Domésticas das Filipinas: o Brasil que perpetua a senzala.

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas. 

“A língua é o de menos: passaram mais de dez babás por aqui e nenhuma dava certo, porque ficavam de má vontade”, conta Kely. “A Liza está sempre bem humorada e eu preciso até pedir para ela parar de trabalhar; o povo filipino gosta de servir”. 

“[Ela] Era incrível, fazia compras, limpava, cozinhava e dirigia. Ela até lavava o carro!”, conta. “No Brasil, babá é só babá, cozinheira só cozinha e empregada só limpa”.

Esses são dois parágrafos da matéria: Empresa ‘importa’ babás e domésticas das Filipinas para o Brasil (.pdf), publicada na Folha de São Paulo em 10/05/2015. Segundo a reportagem, com dificuldade para encontrar empregadas que aceitem dormir no serviço, famílias de classe média alta estão trazendo domésticas das Filipinas.

No Brasil, a empresa Home Staff oferece o serviço da agência Global Talent, que já trouxe 70 trabalhadoras domésticas filipinas para o Brasil. As filipinas entram no Brasil com visto de trabalho válido por dois anos, renováveis por mais dois, e ganham de R$ 1.800 a R$ 2.000 por mês. O contratante paga R$ 6.000 para a agência e a passagem da empregada. Jarid Arraes já havia publicado no fim de abril o texto: Home Staff anuncia empregadas Filipinas e causa indignação; em que fala sobre os anúncios de mulheres filipinas da empresa Home Staff e questionou: o que será que há de tão diferente nas mulheres filipinas?

De acordo com quem as oferece: “As babás filipinas são tipo os médicos cubanos, mas sem pagar pedágio para o Fidel”. A matéria também afirma que o país tem tradição de exportação de mão de obra para trabalhos domésticos. Como se a exploração de trabalhadores de países periféricos pelo mundo não fosse um dos principais problemas mundiais. Relatório de 2014 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que o trabalho forçado gera lucros anuais de US$ 150 bilhões, sendo que as mulheres são as principais vítimas, exploradas sexualmente e no trabalho doméstico. Somente na Ásia, 12 milhões de pessoas são forçadas ao trabalho forçado.

Relações profissionais escravagistas

Essa reportagem da Folha de São Paulo faz duas coisas principais:

Primeiro, mostra que a perpetuação da senzala, em que é preciso haver uma pessoa disponível 24 horas por dias para servir a família branca e rica, encontra na importação de imigrantes as soluções para os recentes avanços na legislação trabalhista brasileira das trabalhadoras domésticas. Em 2011, já surgiam notícias de famílias paulistanas contratando babás paraguaias.

Podemos até acreditar que a maior parte dessas mulheres não será submetida a condições degradantes. Porém, é absurdo que a elite brasileira ainda não tenha aceitado que uma empregada doméstica tenha vida própria e precise levar o filho no médico, ou que queira sair durante a semana para se divertir. É conivente encontrar essas mulheres desesperadas, que trabalhando nos bairros ricos brasileiros ganham mais que em Cingapura e, olha só, o patrão deixa comer bem e folgar. Não há uma defesa sobre remuneração por horas extras, não é mesmo?

Segundo, a matéria tem um caráter quase de propaganda social, porque reforça a ideia de que essas mulheres estão tendo uma vida muito melhor aqui no Brasil, já que ganham mais e podem enviar dinheiro para suas famílias. Amy Villariez, filipina, conta que com o salário no Brasil sustenta a filha de nove anos e a mãe na terra natal. Para no fim, a patroa Thalita Assis dizer: “É uma vantagem minhas filhas crescerem falando inglês e acho que estou ajudando a Amy a melhorar a vida dela também”.

Assim como em tantas relações trabalhistas que envolvem o serviço doméstico no Brasil, vemos se repetir o discurso de que “as pessoas estão ajudando”, quando na verdade deveriam ter responsabilidade social pelos trabalhadores.

A classe média brasileira insiste em manter uma relação não profissional com pessoas que fazem serviços de babá, cozinheira e trabalhadoras domésticas. Podemos perceber, na frase em que diz que no Brasil “babá é só babá” uma diminuição do trabalho, como se ser babá, trabalhadora doméstica ou cozinheira fosse uma tarefa simples e fácil, que qualquer um pudesse fazer, ou ainda que não fosse digna de direitos trabalhistas e uma remuneração adequada. Pode-se perceber no texto que muitas das mulheres que contratam esse serviço esperam quase um sentimento de gratidão das mulheres que fazem esse serviço, talvez por acharem que seja uma profissão “menor” e que deveriam agradecer por estarem sendo pagas.

