Ninguém assovia para a mulher na cadeira de rodas

Texto de Kayla Whaley. Publicado originalmente com o título: “Nobody Catcalls The Woman In The Wheelchair“, no site The Establishment em 26/01/2016. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Dentro dos espaços feministas, é assumido que #TodasAsMulheres experimentam assédio em locais públicos. As maneiras pelas quais esse assédio se manifesta — a idade em que começa, sua intensidade ou forma, as conseqüências de denunciar — podem variar dependendo das diferentes características da pessoa. Mas todas as mulheres, segundo nos dizem, conhecem o medo, a vergonha e/ou a raiva que vem junto com a atenção sexual indesejada.

É compreensível a existência dessa presunção. Quando trabalhamos a partir de um fato da realidade sendo uma verdade coletiva é mais fácil discutir as nuances, as diferenças e as complexidades envolvidas nesse miolo. É mais fácil construir discussões dinâmicas internas a partir da sólida base de uma experiência em comum.

Esta é uma suposição útil — mas também é prejudicial.

Eu sou uma mulher de 26 anos de idade que nunca foi assediada na rua. Eu nunca recebi assovios em meu caminho para a escola, ninguém buzinou para mim num estacionamento, ninguém me olhou de forma maliciosa num trem, não me apalparam na fila da Starbucks, ou qualquer outro tipo de assédio sexual que ocorrem em locais públicos. Eu não tenho medo de sair de casa porque terei que evitar homens agressivos ou insistentes. Eu não preciso mapear mentalmente várias rotas para casa, procurando locais onde eu possa ser menos abordada.

Eu não sei o que são o medo, a vergonha e/ou a raiva que vêm junto com a atenção sexual não desejada. Entretanto, uma parte de mim, que não é insignificante, deseja sentir isso.

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Fale com Veca e descubra seus babados

Todos os dias somos inundados por novos canais no Youtube. E, temos acompanhado cada vez mais mulheres usando essa plataforma para produzir conteúdo e nos aproximar de diferentes universos, promovendo uma grande variedade de maneiras de ser mulher e visibilizando nossa diversidade.

A Veca (apelido de Verônica) é uma dessas mulheres. Há algum tempo, pesquisando sobre projetos de mulheres com deficiência, conhecemos o canal: Fale com Veca. Por meio de financiamento coletivo foram produzidos 10 vídeos. Com muitas risadas e o sonho de trabalhar com o diretor espanhol Pedro Almodóvar, Veca nos leva para seu cotidiano, suas vivências, seus desejos e formas de encarar o mundo. Recentemente, ela lançou um novo canal: Babados da Veca. Decidimos entrevistá-la para que você também possa conhecê-la e descobrir como é legal conhecer uma pequena.

1. Nos vídeos divulgados em seu canal, você se chama e se refere a outras pessoas com nanismo como “pequenos”. Você pode falar mais sobre isso? É um meio de se identificarem ou de tirar o peso das palavras: anão e anã?

Então, quado estive na gringa pra fazer uns exames, descobri que lá eles se referem a nós, como “Litlle People”. Achei foférrimo e, não só eu como outros pequenos também adotamos esse termo, até por ser mais carinhoso!! Falar “anão”, não está errado, assim como falar Portador de Nanismo ou Déficit Agudo do Crescimento… ahaha mas esse é muito complicado, prefiro “Pequenos e Pequenas” mesmo!!!

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Feminismo e capacitismo

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

O assédio nas ruas ou no transporte público costuma ser um tema que aproxima as diferentes mulheres por ser extremamente corriqueiro e estar presente em todas as classes sociais. Muitas mulheres estão condicionadas a usarem determinada roupa ou a evitarem passar por determinados lugares tentando fugir dessa abordagem violenta. Mesmo com a propagação da ideia de que muitas mulheres adoram ouvir um assobio na rua, a maioria delas sabe apontar diferenças entre uma aproximação e uma violência verbal. E, nenhuma delas está livre de ser constrangida por estranhos.

Existe, no senso comum, a falsa ideia de que a pessoa que possui um corpo não-normativo está livre de assédio, abuso e de outras facetas do machismo. Porque não seria uma mulher atraente. Porque as pessoas insistem em acreditar que violência sexual e estupro tem relação apenas com sexo, quando na verdade, são demonstrações de poder. Nenhuma mulher, independente de conformação física e/ou cognitiva, está livre de assédio ou abuso. Mulheres gordas, idosas, negras, trans*, com deficiência, todas estão sujeitas a esse tipo de violência, que pode atingí-las de diferentes formas.

