Slutwalk – A Marcha das Vadias

Texto de Bia Cardoso.

Tudo começou em Toronto, Canadá. Numa universidade, um policial palestrava sobre segurança no campus e afirmou que as estudantes do sexo feminino deveriam evitar se vestir como “vagabundas” ou “sluts”, para não serem vítimas de assédio sexual. As estudantes então resolveram protestar contra essa declaração. Pois o que está implícito é a cultura que responsabiliza a vítima feminina pela agressão e o conceito de mulher estuprável.  Quantas vezes já ouvimos: “usando aquele short estava pedindo para ser estuprada”? Acredite, isso não é um convite para me estuprar.

A primeira “Marcha das Vadias” aconteceu no início de maio e espalhou-se pelo mundo, mostrando que há muitas mulheres que não aceitam o controle social sobre seus corpos. No livro Promiscuidades (pg. 119), Naomi Wolf diz: “Em Roma, há dois mil anos, o fato de uma mulher beber mais do que um pouquinho de vinho poderia ter sido passível de punição legal já que seu comportamento sugeria liberdade sexual. Nós ainda consideramos que o comportamento “livre” por parte das mulheres deva provocar uma punição“.

Boston Slutwalk 2011. Foto de Nina Mashurova no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

No Brasil, haverá uma Marcha das Vadias no dia 04 de junho, na Praça do Ciclista, na Avenida Paulista – SP. No site oficial da SlutWalk Toronto, há depoimentos de mulheres contando suas experiências de violência, abandono e abusos. Historicamente o termo “vadia” carrega uma conotação extremamente negativa, cujo peso recai inteiramente sobre as mulheres, sendo uma séria acusação sobre seu caráter. A intenção por trás da palavra é sempre ferir. O objetivo da marcha é ressignificar o termo “slut”, apropriando-se e mostrando que numa sociedade machista todas somos vadias e vagabundas. No site, na aba Why explicam: “Estamos cansadas de sermos oprimidas pela vergonha, de sermos julgadas por nossa sexualidade e de nos sentirmos inseguras. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, independentemente se fazemos sexo por prazer ou trabalho. Ninguém deve dizer que se eu gosto de sexo, estou abrindo um precedente para uma possível agressão sexual.

Entendo que o objetivo da “Marcha das Vadias” é dizer que as mulheres podem se vestir como querem, porque o problema não é a roupa, mas sim o estuprador. Porém, muitas discussões surgiram em nosso grupo: Uma marcha das vadias realmente funciona? A marcha ganha repercussão pela causa que está defendendo ou apenas pelas imagens de mulheres vestindo pouca roupa? Prostitutas fazem críticas ao movimento. E muitas se perguntam marchar ou não marchar? Para o debate deixo uma série de textos sobre o assunto:

Mexy no texto Slutwalk, Prostitutas e nossas Apropriações diz:

Rebecca diz que “brincar de puta não é ser uma puta”. E sinceramente, não me considero qualificada para discordar dela. Nos estereotiparmos por algumas horas e chamarmos a essas mulheres de irmãs chega a ser de fato ofensivo. Não porque elas sejam inferiores a nós. Mas porque somos privilegiadas em relação a elas. Não somos nós que estamos sendo violentadas e espancadas diariamente nas esquinas. Claro, pode acontecer conosco, afinal temos uma vagina. Mas são elas quem correm o maior risco. Ao mesmo tempo em que acho importante defendermos nossa liberdade corporal e sexual até o fim, questiono se o método eficaz para isso seria nos transformando naquilo que nos objetifica e sexualiza de forma heteronormativa e comercial desde sempre.

E no texto Reconsiderações acerca da slutwalk pergunta:

Por que é tão fácil apoiar falsas putas (mulheres privilegiadas em roupas sensuais de acordo com o desejo do patriarcado objetificador) mas tão difícil apoiar a causa feminista quando fora dos padrões desejáveis, mesmo que lutem pelas mesmas coisas?

Luciana Coelho na matéria ‘Marcha das Vadias’ ganha adeptos e se multiplica nos EUA diz:

Os comentários de Paulo Maluf (com seu “estupra, mas não mata”) e do comediante Rafinha Bastos (sobre mulheres feias que deveriam agradecer pelo estupro) traduzem o raciocínio. Mas a SlutWalk vai além dos comentários machistas – como o da senhora que, ao ver Theresa Esconditto, 29, a caminho da marcha com “estou pedindo”, estampado no decote, reprovou. “Espero que esteja assim para uma peça de teatro.” Na marcha majoritariamente feminina, moças carregavam frases como “meu vestido não significa sim”. Uma participante tinha um cartaz dizendo ter sido estuprada aos 12 anos. “Estava usando agasalho largo e pantufas. Sou uma puta?”

