Cadê meu blush feminista?

Texto de Bia Cardoso.

Preciso contar uma coisa para vocês, mas é segredo, tá? Existe feminista que usa maquiagem. Uau, né?

E ainda vou te contar outra coisa: Feminista gosta de várias coisas. Tem feminista que faz ótimos cupcakes, tem feminista que adora jardinagem, tem feminista que tem blog de esmalte, tem feminista que luta kung fu, tem feminista que acorda seis da manhã pra nadar, tem feminista que gosta de futebol, tem feminista que fez o layout deste blog, tem feminista que anda de moto, tem feminista que faz tricô, tem feminista que é dona-de-casa, tem feminista que ficou super feliz porque comprou um avental de cozinha bonitão.

Feminista é gente como você, mas gente que quer que as pessoas percebam o quanto as mulheres ainda sofrem sem direitos, oportunidades e respeito plenos. Então, é claro que tem feminista que gosta de maquiagem.

Feminista que gosta de maquiagem, adora fazer carão para começar bem o dia, dar aquela levantada no visu. Porém, sabe que um dia as mulheres tiveram que quebrar batons, pisar em blushes, sombras e pincés durante manifestações públicas, porque a maquiagem significava a obrigatoriedade de ser um estereótipo de mulher que deveria ser sempre bela, sorridente e resiliente, numa época em que os únicos papéis aceitáveis socialmente para as mulheres eram o de mãe e esposa.

A crítica que fazemos atualmente refere-se ao fato de que a maquiagem é utilizada, especialmente pela indústria como uma forma de restringir as belezas femininas, as formas de se sentir bela, corroborando padrões estéticos constantemente divulgados pela mídia. Nessa propaganda de O Boticário chamada Repressão, por exemplo, a mensagem passada é que num mundo sem maquiagem, sem vaidade, todas as mulheres seriam feias e iguais e nós sabemos que isto não é verdade, as pessoas tem belezas plurais com ou sem maquiagem e isso deve ser valorizado. Inclusive, muitas vezes a indústria da beleza age dessa maneira repressiva e impõe padrões que pasteurizam as mulheres.

É preciso refletir sobre o quanto pequenos truques que fazemos com maquiagem estão ligados a imagem que projetamos de nossos rostos e corpos, a ponto de que se eu estiver sem um lápis de olho não me reconheço mais, sinto-me inferior. É absurdo que em vários empregos mulheres sejam obrigadas a usar maquiagem, muitas vezes sem nem receber um auxílio de custo para comprar bons produtos, já que o uso diário de maquiagem pode prejudicar nossa saúde.

Então colega, o que queremos para homens e mulheres é que você sinta-se livre para arrasar na maquiagem num dia e sair de cara limpa no outro, sentindo-se bel@ e livre, sem imposições. Porque é claro que homem também pode usar maquiagem. David Bowie está aí desde sempre provando isto.

A minha dica de hoje para você que gosta de maquiagem são os vídeos do Beauty Drops da Paola Gavazzi. A Paola não tem uma beleza-padrão, faz muitas caretas nos vídeos e dá dicas exatamente mostrando que não usa a maquiagem para ser a mulher mais escandalosamente linda do lugar, ou para tentar ficar igualzinha a atriz da capa da revista, mas sim para se sentir mais bonita num dia em que o humor não tá legal, que olho tá um pouquinho mais caído, que a olheira de panda tá despontando mais que nos outros dias. Além disso, os vídeos são super bem editados e a Paola é engraçadíssima, cheia de gírias e muito humor.

Outra coisa que acho bacana na Paola é que ela prega muito a questão da autoestima, da brincadeira que é se maquiar. No post “A” Make ou “O” Make? Ela fala um pouco de etimologia das palavras e como gêneros da linguagem podem influenciar conceitos que acabam se tornando culturalmente restritos. E no fim o recado dela é claro e bacana: Maquiagem serve para homens e mulheres. O que importa é maquiar, brincar e melhorar a estima! Confere aê!

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Um discurso em nome das jovens mulheres brasileiras

Texto de Priscilla Caroline.

No dia 01/03/2011, discursei no Senado Federal, na sessão solene do Dia da Mulher. Sou feminista, estudante de ciência política e integrante do DCE da UnB. Fui convidada para representar e falar em nome das jovens mulheres brasileiras que sonham com um país mais justo e igualitário, com oportunidades e respeito para homens e mulheres.

Meu discurso busca representar muitos de nossos desejos e nossas esperanças. Pois, quando a vida da mulher muda, toda a sociedade se beneficia com as mudanças. A eleição de Dilma representa uma grande conquista para as mulheres, mas sabemos que isso nos traz novos desafios e novas lutas pelo reconhecimento dos direitos das mulheres.