Nesse contexto, a mulher com deficiência muitas vezes é considerada uma “vítima perfeita”, já que é mais vulnerável fisicamente e não raro é desacreditada e ridicularizada ao relatar as violências que sofreu. A mulher com deficiência também é vista como um ser assexuado ou que deve ficar satisfeita com qualquer tipo de aproximação afetiva para não ficar sozinha.

Paralelamente, é bastante comum que pessoas com deficiência sejam retratadas na grande mídia de forma paternalista e estereotipada, de modo que passe para o espectador alguma lição de vida, de superação, algum aprendizado para o consumidor final. Porém não apenas pessoas com deficiência passam por dificuldades. Então, a quem serve a fabricação dessa hierarquização de opressões? E por que devem ser as pessoas com deficiência as portadoras dessa mensagem?

Imagem da campanha "Because who is perfect? Get closer”. A organização Pro Infirmis criou uma série de manequins com base nos corpos de pessoas com algum tipo de deficiência física. Os exemplares foram expostos em vitrines de lojas em Zurique, na Suíça, pra chamar a atenção e conscientizar quem passava para a aceitação de pessoas com deficiências físicas.
Imagem da campanha “Because who is perfect? Get closer”. A organização Pro Infirmis criou uma série de manequins com base nos corpos de pessoas com algum tipo de deficiência física. Os exemplares foram expostos em vitrines de lojas em Zurique, na Suíça, pra chamar a atenção e conscientizar quem passava para a aceitação de pessoas com deficiências físicas.

A resposta pode estar na forma como a sociedade enxerga os corpos não-normativos. A identidade social se define pela semelhança entre seus indivíduos. Ora, as limitações das pessoas com deficiência são, em sua maioria, impostas pela sociedade que as contém. A sociedade é capacitista ao excluir quem é diferente, limitando suas experiências, colocando essas pessoas com corpos não-normativos numa posição de “super-humanos”, enquanto suga suas potencialidades ao não abrir espaços para novas formas de agir, trabalhar, aprender e viver.

Em outra ponta, os corpos não-normativos quando visibilizados costumam ser ridicularizados. É comum as pessoas fingirem ser vesgas, banguelas ou dentuças, inventarem verrugas ou aumentarem extremidades como nariz e orelhas quando querem parecer feias. Há uma grande diferença entre ser “feia” por alguns minutos e ser considerada “feia” por toda uma sociedade que não a vê como uma igual.

Para quem tem um corpo fora do padrão, uma condição física ou psiquica fora do que se convencionou chamar de “normal”, há duas opções: fingir não ser assim ou ser ignorada como indivíduo pela sociedade. Não há estímulo para que pessoas com corpos não-normativos saiam de casa, frequentem locais públicos. Na maioria das vezes não há instrumentos que permitam a mobilidade, mas também há muito preconceito, individualismo e falta de paciência por parte das outras pessoas.

Mesmo estando em locais públicos, as pessoas esperam conviver apenas com seus semelhantes, não há interesse que esses espaços sejam mais inclusivos. Não há preocupação em diversificar socialmente os espaços de convivência. Em sua maioria, a sociedade continua querendo se julgar perfeita e para isso é preciso ignorar e manter longe as pessoas “imperfeitas”.

Portanto, é importante que o feminismo se preocupe em visibilizar e lutar pela autonomia de mulheres com deficiência, mulheres com corpos não-normativos, mulheres que são consideradas “incapazes”. Há questões muito específicas na luta contra o capacitismo, pensar em ações contra a violência que contemplem e respeitem essas mulheres, também é fundamental para expandir a luta por uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva.

Usar como “tática feminista” uma ação que ridiculariza mulheres com corpos não-normativos é jogar o preconceito cotidiano na cara dessas mulheres. Pessoas cujos corpos não tem a aparência ou funcionalidade que se convencionou pensar que teriam. Esses corpos e pessoas são empurradas para fora das normalidades. Essas pessoas são ridicularizadas, desumanizadas, alienadas de suas vontades, caladas de seus desejos e invizibilizadas. Para a maioria das pessoas que não sofrem diariamente com a repulsa alheia, brincar de ser repulsiva pode parecer engraçado e até mesmo astuto. Porém, ao fazer isso estamos apenas reproduzindo um preconceito para escapar de um problema. Estamos apenas oprimindo para salvar nossa própria pele.

+ Sobre o assunto:

[+] Capacitismo: discriminação das pessoas com deficiência. Por Priscylla Piucco na Capitolina.

[+] Parem de pregar pela superação. Por Mila Correa no Lugar de Mulher.