Harsha Valia em Slutwalk – to march or not to march? afirma:

Slutwalk – com sua marca – corre o risco de facilitar o discurso dominante da “liberada” sendo essas apenas as mulheres que usam mini-saias e saltos altos em seu caminho para o trabalho. Na realidade, o capitalismo faz mediação na fachada feminista de escolha, criando toda uma indústria que mercantiliza a sexualidade da mulher por meio de produtos para sua auto-estima que vão de moda a beleza. A Slutwalk recusa sistematicamente qualquer ligação com o feminismo e foca apenas em questões liberais da escolha individual – o saboroso “Eu posso usar o que eu quero” um feminismo que é intencionalmente destituído de uma análise da dinâmica do poder.

Em Vamos importar a Marcha das Vadias, Maíra Kubik diz:

Vadia” é uma das muitas palavra que simboliza a opressão sobre a mulher. Demonstra o quanto a sociedade quer que permaneçamos “obedientes”, dentro das regras básicas de convívio. Segundo aqueles que a empregam, não podemos agressivas, indiscretas e muito menos libertárias. Não devemos provocar a “desordem” com nossas atitudes. É por isso que temos que importar a Marcha das Vadias! O Brasil precisa, com urgência, de um movimento como esse. No mínimo para contestar publicamente quem faz piada sobre estupro como quem fala do aumento do pãozinho francês. E, quiçá, para conseguir discutir de fato como, em pleno século XXI, a mulher ainda não é livre para fazer o que bem entender.

Lola em Mulheres sem roupa chamam atenção para suas causas conclui:

Essa espécie de protesto sempre vai atrair muito mais mídia que um seminário cheio de intelectuais depondo contra o sexismo, até porque as notícias, hoje em dia, preferem imagens a palavras. O problema é que, desta forma, além de nos expormos a marmanjos que avaliarão quais manifestantes “podem” se despir (essa vale a pena ver pelada, essa só deveria usar burca), estamos nos encaixando num dos papéis esperados das mulheres, o de objetos sexuais. E estamos também acostumando uma mídia cada vez mais preguiçosa a só dar destaque a ações políticas plenas de ativistas seminuas. É aquele velho dilema: os fins justificam os meios? Juro que não sei.

Melanie Klein em To Reclaim Slut or Not To Reclaim Slut: Is that the Question? decide apoiar a marcha:

E é aí que reside o cerne da questão. Somos feministas melhores ou piores se participarmos? Assim como a minha própria consciência feminista e meu ativismo mudou, os movimentos e ativistas também mudam. Na minha pesquisa sobre a SlutWalk, minhas opiniões cresceram e mudaram durante o trabalho. Eu estava particularmente inspirada por minhas conversas com a fundadora Heather Jarvis, que falava como uma pessoa empenhada na luta contra a injustiça, a franqueza de reconhecer os pontos fortes e fracos de seus esforços e a SlutWalk em geral. Também fiquei inspirada pela resposta da ativista feminista Zoe Nicholson (uma das seis mulheres que jejuou por 37 dias em 1982 para apoiar a Emenda dos Direitos Iguais). Apesar de reconhecer publicamente que ela não é um fã de carteirinha da SlutWalk e os mal-entendidos que isso gera, no final, ela falou em apoio e em solidariedade com todas as vítimas de violência. Ela afirma: “Toda vez que alguém agita, manifesta-se pela igualdade, os oponentes perdem um pouco de força no estrangulamento. Nenhum ato é muito pequeno.” No final, eu apoio e solidarizaro com a SlutWalk.

Apoiando ou não a Marcha das Vadias é sempre importante protestar contra a culpabilização da vítima. Nos casos de estupro, culturalmente as pessoas culpam mulheres pela violência que sofrem, tornando-as vítimas também da sociedade. Uma violência baseada na idéia de que quando uma mulher não se comporta, dentro de regras sociais machistas que definem quem é ou não é vadia, ela deve ser punida.

[+] A Marcha das Vagabundas e o Machismo dos Machos Brancos Vestidos de Preto

O Feminismo de cada um@ de nós

Texto de Claudia Gavenas.

Antes de entender-me por feminista eu acreditava que  “para fazer parte” do movimento era necessário seguir um protocolo que consistia em: participar de protestos de rua, estudar a fundo teóric@s do Feminismo e lutar apenas pelas causas relacionadas aos direitos das mulheres. Com o tempo, com a convivência com outras feministas e principalmente após fazer parte do nosso grupo de discussão e do blog, finalmente compreendi que o Feminismo é antes de tudo, um movimento plural.

