#8demarço – Mulheres em luta

Texto de Tica Moreno.

Para o movimento feminista, o dia internacional das mulheres é um dia de luta.

Essa é a origem deste dia, que foi proposto pelas mulheres socialistas há 101 anos para ser um dia comum de luta das mulheres de todo o mundo (mais dos países do Norte, naquela época) principalmente pelo direito ao voto.

E 101 anos depois, aqui estamos nós de novo. Todos os debates, reivindicações, denúncias que o movimento de mulheres faz durante o ano todo tem no 8 de março uma visibilidade maior. É o principal momento pra gente chamar atenção pro machismo que ainda existe, mas também pras mulheres organizadas que propõem e constroem alternativas por um mundo livre e com igualdade.

Escrevo esse post a partir do que a gente faz na Marcha Mundial das Mulheres, que tem agendas comuns com o movimento feminista do Brasil e do mundo tudo.

Pra nós é importante afirmar que as transformações que queremos na vida das mulheres passam por transformações globais na sociedade. Então, nos afirmamos como feministas em luta contra o capitalismo patriarcal, racista e lesbofóbico.

Tarefa grande essa, né? Mas ter essa visão anti-sistemica nos ajuda a situar nossa luta não apenas no terreno das reivindicações por mudanças de lei e mais políticas públicas (que queremos), mas no plano das relações sociais que queremos mudar.

Por exemplo, a gente precisa da Lei Maria da Penha sendo aplicada e os agressores sendo punidos, mas a violência sexista tem que acabar. Pra isso, as relações entre homens e mulheres tem que ser iguais, baseada na liberdade de cada um.

Na pauta desse 8 de março estão: a legalização do aborto, a igualdade no mundo do trabalho e em casa, as políticas públicas pra garantir autonomia econômica para as mulheres, como as creches públicas (na campanha, a Dilma afirmou a construção de 6 mil e estamos cobrando), a defesa da biodiversidade e a soberania alimentar, a igualdade racial, a liberdade de amar, a solidariedade internacional com as mulheres de todo o mundo que lutam por sua liberdade em condições bem adversas.

O 8 de março caiu bem na terça feira de carnaval. Em várias cidades as mulheres estão organizando blocos feministas que ao mesmo tempo em que resgatam o caráter popular do carnaval, questionam a mercantilização desta festa junto com a mercantilização do corpo das mulheres.

Em várias outras cidades, as mulheres já organizaram ações (por exemplo a jornada das mulheres da via campesina contra os agrotóxicos) ou estão convocando manifestações políticas para depois do carnaval, como é o caso de São Paulo (o ato é dia 12).

Aqui no blogueiras feministas vai ser uma semana bem legal, as meninas estão fazendo posts sobre várias questões que pra nós são importantíssimas. Vai ser o primeiro 8 de março do blogueiras feministas e vai ser um sucesso =)

Aqui embaixo estão algumas das atividades feministas do Brasil, extraídas do site da Marcha Mundial das Mulheres. Se tiver uma na sua cidade, vai lá! Uma manifestação, nas ruas, nos dá mais força e mais certeza de que somos muitas (queremos ser mais) e estamos no caminho certo.

Rio de Janeiro
08.03 – Participação no Bloco Maria Vem com as Outras – com concentração as 16h na frente do Circo Voador.
17.03 – Ato Unificado do Dia Internacional de Luta das Mulheres na Central do Brasil.

São Paulo
02.03- Ato de Abertura do Mês das Mulheres e Lançamento Estadual da Marcha das Margaridas CUT e Marcha Mundial das Mulheres. Das 09h30 às 14h – Local: Auditório azul do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, situado na Rua São Bento, 413, São Paulo – Capital.
08/03 – No dia 8 de março, 3ª feira de Carnaval, o bloco “Adeus, Amélia!” também levará a mensagem das feministas à população paulista. A concentração terá início às 14h, no final do elevado Presidente Artur da Costa e Silva, o Minhocão (próximo à Avenida Francisco Matarazzo).

12/03 – A concentração terá início às 9h30 no Centro Informação Mulher, na Praça Roosevelt (R.Consolação, 605). De lá, as mulheres caminharão pelo centro da cidade, encerrando o ato na Praça da Sé. Caminhada, que parte do Centro Informação Mulher, na Praça Roosevelt, e termina na Praça da Sé. O ato deve reunir milhares de mulheres de todo o estado em torno do lema Em luta por autonomia e igualdade, contra o machismo e o capitalismo.

