A história do Dia da Mulher e o 8 de Março no Brasil

Trechos do artigo ‘8 de março: conquistas e controvérsias’ de Eva Alterman Blay. Publicado na Revista Estudos Feministas. 2001, vol.9, n.2, pg.601-607.

As mulheres faziam parte das “classes perigosas”

No século XIX e no início do XX, nos países que se industrializavam, o trabalho fabril era realizado por homens, mulheres e crianças, em jornadas de 12, 14 horas, em semanas de seis dias inteiros e freqüentemente incluindo as manhãs de domingo. Os salários eram de fome, havia terríveis condições nos locais da produção e os proprietários tratavam as reivindicações dos trabalhadores como uma afronta, operárias e operários considerados como as “classes perigosas”. Sucediam-se as manifestações de trabalhadores, por melhores salários, pela redução das jornadas e pela proibição do trabalho infantil. A cada conquista, o movimento operário iniciava outra fase de reivindicações, mas em nenhum momento, até por volta de 1960, a luta sindical teve o objetivo de que homens e mulheres recebessem salários iguais, pelas mesmas tarefas. As trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava de igualdade salarial, não eram consideradas. Alegava-se que as demandas das mulheres afetariam a “luta geral”, prejudicariam o salário dos homens e, afinal as mulheres apenas “completavam” o salário masculino.

Subjacente aos grandes movimentos sindicais e políticos emergiam outros, construtores de uma nova consciência do papel da mulher como trabalhadora e cidadã. Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Clara Lemlich, Emma Goldman, Simone Weil e outras militantes dedicaram suas vidas ao que posteriormente se tornou o movimento feminista.

Clara Zetkin propôs o Dia Internacional da Mulher

Clara Zetkin (1857-1933), alemã, membro do Partido Comunista Alemão, deputada em 1920, militava junto ao movimento operário e se dedicava à conscientização feminina. Fundou e dirigiu a revista Igualdade, que durou 16 anos (1891-1907).

Líderes do movimento comunista como Clara Zetkin e Alexandra Kollontai ou anarquistas como Emma Goldman lutavam pelos direitos das mulheres trabalhadoras, mas o direito ao voto as dividia: Emma Goldman afirmava que o direito ao voto não alteraria a condição feminina se a mulher não modificasse sua própria consciência.

Ao participar do II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhagem, em 1910, Clara Zetkin propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher sem definir uma data precisa. Contudo, vê-se erroneamente afirmado no Brasil e em alguns países da América Latina que Clara teria proposto o 8 de Março para lembrar operárias mortas num incêndio em Nova Iorque em 1857. Os dados a seguir demonstram que os fatos se passaram de maneira diferente.

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As mulheres brancas que dominam o discurso feminista raramente questionam sua perspectiva sobre a realidade

Trecho do artigo ‘Mulheres negras: moldando a teoria feminista’ de bell hooks. Publicado na Revista Brasileira de Ciências Políticas. n° 16. Brasília, Jan./Apr. 2015.

Problemas e dilemas específicos de donas de casa brancas da classe privilegiada eram preocupações reais, merecedores de atenção e transformação, mas não eram preocupações políticas urgentes da maioria das mulheres, mais preocupadas com a sobrevivência econômica, a discriminação étnica e racial etc. Quando Friedan escreveu A mística feminina, mais de um terço de todas as mulheres estava na força de trabalho. Embora muitas desejassem ser donas de casa, apenas as que tinham tempo livre e dinheiro realmente podiam moldar suas identidades segundo o modelo da mística feminina. Eram mulheres que, nas palavras de (Friedan 1971, p. 110)., “ouviram dos mais avançados pensadores de nosso tempo que deveriam voltar atrás e viver sua vida como se fossem Noras, limitadas à casa de boneca dos preconceitos vitorianos”.

Em seus primeiros textos, parece que Friedan nunca se perguntou se a situação das donas de casa brancas com formação universitária era um ponto de referência adequado para se examinar o impacto do sexismo ou da opressão sexista sobre a vida das mulheres na sociedade norte-americana. Ela tampouco foi além de sua própria experiência de vida para obter uma perspectiva mais ampla sobre a vida das mulheres nos Estados Unidos. Digo isso não para desmerecer o seu trabalho, que continua sendo uma discussão útil acerca do impacto da discriminação sexista sobre um seleto grupo de mulheres. Examinado a partir de uma perspectiva diferente, ele também pode ser considerado um estudo de caso sobre narcisismo, insensibilidade, sentimentalismo e autoindulgência, que atinge o seu pico quando a autora, em um capítulo intitulado “Crescente desumanização”, faz uma comparação entre os efeitos psicológicos do isolamento sobre as donas de casa brancas e o impacto que o confinamento tem no autoconceito dos prisioneiros nos campos de concentração nazistas.

