Ela é sapatão…

Texto de Tamires Marinho para as Blogueiras Feministas.

De repente… onde está a garota talentosa? A aluna dedicada? A boa atleta? A menina inteligente? A filha carinhosa? A mulher bem-sucedida? Simplesmente, se vincula toda uma existência, ignorando todo o resto, a uma mera condição sexual. O que importa, não é mesmo? Ela é sapatão.

Enquanto produzia esse texto, numa conversa de boteco escutei um relato de uma amiga bem próxima, que elucida bem tudo que foi dissertado acima. Ela, uma moça muito responsável, profissional e competente, entrara numa nova empresa, devido a indicação de um parente. Tudo corria bem, mas sem muitos porquês e com desculpas esfarrapadas seu chefe a dispensou três meses depois. Ok, coisas da vida, não é mesmo? Deve ter sido por causa da crise. Na na ni na não, descobriu-se posteriormente pelo mesmo parente que a havia indicado, que o ex-chefe havia descoberto sua orientação sexual e que era esse o verdadeiro motivo de sua demissão.

Em palavras duras e diretas, não importa o quão gentil, empática, simpática, bondosa, uma mulher gay seja. No final de cada elogio, existira um… mas… “Que desperdício a moça é sapatão”… Meus amigos me falaram isso, meus pais me falaram isso, desconhecidos vivem me falando isso. Mais clichê? Impossível.

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Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual?

Texto de Lorena Varão para as Blogueiras Feministas.

13 de Dezembro, Recife-PE.

Fiz terapia por uns três anos. Na verdade, acho que ainda faço. Uma das técnicas que minha terapeuta estimulava era o uso da escrita. Geralmente, ela me indicava uns filmes e eu fazia uma resenha ou escrevia livremente sobre qualquer coisa que eu estivesse sentindo. O esquema era: eu escrevia e enviava tudo por e-mail. Era libertador. Nunca liguei muito pra gramática, nunca liguei muito pra textos muito densos e prolixos, apenas escrevia. Perdi isso nos últimos dois anos.

Ocorre que 2016 e 2017 foram anos extremamente intensos pra mim. Muitas coisas aconteceram comigo e com pessoas próximas. Fui guardando tudo isso e elaborando textos na minha cabeça, mas os mantive em silêncio.

Essa semana fui questionada sobre o meu processo de “saída do armário”. Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual? A tão temida “saída do armário” sempre é um tema recorrente em todas as rodas ou papos sobre a vivência LGBT. Eis que resolvi escrever sobre o assunto.

A intenção não é formular um texto de formação política ou coisa do tipo, mas tão somente registrar minha vivência enquanto mulher lésbica. Sempre vejo esses textos nos blogs feministas e penso: poxa, eu poderia ter escrito isso! Então, o objetivo é simplesmente socializar essa vivência e aproveitar a coragem que duas garrafas de vinho me deram.

Assim sendo (adoro essa expressão, não sei porquê!), tudo começou quando eu tava na alfabetização. Teresina, Piauí. Bairro Bela Vista II, zona Sul. Eu era extremamente apaixonada por uma professora minha. Tinhamos aula dela umas duas vezes por semana. Nesses dias, eu sempre acordava bem cedo, me arrumava mais, me perfumava, ficava extremamente ansiosa. Sempre que a via meu coração disparava loucamente! Acho que foi minha primeira paixão de fato. Não recordo minha idade na época, mas tudo era tão inocente que não conseguia dimensionar aquilo que eu sentia. Era uma admiração, uma vontade de tá perto, uma necessidade de que ela me enxergasse e me quisesse por perto também… Pra vocês terem noção, eu cheguei a entrar na igreja dela só pra poder vê-la todos os domingos no culto.

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Sapatão Bissexual, prazer!

Texto de Jussara Cardoso para as Blogueiras Feministas. 

Sapatão, sapata, sapatona, caminhoneira, bofinha, fancha, masculina, entendida e outras palavras, são termos que ouço direcionados a mim desde criança. Fui uma criança sapata/sapatinha, sou hoje uma adulta sapatão. Boa parte da minha infância e adolescência, sempre preferia roupas consideradas masculinas. Gostava de brincar, correr, pular e quando estava de vestido não podia brincar com tanta liberdade. Então, odiava usar vestidos e saias. Mas o fato de eu odiar saias porque não me deixavam brincar usando elas, acredito não ter sido considerado por muitas pessoas. A conclusão óbvia era “essa menina vai ser sapatão”, afinal ela se veste “como um menino”. “Veste outra coisa, tá parecendo homem”, deve ter sido a frase que mais ouvi em toda a minha vida.

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