Lideranças Negras: diferenças entre gêneros

Hoje, dia 25 de julho, é o Dia da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha. Trata-se de um dia específico para analisar a dupla opressão da mulher negra (por racismo e gênero) e suas lutas para vencer a discriminação.

Foto de Alexandra Martins/Griô Produções

Para evidenciar este dia, propomos uma reflexão sobre as as lideranças negras femininas e, como enfrentam o preconceito quando são protagonistas principais de uma causa ou assumem cargos de coordenação dentro de uma empresa.

Dentro das desigualdades e opressão a que as mulheres são vítimas, está a questão das lideranças femininas. Um assunto que merece destaque, seja no mercado de trabalho ou em grupos de movimentos políticos e sociais. Porém, dentro deste parâmetro, a desigualdade aumenta quando além de gênero, as mulheres passam por discriminação por serem negras.

Mesmo em grupos que atuam na defesa dos direitos das pessoas da raça negra, como o movimento negro, as mulheres muitas vezes são consideradas como coadjuvantes e vítimas do preconceito de gênero que parte dos próprios militantes negros.

No mercado de trabalho, as negras ainda têm menos garantias de direitos do que as mulheres brancas. E isto torna-se evidente quando se pesquisa sobre sua condição profissional, sendo que seus salários são inferiores aos das brancas, mesmo tendo o mesmo nível de escolaridade.

As mulheres negras ainda estão concentradas e exercendo sua função como trabalhadoras informais ou em posições operacionais. Desemprego também é mais abrangente para mulheres negras, justamente por serem vítimas desta dupla opressão.

Por este contexto, não é difícil verificar a dificuldade de uma mulher negra chegar em uma posição de liderança dentro de uma empresa. Mesmo que homens negros apresentem esta dificuldade, ainda há a influência na seleção de profissionais para receber um cargo de liderança no que diz respeito ao gênero.

As vozes e direitos das mulheres negras em relação ao trabalho tiveram suas primeiras manifestações na década de 1940 — lembrando que a imprensa teve uma contribuição importante para este princípio de mobilização às causas destas mulheres.

A imprensa negra até então tinha suas publicações voltadas ao universo do homem negro, abdicando de qualquer intervenção e inclusão de gênero. Um dos jornais a retratar a questão das mulheres negras na época foi o Quilombo, vida, problemas e aspirações do negro. Foi um novo momento da imprensa, que deu espaço à participação e mobilização das mulheres negras através de congressos nacionais e movimentos organizados das empregadas domésticas.

Foram as primeiras organizações que referenciaram as mulheres como participantes ativas do mercado de trabalho, sendo o foco dado às negras. As lideranças negras femininas estavam, nesta época, se organizando para o reconhecimento e regulamentação do trabalho das domésticas, com o intuito de conseguir melhores salários, horário de jornada de trabalho adequada à condição de profissionais e não de escravas e a formação de um sindicato.

Ainda que de forma um pouco tímida, as lideranças negras femininas em trabalhos sociais vêm crescendo. Em muitas regiões periféricas, existem mulheres que realizam trabalhos muito importantes relacionados às causas dos pobres e/ou do povo negro.

São mulheres que vivem ou já viveram o dilema dos variados problemas sociais e se dedicam voluntariamente aos trabalhos em comunidades. Com a responsabilidade de idealizar, planejar e colocar em prática projetos que podem promover mudanças incisivas na vida de muitas pessoas marginalizadas. Mas, muitas vezes, a liderança das mulheres negras nestes trabalhos sociais também é renegado a segundo plano pelos homens, inclusive os negros. Como contrapartida deste preconceito, algumas mulheres se destacam em lutas que atingem diretamente o próprio opressor, como posses de terra, cadastramento de moradores e uma funcional organização comunitária.

É a necessidade de representatividade dentro da sociedade que faz com que as mulheres negras busquem a integração dentro de ambientes a elas negados pela discriminação. A opressão vivida por seus próprios companheiros de luta com relação à raça, faz com que estas mulheres se dediquem no trabalho que realizam, buscando fazer o melhor possível. E é neste contexto que acabam liderando, mas muitas vezes sem o reconhecimento necessário.

Esta realidade está presente no trabalho de Luciane Gomes, militante do movimento negro que tem um trabalho muito importante em comunidades e pelas causas dos movimentos sociais. Ela relatou em uma entrevista para nós, um pouco sobre suas experiências como líder mulher e negra levando em consideração esta dupla opressão.

