A página da história que as brasileiras estão escrevendo

Texto de Adriane Rampazzo para as Blogueiras Feministas.

Há 8 meses acompanho, de longe, a efervescência do Brasil. Se é verdade que de longe se consegue ver e perceber melhor a vida de todos os dias, tanto melhor quando o observador, ainda que geograficamente distante, continua muito próximo – e talvez mais do que antes – do seu pequeno universo.

De tudo que vi acontecer até agora, o que mais tem me chamado atenção – e alegrado muito, é bem verdade! – tem sido a ampliação dos debates “feministas” (e as aspas aqui me socorrem da necessidade de, nesse momento, discorrer sobre conceitos e ou teorias, ao que não me pretendo). Brasil afora, nos últimos meses, pulularam discussões que perpassaram pela recorrente tentativa de culpabilização da mulher, como meio para legitimar a violência de gênero, como no caso do vídeo amplamente divulgado em que um marido agride a mulher ao flagrá-la saindo de um motel com outro homem, pela denúncia de abusos através da #meuamigosecreto, pela polêmica ‘do shortinho’ em Porto Alegre até as recentes manifestações em apoio à adolescente carioca vítima desta ignomínia que é o estupro, terrivelmente agravado em seu modus faciendi coletivo.

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O carnaval de Berlim: entre festa popular e culto ao exótico

Texto de Tai Linhares para as Blogueiras Feministas.

“Vamos lá, vamos fazer bonito. Estou orgulhosa de vocês!”, todos batem palmas após as palavras de motivação da coordenadora de um dos grupos que participa pela primeira vez do Carnaval das Culturas de Berlim. Mesmo sem nenhum apoio financeiro, a associação dedicada a falantes da língua portuguesa ensaia às pressas sua coreografia na Urbahnstraße, ponto de concentração para o desfile que percorreria 3,5 km naquele domingo de pentecostes. Junto à associação lusófona, caminhariam outros 61 grupos, dentre eles, 6 escolas de samba.

O carnaval berlinense teve início em 1996 sob a organização do Werkstatt der Kulturen e com grande adesão da comunidade brasileira. Reafirmando a tradição do samba e do candomblé, o evento foi uma resistência ao desencantamento das ruas do bairro de Kreuzberg. Rápido, o carnaval tomou corpo, transformando-se em festa de rua. Em 2015, o espetáculo foi assumido pela prefeitura de Berlim, depois de desentendimentos com a organização anterior, além de forte descontentamento de 13 grupos veteranos, que exigiam da prefeitura maior apoio financeiro e de infraestrutura.

Minha aventura no carnaval este ano seria única. A última vez que havia desfilado na minha vida foi aos 8 anos em uma parada escolar de 7 de setembro. Duas décadas depois, aqui estou eu em Berlim com uma cabeça gigante de papel machê, uma tradição transversal que une Olinda ao norte de Portugal. O nosso carro de som não tocava apenas Jota Quest, rolaram uns artistas da África lusófona e até mesmo de Portugal. Fiz questão de desfilar para alargar a minha percepção sobre a sucursal berlinense do maior espetáculo da terra. Minhas conclusões compartilho com vocês agora.

Carnaval das Culturas 2014. Berlim, Alemanha.  Foto de Rainer Jensen/dpa.
Carnaval das Culturas 2014. Berlim, Alemanha. Foto de Rainer Jensen/dpa.

Uma volta ao mundo sem sair do lugar

O Carnaval das Culturas é divulgado como a representação ótima da Berlim cosmopolita, símbolo de sua tolerância e paixão por tudo o que é diferente. A vocação “multiculti” da cidade é indubitável, mas vale questionar o porquê da ausência no desfile de representantes das culturas alemã, francesa, suéca e inglesa, por exemplo. Nenhuma moça sequer vestida em dirndl, vestido tradicional da Oktoberfest, nenhuma holandesa em trajes nacionais ou escocês em kilt tocando gaita de fole. O mais perto que chegamos da Europa nesse carnaval, foi através dos bonecos “cabeçudos” de Portugal. A massa do evento foi composta por expressões estereotipadas das culturas latinoamericanas, africanas e asiáticas. A própria presença de países como Tailândia, Coréia do Sul e China, exclui absolutamente a desculpa de que a tradição do carnaval na Europa não seria tão disseminada quanto no hesmisfério sul.