Rio Grande do Sul
03.03 – 14h – Tribuna Popular / Tema: A origem do 8 de março
Local: Assembléia Legislativa
11, 12 e 13.03 – Peça teatral Frida – Apresentação Teatral sobre historia da Frida Khalo no Teatro Renascença.
Local: Teatro Renascença (Av. Érico Veríssimo nº309) Entrada franca. Após a abertura teremos um coquetel
Realização: Teatro Renascença, Sintrajufe e a Marcha Mundial das Mulheres
14.03- 19h – Apresentação Vídeo ‘Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres’, realizado em março de 2010, pela MMM / Local: Cine Bancários
Realização :Marcha Mundial das Mulheres
Apoio :Coletivo de Mulheres Bancárias

Belo Horizonte
10/03 – Oficina de confecção de materiais
DCE-UFMG 15h

11/03- Ato público unificado
Prefeitura de de BH /Praça Sete – 16h

Vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Doce
01 a 03/03 Seminário das mulheres camponesas dos Vales do Jequitinhonha,Mucuri e Rio Doce( Teofilo Otoni)

Viçosa
01/03 – Oficina – Histórico do 8 de março -10h
Atividade promovida pela MMM na recepção de calouros do DCE-UFV

Triângulo/ Norte/ Zona da Mata/ Metropolitana e Sul
01 a 03/03 Seminário das mulheres camponesas dessas regiões( Uberlândia)

Paraná
01.03 – Audiência Pública – motivo: cobrança do governo da secretaria Estadual da Mulher no Paraná – Chamada: Deputada Luciana Rafaim. Org. Marcha Mundial e demais movimentos de mulheres.
03.03- Bloco de Carnaval das Mulheres – Tema: As mulheres do campo e da cidade. Org.CUT-PR
11.03 – Caminhada Regional da via Campesina em Ponta Grossa. Tema: Agrotóxicos. Org. Via, APP, brigadas mst.
08.03 – Caminhada das mulheres no Litoral -Praia de Leste – Org. Federação de Mulheres do Paraná
12.03- Ato Estadual Unificado – 8 de março – em Curitiba. Marcha Mundial + Org. todos os movimentos de mulheres
17.03 – Perspectivas de gênero. Org. CEPAT.
25.03 – Café Feminista em Piraquara – 19horas na Câmara Municipal
29.03 – Ato Estadual frente ao palácio das araucárias –

Amazonas
Parintins

04.03 – Oficina: Mercantilização da Vida das Mulheres
Hora: 19 às 2h – Local: Escola Irmã Cristine – Bairro Itaúna
08.03- Panfletagem
Alvorada – Chega de violência! Mulher levanta-te e grita! Hora: 16
Local: Avenida do Samba – Praça dos Bois
Data: 08 – Dia Internacional de Luta das Mulheres

Manaus

DIA 04 – Abertura das comemorações
5 Rodas de Conversa
Tema: As multifaces da Mulher na sociedade
Participação na Ala da Escola de Samba Reino Unido no Carnaval – Divulgação da Lei Maria da Penha e Serviços de Atenção à Mulher nas Rádios Comunitárias.

Seminário de Avaliação e Implementação da Rede de Atendimento à Mulher
Local: Reitoria da UEA (à confirmar)
Horário: 8h às 12h – 14h às 17h

Sergipe
Em Sergipe, COM O TEMA MULHERES EM MOVIMENTO: CONSTRUINDO IGUALDADE DE DIREITOS, a Marcha em parceria com a Universidade Tiradentes – UNIT realizará as seguintes atividades:

11.03 – 14:00 hs – Exposição de vídeos e documentarios com o tema VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER e debate
Dia 11.03 – 19:00 hs – em Aracaju – CUT – exposição de vídeos e documentários VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER e debate
Dia 15.03 – Mesa Redonda em 05 Campus da UNIT: Aracaju, Nossa Senhora da Glória, Propriá, Itabaiana e Estância, com a presença de Professores da UNIT, representante da MMM, Ministério Público, Coordenadoria Municipal e Estadual da Mulher, Delegadas da Mulher. O público será: de estudantes sobretudo dos Cursos de Serviço Social, Direito, Educação e Comunicação; Professores, Organizações da sociedade civil da região, e mulheres das organizações dos municpipios como STTRs, Associações, MMTR, MMC.
Dia 15 e 16.03 – Oficinas com mulheres no município de Lagarto, gerando autonomia econômica das mulheres, como mecanismo de enfrentamento a violência contra a mulher
Dia 18.03 – Ato de encerramento – no centro de Aracaju, onde haverá barraca com exposição de materiais, falas e a batucada feminista.