1) Como entrou na militância?

Luciane: Comecei a participar do movimento negro há 15 anos, por influência de alguns colegas que já tinham experiência. Sempre tive interesse pela luta contra a discriminação, e logicamente que me envolvi no movimento pelo fato de sentir na pele a discriminação racial. Aos poucos fui me envolvendo, e como é normal, quando começamos a ir atrás e conseguir resultados, logo somos muito bem requisitados, e nos tornamos responsáveis por muitas das decisões dentro de um grupo.

2) Passou por preconceito dentro do movimento pelo fato de ser uma líder mulher?

Luciane: Além do fato de passar por preconceito por tratar de assuntos que dizem respeito aos direitos do povo negro, tive sim momentos desagradáveis com alguns ativistas homens. No começo muitos não aceitavam minhas ideias, ou simplesmente achavam que aquele não era o caminho, sem ao menos colocar em prática. Meu trabalho também é feito em comunidades, onde também é muito difícil a influência das mulheres. Foi difícil a entrada nestes espaços, e considero que este foi o momento mais marcante pelo que passei como opressão. A aceitação dos líderes das comunidades (em sua maioria homens) foi quase impossível e por vezes tentei desistir. Foi realmente muito difícil.

3) Você vê progresso no movimento? Quais os planos para o futuro?

Luciane: Dentro do movimento vejo progresso, pelo número de mulheres que estão se dedicando ao trabalho como ativistas e nas organizações de nossas atividades. Esta nova geração é bem transformadora, são jovens que não desistem fácil de situações nas quais são vítimas de um preconceito escancarado. Adoro os jovens, têm sempre muito a contribuir. E esta juventude sabe enfrentar os problemas com muita garra, principalmente as mulheres. A dupla opressão encorajou ainda mais as meninas para seguirem na luta pelas causas do povo negro e também dos direitos das mulheres. E este é nosso futuro.

*Texto em parceria com Karen Polaz.

Alice Walker: assim como o roxo está para o lavanda

Romancista, contista, poetisa, ensaísta, feminista e ativista. Em 1983, aos 39 anos de idade, ganhou o Prêmio Pulitzer pelo aclamado romance A Cor Púrpura. Em suas biografias, são sempre apresentadas as bases e extensão de seu trabalho.

Alice Walker na I Bienal do Livro e da Leitura de Brasília. Foto de Oswaldo Reis/Correio Braziliense

A partir de discussões sobre identidade negra e feminismo e reflexões sobre sofrimento e prazer, sua obra tem revelado tanto seus dons literários quanto suas convicções espirituais e políticas. Suas histórias estão enraizadas nas dificuldades econômicas, na exclusão racial, na sabedoria popular da vida e cultura afro-americana, principalmente do sul rural norte-americano. Ela explora relações entre mulheres e “abraça o poder redentor da revolução social e política

Alice Malsenior Walker. Oitava filha de um casal de agricultores meeiros, a autora nasceu em 9 de fevereiro de 1944, em Eatonton, Georgia, onde a variante do sul é proeminente e as marcas da escravidão e da opressão ainda se fazem presentes.

Em 1961, Alice Walker deixou sua cidade para ir para Spelman College, uma proeminente escola para mulheres negras em Atlanta, onde permaneceu por dois anos, conheceu Martin Luther King Jr e se tornou ativista dos direitos civis. É a ele que ela credita seu retorno ao sul dos EUA. Depois desse período ela foi para Sarah Lawrence College em Nova York onde continuou ses estudos e seu envolvimento com o movimento pelos direitos civis.

Alice Walker se casou em 1967 com o advogado branco dos direitos civis, Melvyn Rosenman Leventhal e se divorciou em 1976. Ela terminou seu primeiro romance (The third life of Grange Copeland) em 1969, mesmo ano do nascimento de sua filha Rebecca Grant. Seus primeiros trabalhos já tratavam de temas recorrentes em sua obra como violência, estupro, relações multi-geracionais, sexismo e racismo. Após o fim de seu casamento ela se mudou para o norte da Califórnia onde vive até hoje.

Sua Obra

Alice Walker é bastante conhecida pelo romance A Cor Púrpura (1982), que foi transportado para as telas do cinema por Steven Spielberg em 1985. A história se passa na Georgia, durante a segregação racial, e é narrada por Celie que, por meio de uma série de “cartas para Deus” escreve sobre incesto, abuso físico e solidão. Contudo, suas esperanças se concretizam por meio de uma comunidade de mulheres formada pela amante de seu marido e por sua irmã. Gradualmente, Celie desperta-se sexualmente e aprende a se ver como desejável, uma parte valiosa e saudável do universo. Por esse romance Alice Walker foi duramente criticada pela sua representação negativa do homem negro.

