Dia Internacional da Mulher Indígena

Texto de Bia Cardoso.

Hoje, 05 de setembro, é Dia Internacional da Mulher Indígena. A data foi instituída em 1983, durante o II Encontro de Organizações e Movimentos da América, em Tihuanacu (Bolívia). A escolha desse dia foi feita porque em 05 de setembro de 1782 morreu Bartolina Sisa, mulher quéchua que foi esquartejada durante a rebelião anticolonial de Túpaj Katari, no Alto Peru. A ONU Mulheres marcou a data reafirmando o apoio às mulheres indígenas na busca por justiça e em defesa dos direitos individuais e coletivos.

Tanto no Brasil, como em outros países da América Latina, as mulheres indígenas desempenham historicamente um papel fundamental como agentes de mudança nas famílias, comunidades e na vida de seus povos. Porém, a cultura indígena sempre foi tratada com muito desprezo no Brasil, fora a imagem caricata com que os indígenas são representados e a apropriação que se faz de sua cultura. A ONU Mulheres destaca também que as indígenas são essenciais em diversas economias, trabalhando por segurança e soberania alimentar, além do bem-estar das famílias e comunidades.

As mulheres indígenas acabam sendo um grupo que pouco ouvimos falar — até mesmo pouco pensamos — quando falamos de Feminismo. Além do cotidiano indígena estar muito longe da maioria das pessoas, temos o problema do desrespeito brutal a essa etnia. Os povos indígenas brasileiros são tratados como cidadãos de segunda classe, tendo suas vidas decididas por medidas governamentais arbitrárias e vivendo em constante conflito por disputas de terras. As mulheres indígenas acabam sendo alvos de violência sexual, ameaças e assassinatos. Fora as dificuldades em relação a saúde e educação.

Em texto de 2011, Mayara Melo fala sobre alguns aspectos que afetam diretamente as mulheres indígenas brasileiras:

As mulheres indígenas são as mais gravemente afetadas pelo modelo de desenvolvimento econômico imposto no Brasil. São elas que sofrem de forma mais contundente os impactos provocados sobre o meio ambiente. Quando os indígenas perdem acesso aos recursos ambientais que garantem sua segurança e soberania alimentar, são as mulheres as mais penalizadas, pois geralmente são elas as responsáveis por cuidar da alimentação. Essa é uma característica comum a muitas comunidades tradicionais. Também são elas as mais impactadas pelas grandes obras que perturbam o modo de vida de suas comunidades. Referência: Mulheres indígenas – violência, opressão e resistência.

Violências contra mulheres indígenas

Já publicamos uma denuncia de ameaça de estupro no texto: Mulheres indígenas sofrem ameaça de estupro na Bahia. Um recente estudo das Nações Unidas ressalta que a violência contra meninas e mulheres indígenas é pouco discutida e velada na maioria dos países. Em todo mundo, povos indígenas sofrem com a exclusão social, a pobreza e a migração, além da discriminação e da invisibilidade social. O estudo mostra que a violência contra as indígenas é intensificada pelo histórico de dominação colonial, exclusão política e econômica e a falta de serviços básicos. Enfrentam ainda negligência, exploração, tráfico humano, trabalho forçado e escravo.

A exploração sexual de mulheres e meninas indígenas é um problema crescente. Esse ano, O Ministério Público Federal do Amazonas (MPF/AM) denunciou à Justiça Federal dez pessoas suspeitas de praticarem diversos crimes relacionados à exploração sexual de crianças e adolescentes indígenas, no município de São Gabriel da Cachoeira. O esquema criminoso, segundo denúncias, envolve vítimas de até 10 anos, negociadas por presentes e valores como R$ 20.

A violência doméstica também está presente no cotidiano das indígenas. Porém, por não terem participado do processo de elaboração da Lei Maria da Penha, a legislação não contempla as especificidades indígenas, como alerta em entrevista Léia Bezerra, historiadora e indígena do povo wapichana:

Os homens indígenas são violentos com suas mulheres?

A violência vem crescendo desde que os hábitos do mundo externo começaram a ser introduzidos nas aldeias, como o alcoolismo e uso de drogas. A falta de terra, de programas eficazes que tragam benefícios para os jovens, de políticas públicas em geral também fazem com que a violência aumente. Outro problema relatado pelas mulheres indígenas é que muitos homens, ao saírem para trabalhar na cidade, não são valorizados como eram antes internamente na sua comunidade. Voltam frustrados e o primeiro alvo é a família, a mulher, os filhos.