Sim, o Feminismo é plural. Plural porque envolve diferentes correntes políticas e ideológicas. Plural porque engloba uma série de práticas e posturas diferenciadas. Plural porque permite inúmeras possibilidades de ativismo e disseminação. E é plural porque luta contra várias formas de opressão e relações de poder,  inseridos em contextos variados. E como cada contexto é único, é impossível condensar o Feminismo como um movimento unilateral.

Por isso, há um estranhamento de minha parte quando tenho contato com discursos apresentando fórmulas prontas do que é ou não ser feminista.  E na grande maioria desses discursos, há certa distorção de valores que perpassam as características supracitadas. Como falar de feminismo sem que sejam consideradas todas as suas vertentes? Como ditar regras e condições para qualificar ou não uma manifestação de pensamento?

Um texto muito bom para ajudar a compreender a pluralidade feminista é o Feminismo no plural: para pensar a diversidade constitutiva das mulheres, de Gema Galgani Silveira Leite Esmeral. Este texto discute justamente o posicionamento de diversas autoras e militantes com relação aos diversos feminismos existentes.

Então, se você (como eu) acreditava que o Feminismo era um movimento que permitia apenas uma interpretação ou manifestação, esta é uma oportunidade para mudar de idéia.

Vozes

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

O que uma mulher procura? Não faço a menor ideia, meu caro. Você, por acaso, acha possível, justo ou correto reduzir a vontade de todo e cada homem a uma fórmula única? Imagino que não. A redução do pensamento/comportamento feminino a um modelo válido para todas é responsável pela supressão da diferença e da individualidade.

As vozes femininas são muitas, múltiplas e até dissonantes.  As vozes do feminismo assim também o são. E não há nada de errado nisso. Nossa defesa não representa a intenção de tornar todos iguais. Queremos mesmo que todos sejam tratados de modo igual, sem que para isso seja necessário excluir características particulares.

Por tudo isso, não se assuste se perceber que a voz feminista fala também de vocês, homens. A desconstrução da estrutura social patriarcal e machista passa pela aniquilação das amarras conceituais que prendem tanto mulheres quanto homens.

Foto de Nationaal Archief no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Não parece haver dúvidas de que essa forma de organização social, em maior medida, impôs exigências a mulher, conferiu-lhe um papel e colocou-a em posição prejudicada. Não se pode esquecer, contudo, que essa mesma sociedade, ainda que em menor medida, também impôs ao homem um papel.

Virilidade, sexualidade pronunciada, valentia, agressividade, ser provedor, másculo, protetor e toda essa reza que se repete, de família em família, de pais para filhos; dentro e fora de casa, no ambiente profissional, nos relacionamentos, aqui, ali e em todo lugar.

Criou-se também um modelo de comportamento masculino e aí, o prejuízo vem acompanhado também de preconceito. Todo ato de um homem que se distancie desse padrão de conduta previamente determinado e se aproxime, de alguma forma, de características supostamente femininas leva à infame frase “seja homem!”

Não há, no entanto, razões que justifiquem a atribuição das características X ao homem e Y a mulher (ou o contrário, se a fidelidade cromossômica assim exige), a não ser a construção dessa estrutura patriarcal. Não há nada que impeça a mulher de ser agressiva, a provedora da casa ou mesmo ter sua sexualidade bem resolvida. Nem mesmo pode se dizer haver algo de errado no homem que se mostra frágil, avesso à agressividade e de sexualidade comedida ou até não exercida.

Muito dessa aversão à presença de características supostamente femininas em um homem revela o ódio e o preconceito ao feminino. Essa qualificação do masculino como o bom atributo e do feminino como o atributo ruim faz parte da cultura machista. “Isso é coisa de mulherzinha”, acompanhado do sempre presente (de novo!) “seja homem”. E, assim, o menino que se mostra sensível, vulnerável, avesso aos esportes e inclinado a profissões “femininas” é condenado e logo recebe a pecha de “mulherzinha”, “fraco”, “viadinho” e tantas outras denominações.

Começa aí um longo ciclo de forçada redefinição da subjetividade do tal menino. E nem preciso aqui entrar na discussão da discriminação pela homossexualidade. A desqualificação do homossexual também acompanha a desqualificação do feminino, como inferior, pior e indesejado. A presença dessas características ditas femininas em um homem, homossexual ou não, e a consideração desse homem como inferior são a representação daquela qualificação do feminino como o ruim e do masculino como o bom.

O ódio ao feminino e o ódio ao homossexual andam juntos e, por certo, precisam ser superados. A luta feminista, cada dia mais, é a luta pelo reconhecimento das individualidades e o desejo de tratamento igualitário a todos.

Não sei se me fiz entender. São muitas as vozes.