Em sua obra, Alice Walker retrata a vida da mulher afro-americana. Ela descreve vivamente o sexismo, o racismo e a pobreza que fazem da vida uma batalha. No entanto, ela também retrata a força da família, da comunidade e da espiritualidade como partes da vida.  Alice Walker continua não só escrevendo, mas também desenvolvendo seu trabalho como feminista/mulherista, ativista ambiental, pela Palestina e por causas econômicas e de justiça social.

Em uma de suas obras mais recentes, Rompendo o Silêncio, ela discute que parte do que aconteceu com os seres humanos no último século se deve ao fato de termos sido silenciadas e silenciados por um comportamento bárbaro fora do normal que desvaloriza a vida humana. Ela acredita não termos palavras para descrever o que testemunhamos e que o silêncio auto-imposto deixa nossa resposta mais lenta, principalmente em relação àquelas que mais necessitam, mulheres e crianças, mas também aos homens que resistem e são sobrepujados por aqueles que se renderam ao poder das armas da dominância masculina ou étnica e da ganância.

Feminismo e “mulherismo”

O termo “mulherista” apareceu pela primeira vez em seu livro In Search of Our Mothers’ Gardens: Womanist Prose (1983), no qual ela atribui a origem da palavra à expressão da comunidade negra de mães para as meninas “Você está agindo como mulher”, normalmente se referindo a um comportamento audacioso, corajoso, voluntarioso.

Mulherista também é uma mulher que ama outra mulher, de forma sexual ou não, que aprecia e prefere a cultura e o poder das mulheres, incorporadas no mundo como um todo, comprometidas com a sobrevivência e a totalidade da comunidade, sejam mulheres ou homens.

A introdução do termo “mulherista” no léxico feminista americano data do início dos anos 1980. O fim da década de 1970 e início da década de 1980 testemunharam uma insurgência no feminismo liderada pelas mulheres negras gerada pela percepção de que o feminismo não abrangia as perspectivas das mulheres negras.

Excluídas e alienadas do pensamento e teoria feministas, as mulheres negras defendiam que o feminismo deveria levar em consideração as diferentes subjetividades e localidades em suas análises sobre as mulheres, enfocando a questão das diferenças, principalmente aquelas que dizem respeito à raça e à classe. Se o feminismo não era capaz de levar em consideração completamente as experiências das mulheres negras, seria necessário, então, encontrar outra terminologia que trouxesse em si o peso de tais experiências.

Nesse sentido, o termo mulherismo prestou grande contribuição. Como o termo reconhece que as mulheres são sobreviventes em um mundo de opressão de diferentes tipos, ele busca celebrar as maneiras nas quais as mulheres negociam essas opressões em suas vidas individuais.

Nas palavras de Alice Walker, “mulherista está para o feminismo assim como o roxo está para o lavanda”. Dessa forma, o termo mulherista seria tanto uma alternativa quanto uma expansão do termo feminista.

Alice Walker no Brasil

No dia 20 de abril de 2012, Alice Walker esteve no Brasil para a I Bienal do Livro e da Leitura de Brasília. Entre vários momentos de fala emocionada, ela disse para a plateia: “Adoro vocês. E parte da razão pela qual adoro vocês é que sobreviveram para estar aqui. Tenho perfeito senso do que aconteceu para eu estar aqui e para vocês estarem aqui. Estamos falando de centenas de anos de luta de nossos ancestrais tentando trazer nos aqui”.

Para quem quiser mais informações:

Machismo e racismo dentro e fora do BBB

Não sou fã do BBB, sequer assisto ao programa regularmente. Porém, desde a faculdade, sempre morei com pessoas que acompanhavam a atração com entusiasmo, torciam para os participantes, votavam, sofriam, emocionavam-se. Portanto, acabo acompanhando de vez em quando, talvez até por causa de um certo interesse sociológico por realities shows em geral, de entender os motivos de mulheres e homens mostrarem suas vidas em rede nacional por livre e espontânea vontade e de haver tantos e tantos expectadores vidrados na telinha, seguindo cada movimento e discutindo sobre o que lá se passa, seja no trabalho, nos botecos, nas reuniões de família.

