É possível fazer denúncia e política sem cair na misoginia

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Esses dias saíram na mídia diversas denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro contra o presidente da Câmara Federal, o deputado Eduardo Cunha. Enquanto o caso ganhava repercussão, o nome de sua esposa, a ex-jornalista da Globo Claudia Cruz, passou a ganhar destaque nas manchetes. Com isso, o machismo e a misoginia começaram a aparecer em piadas e textos, especialmente de militantes da esquerda. Porque, como sabemos, não há nada mais parecido com o machismo da direita do que o machismo da esquerda, daqueles que dizem defender as minorias.

Claudia Cruz virou meme porque aparece com os olhos arregalados em várias fotos. Dificilmente veremos Eduardo Cunha sendo questionado sobre as roupas que comprou com dinheiro desviado ou sobre suas expressões faciais em fotos. Mesmo tendo comentários capacitistas que focam no fato de ser estrábico, dificilmente sua aparência será colocada como uma questão principal na crítica.

É proibido criticar Claudia Cruz? Claro que não. Porém, essa crítica precisa ter foco no caso de corrupção e lavagem de dinheiro, não na vida pessoal do casal. Se uma mulher casa por interesse ou não, isso é problema dela. A vida sexual de uma mulher também é problema dela. Porém, o que vemos mais uma vez é o machismo escancarado de grande parte da esquerda que afirma estar apenas “fazendo denúncias” ou agindo em “legítima defesa”, seja lá o que isso significa.

Foto: postagem de Cláudia Cruz em seu perfil pessoal no Instagram.
Foto: postagem de Cláudia Cruz em seu perfil pessoal no Instagram.

Publiquei e vi circulando nas redes sociais críticas fortes e contundentes por parte de companheiras feministas. Especialmente a dois textos escritos por homens em grandes portais de esquerda, cujos títulos são: ‘A figura realmente fascinante do casal Cunha é Claudia’ e ‘Quando uma mulher é cúmplice num processo de corrupção, é machismo denunciá-la?’. O personagem “fascinante” é a mulher dele e não quem comete o crime? Usar o machismo para criticar uma mulher significa denunciá-la por corrupção?

Os textos e comentários sugerem que Claudia Cruz é alpinista social e associam essa sugestão às razões pelas quais ela teria se casado com Eduardo Cunha – supostamente tão desprovido de atrativos que pudessem lhe garantir um relacionamento com uma mulher como ela, bonita e famosa, que somente o dinheiro amealhado de forma desonesta poderia explicar essa união. Precisamos “denunciar” e fazer hipóteses sobre a vida privada dos corruptos e suas famílias para provar que eles não têm ética? Que cometem crimes? Precisamos colocar nosso moralismo a favor do machismo para tornar o caso pior do que já é?

Obviamente, tecer críticas à parceria e cumplicidade da jornalista às falcatruas do marido, cada vez mais evidentes, é até obrigação de quem milita nas redes sociais. Ninguém tem que ser condescendente com criminoso e/ou seu cúmplice em esquemas de corrupção, seja de qual gênero for. No entanto, usar argumentos machistas e moralistas para atacar a jornalista, fazer menção a sua aparência física, usar sua imagem para sugerir consumo de drogas ou publicar ilações sobre sua vida sexual — colocando tudo isso inclusive como motivação para os roubos do marido — não dá! Isso não pode! Porque não se trata disso.

Trata-se, repito, de uma mulher que pode ser cúmplice do marido em práticas de corrupção. O assunto é este. E o foco deve estar nele, que foi eleito e é representante da população na Câmara Federal. Não podemos perder de vista que o agente dessa corrupção é ele, Eduardo Cunha. É ele quem teve cargos públicos e hoje tem imunidade parlamentar. Em que momento isso deixou de ser sobre Cunha e passou a ser sobre Claudia Cruz?

É esse ponto que as mulheres, entre elas muitas feministas, têm criticado. Francamente, não vi nenhuma feminista pedindo leniência com Claudia Cruz por ela ser mulher. Não vi nenhuma feminista dizendo que é machista apontar a corrupção que ela teria perpetrado. É desonesto quem sugere que nossa crítica foi de silenciamento e vitimização de Claudia Cruz. O que vi, sim, foram ataques pessoais a ela e insinuações pingando misoginia que, tenho certeza, não seriam feitas se ela fosse homem. Isso entendi muito bem.

Todas as vezes que machistas, sejam eles de esquerda ou de direita, se valerem de argumentos sexistas e misóginos para sustentar suas argumentações, nós vamos criticar. Estaremos atentas. E vamos falar. Seremos chatas. E esta crítica irá para qualquer um que se valha desse tipo de colocação, seja para atacar a presidenta Dilma Rousseff, a jornalista Claudia Cruz ou qualquer outra mulher.

Acredito que esse episódio só reitera a urgência de se incluir gênero e raça no ativismo político-partidário. Caso contrário, não vamos sair da fala estereotipada, machista (e racista) para “fortalecer” argumentos. Fora ataques pessoais! Fora misoginia! Não é assim que se faz denúncia. Não é assim que se faz política.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.