A Lei Maria da Penha contempla as necessidades das mulheres indígenas?

As mulheres indígenas não participaram da elaboração dessa Lei e, portanto, não há um olhar específico para a cultura, para as etnias. Há leis internas – os diferentes povos têm distintas formas de resolver seus problemas – que devem ser respeitadas. Buscar mecanismos externos, que não foram criados por eles, é complicado. Mas não podemos deixar de informar que existem. As leis internas devem ser valorizadas, mas para resolver problemas que foram introduzidos nas aldeias, como o álcool, precisamos da ajuda externa. Há povos que, quando um homem comete violência doméstica, retiram o agressor da aldeia para que passe um tempo prestando serviço para outra comunidade. Referência: Lei Maria da Penha chega aos homens indígenas.

 A índia Sonia Guajajara fala à imprensa após a presidenta Dilma Rousseff receber representantes dos povos indígenas, no Palácio do Planalto. Foto de Valter Campanato/Agência Brasil.
A índia Sonia Guajajara fala à imprensa após a presidenta Dilma Rousseff receber representantes dos povos indígenas, no Palácio do Planalto. Foto de Valter Campanato/Agência Brasil.

Saúde e educação nem sempre para todas

Já falamos sobre a saúde da mulher indígena no texto: Mulher indígena: como anda a sua saúde? Saúde e educação estão sempre entre os itens precários nos governos, quando se trata dos indígenas o cenário é de mais abandono. Em novembro desse ano será realizada a 5° Conferência Nacional de Saúde Indígena.

Em 2012, o Ministério da Saúde lançou um Plano de Ação com o objetivo de reduzir a mortalidade infantil e materna na população indígena, em aldeias de todo o Brasil, visando ampliar as ações de saúde indígena, com foco na atenção básica. A morte de mães indígenas muitas vezes está relacionada a falta de acompanhamento durante a gestação e o parto, além de barreiras culturais e falta de assistência médica adequada às necessidades específicas dos indígenas. É visível que, assim como as atuais políticas de saúde direcionadas a mulher, as ações do Ministério da Saúde em relação as indígenas também estão focadas na maternidade e não numa perspectiva global de saúde feminina.

Esse ano, foram divulgados dados da Pesquisa “Prematuridade e suas possíveis causas” que revelou a prevalência de partos de crianças prematuras é de 11,7% em relação a todos os partos realizados no país. Um fator que chama atenção no estudo é como a cor de pele e a etnia influenciam na prevalência da prematuridade. As mulheres indígenas apresentam o maior percentual, de 8,1%. As mulheres de pele branca respondem pelo percentual de 7,8%, seguida pelas mulheres de pele negra (7,7%), parda (7,1%) e amarela (6,3%).

Na área da educação temos destaques recentes como o lançamento do Portal Índio Educa, uma plataforma online para que os índios desenvolvam materiais didáticos que contem sua história e atualidade. E, mês passado, Wilses de Sousa Tapajós foi a primeira indígena a concluir o curso de medicina da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

As políticas públicas para Educação Escolar Indígena foram formuladas a partir da Constituição Federal de 1988, tornando-se um direito assegurado aos povos indígenas. Porém, o acesso a escolas e universidades ainda é muito limitado, tanto pela falta de escolas próximas as aldeias, como pela falta de políticas de inclusão no ensino superior.

Mulheres indígenas e política

É raro ver a presença de mulheres indígenas em espaços feministas. Esse texto é até mesmo uma tentativa de marcar uma data, pois é comum não tratarmos do assunto, nem mesmo conheço blogueiras indígenas. Há muita ignorância e estereótipos em relação as mulheres indígenas. É corriqueiro apontar que nas comunidades indígenas homens são dominantes e mulheres subordinadas, quando na verdade, as posições se alternam conforme as circunstâncias sociais.

