Mulheres negras na internet

O Geledés – Instituto da Mulher Negra foi criado em 30 de abril de 1988. É uma organização política de mulheres negras, que tem por missão institucional a luta contra o racismo e o sexismo além da valorização e promoção das mulheres negras. O Instituto atua em diversas áreas relacionadas a questão racial como: educação, direitos humanos, violência, gênero, comunicação, saúde, políticas públicas e mercado de trabalho. Em todos esses temas, o Geledés desenvolve projetos próprios ou em parceria com outras organizações de defesa dos diretos de cidadania.

O Portal Geledés é a face do Instituto da Mulher Negra na internet e uma das melhores fontes atuais sobre a questão racial em língua portuguesa, com notícias diárias sobre racismo, sexismo, consciência negra, cultura e  preconceito no Brasil e no mundo. No portal é possível encontrar diversos artigos sobre a questão racial no Brasil; planos de aula para professores entre outros documentos importantes para consolidar a discussão sobre o racismo e a defesa da cidadania. O Portal Geledés é o espaço de expressão pública das ações realizadas pela organização no passado e no presente e de seus compromissos com a defesa intransigente da cidadania e dos direitos humanos.

Sueli Carneiro - Portal Geledés

Sueli Carneiro, que esteve presente no nosso Encontro Nacional em 2011, é coordenadora executiva do Portal Geledés. Além de filósofa e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo. No artigo Raça, cultura e classe no Brasil, Sueli aponta diversas contradições que impregnam o racismo brasileiro:

A fragilidade da democracia racial brasileira evidencia-se também quando se constata a desigualdade nas decisões judiciais: dados coletados em processos criminais em São Paulo atestam que negros e brancos sofrem penas diferentes para os mesmos crimes: processos referentes a roubo qualificado, por exemplo, mostram que 68,8% dos réus negros e 59,4% dos brancos foram condenados. Mesmo entre réus que constituem advogado particular, a diferença persiste: a defensoria particular logrou obter absolvição para 60% dos réus brancos, más apenas 27% dos negros foram absolvidos. Em 480 processos analisados, 27% dos brancos respondiam em liberdade e somente 15% dos negros encontravam-se na mesma situação.

No Estado do Maranhão, onde a população negra representa perto de 80% da população total, encontramos um dos maiores índices de esterilização feminina do país: 75% das mulheres maranhenses em idade reprodutiva estão esterilizadas. Em contrapartida, em Estados de maioria branca, como por exemplo no Rio Grande do Sul, o índice de esterilização de mulheres fica abaixo da média nacional, que é de 44%. Embora a incidência de miomas em mulheres negras seja substancialmente maior em relação às brancas, há uma proporção excessivamente elevada de mulheres negras histerectomizadas: 15,9% contra 3,6% das brancas: úteros desvalorizados, a poucos interessa preservar. Por outro lado, há maior incidência de perdas fetais entre mulheres negras: (17,%), do que entre as brancas, (10%).

A discriminação do negro nos instrumentos didáticos ou pedagógicos é apenas um aspecto da desigualdade no acesso à educação, que se manifesta nos índices superiores apresentados pelos negros quanto a repetência e evasão escolar, e nos índices de analfabetismo e a participação percentual ínfima nos níveis universitários. Articulada com a discriminação no acesso à educação, encontramos no mercado de trabalho a divisão racial do trabalho, encarregada de frear qualquer esforço de mobilidade social para o negro.

Assim sendo, para além da dominação de classes convive-se com a dominação de raça. Se a luta de classes sem trégua que se trava no Brasil tem por sentido estratégico assegurar os privilégios das classes dominantes, a violência racial funciona como mecanismo insubstituível de garantia de todas as posições de mando e de poder no país para o grupo étnico dominante, ou seja, os brancos. O resultado concreto destas práticas sociais é o fato de que os negros estão fora de todas as instâncias de poder da sociedade brasileira.

Portanto, no Brasil desenvolveu-se uma forma muito mais sofisticada, perversa e competente de racismo, através da qual, a intolerância racial mascarou-se em igualdade de direitos no plano legal e concretizou-se na absoluta desigualdade de oportunidades no plano das relações sociais concretas.

O racismo brasileiro está presente em situações cotidianas, mascarado por nossa pretensa falta de conflito. Por isso precisamos repensar nossas próprias atitudes, além de apoiar e divulgar ações de mulheres negras na internet. Dentro do nosso grupo há a busca pela reflexão em relação as mulheres negras e o desejo de buscar sempre o caminho da diversidade.

Charô e Lara Januário, blogueiras no encontro do LuluzinhaCamp em São Paulo/2009. Foto de Lidi Faria no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Outros sites e blogs que trazem a voz da mulher negra para a internet são:

  • Sem Medida, blog de culinária da Lara Januário.