Nessa 12ª edição do BBB, por duas ocasiões li um bafafá na internet – já que eu não venho assistindo ao programa – e em ambas o protagonista era um homem chamado Daniel. Pelo que soube, no primeiro dia do programa, para provocar surpresa, colocaram mais quatro pessoas na casa, uma delas foi o Daniel. Até então, não havia negros entre as pessoas selecionadas para o BBB 12. Não porque nenhum negro tenha se inscrito, mas muito provavelmente, porque eles não são considerados referência de beleza pela grande mídia e pela maioria da população brasileira. Logo, não faz sentido colocar negros num programa que visa ampla audiência através de mulheres e homens bonitos. E não, não porque negros são inerentemente feios (assim como brancos não são inerentemente bonitos), é que, ao longo da História, aos negros foi dedicada uma parte da sociedade que se relaciona a tudo o que se considera ruim: sujeira, criminalidade, maldade e, nessa lógica, falta de beleza.

Daniel, participante do BBB 12. Foto de Frederico Rozário/TV Globo.

No primeiro dia de programa, Pedro Bial, sempre muito inteligente e profundo (cof, cof), perguntou ao moço se ele era a favor de cotas para negros. Para os outros participantes (brancos e morenos), as perguntas giravam em torno da vida pessoal, comida, sexualidade, música etc. Mas não para o negro, porque quem nasce negro neste país primeiro tem que ser negro antes de qualquer coisa. Só sei que o moço foi ovacionado pelos outros participantes devido à seguinte resposta: “Não tem que ter cota para nada”, porque debaixo da pele todo mundo tem sangue, e o sangue é vermelho. Tal declaração enfureceu vários ativistas do movimento negro que lutam pela implantação de medidas políticas que busquem diminuir a desigualdade social do povo negro no Brasil. Vale ler A grande mídia contra as ações afirmativas.

Bom, os negros não demandam cotas porque debaixo da pele é sangue e sangue é igual pra todo mundo, ou porque duvidam de sua própria capacidade de entrar e cursar uma universidade, ou de serem inteligentes. Para os que ainda não perceberam, houve escravidão de negros neste país. O preconceito contra negros é sistemático e muito mais excludente que com quaisquer outros grupos considerados “à margem”. Isso significa que se um homem branco e um homem negro forem disputar uma vaga de emprego, as chances de que seja o branco a conseguir a vaga são bem mais altas. Um exemplo: na região metropolitana de Belo Horizonte, o número de negros desempregados é quase duas vezes maior do que o contingente de não negros na mesma situação.

As cotas são uma política de Estado que tenta amenizar, um pouco que seja, a exclusão de negras e negros no Brasil. É uma política paliativa? Sim. Resolve, de fato, o problema desse tipo de desigualdade? Não. No entanto, para aqueles negros que conseguem entrar numa universidade com o auxílio das cotas, a vida se transforma – e como! Também aumenta a auto-estima dos outros negros, que vêem que a universidade também pode ser um lugar pra eles e não apenas de gente branca e classe média. Ocupando os espaços na universidade, torna-se mais fácil ver negras e negros na televisão e na publicidade com maior frequência. Dessa forma, acabam se percebendo dignos de exposição pública também. E os negros que entram com cota nas universidades apresentam desempenho próximo, similar ou até melhor em relação aos não-cotistas de acordo com o IPEA. Muitos conseguem boas notas, mas não o suficiente para passar em cursos mais concorridos. Não é possível comparar uma pessoa que sempre estudou numa escola particular, com todo o conforto que o dinheiro possibilita, com um negro pobre, que frequenta uma escola capenga. A desigualdade social é tão arraigada por aqui que as pessoas sequer demonstram sensibilidade à realidade da população brasileira.

De acordo com Luana Tolentino, será uma batalha “a ampliação do sistema de cotas nesse país. A briga será dura, longa e árdua pelos seguintes motivos: 1º como propor políticas de Ações Afirmativas para população negra num país que não se assume como racista? 2º Toda e qualquer proposta que tenha como objetivo reparar processos de exclusão encontrarão rejeições por parte da sociedade, uma vez que a manutenção de privilégios e a permanência das desigualdades sociais fazem parte da mentalidade brasileira”. A sociedade exclui os negros e, se não houver uma politica de Estado que inclua os negros no mundo das instituições (escolares, de trabalho etc.), eles vão continuar excluídos.

Marisa Uthman - Aluna negra cotista da UFRGS. Foto de Leticia Fagundes.

