Porque somos todas paranóicas, né?

Texto de Georgia Faust.

Eu detesto padrões e estereótipos.

Uma parte desse processo todo de “virar” feminista é justamente começar a questionar um pouco essas caixinhas que nos colocam, esses rótulos que colam na nossa testa. Na testa de todo mundo. É quase como virar filósofo, começar a desbanalizar o banal, ver coisas onde ninguém mais vê, desconstruir tudo isso que é tão visto como natural. E daí a gente veste a camisa do feminismo pra ver isso aí. Mas, muito contra a nossa vontade, quem diria, acabamos caindo em outra caixinha.

Quando a gente é mulher sem ser feminista já tem aquele caminhão de padrões que a gente tem que se encaixar: ser depilada, às vezes ser histérica, amar cozinhar, sonhar em ter filhos. E esses dias eu estava pensando no outro lado da moeda, que é o padrão que se espera de uma feminista. Isso é uma coisa que tem me incomodado ultimamente — sim, tudo me incomoda. Porque eu vejo, pelo menos entre as pessoas que conheço, que elas vêem as feministas como: modernas, descoladas, desapegadas, inteligentes (eba), e mega seguras de si. Isso, claro, entre as pessoas do MEU círculo, que não é formado de pessoas machistas e imbecis. Então vamos ignorar por enquanto o estereótipo mais comum, que é o de que somos peludas, lésbicas e que odiamos homens.

E eu sofro um pouco com isso. Com esse estereótipo, mesmo sendo positivo. Porque, bem, eu acabo sempre desapontando meu eleitorado, porque eu sou muito pouco daquilo ali. Por exemplo, quando estou afim de alguém fico bem padrão-mulherzinha assim, tenho ciuminho, quero ver a pessoa o tempo inteiro, tenho uma ou outra crise de insegurança, blablabla, e certa vez um cara vivia me cortando, qualquer manifestação padrão-de-mulherfora-do-padrão-feminista ele já me chamava de “mulherzinha”. E isso me pegava, sabe.

Eu acabo pensando que esse é um golpe baixo, um jeito sujo de virar a mesa e fazer a gente se sentir culpada por ter uma reação emocional a qualquer coisa, minimizando nossos sentimentos. Volta e meia eu faço alguma coisa e acabo caindo nesse pensamento: *que porra de feminista eu sou, se tô tendo ataque de mulherzinha???*

E eu não sei porque é tão difícil entender que tudo o que nós queremos é NÃO TER PADRÃO NENHUM. Queremos que cada uma possa ser o que bem entender. Que algumas de nós possam NÃO se depilar se não quiserem, possam ter filhos OU NÃO, possam casar na igreja de véu e grinalda OU NÃO, possam ser delicadas ou agressivas, sem que sejamos consideradas menos mulheres por causa de nossas escolhas. Mas ao mesmo tempo questionando as imposições que também existem nessas escolhas. Será que é tão complicado assim???

Feminismo? Pra quê?

Texto de Bia Cardoso.

A gente não quer só comida. A gente quer direitos iguais, uma sociedade justa e pessoas com mais respeito. Talvez esse seja um resumo do que quer o Feminismo. O tão atacado e escorraçado Feminismo. Um movimento social e político que busca empoderar as mulheres e propor medidas igualitárias de gênero na sociedade.

Conheço muitas mulheres que são feministas, mas que não se declaram feministas. Porque a palavra ganhou um estigma com o passar dos anos. Porém, a grande maioria das mulheres que conheço são feministas, basta você fazer fazer um checklist na lista elaborada pela Cynthia. E este é um espaço de Blogueiras Feministas, o que significa que o Feminismo está aí querendo valer o nosso suor.

Mas, para que o Feminismo existe? O Feminismo existe justamente para as mulheres se posicionarem politicamente, para se unirem em torno de objetivos comuns e lutarem por eles. Os homens são maioria nas esferas de poder do Estado brasileiro. É uma maioria esmagadora. Isso faz com que políticas para mulheres não sejam aprovadas? Não. Várias políticas para mulheres são aprovadas. Mas isso faz com que mais políticas essenciais para as mulheres não sejam aprovadas? Sim. Porque diferentes grupos de pessoas tem diferentes tipos de demandas e, se as mulheres não estão representadas de maneira igualitária nas esferas de poder, muitas propostas que beneficiariam muitas mulheres não são feitas. Isso vale também para negros, homossexuais, deficientes físicos e outros grupos sociais de pessoas que sofrem preconceito e discriminação todos os dias. Representatividade nas esferas de poder  e movimentos sociais organizados são fundamentais para inserir na agenda política do país questões como o aborto, o casamento gay, cotas nas universidades, etc.

