A resistência dos Guarani-Kaiowá e de outros povos indígenas

Independente de ser um suicídio coletivo ou não, está havendo um massacre indígena no estado do Mato Grosso do Sul. Após receber mais uma ameaça de despejo das suas terras, a comunidade indígena Guarani-Kaiowá, da aldeia de Pyelito Kue/Mbarakay, que vive no município de Iguatemi, Mato Grosso do Sul (MS), apresentou uma carta que declara sua resistência no momento em que a morte parece ser o destino dessas pessoas, de todo um povo.

[+] Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue.

[+] Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o Governo e Justiça do Brasil.

O suicídio entre os Guarani-Kaiowá já ocorre há tempos e é mais comum entre os jovens. De acordo com o CIMI – Conselho Indigenista Missionário, entre 2000 e 2011 foram 555 suicídios motivados principalmente por situações de confinamento, falta de perspectiva, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida em acampamentos às margens de estradas.

[+] Brasil: O grito da resistência Guarani Kaiowá.

Além da ameaça do rico agronégocio da região, que não encontra obstáculos para sua expansão, interpretações desencontradas da Justiça acerca dos direitos constitucionais dos Guarani-Kaiowá também têm contribuído para o clima de extrema insegurança entre os indígenas.

Em setembro, a Justiça Federal de Navirai ordenou o despejo da comunidade de Pyelito kue/Mbrakay, em Iguatemi, o que levou os indígenas a anunciar, em carta, a intenção de morrer na área caso a expulsão ocorra.

“Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS”.

Porém, é preciso lembrar que a questão indígena no Brasil não se resume a esse episódio. Em vários estados há comunidades indígenas, constantemente ameaçadas, seja pelo agronégocio, pela especulação imobiliária ou pela disputa de terras. Nos últimos nove anos, 503 índios foram assassinados no Brasil, uma média de 55 por ano. Em 2011, os estados que registraram maior número de homicídios foram Mato Grosso do Sul, Bahia e Pernambuco. No ano passado, 42 reservas foram invadidas em diferentes regiões do Brasil.

Hoje, publicamos o relato de Daiara Tukano, indígena que tem sua origem no município de São Gabriel da Cachoeira (AM) e que vivencia com sua comunidade muitos casos de violência. Porque não é de hoje que a população indígena é marginalizada.

Uma rede de pedofilia vem se consolidando no município de São Gabriel da Cachoeira (a 858 quilômetros de Manaus), no extremo norte do Amazonas, sem que os envolvidos sejam investigados e muito menos punidos. As vítimas são meninas indígenas entre 10 e 16 anos de idade. Pessoas vinculadas a instituições sociais são ameaçadas caso façam as denúncias e as vítimas são coagidas a ficarem caladas. Ver: Meninas indígenas são vítimas de rede de pedofilia no Alto Rio Negro (AM).

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Texto de Daiara Tukano.

Somos 240 povos e falamos 183 línguas distintas. Somos 817.963 autodeclarados ao IBGE, mas somos mais. Somos mais nos 74 pontos isolados nas florestas onde o IBGE não chega e, somos mais nas cidades onde a sociedade teima em não nos reconhecer, onde muitos de nós deixaram de reconhecer nossa origem e nossa cultura.

Nosso genocídio começou faz 513 anos com a chegada de outros humanos que não nos reconheceram como iguais. Assassinatos, abusos sexuais, escravidão, assédio moral, racismo e alienação cultural são as principais violências que assombram nossos povos e nossos descendentes desde então. A maior violência de todas ainda é a psicológica, pois a discriminação alojada no consciente e subconsciente brasileiro, século após século, pintou uma caricatura que facilitasse, justificasse e omitisse tamanha violência.

Em 1757, fomos oficialmente libertados da escravidão e, dizem que em 1888 ano da lei áurea, 80% da população brasileira era negra. Afirmam isto porque além do extermínio causado pelas guerras e epidemias da colonização eramos invisíveis e poucos se deram o trabalho de nos contar.

Em 1988, 321 anos depois de nossa “libertação” fomos reconhecidos plenamente como cidadãos brasileiros: deixamos de ser considerados incapazes… ganhamos RG, CPF, direitos e até nos tornamos “patrimônio”. Nos anos 60 a 80 houve uma redescoberta dos povos indígenas no Brasil. Não eramos mais estudados por missionários, mas por antropólogos que ajudaram a revelar um pouco de nossa realidade e a grande miséria em que nos encontramos.

Foram precisas muitas batalhas em várias frentes e de muitos povos para chegar à vitória democrática da constituinte, após séculos de colonização, escravidão, invisibilidade e chumbo.