Eu, sendo branca e a favor de cotas pra negros, não me sinto tão à vontade para comentar sobre o que os negros querem e reivindicam, por me considerar meio que “desautorizada” ao debate. No entanto, não deixo de prestar meu apoio a elas e eles. Sim, pois a mulher negra sofre duplo preconceito – por ser negra e por ser mulher – e creio que nós, feministas, temos esse desafio de combater o racismo e manter constantemente em voga as demandas das mulheres negras.

Mas… e o Daniel? Acredito que ele só tenha entrado no BBB porque, certamente, há cotas para negros no programa. Porque não dá para vender um reality show no Brasil só com pessoas brancas. Então, coloca-se um negro para dizer: “não somos racistas”, como apregoa Ali Kamel, atual diretor da Central Globo de Jornalismo. E, tem mais, acredito que Daniel tenha sido selecionado por ser considerado bonito. Visto ser necessário que haja negros no programa, pelo menos que seja um modelo, não é mesmo?

No domingo, entro na internet e já vejo a confusão em torno do caso de violência sexual no BBB. Inclusive assisti ao tal vídeo de Daniel abusando sexualmente de Monique junto com muitas reações de indignação. Não vou adentrar ao assunto de quão machista foi da parte do Daniel, julgar-se no direito de abusar da Monique enquanto ela estava nitidamente bêbada e “apagada” na cama. Para quem conseguiu ver o vídeo, ela parecia uma boneca, imóvel, enquanto Daniel fazia movimentos de vai-e-vem com o quadril encostado ao corpo dela, mesmo que não tenha havido penetração.

Mas a repercussão da cena, em comentários do Twitter e do Facebook, revela, por um lado, o machismo extremo de achar que mulher, depois de beber, quase que pede para ser estuprada e, por outro lado, o racismo de estabelecer uma relação direta e imponderada entre “negros” e “atos negativos/criminosos”. É nessa relação que teço os comentários a seguir.

Daniel abusou da moça não porque ele é negro e negros se caracterizam imanentemente por cometerem atos criminosos, imorais, sujos, pecaminosos, infames etc. Porque há algo geneticamente ruim neles que os fazem cometer ações ruins. A sociedade brasileira se caracteriza por altos níveis de violência, machismo, corrupção. Estupros são recorrências diárias no país, inclusive vários homens brancos estupram suas próprias namoradas e esposas quando as forçam a manter relações sexuais com eles contra sua vontade. Isso também se configura como crime de estupro.

Portanto, Celso Pitta não desviou dinheiro público porque ele era negro, Netinho de Paula não cometeu agressões porque ele é negro e Daniel não bolinou mulheres e as abusou sexualmente porque ele é negro. Além dos fatores sociais, fortes condicionantes, por tantos outros motivos alguém se torna violento e corrupto. Existem pessoas que fazem coisas consideradas ruins de qualquer cor de pele, país, classe social, religião. Responsabilizar a população negra pelos males da sociedade é racismo.

Resumindo vários comentários do Twitter e do Facebook, podemos chegar à máxima: o Daniel abusou sexualmente porque a mulher “deu mole”, “pediu para ser estuprada”, mas, que coisa feia, só podia ser preto mesmo. Há até quem atribuiu, a Daniel, o título nada brioso de “o mau caráter de todas as edições do BBBs”. Mas, fugindo bastante da realidade, o diretor do BBB afirmou ontem que: não houve estupro no BBB e que Daniel é vítima de racismo. No mesmo dia, porém – após a polícia civil do Rio de Janeiro decidir investigar a denúncia de estupro ocorrida no programa e exibida ao vivo para quem assina o payperview – decidiram eliminar Daniel do programa por grave comportamento inadequado. No programa ao vivo da segunda-feira, Pedro Bial limitou-se a repetir o comunicado oficial da emissora. Não falou nada sobre a ação da polícia, sobre como a notícia foi dada a outros participantes. O programa continuou normalmente como se Daniel nunca tivesse existido ali. Como se um abuso sexual não tivesse sido cometido. Daniel, o único participante negro da 12° edição do BBB, desaparece sem deixar vestígio. Ser invisível na vida real ou em um reality show parece ser a realidade de tantos negros e negras no Brasil.

Lógico que o que Daniel fez foi grave, está errado e merece ser punido portanto, mas, por favor, a cor dele nada tem a ver com isso.

* Agradeço à colaboração da Srta. Bia neste post.