Lesbianidade: uma forma de resistência

Texto de Jully Soares.

LÉSBICA.

1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.
1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.

Quando se deparam com essa palavra, a maioria das pessoas logo é remetida à uma outra palavra: SAPATÃO. Trazendo imagens de mulheres masculinizadas e que, sem vergonha, assumem “gostar de mulher”. Não raramente, junto com essas imagens surgem também explicações de porque aquela mulher é assim. Provavelmente ela se envolveu com um homem que a magoou demais — desistindo, assim, dos amantes do sexo masculino. Ou, quem sabe, ela admira — ou inveja — tanto os homens que gostaria de ser como eles. Se for feminista, então, pronto! Ela é sapatão porque tem raiva demais dos pobres homens e, na verdade, inveja o poder que eles tem com o pênis que carregam entre as pernas.

Ah, mas com o mudar dos tempos agora temos outras imagens das LÉSBICAS — aquelas que, obviamente, não serão de maneira alguma relacionadas a palavra SAPATÃO. São as mulheres lindas que gostam de mulheres. De preferência brancas, loiras, altas, totalmente dentro dos padrões de beleza. Femininas, dóceis e amantes de mulheres.

Ou seja, prato perfeito para o desejo sexual masculino. São aquelas que aparecem acompanhadas por outras mulheres iguais a elas; aquelas que fazem sexo ou amor com outra mulher enquanto desviam o seu olhar para o olhar do homem por quem elas desejam ser olhadas. São as lésbicas que são alvo constante dos convites dos casais heterossexuais para fazer finalmente aquele ménage que eles (ele) tanto sonharam ou que já fazem habitualmente.

É interessante observar que, seja na imagem da lésbica ou da sapatão, a relação entre duas mulheres sempre é vista a partir da relação entre um homem e uma mulher que é, obviamente, “A” relação que norteia todas as outras na sociedade em que vivemos.

Assim, a lésbica é vista como uma mulher “masculinizada” (ou seja, um homem!) que se sente atraída fisicamente por outra mulher (tal qual deve ocorrer com os homens); como uma mulher que fracassou na relação que deveria ter com algum homem; como uma mulher que amou tanto os homens, que os admirou tanto a ponto de fazer tudo errado e decidiu ser exatamente como eles, se interessando por uma mulher e tentando fazê-la feliz com a sua suposta masculinidade; ou ainda como aquela que realizará de pronto todos os desejos sexuais masculinos, oferecendo mais uma mulher (uma outra, uma mulher extra) para os homens fazerem de seu objeto (objeto, mesmo) sexual.

Ora, o que todas essas imagens pretendem esconder é o que a lesbianidade realmente significa nessas sociedades que concebem mulheres como seres feitos para ficar com os homens, para servir aos homens. A lesbianidade tal qual ocorre no dia-a-dia, entre mulheres, sem o olhar opressor do patriarcado, do sexismo e do machismo torna-se, em verdade, uma força que ameaça a ordem vigente. Ameaça porque questiona uma ordem que determina que as mulheres precisam dedicar suas vidas aos homens para serem felizes e, que só assim poderão sentir-se realizadas.

Falo, nesse ponto, sobre a heteronormatividade. Aquela que, obviamente, incide sobre mulheres e homens dizendo com quem elas e eles devem se envolver e relacionar, sexual e afetivamente. Homens com mulheres e mulheres com homens — simples assim, essa é a regra. O problema da lesbianidade é que ela não só afronta a heteronormatividade enquanto recusa de uma mulher em amar um homem, em estar com um homem, como também recusa a dominação masculina que acontece exatamente na diferença de gênero — ou na diferença sexual.

Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2013. Foto de Natássya Carvalho no Facebook.
Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2013. Foto de Natássya Carvalho no Facebook.

Quando uma mulher escolhe ficar com outra mulher, ela envia uma mensagem de resistência, diferentemente do que o patriarcado diz, do que o sexismo diz, ela não precisa se curvar à suposta superioridade masculina, nem precisa de homem nenhum para viver, para ser feliz ou mesmo para se sentir satisfeita sexualmente.