Foto de Daiara Tukano no Santuário dos Pajés em Brasília/DF, publicada no facebook.

Parece bobo tentar resumir 513 anos em tão poucas palavras, mas Doétiro, meu pai, nasceu “incapaz”. Como sua língua era “errada”, os missionários mudaram seu nome para Alvaro. Como seus deuses não existiam, foi batizado Sampaio e não Tukano. Como eram generosos, recebeu educação, foi catequizado, completou o magistério para poder continuar a catequizar seu povo e até poderia tornar-se diocesiano e “casar”. Uma oferta de “futuro brilhante”, em troca daquilo que se configura hoje como trabalho escravo.

Essa troca não foi de todo mal. Como professor, Doétiro participou da alfabetização de seus parentes e começou uma insurgência diante da cultura cristã que lhes fora imposta. Perdeu o trabalho, mas ser considerado “incapaz” não impedia um indígena de cumprir o serviço militar, assim meu pai foi conhecer o mundo. Mal sabiam esses religiosos e esses militares que, em 1980, esse “incapaz” denunciaria na ONU a destribalização e o etnocídio praticados pela igreja e pelas ditaduras militares na América latina.

Nasci dois anos depois, filha de uma geração indígena que NÃO SE CALA.

Há quem argumente que os crimes cometidos há 500 anos não podem ser justificativa para que cada vez mais nos organizemos, politizemos e lutemos, denunciando os crimes praticados contra nossos direitos e liberdades. A falta de visão histórica dessas pessoas prolonga, de maneira sistemática, nosso genocídio. Sem conseguir evitar que este se torne cada vez mais aparente e consciente, tornando a sociedade cúmplice de uma das maiores tragédias da humanidade.

O grito de desespero dos Guarani-Kaiowá é mais um entre centenas de outros povos indígenas no mundo. Aqueles que estão à margem de uma cultura dominadora, cujos valores ironicamente consomem a si mesma.

Esta cultura que se auto-consome, consome nosso planeta. Nosso grande choque cultural está na maneira em que observamos e vivenciamos o mundo. O que para eles são minerais, plantas e animais, para nós são mãe, espiritualidade e sustento.

Temos prioridades diferentes com relação aquilo que consideramos equilíbrio global, mas ainda em minoria não nos calaremos, porque nossos territórios são nossos santuários e, é ali que construímos nossas aldeias seja na floresta ou na cidade.

Somos todos parentes.

Quando a aldeia maracanã é demolida sentimos a fratura.

Quando o Santuário dos Pajés é incendiado nosso sangue arde.

Quando os Guaraní Kaiowá morrem nossa alma grita!

Hayaya!

Duhigô Tukano / Daiara Figueroa; Brasília 24/10/12.

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[+] Petição que será entregue a presidenta Dilma Roussef: Salvemos os índios Guarani-Kaiowá.

[+] Abaixo-assinado Suspensão do despacho expedido pela Justiça Federal de Navirai/MS.

Mulher indígena: como anda a sua saúde?

Indígenas. Quando lemos esta palavra logo nos vem à mente pessoas seminuas, com os corpos pintados e cocares de penas na cabeça. Será que a realidade é mesmo esta?

O contato das populações indígenas com as civilizações ocidentais mudaram muito a nossa concepção de índígenas. Hoje, muitas populações indígenas estão aculturadas ao estilo de vida ocidental. Usam roupas, falam ao celular e possuem os mesmos direitos que todos os cidadãos brasileiros, incluso aí o acesso à saúde pública.

Apesar dos indígenas possuírem um status de igualdade de direitos no país, devemos reconhecer que as populações indígenas detêm demandas particulares devido aos seus aspectos culturais. Para tanto existem órgãos que cuidam dessas demandas, tais como a FUNAI – Fundação Nacional do Índio, que é responsável pela promoção da política indigenista no país.

Mulher indígena da etnia Cinta Larga. Foto: Arquivo Oficial da Funai – Fundação Nacional do Índio.

Mas quem cuida da saúde indígena?

Por muito tempo cuidar da saúde indígena foi uma atribuição da FUNAI. Então, em 2010, foi criada a SESAI – Secretaria Especial de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde, para atender a população indígena no tocante às ações de saúde para a população indígena, bem como oordenar a implementação da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas.

Mas cabe perguntar agora: quais as ações voltadas à saúde da mulher indígena?