As pessoas tendem a se afastar da política, a acreditar que este é um assunto chato e desinteressante. É justamente essa falta de consciência política que agrava as desigualdades sociais em nosso páis. Dá trabalho ser cidadão e cidadã, mas é fundamental se envolver politicamente para construir uma sociedade melhor. E aqui não digo que você deve se filiar a um partido político, mas que você deve ter posições políticas claras e reflexões políticas constantes. Se puder se unir a algum movimento social com o qual se identifique melhor ainda.

No caso do Feminismo ele é um movimento político e social que precisa mudar não só as relações sociais, como também as relações internas entre a família e os casais. Homens e Mulheres têm papéis bem definidos socialmente.  Muitas vezes casais homossexuais reproduzem esses papéis. Existem coisas que homem faz e coisas que mulher faz. Até hoje vemos diversos exemplos, como estes apontados por Bruna Provazi:

Sabe aquele professor de Cinema massa – simpático à causa feminista até – que chama as alunas pra fazerem produção, direção de arte, maquiagem e figurino, e chama os alunos pra fazerem fotografia, iluminação, assistência de direção? Sabe aquele seu amigo vídeoartista que conhece umas duas ou três fotógrafas boas, mas que acaba chamando sempre um cara que ele ouviu dizer que é bom também pra trampar com ele? Sabe quando sua mãe pede pra você ajudá-la na cozinha ou na casa, por que seu irmão não leva jeito pra isso? Chama divisão sexual do trabalho.

A luta diária feminista inclui questionar essas divisões. Porque muitas vezes elas se tornam invisíveis, afinal todos os dias esses estereótipos são cada vez mais solidificados em nossas mentes. Preciso falar da importância do feminismo frente os casos de violência contra mulher? Porque as vezes parece que os dados não são tão óbvios e não se relacionam, especialmente na mídia, como mostra a Maira Kubik:

Só que o que acontece com o jornalismo brasileiro é que não estamos acostumados a ver essas pautas sob uma perspectiva de gênero. E, assim, acabamos não conectando uma coisa com a outra: se a violência contra a mulher têm ainda altos índices no Brasil, é claro que cria-se um clima de permissividade para cometê-la. E logo vemos casos de assassinato ou de situações constrangedoras, como a vivida pela policial.

Então, o que proponho a você hoje é sentar e ler um pouco sobre feminismo. Esqueça os estereótipos de que feminista é o bicho-papão que quer enfiar um salto alto na sua goela. Abra o olho e conheça um movimento social que perpassa diversas relações como Maternidade e Feminismo, História e Feminismo, Violência e Feminismo, entre outros. Além é claro dos diversos feminismos, pois as prioridades mudam de acordo com os grupos sociais do qual a mulher faz parte. Existe o feminismo das mulheres negras, das lésbicas, das trabalhadoras rurais, da empregadas domésticas, das acadêmicas, das mulheres brancas de classe média, etc.

Aqui no blog você tem muitos posts sobre o assunto, além do blogroll aí do lado esquerdo. Na rede você encontra diversos textos acadêmicos e informações que podem enriquecer seus conhecimentos acerca do Feminismo. Aqui vão algumas dicas do que andei lendo recentemente:

[+] Forito – Jovens Feministas Presentes. Publicação que é resultado de oito anos de encontros do Fórum Cone Sul de Mulheres Jovens Políticas. Possui depoimentos, artigos e entrevistas que tratam de feminismo, violência, direitos reprodutivos, participação política e identidade cultural.

[+] Nós Mulheres e Nossa Experiência Comum de Silvia Camurça e Para Redescobrir o Feminismo de Christine Delphy. O primeiro texto dialoga com o segundo tratando das dificuldades encontradas pelo movimento feminista e quais seriam as principais demandas atuais.

[+] A Feminista Como o Outro de Susan Bordo. A partir do conceito de “O “Outro” de Simone de Beauvoir a autora mostra como as crítica às feministas são muitas vezes pautadas em estereótipos e como o não reconhecimento das teóricas feministas fora do Feminismo é prejudicial para as discussões de gênero.

Simone de Beauvoir

Texto de Bia Cardoso.