Se você souber de outros blogs e sites sobre mulheres negras indique nos comentários. E participe da nossa Blogagem Coletiva com o tema Dia da Consciência Negra. Dias 20 e 21 de novembro escreva um post no seu blog sobre o tema e nos envie o link. Ele entrará numa lista de posts participantes que será publicada no dia 22/11.

REconhecer – Mulheres Negras

Essa semana, Leila Lopes, Miss Angola foi coroada Miss Universo 2011.  Ela é a 4° negra que venceu o concurso. Em 1977, Janelle Comissioning venceu representando Trinidad Tobago. Em 1998, Wendy Fitzwillian também venceu por Trinidad e Tobago. E em 1999, a coroada foi Miss Botsuana, Mpule Kwelagobe. Concursos de Miss são representações de uma cultura que enxerga as mulheres apenas por sua beleza e juventude. Porém, em uma sociedade racista como a nossa, ter uma Miss Universo Negra pode ser um fator positivo para auto-estima de meninas negras.

programa REconhecer é uma iniciativa da ONG Estimativa com vídeos sobre temas voltados para mulheres negras. A descrição do vídeo nos diz:

REconhecer – é descortinar o passado e redefinir o futuro. O objetivo do programa REconhecer é evidenciar a diversidade do universo feminino, geralmente apresentado de maneira reducionista e unilateral. O REconhecer é um jeito diferente de valorizar as heranças africanas: a partir da nossa voz, da nossa cara e da nossa escrita!

Em uma entrevista, Jana Guinon, coordenadora executiva da ONG Estimativa, fala um pouco mais sobre o quais os objetivos do projeto e quem são as mulheres que o buscam:

Como você define a Estimativa hoje?

A Estimativa hoje é e foi desde o início a luta pela visibilidade da mulher negra. Essa mulher que existe, que contribui, que colabora para a construção de uma sociedade melhor, mas que não é vista, não é reconhecida. Então, isso vem do trabalho de muitas ativistas anteriores a nós e que hoje se mantém atual. A situação melhorou, porque dizer que não mudou nada seria uma visão pessimista. Mas, temos consciência de que ainda temos muito trabalho a fazer. Continue lendo em Eu estou com uma esperança enorme dentro de mim.

Imagem de divulgação do Programa ReConhecer

De acordo com Charô, blogueira feminista que compartilhou o vídeo conosco:

Fala-se sobre cores, tranças, racismo, força, etc. Gosto muito dos comentários sobre as candaces e Lelia Gongalez. Sobretudo sobre a questão dos cabelos. Quando me tornei negra a primeira coisa que fiz foi parar de alisar o cabelo. Passado os anos 70, ainda é fundamental que nós negras possamos conhecer e adotar a estética negra.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=4R2ZoGYL1Vw&w=560&h=345]

Segundo Luana Diana, também do nosso grupo, a expressão, tornar-se negra é uma alusão ao livro “Tornar-se negro”, de Neusa Santos Souza:

O livro trata da construção de nossa identidade, que é envolta à constante negação de nossa alteridade. Eis o prefácio do livro: “Saber-se negro é viver a experiência de ter sido violentado de forma constante, contínua e cruel, pela dupla injunção de encarnar o corpo e os ideiais do Ego do sujeito branco e de recusar, negar e anular a presença do seu corpo negro”. Então, quando somos capazes de não mais desejar o corpo branco, que é tido como ideal, nos “tornarmos negr@s”. Passamos a nos orgulhar do nosso pertencimento racial! E isso pode ser expresso através da militância, do corte ou estilo de cabelo, da volarização de referências negras. E como eu já disse aqui, este é um processo extremamente difícil.

“Mulheres” são brancas; “Mulheres negras” são negras.

Ontem foi Dia da Visibilidade Lésbica e pipocaram aqui um monte de textos bacanas. Há alguns dias, uma de nossas autoras fez uma crítica pública, não só ao nosso blog, mas também ao feminismo como um todo, reivindicando que a condição das mulheres negras fosse uma pauta no mínimo mais frequente. Neste blog, esta ausência se refletiu no número irrisório de posts que tratam, especificamente, das mulheres negras. Como bem disse a Luana, em 282 posts somente 3 falavam sobre o assunto, sendo que 2 eram dela mesma. Daí que tivemos a oportunidade de aprender muito a partir dessa crítica, eu, Luana, e todas as outras autoras e não-autoras do blog que participam do grupo chamado Blogueiras Feministas.