É uma ameaça ao patriarcado porque é uma recusa às historinhas dos contos de fadas que dizem que, para sermos reconhecidas como “boas mulheres”, precisamos nos fazer princesas, encontrar o nosso príncipe encantado, casar com eles e ter filhos. E, é também uma ameaça porque se trata de uma recusa à prescrição atual, real, que diz que devemos nos enquadrar tanto quanto possível no padrão de beleza feminino para agradar os homens, para atraí-los em direção ao casamento, para ter filhos e nos dedicarmos à nossa romântica maternidade — cuidando sozinhas “dos filhos” do mundo enquanto nos esforçamos para viver como heroínas e trabalhadoras de sucesso, apesar de mal pagas.

Enquanto lésbicas (pelo menos atualmente), não temos de nos curvar ao gosto, às necessidades sexuais, afetivas, psicológicas e existenciais dos homens ou às suas preferências. Também estamos mais distantes de um amor romântico que, historicamente, amarra as mulheres aos homens, ao patriarcado, seduzindo-as tanto ao ponto de fazê-las ceder sempre um pouquinho mais e mais…

Vivenciando nossa lesbianidade, temos a chance de ser uma vez menos objeto — simples objeto — de desejo e de dominação masculina. E, diferentemente dos casais gays, feitos de homens, representamos a união (estável ou não) de duas pessoas que são vistas, individualmente, como sujeitos fracos, frágeis, inferiores, subalternos.

Além disso — e o que talvez seja ainda pior e mais ameaçador! —, nossa vivência lésbica inunda a sociedade da verdade de que as mulheres não estão o tempo todo interessadas em brigar entre si, em competir pela atenção ou pelo amor dos homens. A lesbianidade reforça a união entre as mulheres e prova que elas podem ser não só amigas, muito amigas, como também amantes. Elas podem amar uma(s) à(s) outra(s) verdadeiramente. E, esse amor pode ser, inclusive, um instrumento de sua luta, como já acontece dentro do feminismo lésbico. Desta maneira, a lesbianidade também é uma ameaça porque evidencia que as mulheres podem se unir para acabar com as hierarquias sociais que o patriarcado impõe. E, juntas, nossa resistência pode ser muito forte.

Por isso, as sociedades e o Estado seguem fingindo que não representamos nada, que somos “minorias sexuais”, ou que não somos, de fato, “lésbicas”. E, por isso, é ainda necessário promover um dia como esse, o Dia da Visibilidade Lésbica. Porque ainda precisamos mostrar que existimos e que questionamos o patriarcado como nenhum outro sujeito político pode fazer. Porque precisamos lembrar que as mulheres é que devem ser donas do seu corpo, do seu desejo — e que isso inclui exercer o direito de amar a nós mesmas, em todos os sentidos.

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Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.

Lésbicas: invisibilidades e violências

Texto de Ticiane Figueirêdo.

1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.
1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.

No dia 29 de agosto de 1999, pela primeira vez no país, as mulheres lésbicas se reuniram no I Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), realizado no Rio de Janeiro. Como resultado simbólico desta reunião, surgiu a sigla LGBT (acrescida então do L, de lésbicas). E, ainda como referência à conquista desta então visibilidade dentro do próprio movimento que tem como bandeira a diversidade sexual, foi instituído o dia 29 de agosto como o Dia da Visibilidade Lésbica.

Infelizmente, 14 anos depois, as lésbicas ainda não são enxergadas dentro da nossa sociedade.

Falar de visibilidade lésbica, ao meu ver, não é só falar que elas existem. É afirmar que elas existem e que são detentoras de direitos, os quais devem ser respeitados e protegidos. É respeitar a sua orientação sexual, seu corpo, seu espaço, sua voz. Visibilidade lésbica, para mim, tem que ser algo por inteiro, caso contrário, não estaremos falando de visibilidade.