Friedan foi uma das principais formadoras do pensamento feminista contemporâneo. Significativamente, a perspectiva unidimensional da realidade das mulheres apresentada em seu livro se tornou uma característica marcante do movimento feminista contemporâneo. Como Friedan, antes delas, as mulheres brancas que dominam o discurso feminista atual raramente questionam se sua perspectiva sobre a realidade da mulher se aplica às experiências de vida das mulheres como coletivo. Também não estão cientes de até que ponto suas perspectivas refletem preconceitos de raça e classe, embora tenha havido uma consciência maior sobre esses preconceitos nos últimos anos. O racismo abunda nos textos de feministas brancas, reforçando a supremacia branca e negando a possibilidade de que as mulheres se conectem politicamente cruzando fronteiras étnicas e raciais. A recusa feminista, no passado, a chamar a atenção para hierarquias raciais e as atacar, suprimiu a conexão entre raça e classe. Mesmo assim, a estrutura de classe na sociedade norte-americana foi moldada pela estratégia racial da supremacia branca; apenas se analisando o racismo e sua função na sociedade capitalista é que pode surgir uma compreensão profunda das relações de classe. A luta de classes está indissoluvelmente ligada à luta para acabar com o racismo. Conclamando a que se explore a implicação completa da classe em um de seus primeiros ensaios, “The last straw”, (Rita Mae Brown 1974, p. 15) explica:

Classe é muito mais do que a definição de Marx sobre a relação com os meios de produção. Classe envolve o comportamento que adotamos, nossos pressupostos básicos sobre a vida. Nossa experiência (determinada por nossa classe) valida esses pressupostos, a forma como somos ensinados a nos comportar, o que esperamos de nós mesmos e dos outros, nosso conceito de futuro, como entendemos os problemas e os resolvemos, como nos sentimos, pensamos, agimos. São esses padrões de comportamento que as mulheres de classe média resistem a reconhecer, embora possam estar perfeitamente dispostas a aceitar a classe em termos marxistas, um truque hábil que ajuda a evitar lidar de verdade com o comportamento de classe e mudar esse comportamento nelas mesmas. São esses padrões de comportamento que devem ser reconhecidos, compreendidos e alterados.

As mulheres brancas que dominam o discurso feminista – as quais, na maior parte, fazem e formulam a teoria feminista – têm pouca ou nenhuma compreensão da supremacia branca como estratégia, do impacto psicológico da classe, de sua condição política dentro de um Estado racista, sexista e capitalista.

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Para que serve esse Feminismo em pleno XXI?

Texto de Daiana Barasa para as Blogueiras Feministas.

Segundo pesquisa recente, 3 em cada 5 mulheres já sofreram violência moral, seguida pelas violências física e sexual, com 32%, respectivamente.

Retomada breve das três ondas do feminismo

A Primeira Onda do movimento feminista foi marcada pelas sufragistas “Suffragettes”, em que as primeiras feministas em 1913 surgiram em manifestações na Inglaterra. O direito ao voto era a principal reivindicação do movimento e só foi conquistado em 1918.

Foi também marcada pela publicação do livro O Segundo Sexo, por Simone de Beauvoir, cuja expressão “não se nasce mulher, se torna mulher” transformou-se na principal essência para o início da Segunda Onda no movimento.

A Segunda Onda foi marcada pela luta contra as desigualdades sociais e culturais. A principal essência era a luta pela liberdade, pelo direito à própria vida e corpo. Foi quando surgiu a pílula anticoncepcional, discussões em torno da submissão da mulher surgiram com força e em que a heterossexualidade foi confrontada como norma e condição sexual feminina, já que o ‘ser mulher’ estava restrito aos papéis de mãe e esposa.

A Terceira Onda pode ser compreendida como uma continuação de lutas anteriores, importantes questões eram reverberadas por feministas jovens como: aborto, violência, corpo e adoção e liberdade. Essas militantes também queriam mostrar que a mulher poderia usar salto alto, decotes, batom, sendo ao mesmo tempo feminina e forte. A beleza feminina se impôs contra a objetificação. Este movimento buscava ir além dos estereótipos e contra a rotulação baseada na oposição Homem X Mulher, que era considerada uma construção artificial que poderia perpetuar o poder masculino.

Feminismo contemporâneo – o que ainda precisa ser conquistado?

A luta feminista hoje não se restringe apenas às mulheres, alguns dos principais assuntos de discussões e lutas atuais são: o sexismo (que grosseiramente resumido é a separação entre coisas de homem e coisas de mulher); culpabilização das vítimas; descriminação de gêneros não-hegemônicos (pessoas trans) e busca pela beleza e juventude eternas.

A principal lacuna no movimento feminista atual e para essa evolução de igualdade de gêneros é a falta de apoio mútuo entre mulheres e de espaços seguros para que conversem, discutam, para sororidade (união entre mulheres, baseado na empatia).

Já no que diz respeito ao público masculino, o ideal seria o reconhecimento de seus privilégios sociais apenas por serem homens e usar isso a favor das mulheres, apoiando projetos que podem favorecer suas mães, filhas, irmãs e amigas.

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