As mulheres indígenas estão organizadas e reivindicando sua cidadania, historicamente possuem algumas vitórias, como mostra Maria Rosário de Carvalho:

As duas primeiras organizações brasileiras exclusivas de mulheres indígenas surgiram na década de 1980, sendo consideradas as pioneiras a Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) e a Associação de Mulheres Indígenas do Distrito de Taracuá, rios Uaupés e Tiquié (Amitrut). Em 2000, em Assembleia da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) foi reivindicada a criação de um espaço para as demandas das mulheres indígenas. Em 2002, no decorrer do I Encontro de Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira, foi criado o Departamento de Mulheres Indígenas (DMI/Coiab), com o objetivo de defender os seus direitos e interesses nos vários âmbitos de representação, nacional e internacional.

Em 2006, pela primeira vez na história das políticas públicas pós-Constituição Federal de 1988, se incluiu num Plano Plurianual (PPA) uma ação específica para as mulheres indígenas: o Programa Identidade Étnica e Patrimônio Cultural dos Povos Indígenas, sob a responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (Funai). Finalmente, em janeiro de 2007, foi criado, no âmbito da Funai, um departamento específico de mulheres indígenas.

A agenda de reivindicações recobre, em geral, a garantia dos territórios tradicionais, o direito à saúde e educação diferenciadas, pois o entendimento mais ou menos geral é que “o movimento de mulheres é para fortalecer o movimento em geral, a política dos povos indígenas é única”, como afirma Ângela Sacchi no artigo Mulheres indígenas e participação política de 2003. Referência: A questão do gênero em contextos indígenas.

Relatório divulgado recentemente, chamado: Cidadania Intercultural – Contribuições da participação política dos povos indígenas na América Latina; cita diversos fatores que ajudaram a impulsionar a participação política dos povos indígenas na região, mas destaca o fato de que a inclusão política das mulheres indígenas tem sido um grande desafio, uma vez que elas enfrentam uma discriminação tripla por ser mulher, indígena e pobre. Fundamental é conhecer e apoiar as demandas propostas pelas mulheres indígenas, além de lutar por seus direitos e apoiar sua resistência.

Como é a maternidade indígena no Brasil hoje?

Texto de Amanda Vieira e Isis Valle.

Neste dia 19 de abril — Dia do Índio — o FemMaterna convidou uma mulher da etnia dessana para relatar um pouco como é ser mãe indígena hoje no Brasil. Sabemos que existem muitos povos indígenas, de diferentes costumes, enfrentando situações das mais diversas e essa entrevista não tem a pretensão de falar em nome de todas as indígenas. A proposta é estimular o debate sobre a condição da mulher indígena e dar visibilidade a essa situação tão pouco divulgada pela imprensa e pelos órgãos oficiais.

Para se ter uma ideia, são escassos em nosso país os dados de mortalidade materna com recorte racial/étnico. Um estudo sobre aspectos epidemiológicos relacionados aos fatores étnico-raciais no Brasil mostrou que os piores indicadores de mortalidade em termos de causas evitáveis, a exemplo da morte materna, são relativos às mulheres afrodescendentes e indígenas, evidenciando a relação entre a raça e a desassistência à saúde de alguns grupos sociais.

Mesmo com poucos dados, sabe-se que a mortalidade materna/nascidos entre as indígenas está entre as mais altas do Brasil, juntamente com a das mulheres negras. Conforme explica a enfermeira obstétrica Alaerte Martins:

Em 2009, segundo o DATASUS, houve 1.872 óbitos declarados, sendo 25 de mulheres indígenas. Mas, como a população indígena é pequena, a relação morte materna/nascidos vivos, é a mais alta: 157 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. Já entre as mulheres negras (soma de pardas e pretas, segundo o IBGE) a relação é menor: 75 para cada 100 mil. Porém, em números absolutos é, em disparada, maior: 1.076 óbitos. Portanto, 57% do total de um total de 1.872 óbitos em 2009. Em 2009, segundo o DATASUS, tivemos 2 óbitos em amarelas, 638, em brancas e 131 em que a cor da pele não foi registrada, apesar de ser obrigatório desde 1996.

Amamentação durante as manifestações indígenas no Congresso Nacional. Foto de Alexandre Amarante no facebook.
Amamentação durante as manifestações indígenasl. Foto de Alexandre Amarante no facebook.

Por tudo isso, aproveitamos esse post para cobrar das autoridades mais atenção para a saúde das mulheres indígenas! Que elas tenham atendimento digno e sejam tratadas em suas necessidades, sem preconceitos!

