A coerência no discurso e o herege sem graça

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

O primeiro beijo lésbico na TV aberta. Tod@s vimos, comemoramos, tivemos uma certa sensação de estarmos evoluindo. É verdade. Percorremos um longo caminho até aqui. Caminho que passou, há uma semana, pela histórica decisão do STF a respeito da união estável homoafetiva. Um percurso de tolerância e respeito ao outro, que compreende momentos como o 13 de maio de 1888 e a abolição da escravatura. Como a eleição de uma mulher presidenta do Brasil. Rompemos barreiras, evoluímos, é certo. Mas é só o começo. Nossa civilidade, se assim posso dizer, ainda tem muito espaço para avançar e muitos obstáculos a ultrapassar. E eu nem estou falando de Bolsonaros, pastores evangélicos, CNBB ou algo que o valha.

Estou falando de nós mesmos. É preciso afinar o discurso. Ou melhor, afinar os nossos muitos discursos que, às vezes, de um tema para outro, perdem a coerência interna. Começa pelo discurso diário, os atos falhos, as pequenas piadas. E vai até a difícil amarração coerente das muitas causas que defendemos ao mesmo tempo.

Coerência no discurso não é coisa que se alcança da noite para o dia. É, provavelmente, trabalho de toda uma vida. É trabalho de policiamento, reeducação, autoanálise mesmo. Reconhecer os próprios preconceitos ou mesmo o reflexo do preconceito inconsciente na piadinha ou no xingamento do dia a dia. E passa, necessariamente, pela avaliação de que nossos atos podem ser, sim, a automática reprodução da má lição aprendida por anos.

Cena da novela Amor e Revolução do SBT.

Uma cena de novela é um bom começo, mas mudar a consciência coletiva e alterar mentalidades é projeto a longo prazo.  Parece-me, no entanto, o único projeto eficaz na construção de uma sociedade que realmente preze pelo respeito aos direitos humanos.

É perceptível, infelizmente, que não tem sido essa a solução pela qual tem optado mesmo aqueles mais atentos as agruras do ativismo. Tanto desse caminho já percorremos e, cada dia mais, opta-se pelo mais grave: o Sistema Penal.  E nesses temas como em tantos outros, já provamos tantas vezes, o sistema penal não se mostra eficaz. A definição de crimes para proteger bens jurídicos relevantes da sociedade é ferramenta comum do Estado. Sua utilização, contudo, deveria ser excepcional, subsidiária, aplicável quando todas as outras (muitas) ferramentas sociais se mostram ineficazes.

Antes de prosseguir, contudo, preciso abrir parênteses. Comecei falando do beijo gay na TV e estou agora falando de sistema penal. O raciocínio que aqui quero desenvolver não se refere a criminalização da homofobia, PL com o qual concordo, com algumas poucas ressalvas. A linha que quero traçar aqui é outra e esclareço agora: se de um lado temos um tribunal, canal de TV aberta e fechada (lembram disso?) acompanhando a evolução; de outro temos humoristas que não conseguem compreender o absurdo e a carga de preconceito contidos em fazer piada sobre estupro. A distância entre esses grupos de personagens sociais certamente é imensa, mas certo também é que eles fazem parte de uma única sociedade brasileira.

E isso é possível, dentre tantas razões, porque nossos discursos não se encontram e não guardam coerência muitas vezes. Acreditamos na mudança da sociedade através da educação, mas assim que um de nossos membros bem sem graça faz a piada acima referida, já logo bradamos: CRIME, PUNIÇÃO, CADEIA, FOGUEIRA.

Qual a coerência se em um momento desenhamos e defendemos tão bem a inexistência de apologia ao crime na marcha da maconha, para dizer que tal crime só existe quando representada a defesa de um crime em concreto e não um crime em tese e, em outro momento, fazemos um malabarismo e mudamos essa interpretação, antes adotada para o crime em questão, no caso do humorista sem graça? (sim, suas palavras são absurdas e abjetas, mas não, não houve crime).

E nessa de punir, punir, punir, deixamos para trás os planos a longo prazo, a necessidade de um sensato controle da mídia, a responsabilização social e civil (que pode mesmo começar com o simples ato de desligar a TV), a nossa defendida mudança pela educação.

Já se disse por aí que toda vítima  sonha com seu dia de algoz. Essa lógica vingativa e punitivista nos cega, dia após dia. Criticamos tanto a grande mídia, velha mídia (ou como você queira denominar) por seu furor punitivo e sua sede de escândalo e vingança, mas quantos blogueiros, tuiteiros ou interneteiros (?) de modo geral tenho visto reproduzindo essa mesma lógica?

Alimentar esse uso nefasto do sistema penal e reproduzir o pensamento punitivista não acaba com os comediantes irresponsáveis e sem graça, os pastores preconceituosos ou a piada nossa de cada dia. Atitude social responsável sim. Beijo gay em novela, publicidade consciente, campanhas, manifestações públicas, ou mesmo a boa e velha conversa de bar também.

E vamos deixar o direito penal para depois. Assistir mais novelas (!?) e menos humorísticos-jornalísticos.