Simone de Beauvoir.

Simone de Beauvoir nasceu em 09 de janeiro de 1908. É uma das mais conhecidas feministas e também uma das mais importantes. Autora do livro “O Segundo Sexo”, um dos clássicos da literatura feminista, Simone manteve por toda vida uma atitude transgressora e anti-conservadora. Sua obra literária é existencialista e questionadora.

No site Simone de Beauvoir você pode conhecer suas obras, biografia e vários artigos interessantes como a entrevista entitulada “O Segundo Sexo 25 anos depois”.

Gerassi — Você disse que sua própria consciência feminista surgiu da experiência de escrever O Segundo Sexo. Como você vê o desenvolvimento do movimento após a publicação do seu livro em termos de sua própria trajetória?

Beauvoir — Ao escrever O Segundo Sexo tomei consciência, pela primeira vez, de que eu mesma estava levando uma vida falsa, ou melhor, estava me beneficiando dessa sociedade patriarcal sem ao menos perceber. Acontece que bem cedo em minha vida aceitei os valores masculinos e vivia de acordo com eles. É claro, fui muito bem-sucedida e isso reforçou em mim a crença de que homens e mulheres poderiam ser iguais se as mulheres quisessem essa igualdade. Em outros termos, eu era uma intelectual. Tive a sorte de pertencer a uma família burguesa, que, além de financiar meus estudos nas melhores escolas, também permitiu que eu brincasse com as idéias. Por causa disso, consegui entrar no mundo dos homens sem muita dificuldade. Mostrei que poderia discutir filosofia, arte, literatura, etc., no “nível dos homens”. Eu guardava tudo o que fosse próprio da condição feminina para mim. Fui, então, motivada por meu sucesso a continuar, e, ao fazê-lo, vi que poderia me sustentar financeiramente assim como qualquer intelectual do sexo masculino, e que eu era levada a sério assim como qualquer um de meus colegas do sexo masculino. Sendo quem eu era, descobri que poderia viajar sozinha se quisesse, sentar nos cafés e escrever, e ser respeitada como qualquer escritor do sexo masculino, e assim por diante. Cada etapa fortalecia meu senso de independência e igualdade. Portanto, tornou-se muito fácil para mim esquecer que uma secretária nunca poderia gozar destes mesmos privilégios.

O feminismo de Simone sempre esteve intrinsecamente ligado com a defesa da liberdade plena. Em “Por uma moral da ambiguidade” ela diz:

É preciso ainda recordar que o fim supremo a que o homem deve visar é sua liberdade, única coisa capaz de fundar o valor de todo fim; o conforto, a felicidade, todos os bens relativos definidos pelos projetos humanos serão, pois, subordinados a essa condição absolula de realização. A liberdade de um único homem deve contar mais que uma colheita de algodão ou de borracha: embora esse princípio não seja, de fato, respeitado, ele costuma ser teoricamente reconhecido. Mas o que torna o problema tão difícil é que se trata de escolher entre a negação de uma liberdade ou de outra: toda guerra supõe uma disciplina, toda revolução, uma ditadura, toda política, mentiras; do assassinato à mistificação, a ação implica todas as formas de submissão. Ela é, portanto, em todos os casos absurda? Ou é possível, no próprio seio do escândalo que ela implica, encontrar apesar de tudo razões para querer uma coisa mais do que a outra? (pág. 93)

Ela não se dedicou apenas a filosofia, mas também escreveu romances, entre eles “A Mulher Desiludida”.

Passo tempo demais em casa de Colette depois que ela se recuperou. Apesar da sua grande gentileza, sinto que minha solicitude corre o risco de importuná-la. Quando se viveu de tal maneira para os outros, é um pouco difícil começar a viver para si. Não cair nas armadilhas da dedicação: sei muito bem que as palavras dar e receber são intercambiáveis e como eu tinha necessidade da necessidade que minhas filhas tinham de mim. Nesse sentido nunca blefei. “Você é maravilhosa”, dizia-me Maurice. Ele me dizia isso frequentemente, a qualquer pretexto. “Porque, para você, dar prazer ao outros é antes dar prazer a você mesma.” Eu ria: “É verdade, é uma forma de egoísmo.” Aquela ternura em seus olhos: “A mais deliciosa que existe.” (pág. 145)

Conheça mais a obra de Beauvoir e acompanhe o blog Beauvoir au jour le jour.