A cultura apta a participar deste carnaval é claramente a cultura exótica, em sua acepção antropológica, a “cultura do outro”. A ideia por trás do evento é tão sedimentada, que a ausência da cultura européia no desfile nem mesmo é questionada. O carnaval das culturas consagra uma tradição eurocêntrica que tem início com os relatos de viagem do século XV e desemboca na ciência iluminista, em que conhecer era o primeiro passo para conquistar. A expressão do colonialismo europeu sobrevive incólume até hoje, disfarçada sob o véu do multiculturalismo. Nesse carnaval, assim como nos “shows étnicos” do início do século XX, o público se acotovela na expectativa de observar o outro em seus trajes, cenários e trejeitos. Se é possível aprender algo sobre os hábitos estrangeiros, não se tem certeza, mas a experiência de certo garante fotos sem igual (basta procurar no instagram a hashtag #kdk, com cerca de 54.000 fotos).

Virei fetiche

Generalizações à parte, quem já viveu na Europa não me deixa mentir: os europeus, ao menos os das grandes cidades, têm uma fascinação enorme por tudo o que é exótico. No pacote da tropicalidade estão inclusos terapias orientais, yoga, permanente afro e, é claro, o samba! No caso da Alemanha, esse fascínio é complementado pela baixa autoestima da geração do pós-guerra que, definitivamente, não se identifica com as tradições de seu país. O fantasma do nazismo torna toda forma de demonstração pública de orgulho da pátria ambígua, lógica que apenas é revertida em tempos de Copa do Mundo. Com esse histórico, não é de se surpreender a quantidade de alemães nas escolas de samba do Carnaval das Culturas. O imaginário do Brasil por aqui é o de povo amistoso, sensual e alto-astral. Com essa reputação, até eu gostaria de ser brasileira (mas, espera aí…).

Como brasileira, espera-se que você saiba dançar samba, como brasileiro, que seja artilheiro até no totó. Se for negro, a ginga e o batuque já vêm geneticamente programados. Já a mulher negra precisa se habituar com as cantadas dos bêbados (boa parte dos alemães são incapazes de demonstrar interesse por alguém sem antes ter bebido uma cervejinha) e com homens e mulheres brancos metendo a mão, mesmerizados, no seu cabelo crespo. Isso serve para alertar que tanto a violência da extrema direita, quanto o fascínio pelas maneiras pitorescas do bom selvagem, são duas faces de uma mesma moeda, embora o europeu médio não veja nenhuma maldade em sua atitude.

Vou citar um exemplo apenas para ilustrar a que ponto esse pensamento irrefletido pode chegar. Assim que cheguei na Alemanha, conheci uma jovem mulher camaronesa que começou a namorar um senhor alemão completamente fascinado pela África. Como refugiada, seu desejo era ter com ele um filho, para que sua situação na Alemanha fosse legalizada. Segundo ela, o homem era ninfomaníaco e, embora morasse sozinho, não permitia que ela dormisse em sua casa. Após um ano de um relacionamento doentio, ela conseguiu engravidar. O pai decorou o quarto, ao seu próprio gosto, com paisagens de savana, colcha de oncinha e elefantes de pelúcia.

O sol dos trópicos nasce para todos

Prevenindo mal entendidos, estou longe da ideia de que toda forma de interesse pela cultura do outro é racista. Acredito sim que uma relação de respeito entre as culturas pode ser constituída. Todos os que procuram se aproximar de forma autoreflexiva da realidade do outro, entendendo os limites da sua própria cultura e buscando o que as outras culturas podem lhe oferecer de novo, estão integrados em uma forma de experiência bastante distante daquela preconizada pelo carnaval das culturas. Como em toda boa caipirinha, o segredo aqui é a proporção.

Do ponto de vista imigrante, no qual me incluo, penso que não é por estar em um país “estrangeiro” que precisemos nos apegar a estereótipos nacionais. É bastante comum que a distância romantize as lembranças, tornando o maior crítico do Brasil no Brasil, consultor de brazilidade na Europa. Sejamos sensatos e deixemos o samba a quem é de samba. Existe uma demanda no exterior pela tropicalidade, cabe a nós mostrar que somos muito mais do que isso: diferentes origens sociais, gostos, sotaques, identidades de gênero e orientações políticas. No Brasil há favelado metaleiro, índio cineasta e mulher que sustenta a família sem precisar de homem. Enquanto nos contentarmos em abastecer a demanda por simplismos, nosso protagonismo estará limitado a um lugar de destaque no carro alegórico.

Autora

Tai Linhares é jornalista e mestre em comunicação formada pela UFRJ. Repórter multimídia, soma experiência em rádio, impresso, fotografia e cinema. É diretora do documentário “Tear”, que conta a história de trabalhadores da Baixada Fluminense perseguidos durante a ditadura militar. Atualmente estuda cinema documentário em Berlim, cidade na qual vive há dois anos.