Agora vamos à entrevista

Gilmara Alberta Morais Andrade pertence à etnia dessana, é coordenadora do Telecentro do Instituto Socioambiental (ISA) na cidade de São Gabriel da Cachoeira, sede do município homônimo, localizado no estado do Amazonas. Tem 25 anos, é solteira e mãe de uma filha de cinco anos. Gilmara Andrade nasceu na comunidade Ilha de Duraka e mora na sede do município há 12 anos. A comunidade Ilha de Duraka está localizada na margem esquerda do Baixo Rio Negro. Lá vivem indígenas das etnias piratapuia, tukano, dessana, baré e baniwa. As línguas faladas são o tukano e o nheegatu – línguas maternas – e o português é o segundo idioma (como o inglês para nós, por exemplo).

O município de São Gabriel da Cachoeira é localizado no noroeste amazônico, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, é o terceiro maior do Brasil em extensão territorial e o primeiro em concentração de população indígena. De um total de 37.300 habitantes, 29.017 pessoas declararam fazer parte da raça indígena no Censo 2010, mais de 77% da população. Foi um dos primeiros do Brasil a eleger um prefeito e um vice-prefeito indígenas, na eleição de 2008.

Gilmara concedeu essa entrevista via Facebook.

1. Qual a sua etnia e o que a maternidade representa para vocês? Qual é o papel da mãe na sociedade?

Gilmara – Pertenço a etnia dessana. A maternidade é um processo natural de uma mulher indígena, pois a partir disso a mulher começa a ter conhecimentos necessários que obtemos só após a maternidade, digamos que é um processo de amadurecimento. Me considero uma mãe indígena, pois passei por todo o processo de aprendizagem, de resguardos e benzimentos.

2. É obrigatório ser mãe?

Gilmara – Não, ninguém é obrigada a nada se não quiser, mas ser mãe é sempre uma coisa boa dentro da comunidade e para a família. As mulheres que não são mães geralmente cuidam dos sobrinhos mas também fazem outras atividades dentro da comunidade.

3. Você consegue pensar em problemas que atingem as mães indígenas de uma forma geral? Quais as dificuldades enfrentadas pelas mães indígenas na região do Rio Negro, tanto na cidade quanto nas comunidades?

Gilmara Andrade – Os problemas enfrentados por uma mãe indígena hoje estão em manter seus filhos dentro dos costumes, pois o acesso à cidade e à tecnologia têm enfraquecido muito e dificultado o interesse dos filhos pela cultura. As dificuldades são grandes, de diferentes tipos – o rio Negro é complexo, pois dependendo do povo você terá realidades diferentes.

Gilmara Alberta e sua filha. Foto de Lirian Monteiro com autorização.
Gilmara Alberta e sua filha. Foto de Lirian Monteiro com autorização.

4. Você poderia me falar um pouco das suas próprias dificuldades? Ou dificuldades dos dessanas? Fale um pouco da diferença entre uma mãe indígena (ou uma mãe dessana) e uma mãe não-indígena.

Gilmara – As diferenças são visíveis, pois uma mãe indígena aplica na educação do seu filho o conhecimento que seus pais lhes passam e também os dos avós. Uma mãe branca cria seus filhos de forma mais independente, sem a participação de avós. As dificuldades são das mais variadas vou lhe citar uma: dificuldade de ensinar a língua materna, visto que nas escolas só se fala português.

5. Em casa vocês falam a língua dessana? A sua filha prefere falar dessana ou português?

Gilmara – Ela já entende a língua indígena, pois em casa os avós não falam português, porém não fala ainda. E quando falar provavelmente só vai falar em casa. Essa é uma realidade aqui de São Gabriel Cachoeira [sede do município] diferentemente das comunidades em que as crianças só falam língua indígena e demoram pra falar português.

6. Pode me falar um pouco mais da diferença da maternidade em São Gabriel Cachoeira e nas comunidades?

Gilmara – As diferenças começam no parto: na cidade a mulher procura um hospital, na comunidade você é acompanhada pelos mais velhos que na hora do parto sabem como proceder, a mulher e a criança recebem todos os cuidados que ela não teria na cidade, visto que em uma comunidade há uma organização social diferente.