A invisibilidade lésbica no discurso heteronormativo

No aniversário da Lei Maria da Penha, levantei a questão do discurso privilegiado das mulheres cisgêneras e heterossexuais, quando estas abordam a Lei 11.340/06, no texto: Lésbicas e trans* também são vítimas de violência doméstica. Porém, infelizmente não é só sob aquela circunstância que as lésbicas — cis e trans*, são invisíveis. Isto porque, quando falamos de sexo, de métodos de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, discriminação sexual no trabalho, dentre tantos outros temas que sempre estão presentes nas pautas feministas, a sororidade entre nós parece ser limitada e excludente.

Acho importante ter consciência de que nosso discurso pode ser opressor se, por conta dele, grupos de pessoas se sintam marginalizadas. Não falar da questão lésbica dentro das pautas feministas é apaga-las da história, assim como nós, mulheres no geral, fomos apagadas da história predominantemente “feita” e contada pelos homens. Olympe de Gouges que o diga.

A invisibilidade da orientação sexual lésbica

Sexo, orientação sexual e a própria sexualidade em si ainda são tabus em nossa sociedade, isto quando não são alvos de intolerância e violência como é o caso da lesbofobia, transfobia, homofobia, etc.

A invisibilidade da orientação sexual lésbica é algo que acho grave e que pode surgir da forma mais “sutil” naquele conhecido questionamento: “Mas você nunca sentiu desejo por um homem?”, no qual o interlocutor não a enxerga como uma lésbica e sim como uma mulher bissexual, no máximo. Que não vê a possibilidade de que a sua orientação sexual lésbica exista ou que no fundo, não respeita ou se importa com isso.

Não respeita porque em sua visão heteronormativa, por você ser mulher, em algum momento da sua vida vai se atrair por um homem. E, em consequência disso, é fácil perceber que em muitos casos, a sexualidade lésbica ganha “visibilidade” somente quando se faz presente em um filme pornô produzido para deleite de homens heterossexuais. O que, por sua vez, representa a predominância do machismo e do patriarcado sobre as nossas vidas e nossa sexualidade, visto que só nos “liberta” para saciar os anseios e desejos sexuais masculinos.

Ainda com relação à invisibilidade da orientação sexual lésbica, podemos verificar a questão da patologização desta conduta pela sociedade moralista e a transformação da sexualidade lésbica em pecado bíblico. Com relação à primeira questão, ainda que a Organização Mundial de Saúde – OMS já tenha se posicionado contra este entendimento, nada impediu que recentemente a ideia equivocada da “cura gay” tenha retornado aos holofotes da mídia, ainda mais porque ressurgiu dentro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados — que ao menos por zelo ao nome, deveria ser o último lugar a endossar tal atrocidade.

A questão da sexualidade lésbica como pecado é mais perigosa, porque tende a ganhar um poder de alienação maior, tendo em vista que tal entendimento advém de uma entidade cósmica de existência duvidosa — ou ao menos incomprovável — que detém, segundo ela mesma, o conhecimento supremo e irrefutável sobre a vida humana e mantém seu poder através de dogmas, que caso não sejam seguidos consistirão em castigos fervorosos aos seus pecadores.

"Você é bonita demais para ser lésbica". Foto de Grace Brown, parte do 'Projeto Unbreakable', no qual sobreviventes de abusos sexuais são fotografadas segurando uma frase do violentador.
“Você é bonita demais para ser lésbica”. Foto de Grace Brown, parte do ‘Projeto Unbreakable’, no qual sobreviventes de abusos sexuais são fotografadas segurando uma frase do violentador.

Estupro corretivo

“Você é bonita demais pra ser lésbica.”

De todas as formas de apagar a identidade lésbica, o “estupro corretivo” se mostra mais odioso, porque consiste em uma prática criminosa na qual o agressor acredita que poderá mudar a orientação sexual da lésbica através da violência sexual. Isto porque, para eles, ao praticarem tal ato, elas vão “aprender a gostar de homem”. O que não poderia ser mais desprezível e desumano.

O “estupro corretivo” é um discurso do ódio, é a exteriorização da cultura do estupro voltada para as mulheres lésbicas. Segundo a Liga Brasileira de Lésbicas, estima-se que cerca de 6% das vítimas de estupro que procuraram o Disque 100 do governo federal, durante o ano de 2012, eram mulheres lésbicas. E, dentro desta estatística, havia um percentual considerável de denúncias de estupro corretivo.