Ahhh as brasileiras…

Essa semana recebi um documento, de uma amiga integrante do NIEM da UFRGS, sobre 0 trabalho que uma pesquisadora associada do núcleo esta desenvolvendo em Portugal para seu doutorado. A Mariana Selister, está desenvolvendo uma tese sobre a representação da mulher brasileira na mídia social portuguesa. Ela elaborou o Manifesto Mulheres Brasileiras – manifesto em repúdio ao preconceito contra as mulheres brasileiras em Portugal. Convido todas as amigas blogueiras a lerem, é muito interessante.

Partindo da leitura do Manifesto da Mariana, viajei em alguns minutos para alguns anos atrás quando participei da organização de uma exposição de cinema sobre a ditadura militar. Em uma reunião participaram alguns rapazes de outras regiões do Brasil. Entre as conversas que rolavam entre eles consegui perceber o interesse por arrumar uma “gaúcha” para passar a noite, volta e meia esse termo era repetido: arrumar uma gaúcha, as piadas sobre gaúchas eram frequentes… Só depois do término da reunião fui entender que o gaúcha, era o termo usado para prostituta. Depois ainda conversando com algumas colegas, recebi relatos de que em alguns telefones públicos de cidades brasileiras, nos anúncios de garotas de programa, consta o termo gaúcha, estilo gaúcha para atrair clientes. Também constam os termos baiana, carioca, paranaense para caracterizar a sensualidade da mulher no anuncio…

Ahhh as gaúchas. Mulheres belas, altas, loiras, sedutoras, ahh o sotaque, ahhh o corpo, ahhh isso e aquilo, o jeito que elas chupam a bomba do chimarrão.. hummm o que elas querem na verdade hein? Ai as baianinhas arretadas… As cariocas ousadas e de corpo escultural… Essas Baianas, as Paulistas, as Cariocas, as Paranaenses.. Ahhh essas brasileiras. No fundo a região pouco importa, somos todas mulheres, somos todas catalogadas como pedaços de carne, no qual é imputado um valor. Nosso corpo é público e domínio de um público masculino.

Imagem: Getty Images/Globo.com

As gaúchas usam jeans justo, botas de salto alto, chapéu e domam os homens na cama, as baianas são facinhas sabe? Essa coisa de carnaval e axé (sim porque toda mulher nascida na Bahia adora e sai todo ano no trio elétrico e escuta axé 24 horas por dia), as mulheres de Recife e suas sainhas de frevo bem curtinhas para seduzir os homens (sim, gurias de Recife, vocêss vestem esse traje o tempo todo), as cariocas com o corpo bronzeado e os biquínis minusculos andando pelo calçadão e dançando funk pancadão..

Temos este estigma porque somos gaúchas, baianas, cariocas? Talvez as características divulgadas de nossas regiões, a imagem que é vendida, reforce algumas caracteristicas dentro dessas categorias, mas no fundo a linha mestra é a mesma: recebemos este estigma e somos catalogadas porque Somos Mulheres! E se já não bastasse isso, nascer mulher, o sexo ardiloso, ainda nascemos BRASILEIRAS! As DEUSAS do sexo! As sedutoras, as fogosas! Se você for mulher, brasileira e negra, então? Nossa! É uma mulher indomável, incontrolavel, insaciável a procura de homens! Como foi a campanha da Devassa? É pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra.

Nós, feministas, devemos trazer para nosso dia-a-dia esse árduo trabalho de desconstruir esses estereótipos. Discutir, problematizar, parar e assistir o outro na reflexão sobre o “ser mulher”, seja no trabalho, na escola ou na fila da padaria. É necessário falar!  A cada dia que passa,  cada vez que vejo anúncios publicitários ou a grade de programação da TV aberta ou as letras de músicas, trazendo uma mulher persuasiva que consegue tudo que quer usando seus seios e bunda, mais me preocupo. Me preocupo com os estragos que esta imagem faz na sociedade. Me preocupo com os estragos dessa opressão nas meninas e meninos! Devemos dar atenção especial para as meninas e meninos. Devemos sempre que possível dialogar, trazer esse recorte para dentro da nossa rotina, do nosso cotidiano, podemos sim fazer a diferença.

“A mulher quando diz não, ela esta querendo dizer sim, a mulher é insaciável…” No fundo de cada uma dessas afirmações que colocamos aqui percebemos a mulher sob a ótica patriarcal, sob a ótica da mesma ser uma propriedade masculina, onde ela está ali para satisfazer o homem, onde seu corpo tem valor conforme a satisfação que ele pode provocar ao seu senhor. Quantas amarras, caras companheiras…

Vamos nos unir cada vez mais! Vamos repudiar toda e qualquer opressão, todo e qualquer estigma que nos é imputado. Eu acredito na mudança. Acredito sim que nosso trabalho, nossa militância possa ajudar a gestar um mundo onde você não tenha que ser santa ou puta, onde seremos mulheres livres. Cada pessoa que se liberta dessas amarras é um mundo que muda, um mundo novo que surge.