Imagem da Bennetton. Divulgação

Quando esta infeliz estatística nos foi posta a olhos houve, da parte de algumas de nós, eu inclusa, a impressão pouco crítica de que o fato dos outros 279 posts não falarem sobre as mulheres negras não necessariamente significava que falavam sobre as mulheres brancas. Até que azamigue mais afiadas vieram com a novidade para a qual – pasmem – não tínhamos nos atentado até então: quando não se diz a cor, a etnia, a raça, ela é branca, ocidental, europeizada. Oras, não é uma das reivindicações do feminismo dar visibilidade às mulheres? Frisar que estamos aqui, que o coletivo plural no masculino não nos contempla? Então como não havíamos, esta fatia das BF, imaginado que quando não dizemos a cor, a cor é branca?

Simples. Somos brancas. Majoritariamente brancas. A internet é um ambiente majoritariamente branco. Mas isso vai além da cor da pele. Ser branco, ser negro, ser oriental, são questões que passam diretamente pela identidade com aquele biotipo étnico. E de onde vem a identidade? Da educação, da mídia, da televisão, dos jornais, das novelas, da família. Ah, a família… Espaço privilegiado de reprodução e manutenção do status quo, essa nossa velha companheira. Dizemos frequentemente que temos sim, sangue negro, nós brasileiras brancas, que também temos sangue índio, sangue europeu, e por aí vai. E temos. Mas porque o sobrenome que escolhemos é o estrangeiro? Porque insistimos em contar ao mundo de nossa ascendência russa, italiana, suíça, alemã e nos esquecemos de nossa ascendência africana e indígena? Ascendências essas, vejam, que não temos nem como saber exatamente de onde são. A que tribo pertenceu meu trisavô? A que sociedade pertenceram meus trisavós? Me entristece não saber. Me entristece a informação dizimada, apagada, nas voltas de árvores do esquecimento. As partes européias sei exatamente de onde vieram. Não é injusto?

Como todos os outros privilégios sociais, ser branca significa nunca ter vivido uma situação de discriminação racial. Embora haja gente que clame por aí que é discriminado por negros, que há racismo ao contrário e bla-bla-bla-whiskas-sachê, vale lembrar que o racismo é estrutural. Se sou branca e as pessoas em determinado bairro não confiam muito em mim por conta disso (improvável, já que há uma construção histórica e social aí que faz a aparência boa ser a branca, mas vamos supor uma realidade onde isso é corrente), isto não faz com que eu ganhe menos. Isto não faz com que eu tenha menos chances de ser contratada ou aprovada numa banca de seleção de doutorado pela minha “aparência”. Isto não faz com que as pessoas atravessem a rua ao me ver chegar. Isto não faz com que suponham que sou babá ou empregada doméstica ao me verem com crianças de outro biotipo étnico num parque. Isto não faz com que me olhem como se minha sexualidade estivesse disponível a todo e cada homem, como uma garrafa de cerveja.

Pessoalmente, minha afrodescendência não me parece suficiente para me autodeclarar negra, embora eu saiba que, sim, sou negra também. Pois pelo meu biotipo étnico – bem branquela, cheia de sardas, cabelo ondulado, nariz fino pontudinho, lábios de espessura mediana, etc. – sempre fui colocada e aprendi a me colocar no lado privilegiado da sociedade. Isto me deu uma espécie de capital racial, desigualmente distribuído entre as pessoas em nossa estrutura social. Que quero dizer com isso?

Que tendo este biotipo étnico sempre fui tratada como branca, com as regalias e privilégios que uma pessoa branca tem. Também sempre estudei e frequentei espaços majoritariamente brancos. Minhas cantoras ídalas na infância e adolescência eram quase sempre brancas (exceção para Mel B, das Spice Girls, ié!). As pessoas que eram mostradas como bacanas na TV eram brancas. As modelos, as “mulheres bonitas” eram brancas (porque, se fossem negras, não eram “mulheres bonitas”, eram “negras bonitas”, o que faz toda diferença). As professoras, cientistas, pesquisadoras, intelectuais, executivas, empresárias, princesas, presidentas: brancas, brancas, brancas, brancas…

Deriva-se daí a sensação de que, estando nestes espaços (universidade, mídia, política, etc) estou justamente onde eu, branca, deveria estar. Como esta sensação e este tratamento não são aplicados individualmente só a mim, mas parte da forma da nossa sociedade ver as pessoas, é como se eu partisse na corrida com 100m de adianto. As negras 100m atrás. Os homens negros uns 50m atrás de mim e os brancos uns 80m mais à minha frente. A pista da chegada a posições de poder, prestígio e salários altos tem 200m no total.

Façam as contas.

Então, sim, precisei de um chacoalhão de minhas companheiras pra perceber tudo isso. Ou pra lembrar, já que tive o privilégio (outro) de crescer em ambientes cercada de pessoas anti-racistas, mesmo com esse racismo estrutural nos cercando. Mas não, não tenho orgulho nenhum disso. Orgulho de ocupar uma posição privilegiada às custas de uma estrutura desigual que massacra, oprime, mata? Não, obrigada.

O feminismo é a idéia radical de que mulheres negras são gente.