Alagoas
17.03 – Seminário sobre assédio moral, igualdade de oportunidade e educação não sexista
22.03 – Seminário e entrega de documentos para autoridades estaduais e municipais sobre violência.
29.03 – Visitarão as mulheres de uma comunidade e farão debate sobre violência contra a mulher
30 e 31.03 – Debate sobre Reforma Política

Porque somos todas paranóicas, né?

Texto de Georgia Faust.

Eu detesto padrões e estereótipos.

Uma parte desse processo todo de “virar” feminista é justamente começar a questionar um pouco essas caixinhas que nos colocam, esses rótulos que colam na nossa testa. Na testa de todo mundo. É quase como virar filósofo, começar a desbanalizar o banal, ver coisas onde ninguém mais vê, desconstruir tudo isso que é tão visto como natural. E daí a gente veste a camisa do feminismo pra ver isso aí. Mas, muito contra a nossa vontade, quem diria, acabamos caindo em outra caixinha.

Quando a gente é mulher sem ser feminista já tem aquele caminhão de padrões que a gente tem que se encaixar: ser depilada, às vezes ser histérica, amar cozinhar, sonhar em ter filhos. E esses dias eu estava pensando no outro lado da moeda, que é o padrão que se espera de uma feminista. Isso é uma coisa que tem me incomodado ultimamente — sim, tudo me incomoda. Porque eu vejo, pelo menos entre as pessoas que conheço, que elas vêem as feministas como: modernas, descoladas, desapegadas, inteligentes (eba), e mega seguras de si. Isso, claro, entre as pessoas do MEU círculo, que não é formado de pessoas machistas e imbecis. Então vamos ignorar por enquanto o estereótipo mais comum, que é o de que somos peludas, lésbicas e que odiamos homens.

E eu sofro um pouco com isso. Com esse estereótipo, mesmo sendo positivo. Porque, bem, eu acabo sempre desapontando meu eleitorado, porque eu sou muito pouco daquilo ali. Por exemplo, quando estou afim de alguém fico bem padrão-mulherzinha assim, tenho ciuminho, quero ver a pessoa o tempo inteiro, tenho uma ou outra crise de insegurança, blablabla, e certa vez um cara vivia me cortando, qualquer manifestação padrão-de-mulherfora-do-padrão-feminista ele já me chamava de “mulherzinha”. E isso me pegava, sabe.

Eu acabo pensando que esse é um golpe baixo, um jeito sujo de virar a mesa e fazer a gente se sentir culpada por ter uma reação emocional a qualquer coisa, minimizando nossos sentimentos. Volta e meia eu faço alguma coisa e acabo caindo nesse pensamento: *que porra de feminista eu sou, se tô tendo ataque de mulherzinha???*

E eu não sei porque é tão difícil entender que tudo o que nós queremos é NÃO TER PADRÃO NENHUM. Queremos que cada uma possa ser o que bem entender. Que algumas de nós possam NÃO se depilar se não quiserem, possam ter filhos OU NÃO, possam casar na igreja de véu e grinalda OU NÃO, possam ser delicadas ou agressivas, sem que sejamos consideradas menos mulheres por causa de nossas escolhas. Mas ao mesmo tempo questionando as imposições que também existem nessas escolhas. Será que é tão complicado assim???

Feminismo? Pra quê?

Texto de Bia Cardoso.

A gente não quer só comida. A gente quer direitos iguais, uma sociedade justa e pessoas com mais respeito. Talvez esse seja um resumo do que quer o Feminismo. O tão atacado e escorraçado Feminismo. Um movimento social e político que busca empoderar as mulheres e propor medidas igualitárias de gênero na sociedade.

Conheço muitas mulheres que são feministas, mas que não se declaram feministas. Porque a palavra ganhou um estigma com o passar dos anos. Porém, a grande maioria das mulheres que conheço são feministas, basta você fazer fazer um checklist na lista elaborada pela Cynthia. E este é um espaço de Blogueiras Feministas, o que significa que o Feminismo está aí querendo valer o nosso suor.

Mas, para que o Feminismo existe? O Feminismo existe justamente para as mulheres se posicionarem politicamente, para se unirem em torno de objetivos comuns e lutarem por eles. Os homens são maioria nas esferas de poder do Estado brasileiro. É uma maioria esmagadora. Isso faz com que políticas para mulheres não sejam aprovadas? Não. Várias políticas para mulheres são aprovadas. Mas isso faz com que mais políticas essenciais para as mulheres não sejam aprovadas? Sim. Porque diferentes grupos de pessoas tem diferentes tipos de demandas e, se as mulheres não estão representadas de maneira igualitária nas esferas de poder, muitas propostas que beneficiariam muitas mulheres não são feitas. Isso vale também para negros, homossexuais, deficientes físicos e outros grupos sociais de pessoas que sofrem preconceito e discriminação todos os dias. Representatividade nas esferas de poder  e movimentos sociais organizados são fundamentais para inserir na agenda política do país questões como o aborto, o casamento gay, cotas nas universidades, etc.