De acordo com a coordenadora da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL), Roselaine Dias, que representa a entidade no Conselho LGBT, os dados não especificam a prática de estupro homofóbico. “São 6% de violação de mulheres lésbicas. Parte deste índice é de estupro corretivo, porque temos como referência outros dados do Ministério da Saúde que nos permitem fazer um comparativo percentual coincidente”, explica. Segundo ela, a fonte reveladora da realidade de estupros corretivos é o serviço de HIV/Aids. “Temos um quadro que aponta que muitas mulheres portadoras do HIV contraem o vírus em decorrência de estupros com esta motivação”, diz.

A violência é usada, explica, como um castigo pela negação da mulher à masculinidade do homem. Uma espécie doentia de ‘cura’ por meio do ato sexual à força. A característica deste tipo de prática é a pregação do agressor ao violentar a vítima. As vítimas são em sua maioria jovens entre 16 e 23 anos, lésbicas ou bissexuais. Alguns agressores chegam a incitar a “penetração corretiva” em grupos das redes sociais e sites na internet. Referência: ‘Estupro corretivo’ vitimiza lésbicas e desafia poder público no Brasil.

Diante de todos esses fatores, o Dia da Visibilidade Lésbica não é apenas uma data, é uma representação de uma luta diária e muitas vezes invisível. Por isso, mais do que falar sobre visibilidade lésbica, precisamos dar visibilidade às lésbicas.

*Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.

Iguais, porém diferentes

Texto de Catarina Corrêa.

1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.
1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.

Mulheres lésbicas. Tanto mulheres quanto LGBTs, mas nem tão somente mulheres e nem tão somente LGBTs. É, por vezes, difícil se enquadrar em uma militância de qualquer um dos dois lados, embora seja natural fazê-lo também.

Encurraladas as vezes por militâncias LGBTs misóginas, invisibilizadas também em alguns espaços do movimento feminista, transitar em espaços aos quais supostamente pertencemos pode ser mais difícil do que parece.

Na tentativa de celebrar “O direito a ser igual quando a diferença discrimina; [e] O direito a ser diferente quando a igualdade oprime”, como sugere ser necessário Boaventura de Souza Santos, e na vontade de reafirmar que toda forma de amor vale a pena, é mais um dia de lutar pela visibilidade lésbica.

E não é que somos tão diferentes quanto iguais? Somos iguais a qualquer casal no trocar de carinhos e injúrias, que se ama e se desentende. Nosso amor é qualquer um. Como qualquer pessoa, posso encostar meus dedos nos seus ao sentar ao seu lado na mesa, e pouco me importar se vêem o entrelaçar de nossas mãos, posso suar frio, posso esperar a ligação, posso mandar uma mensagem cheia de ansiosidade e me arrepender, depois sorrir surpreendida por uma resposta correspondida.

Ilustração de Catarina Corrêa.
Ilustração de Catarina Corrêa.
Ilustração de Catarina Corrêa.
Ilustração de Catarina Corrêa.

Nosso amor pode ser igual aos outros, e você pode ser igual às outras. O nosso amor é um qualquer. As experiências de amor e de parceria, que passam e passaram, serão iguais, haverão outras quaisquer, e eu serei uma qualquer, na vida de alguma de quem não me lembrarei.

O nosso amor não é um qualquer, ser tão igual a você nos coloca em perspectivas tão particulares e distintas em relação ao nosso amor, nosso relacionamento e nosso futuro (ou não futuro) juntas. Me descobrir tão particular na minha condição de mulher e tão próxima à sua particularidade que por sua vez é tão distinta da minha me faz questionar e repensar o que é ser mulher a cada instante.

O nosso amor não é qualquer amor. Juntamos as trouxas e dobramos o guarda-roupa, dividimos TPMs e construímos um amor diferente de todos, tão nosso, tão novo e tão lésbico.

Nosso amor é qualquer um. 

O nosso amor é um qualquer, meu bem. 

O nosso amor não é um qualquer.

O nosso amor não é qualquer amor.

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*Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.