7. Entre os indígenas, existe realmente uma relação diferente com as crianças?

Gilmara – Na verdade, dentro de uma comunidade todo adulto tem o dever de olhar pelas crianças, mas não que isso seja uma obrigação. Assim, os adultos estão sempre de olho nas crianças principalmente para avaliar o comportamento mesmo. Os mais velhos chamam atenção da criança ou às vezes dos pais.

—–

Amanda Vieira é mãe da Sofia. Gosta de futebol, de cinema, de poesia, de política e de música, mas principalmente de deitar na rede e esquecer isso tudo. Seu blog pessoal é o Empatia.

Isis Valle desenvolve um trabalho de pesquisa sobre os indígenas do Alto Rio Negro e escreve no blog Valle Isis.

O FemMaterna é um grupo de discussão sobre maternidade com uma proposta feminista. Se quiser participar, basta pedir solicitação na página do grupo. Participe também no facebook.

A resistência dos Guarani-Kaiowá e de outros povos indígenas

Independente de ser um suicídio coletivo ou não, está havendo um massacre indígena no estado do Mato Grosso do Sul. Após receber mais uma ameaça de despejo das suas terras, a comunidade indígena Guarani-Kaiowá, da aldeia de Pyelito Kue/Mbarakay, que vive no município de Iguatemi, Mato Grosso do Sul (MS), apresentou uma carta que declara sua resistência no momento em que a morte parece ser o destino dessas pessoas, de todo um povo.

[+] Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue.

[+] Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil.

O suicídio entre os Guarani-Kaiowá já ocorre há tempos e é mais comum entre os jovens. De acordo com o CIMI – Conselho Indigenista Missionário, entre 2000 e 2011 foram 555 suicídios motivados principalmente por situações de confinamento, falta de perspectiva, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida em acampamentos às margens de estradas.

[+] Brasil: O grito da resistência Guarani Kaiowá.

Além da ameaça do rico agronégocio da região, que não encontra obstáculos para sua expansão, interpretações desencontradas da Justiça acerca dos direitos constitucionais dos Guarani-Kaiowá também têm contribuído para o clima de extrema insegurança entre os indígenas.

Em setembro, a Justiça Federal de Navirai ordenou o despejo da comunidade de Pyelito kue/Mbrakay, em Iguatemi, o que levou os indígenas a anunciar, em carta, a intenção de morrer na área caso a expulsão ocorra.

“Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS”.

Porém, é preciso lembrar que a questão indígena no Brasil não se resume a esse episódio. Em vários estados há comunidades indígenas, constantemente ameaçadas, seja pelo agronégocio, pela especulação imobiliária ou pela disputa de terras. Nos últimos nove anos, 503 índios foram assassinados no Brasil, uma média de 55 por ano. Em 2011, os estados que registraram maior número de homicídios foram Mato Grosso do Sul, Bahia e Pernambuco. No ano passado, 42 reservas foram invadidas em diferentes regiões do Brasil.

Hoje, publicamos o relato de Daiara Tukano, indígena que tem sua origem no município de São Gabriel da Cachoeira (AM) e que vivencia com sua comunidade muitos casos de violência. Porque não é de hoje que a população indígena é marginalizada.

Uma rede de pedofilia vem se consolidando no município de São Gabriel da Cachoeira (a 858 quilômetros de Manaus), no extremo norte do Amazonas, sem que os envolvidos sejam investigados e muito menos punidos. As vítimas são meninas indígenas entre 10 e 16 anos de idade. Pessoas vinculadas a instituições sociais são ameaçadas caso façam as denúncias e as vítimas são coagidas a ficarem caladas. Ver: Meninas indígenas são vítimas de rede de pedofilia no Alto Rio Negro (AM).

—–

Texto de Daiara Tukano.

Somos 240 povos e falamos 183 línguas distintas. Somos 817.963 autodeclarados ao IBGE, mas somos mais. Somos mais nos 74 pontos isolados nas florestas onde o IBGE não chega e, somos mais nas cidades onde a sociedade teima em não nos reconhecer, onde muitos de nós deixaram de reconhecer nossa origem e nossa cultura.