Tais quais as políticas voltadas para a população não-índia, o tema da promoção da saúde reprodutiva é uma constante nas políticas públicas voltadas para as mulheres indígenas, com a implementação da Rede Cegonha Indígena e campanhas de câncer de útero e mama. Longe de dizer que a saúde reprodutiva não mereça atenção, mas será que a saúde da mulher indígena se resume apenas a isto?

Segundo Luciana Ferreira, no artigo “Saúde e Relações de Gênero: uma reflexão sobre os desafios para a implantação de políticas públicas de atenção a saúde da mulher indígena”, temos que:

As mulheres indígenas compõem uma parte dessa população culturalmente diferenciada que demanda a criação de uma política de saúde adequada aos múltiplos contextos étnicos dos quais elas fazem parte. A diversidade étnica e sociocultural dos povos indígenas contribui para que esse segmento populacional seja extremamente heterogêneo. No Brasil a população indígena perfaz um total de 817.000 pessoas (IBGE, 2010) organizadas em aproximadamente 270 povos, falantes de 180 línguas.

Uma pesquisa realizada pela Fiocruz revelou que cerca de 50% das mulheres indígenas sofrem de anemia grave; 15,7% das mulheres indígenas do país são obesas e 30,2% delas apresentam sobrepeso. Segundo o pesquisador Carlos Coimbra, que participou da pesquisa:

O índio no Brasil sofre com uma grande carga de doenças, com a dificuldade de acesso e a baixa qualidade da atenção médica recebida, pois, mesmo nas periferias mais pobres das cidades brasileiras, índices como esses não são encontrados entre a população não índia.

E quais são as causas para essa dificuldade de acesso apontado por Coimbra? Segundo Cristiane Lasmar no artigo “Mulheres Indígenas: Representações”, a invisibilidade sofrida pelas mulheres indígenas é reflexo da própria invisibilidade dos povos indígenas, que ainda são vistos de maneira idealizada e pouco realística.

Empoderar as mulheres indígenas é um passo importante para dar visibilidade às suas questões. Diversos movimentos de mulheres indígenas estão atuando para garantir os direitos dessas mulheres, tirando-as do anonimato para que tod@s possam vê-las e ouvir: Somos mulheres indígenas e queremos nossos direitos!

Uma semana de luta pela terra, uma semana de luta das mulheres

Voltando da minha imersão e falta de traquejo para escrever sobre os temas que me agradam, vai que começo a articular um post sobre a temática de mulher e a questão da terra e me dou conta que esta semana nos deparamos com marcos da luta pela terra no Brasil importantíssimos.

Não tem como falar sobre mulheres  e luta pela terra sem falar do Movimento Sem Terra (MST), não tem como nesta semana não lembrar dos 16 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, ainda mais para quem na época morava no estado e via cotidianamente o ar de não fiz nada do então governador do estado Almir Gabriel sobre as mortes cujo sangue jorra até hoje das suas mãos.

Desde o Massacre de Eldorado dos Carajás fazemos um ato aqui na ‘curva do S’. Um momento de denúncia, de mobilização nacional e internacional em torno da impunidade no campo. E fomos sentido como que a gente transformava isso, um imaginário de luta, de continuidade dessa luta. Que não fosse um lugar que relembrasse a tristeza, mas que trouxesse à memória uma perspectiva de continuidade. (Massacre de Eldorado dos Carajás: relatos e resistência de um povo. FERNANDES, Vivian.)

Foto de Leonardo Melgarejo/Núcleo Piratininga de Comunicação

Massacre de Eldorado dos Carajás, dia do Índio, Tribunal Popular da Terra, luta dos Pataxós no sul da Bahia… Tudo na mesma semana, no conhecido Abril vermelho do MST. Não poderia ser deixa melhor para sentar e escrever um post para o Blogueiras Feministas sobre o protagonismo das mulheres na luta pela terra, não apenas no campo, mas também na cidade.

A questão da terra no Brasil é um tema dramático não é de hoje, no campo por conta do agronegócio e o latifúndio que acaba por expulsar os pequenos produtores, ameaça ribeirinhos, quilombolas e indígenas. Sem o menor escrúpulos e até mesmo respeito a constituição federal, mas fazer o que, né? Normalmente em nosso país a justiça tem classe, cor e gênero e isso é inegável, mas não só a justiça tem isso, a luta pela terra no Brasil também.

E se colocar como protagonistas nestes espaços, mesmo quando visitamos a base destas lutas e constatamos que sua maioria é composta por mulheres de diversas idades é tão adverso quanto no movimento sindical, estudantil e até mesmo nos partidos.