Qual a necessidade de uma família brasileira rica ter uma empregada doméstica que durma no emprego e faça todo o serviço da casa? Apenas perpetuar os privilégios existentes desde o início do Brasil colônia. Ao dizer que as empregadas domésticas brasileiras “ficavam de má vontade”, a patroa entrevistada elogia automaticamente a domesticidade da empregada filipina.

Também é interessante notar como essas relações trabalhistas domésticas ainda se dão somente entre mulheres, entre patroas e empregadas, os homens, que também são patrões, nem tem seus nomes citados. Você imagina o CEO da Shell chegando para um de seus executivos brasileiros e dizendo: “não deu certo com o cara que estava nesse posto anteriormente porque ele tinha má vontade”?

A empregada doméstica filipina Amy Villariez, 33 anos, com a patroa Thalita Assis, advogada, 35 anos. Foto de Adriano Vizoni/Folhapress.
A empregada doméstica filipina Amy Villariez, 33 anos, com a patroa Thalita Assis, advogada, 35 anos, que vive com o marido, executivo da Shell, as filhas gêmeas de um ano e Amy na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. Foto de Adriano Vizoni/Folhapress.

A mídia insipiente

O texto ignora os problemas globais da exploração de trabalhadores e também o contexto social do trabalho doméstico no Brasil, que por ter a escravidão de negras e indígenas como base sempre negou direitos amplos a essa categoria.

As mulheres filipinas tem sido vítimas de exploração de mão-de-obra pelo mundo. As Filipinas, um país de quase 100 milhões de habitantes, tem um quarto da força de trabalho atuando no exterior, prática incentivada pelo governo local. Isso representa um fator importante para a economia do país, pois assim como no Brasil, o emprego doméstico não pode simplesmente ser proibido, já que muitas mulheres dependem dele. Porém, é desonesto pintar um retrato em que uma mulher é obrigada a se afastar de sua família para trabalhar em um país distante, como se isso fosse uma grande dádiva. O emprego em condições precárias não pode ser corroborado como a grande chance de uma pessoa.

Em matéria de 2010, o jornal The New York Times denunciou que centenas de mulheres asiáticas, empregadas domésticas imigrantes, fugiram de abusos e estavam vivendo em abrigos improvisados em embaixadas. Na Embaixada das Filipinas, mais de 200 mulheres estavam abrigadas em um quarto sufocante, onde dormiam sobre sua bagagem.

Na mesma data, a Folha de São Paulo também publicou a matéria: Filipinas são o maior país exportador de mão de obra no mundo (.pdf): “As Filipinas são o maior exportador de mão de obra do mundo. Na maioria, trabalham como babás, empregadas, enfermeiras e garçons. Em 2012, uma doméstica filipina na Jordânia pulou do terceiro andar para escapar de seu empregador, que batia nela com arame farpado e não lhe dava folgas. Mas o país não pode abrir mão dessa exportação de mão de obra, uma vez que as remessas dos emigrantes chegaram a US$ 21 bilhões em 2012 (quase 10% do PIB do país)”.

Dormir e morar no local de trabalho não pode ser vendido como um super benefício para a trabalhadora imigrante, isso representa perda de autonomia, liberdade, privacidade, entre outras questões que violam direitos humanos.

Nos últimos anos, o Brasil tornou-se destino de imigrantes haitianos, latinoamericanos e agora asiáticos. As denuncias de trabalho escravo, que já não eram poucas nas áreas rurais brasileiras, apontam crescimento na industria têxtil e de serviços. No fim, a reportagem ainda afirma que a Global Talent pretende importar trabalhadores filipinos com foco nos serviços hoteleiros das Olimpíadas do Rio de Janeiro, como se essa fosse uma grande oportunidade para todos ganharmos.

Como disse a jornalista Maíra Kubik: “classe social, etnia e gênero atuam imbricados para manter as hierarquias, mas ao invés de um jornalismo crítico que pense sobre isso, temos que aguentar as aspas da nossa elite escravagista”.

+Sobre o assunto:

[+] Senado aprova regulamentação da PEC das Domésticas que mais privilegia patrões. Por Najla Passos na Carta Maior.

[+] As novas cores da escravidão. Por Mariana Assis nas Blogueiras Negras.

[+] Precisa-se de meninas para trabalho infantil e escravo. Por Negro Belchior na Carta Capital.

[+] O Brasil vai desistir de combater o trabalho escravo? Por Leonardo Sakamoto no Repórter Brasil.

[+] Da responsabilidade moral à responsabilização jurídica? As condições de escravidão moderna na cadeia global de suprimentos da indústria do vestuário e a necessidade de fortalecer os marcos regulatórios: o caso da Inditex-Zara no Brasil (.pdf).