Nosso genocídio começou faz 513 anos com a chegada de outros humanos que não nos reconheceram como iguais. Assassinatos, abusos sexuais, escravidão, assédio moral, racismo e alienação cultural são as principais violências que assombram nossos povos e nossos descendentes desde então. A maior violência de todas ainda é a psicológica, pois a discriminação alojada no consciente e subconsciente brasileiro, século após século, pintou uma caricatura que facilitasse, justificasse e omitisse tamanha violência.

Em 1757, fomos oficialmente libertados da escravidão e, dizem que em 1888 ano da lei áurea, 80% da população brasileira era negra. Afirmam isto porque além do extermínio causado pelas guerras e epidemias da colonização eramos invisíveis e poucos se deram o trabalho de nos contar.

Em 1988, 321 anos depois de nossa “libertação” fomos reconhecidos plenamente como cidadãos brasileiros: deixamos de ser considerados incapazes… ganhamos RG, CPF, direitos e até nos tornamos “patrimônio”. Nos anos 60 a 80 houve uma redescoberta dos povos indígenas no Brasil. Não eramos mais estudados por missionários, mas por antropólogos que ajudaram a revelar um pouco de nossa realidade e a grande miséria em que nos encontramos.

Foram precisas muitas batalhas em várias frentes e de muitos povos para chegar à vitória democrática da constituinte, após séculos de colonização, escravidão, invisibilidade e chumbo.

Foto de Daiara Tukano no Santuário dos Pajés em Brasília/DF, publicada no facebook.

Parece bobo tentar resumir 513 anos em tão poucas palavras, mas Doétiro, meu pai, nasceu “incapaz”. Como sua língua era “errada”, os missionários mudaram seu nome para Alvaro. Como seus deuses não existiam, foi batizado Sampaio e não Tukano. Como eram generosos, recebeu educação, foi catequizado, completou o magistério para poder continuar a catequizar seu povo e até poderia tornar-se diocesiano e “casar”. Uma oferta de “futuro brilhante”, em troca daquilo que se configura hoje como trabalho escravo.

Essa troca não foi de todo mal. Como professor, Doétiro participou da alfabetização de seus parentes e começou uma insurgência diante da cultura cristã que lhes fora imposta. Perdeu o trabalho, mas ser considerado “incapaz” não impedia um indígena de cumprir o serviço militar, assim meu pai foi conhecer o mundo. Mal sabiam esses religiosos e esses militares que, em 1980, esse “incapaz” denunciaria na ONU a destribalização e o etnocídio praticados pela igreja e pelas ditaduras militares na América latina.

Nasci dois anos depois, filha de uma geração indígena que NÃO SE CALA.

Há quem argumente que os crimes cometidos há 500 anos não podem ser justificativa para que cada vez mais nos organizemos, politizemos e lutemos, denunciando os crimes praticados contra nossos direitos e liberdades. A falta de visão histórica dessas pessoas prolonga, de maneira sistemática, nosso genocídio. Sem conseguir evitar que este se torne cada vez mais aparente e consciente, tornando a sociedade cúmplice de uma das maiores tragédias da humanidade.

O grito de desespero dos Guarani-Kaiowá é mais um entre centenas de outros povos indígenas no mundo. Aqueles que estão à margem de uma cultura dominadora, cujos valores ironicamente consomem a si mesma.

Esta cultura que se auto-consome, consome nosso planeta. Nosso grande choque cultural está na maneira em que observamos e vivenciamos o mundo. O que para eles são minerais, plantas e animais, para nós são mãe, espiritualidade e sustento.

Temos prioridades diferentes com relação aquilo que consideramos equilíbrio global, mas ainda em minoria não nos calaremos, porque nossos territórios são nossos santuários e, é ali que construímos nossas aldeias seja na floresta ou na cidade.

Somos todos parentes.

Quando a aldeia maracanã é demolida sentimos a fratura.

Quando o Santuário dos Pajés é incendiado nosso sangue arde.

Quando os Guaraní Kaiowá morrem nossa alma grita!

Hayaya!

Duhigô Tukano / Daiara Figueroa; Brasília 24/10/12.

—–

[+] Petição que será entregue a presidenta Dilma Roussef: Salvemos os índios Guarani-Kaiowá.

[+] Abaixo-assinado Suspensão do despacho expedido pela Justiça Federal de Navirai/MS.