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Primeiramente,  quero agradecer o convite da senadora Marta Suplicy, vice-presidenta do Senado, para a participação nesta sessão solene tão importante, em homenagem às mulheres. Quero manifestar também minha admiração pelo trabalho das cinco vencedoras do Diploma Cidadã Bertha Lutz, homenageadas nesta sessão.

A todos os presentes, agradeço antecipadamente a paciência de me ouvir por alguns instantes.

A tarefa que me foi dada é realmente muito difícil. Fui convidada para falar em nome das mulheres jovens deste país. Representá-las neste breve discurso, quanto às suas expectativas de futuro, o que esperam, o que desejam. Mas como falar em nome das tantas mulheres jovens deste país que lutam diariamente contra formas de violência diversas, explícitas ou não, contra uma opressão silenciosa, que as impede de realizar seus sonhos?

Eu talvez tenha algumas respostas, formuladas pela reflexão sobre a minha trajetória pessoal, a minha militância no movimento estudantil e no movimento feminista. Tive a oportunidade de conhecer, ao longo dos meus poucos 21 anos de vida, mulheres fantásticas, que me ensinaram muito e me sensibilizaram para a condição feminina.

A primeira delas foi a minha mãe. Cabeleireira, enfrentou com garra e coragem o desafio de criar três filhas sozinha. Contra tudo e contra todos, fez da sua vida um exemplo de disposição, não só para as filhas, mas para as que a cercam. Lembro até hoje da militância dela no sindicato, na prefeitura comunitária, mas também na luta no dia-a-dia do trabalho, incentivando as mulheres para lutarem por seus direitos.

Na escola, sempre pública, foram as minhas professoras, as colegas com quem convivi. Decidi fazer Ciência Política, pensando ser esse o caminho para de alguma forma conseguir mudar as coisas, entender como o sistema funciona para melhorá-lo.

Bom, imaginem o choque para uma adolescente, filha de cabeleireira, moradora de Samambaia, chegar à universidade, um mundo completamente diferente daquilo a que eu estava acostumada. A forma de me adaptar foi através da militância no movimento estudantil. Nele eu percebi que o meu desconforto com as formas de “zuar” alguns tipos de pessoas, tinha nome e se chamava preconceito. Descobri que a minha mãe é uma feminista autodidata, mas que também haviam outras que estudam e escrevem sobre a condição das mulheres. Eu comecei a perceber que essa forma de violência chamada machismo estava tão enraizado que eu precisava lutar contra ele inclusive dentro de mim mesma. Quantas vezes eu não caía na explicação “Ah, mas homem é assim mesmo…”…

O movimento estudantil me ajudou a formular aquilo que eu pensava, mas não conseguia compartilhar. E isso ainda no Centro Acadêmico. No DCE, nós já tínhamos bancado a discussão de gênero antes mesmo da chapa ser eleita, garantindo a paridade entre homens e mulheres no grupo de coordenação geral. Mais recentemente, quando decidimos enfrentar a discussão sobre o trote violento, vieram as ovadas. Para quem não acompanhou, um curso da universidade resolveu “radicalizar no trote” (eles acham que ficou mais tranqüilo, eu acho que sempre foi péssimo) e colocaram uma menina para lamber uma lingüiça lambuzada de leite condensado. Depois disseram que a gente exagerava, que era só uma brincadeira. Ok, e qual é o limite de uma brincadeira “saudável” para uma forma de violência? Nessa lógica, eu teria que perdoar quem agride a companheira porque ele também diz que ama. Eu aprendi a enfrentar essas coisas enquanto membro do DCE. E, de alguma maneira, eu sinto que concretizo minha disposição de ir mudando as coisas nesse trabalho de formiguinha…

Através desse trabalho em fui aprofundando, me sensibilizando com as histórias das pessoas. Afinal, através dele eu conheci outras pessoas, igualmente fantásticas, dispostas a lutar por todas as mulheres. Mulheres negras, brancas, indígenas, jovens, velhas, ricas e pobres.

Aliás, cabe lembrar que se hoje as lutas são diversas é porque há mais de cem anos o movimento feminista passou a reivindicar o direito ao voto para as mulheres. Embora tenha se propagado a história do incêndio em uma fábrica dos Estados Unidos como origem do 8 de março, a história verdadeira é que esta foi a data escolhida pelas mulheres socialistas, em homenagem às diversas manifestações sufragistas ao redor do mundo. Não que a história do incêndio não seja de todo mentira, e nem as greves contra as condições precárias de trabalho foram, mas talvez devamos lembrar que as motivações para a data partiram daquelas que acreditavam que a transformação do mundo passava pelo reconhecimento do direito político das mulheres. Apenas às vésperas dos cem anos dessas mobilizações começamos a conquistar postos de comando na política. Há exatos 74 anos as mulheres conquistaram o direito ao voto.