Num dos debates acerca da chamada “questão de gênero”, ocorrido em reunião da Coordenação Nacional em agosto de 2003, Bogo, importante expoente do Movimento, identificou uma série de obstáculos culturais e morais ou mitos que impediam a participação efetiva das mulheres. Dentre os mitos, destaca os da inferioridade feminina; da representação masculina (ou da dependência feminina, sobretudo das mulheres casadas, que, na representação social do casamento, passam a depender juridicamente de seus maridos); da autorização (ou de plenos poderes ao “chefe de família”); da falta de carisma, em que a mulher é vista como “incapaz” de realizar determinada tarefa; da herança cultural, que molda o jeito de ser menino ou menina; de preconceito, que elimina a credibilidade da palavra feminina; da aparência, que determina a forma como as mulheres devem se vestir; do dever, que impõe às mulheres o acato à autoridade dos maridos; da fidelidade; da moral religiosa. (De companheira “acompanhante” à companheira de luta: as mulheres na luta pela terra do MST. GONÇALVES, Renata)

A luta pela terra e pela moradia acaba sendo uma luta das mulheres por conta da própria divisão sexual do trabalho existente na sociedade, pois se é tarefa das mulheres organizarem a vida privada, dos trabalhos de cuidado e afins é preciso haver um espaço para que esta tarefa seja realizada. Talvez esta seja uma das maiores contradições desta luta, o que impele estas mulheres à luta é o lugar onde o patriarcado as coloca. Como dar cabo da tarefa de organizar a vida privada da família sem ter onde morar?

Foto de Adriano Ferreira Rodrigues/MST

Normalmente nos esquecemos da categoria gênero e raça nestas lutas, normalmente esquecemos destas categorias sempre quando vamos analisar o conjunto da classe trabalhadora, ajudando até avaliarmos de forma distorcida o que é a necessidade da classe, qual o setor mais expropriado e como organizar este setor. A luta da terra, seja no campo ou na cidade nos coloca este desafio, quais são as pessoas em luta? Quais são as suas demandas reais? Quais são seus algozes? Para mim a luta pela terra no Brasil traz fortemente um recorte de classe, de gênero e raça, pois aqueles que estão em luta contra as desapropriações nas cidades por causa das mega-obras e no campo contra o agronegócio e latifúndio são mulheres, indígenas e negras.

Dentro do movimento, é impossível acreditar que não existam desigualdades de gênero, já que este é formado por indivíduos que possuem seus valores, desvios, práticas disseminadas ao longo dos tempos. Através das lutas e diversas formas de formação que sua base e militância buscam ter saltos de consciência rompendo com a ideologia dominante. A mais interessante colocação aparece quando a proposta do Coletivo de Gênero não prioriza a luta pela igualdade de gêneros em detrimento da luta de classes. Estas duas lutas não aparecem separadamente. Podemos concluir este fato tendo em conta as pautas de discussão das reuniões promovidas pelo Coletivo de Gênero. São abordados diversos assuntos, que priorizam questões específicas e dirigidas às mulheres, assim como assuntos amplos e dirigidos às ações da organização dos trabalhadores de forma geral. A partir desta concepção entendemos que as mulheres do MST não procuram assumir as direções, mas sim, que elas possuam consciência de classe, com compromisso com a classe trabalhadora, e que tenham ainda condições iguais para militar e dirigir o movimento, de serem sujeitos e não apenas “objeto da história”. Romper com a consciência social burguesa, como podemos notar nesta passagem de um texto produzido pelo Coletivo de Gênero (s/d, mimeo), significa não somente um rompimento e constituição de novos valores culturais. Esse rompimento se dá por dentro de um rompimento muito maior, que é a emancipação da classe trabalhadora. (O papel da mulher na luta pela terra. Uma questão de gênero e/ou classe? JUNIOR, Antônio Thomaz)

Este final de semana aqui em São Paulo vai acontecer o Tribunal Popular da Terra, onde diversos movimentos sociais irão julgar o Estado brasileiro sobre os crimes cometidos na questão da terra, ou seja, o caso de Iaras, Belo Monte, Curitiba, Obras da Copa e Olimpíadas, Pinheirinho, Criminalização de militantes e a perseguição dos Guarani Kayowá no Mato Grosso do Sul. Todas estas lutas referentes a questão da terra, referentes a moradia também, ao lugar onde a família se organiza, ou seja, luta de mulheres por conta da tarefa dada a nós nessa sociedade patriarcal, luta que tem cor, classe e gênero e enquanto não nos apercebemos disso em nossas análises teóricas, conjunturais continuaremos a levar um caldo da história. Direito a terra é direito humano, é direito das mulheres.