As pessoas tendem a se afastar da política, a acreditar que este é um assunto chato e desinteressante. É justamente essa falta de consciência política que agrava as desigualdades sociais em nosso páis. Dá trabalho ser cidadão e cidadã, mas é fundamental se envolver politicamente para construir uma sociedade melhor. E aqui não digo que você deve se filiar a um partido político, mas que você deve ter posições políticas claras e reflexões políticas constantes. Se puder se unir a algum movimento social com o qual se identifique melhor ainda.

No caso do Feminismo ele é um movimento político e social que precisa mudar não só as relações sociais, como também as relações internas entre a família e os casais. Homens e Mulheres têm papéis bem definidos socialmente.  Muitas vezes casais homossexuais reproduzem esses papéis. Existem coisas que homem faz e coisas que mulher faz. Até hoje vemos diversos exemplos, como estes apontados por Bruna Provazi:

Sabe aquele professor de Cinema massa – simpático à causa feminista até – que chama as alunas pra fazerem produção, direção de arte, maquiagem e figurino, e chama os alunos pra fazerem fotografia, iluminação, assistência de direção? Sabe aquele seu amigo vídeoartista que conhece umas duas ou três fotógrafas boas, mas que acaba chamando sempre um cara que ele ouviu dizer que é bom também pra trampar com ele? Sabe quando sua mãe pede pra você ajudá-la na cozinha ou na casa, por que seu irmão não leva jeito pra isso? Chama divisão sexual do trabalho.

A luta diária feminista inclui questionar essas divisões. Porque muitas vezes elas se tornam invisíveis, afinal todos os dias esses estereótipos são cada vez mais solidificados em nossas mentes. Preciso falar da importância do feminismo frente os casos de violência contra mulher? Porque as vezes parece que os dados não são tão óbvios e não se relacionam, especialmente na mídia, como mostra a Maira Kubik:

Só que o que acontece com o jornalismo brasileiro é que não estamos acostumados a ver essas pautas sob uma perspectiva de gênero. E, assim, acabamos não conectando uma coisa com a outra: se a violência contra a mulher têm ainda altos índices no Brasil, é claro que cria-se um clima de permissividade para cometê-la. E logo vemos casos de assassinato ou de situações constrangedoras, como a vivida pela policial.

Então, o que proponho a você hoje é sentar e ler um pouco sobre feminismo. Esqueça os estereótipos de que feminista é o bicho-papão que quer enfiar um salto alto na sua goela. Abra o olho e conheça um movimento social que perpassa diversas relações como Maternidade e Feminismo, História e Feminismo, Violência e Feminismo, entre outros. Além é claro dos diversos feminismos, pois as prioridades mudam de acordo com os grupos sociais do qual a mulher faz parte. Existe o feminismo das mulheres negras, das lésbicas, das trabalhadoras rurais, da empregadas domésticas, das acadêmicas, das mulheres brancas de classe média, etc.

Aqui no blog você tem muitos posts sobre o assunto, além do blogroll aí do lado esquerdo. Na rede você encontra diversos textos acadêmicos e informações que podem enriquecer seus conhecimentos acerca do Feminismo. Aqui vão algumas dicas do que andei lendo recentemente:

[+] Forito – Jovens Feministas Presentes. Publicação que é resultado de oito anos de encontros do Fórum Cone Sul de Mulheres Jovens Políticas. Possui depoimentos, artigos e entrevistas que tratam de feminismo, violência, direitos reprodutivos, participação política e identidade cultural.

[+] Nós Mulheres e Nossa Experiência Comum de Silvia Camurça e Para Redescobrir o Feminismo de Christine Delphy. O primeiro texto dialoga com o segundo tratando das dificuldades encontradas pelo movimento feminista e quais seriam as principais demandas atuais.

[+] A Feminista Como o Outro de Susan Bordo. A partir do conceito de “O “Outro” de Simone de Beauvoir a autora mostra como as crítica às feministas são muitas vezes pautadas em estereótipos e como o não reconhecimento das teóricas feministas fora do Feminismo é prejudicial para as discussões de gênero.