E somente passado todo esse tempo, temos a nossa primeira presidenta.

Mas a luta feminista se diversificou, senhoras e senhores. Hoje lutamos também pelo fim da violência. Pelo fim da criminalização do aborto. Pelo fim da discriminação contra homossexuais. Pelo direito à concepção, ao acompanhamento e ao parto humanizado. Lutamos também pela igualdade dos salários e pelo incentivo à ascensão aos postos de comando.

Em um país onde mais da metade da população é formada por mulheres, é muito estranho que sequer alcancemos 30% de candidatas. Será que somos só nós, feministas, que achamos que tem alguma coisa errada? Que forma de ignorância é essa, que nada tem a ver com o nível educacional, que insiste em tentar convencer as mulheres de que elas são inferiores? Ou pior, que são superiores nos seus lugares “naturais”, que se limita à casa e aos cuidados com a família.

Hoje, eu falo em nome de tantas mulheres que não podem estar aqui, neste plenário, para reivindicar de alguma maneira os seus direitos. Para mim e para muitas dessas mulheres, um bom futuro é a possibilidade de viver uma condição feminina de igualdade, onde possamos ser reconhecidas pelas nossas competências, não tendo que lidar com o machismo que nos oprime de diferentes maneiras. O futuro que eu e minhas companheiras queremos é o de um país capaz de entender que somos cidadãs, que podemos decidir sobre o nosso corpo, que podemos lutar pelos nossos direitos e chegar de forma digna aos altos postos de comando.

Eu falo em nome das mulheres jovens e de tantas outras que lutam por um mundo melhor.

Obrigada! 

O que o feminismo tem a ver com você

Texto de Maia Cat.

Essa não é uma idéia nova, nem mesmo nesse blog, mas sinto que é preciso retomá-la constantemente. Há o senso comum de que o feminismo é uma luta só das mulheres e só para as mulheres. E, principalmente, que é a luta já ganha por direitos e mercado de trabalho. Que hoje em dia se resume nas campanhas contra a violência doméstica (que aliás, não é doméstica, é uma violência social contra a mulher, refletida no ambiente doméstico).

Assim, o feminismo é visto como uma luta específica, que não afeta positivamente a vida dos homens ou das mulheres, que consideram que o feminismo é ultrapassado.

Mas ele é uma luta humana. Prevê direitos iguais para homens e mulheres, mas, acima de tudo, liberdade. O feminismo abarca, em si, várias lutas: a d@s gays, bis, dos direitos humanos em geral, d@s negr@s, das mulheres e dos homens. Porque o que nós queremos é que uma mulher possa trabalhar em qualquer área, sim, mas o mesmo vale para os homens. Que um homem possa ser qualquer coisa, sem sofrer preconceitos, que se ele quiser tricotar, que tricote. Se a mulher quiser dirigir um trator, que dirija. Que ninguém seja mais ou menos por isso.

O que o feminismo quer não é que um sexo vença o outro. O objetivo é que o gênero não seja uma prisão, que ninguém seja limitado a nada só porque a sociedade enxerga determinadas coisas como femininas ou masculinas. Que futebol, novela, filmes, livros, músicas sejam humanos, não masculinos ou femininos.

Que uma mulher possa ser enxergada como uma pessoa completa e sujeito e não como um corpo-objeto e passivo. Que as relações sexuais sejam muito mais libertadoras, fora das amarras heteronormativas e das fantasias industrializadas que pregam a submissão e humilhação da mulher perante o poder masculino. Que as relações de amizade entre homens e mulheres possam ser plenas, sem hierarquias previamente determinadas, que a mulher possa ser ela mesma e o homem possa ser ele mesmo, que os dois possam falar a mesma língua.

O feminismo quer que uma mulher possa ser muito mais do que mãe de alguém, do que esposa ou filha de alguém. Que o homem não seja o único responsável da família. Que o homem possa ficar em casa cuidando dos filhos, se o casal assim o preferir. Que ambos os pais sejam responsabilizados pelo que acontece com os filhos. Que a mulher tenha um tratamento digno nas delegacias e não sofra assédio ou abuso sexual constante nas ruas.

Que  gays não sejam discriminad@s (nem que ser “mulherzinha” seja um xingamento), que negr@s possam ter automaticamente o respeito que @s branc@s já têm garantidos para si, que as mulheres possam ter automaticamente o respeito que os homens já têm garantidos para si.

É por isso, e por muito, muito mais, que o feminismo tem a ver com você. Tem a ver com a sua liberdade e com a liberdade das pessoas que te rodeiam. O machismo, para usar uma comparação tosca, é o grande bullying da humanidade: azucrina, maltrata, violenta, tira sarro, reprime, qualquer um que seja “diferente” de suas normas. E é por isso que essa luta não é só nossa. É sua também.