que adianta a estética moderna, se o antigo continua no enredo? Aliás, é mesmo tão inovadora assim uma novela pretensamente criativa na linguagem, mas que mantém a mesma lógica machista, racista e moralista das tramas mais tradicionais?

Eu, noveleira que sou, gosto de boas tramas, boa técnica, bom elenco. Posso lidar com lugares-comuns, desde que inseridos num enredo interessante, e consigo entender as limitações de certas obras. Mas, me sinto bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituicao e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

+ Sobre o assunto:

[+] Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira. Por Iara Avila no Biscate Social Club.

[+] A verdade secreta é que a família brasileira não liga para abuso. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista.