Luana

Texto de Luana Tolentino.

“Luana” é um conto da escritora Cidinha da Silva, publicado no livro “Cada Tridente em seu lugar”, em 2007 pela Mazza Edições. Foi citado no post O Texto da Professora Luana e, está sendo republicado aqui com autorização da autora.

Imagem: cena do filme “Flor do Deserto” de 2009.

Luana tem dezoito anos. É moradora do Jardim Irene, Zona Sul de São Paulo. Mãe de Diogo, dois anos, e divide um barraco na frente da casa da mãe com Rogério, pai do menino. Luana fez cursinho comunitário e passou no vestibular. Está na faculdade e dá a maior força para sua turma também entrar pra facu. Tem emprego fixo (é estagiária em um banco) e toca um pandeiro de fazer inveja à Martinália. O Irene todo se orgulha de Luana. É a menina dos olhos da vila onde mora.

Ninguém pode, ao descrever Luana, omitir sua beleza. É eleita a miss afro da escola desde os treze, quando o concurso começou. Uma vez, o grupo de amigos, liderado pelo então aspirante a namorado, Rogério, resolveu fazer um cover da música Negra Ângela, do Neguinho da Beija Flor e criaram a Negra Luana. A rima ficou quebrada para cantar, mas Luana foi imortalizada pela primeira vez. Além do quê, colou! Depois dessa, Luana se apaixonou por Rogério e, do amor e da falta de camisinha, logo nasceu Diogo. A vida ameaçou parar um pouco, mas Luana teve apoio da mãe, D. Marisa, e se manteve estudando. Terminou o ensino médio, fez o cursinho comunitário, como já contei a vocês e está na  faculdade. Que orgulho!

Dia 2 de abril de 2002, uma sexta-feira, Luana voltava para casa. Rogério tinha ido buscá-la na facu e amigos e conhecidos entravam na última lotação da noite. Gente que saía do trampo, da escola, do início da balada. Cumprimentavam-se e a crônica do dia rolava solta: “E aí, firmeza?” “Tô a pampa!” Desfilavam as minas, “os minos”, as conquistas, as chatices do chefe, a Guarda Civil Metropolitana e os baculejos dentro do colégio. O beijo das lésbicas na novela, que ensaia, ensaia, mas nunca rola e, de assunto em assunto, o tempo passa mais depressa até a quebrada.

Eis que entra um jovem meio alterado na lotação e grita: “Aê mano, todo mundo calado que eu quero dormir, morô?” “Aê mano, qual é a do cara, tá me tirando?”, responde de pronto um membro do grupo. A turma do deixa-disso entra em ação, fala que não custa nada falar mais baixo. O mano deve estar estressado. Outros acham que não, “que cara mais sinistro, meu!” O destoante vai ficando nervoso, furioso quando o papo resvala para o futebol e para o empate de dois times rivais no domingo anterior. Ele grita que o time dele tinha sido roubado e solta diversos palavrões. A discussão esquenta e ele, em nítida desvantagem, pois não fazia parte do grupo e era o elemento da discórdia, desce do coletivo dois pontos antes do final da linha. “Aê motô, pára essa joça que eu vô descê”. O motorista estaciona no ponto e o rapaz corre, xingando todo mundo. A moçada de dentro do ônibus não deixa por menos e também xinga o rapaz. “Já vai tarde ôh de mal com a vida, filhote de curuzcredo! sinistro mano!”

O garoto entra em casa e pega uma arma. Pega a moto e o irmão que, a contragosto, vai ajudá-lo a resolver uma parada. Correm como loucos e chegam à entrada da vila. A turma já desceu do ônibus e está concluindo os dez minutos de caminhada até o início da ponte sobre o córrego, único caminho para entrar na vila. O rapaz da arma passa para o banco do carona, o irmão para o banco do piloto, acelera e o irmão passa pelos jovens gritando e atirando. Desespero total. As pessoas correm. Fogem. Duas pulam no córrego. Gente ferida, gente morta. Luana tomba abraçada aos cadernos. Muito sangue jorra da cabeça e das costas. Rogério grita, pede socorro. Todos os que estão em condição de gritar, gritam. Os que não estão feridos entram na vila correndo, implorando ajuda. Conseguem um motorista de carro que concorda em subverter a ética do extermínio e prestar socorro. Sim, porque como é sabido, em casos de chacina, assassinatos de aluguel e tentativas de morte por motivo desconhecido, em bairros como o Irene, manda a ética dos bandidos que não se preste socorro pois você pode se complicar. Deixa ali, morrendo aos poucos. Entre doze e vinte e quatro horas depois, o rabecão aparece para recolher o corpo. Mas era Luana. Quem quereria matá-la? Não poderia haver mal em socorrê-la.

No hospital, a notícia: Luana morreu. A mãe quando chegou ao cemitério gritava a dor do mundo. Nada a consolava. Ninguém tinha força para ampará-la: “Minha filha, o que fizeram com você?” Ao Diogo contaram que mamãe Luana, como ele a chamava, tinha ido para o céu. O pequeno passou muitos dias olhando para o alto e perguntando: “Mamãe Luana, quando você vai descer daí? Vem embora, eu tô com saudade”. D. Marisa não suportou o sofrimento de ver o sangue da filha transformado em mancha no chão da ponte. Todo dia tinha de vê-lo, pois a ponte era o único caminho para sair da vila rumo ao asfalto. Na hora da volta a tortura se repetia. Mudou-se para outro bairro, mesmo sabendo que o poder público continuaria omisso.

Luana tinha dezoito anos. Era moradora do Irene, mãe de Diogo, dois anos. Fez cursinho comunitário. Passou no vestibular e estava na faculdade. O Irene todo tinha orgulho de Luana. Era a menina dos olhos da vila onde morava.

Cidinha da Silva é autora de “Cada Tridente em seu lugar”, “Você me deixe, viu?!”, “Vou bater o meu tambor!”, “Os nove pentes d’África” e  “Kuami”. Não deixe de conhecer o blog da Cidinha da Silva, prosadora.

Crônica da Madrugada

Texto de Luana Tolentino.

Adoro um cafezinho. Logo cedo, para acordar. Após o almoço, para espantar o sono. Á tarde, para ver se o dia passa mais depressa. Aos sábados pela manhã, para acompanhar a leitura do jornal. Sem pressa. Acho chique. A xícara, o jornal, a varanda, o sol e eu. Costumo dizer que essa é a minha porção burguesa.

Outro dia fiz uma mistura bombástica. Estava exausta. Passei o domingo inteiro trabalhando e não havia terminado de elaborar as provas para o dia seguinte. Só mesmo um café novinho para ajudar. Três colheres e meia de pó, quinhentos ml de água e meia xícara de açúcar. Pronto! Com essa receita não há trabalho que fique inacabado. Tomei três talagadas como quem se delicia com um copo de cerveja estupidamente gelada. Porém me esqueci, e logo depois bebi um pouco de coca-cola.

Foi quase um envenenamento. Minhas pupilas dilataram. Como costumam dizer os adolescentes, fiquei acesa, ligada. Nada faria com que eu dormisse. Meu coração batia acelerado. No momento, só isso mesmo para causar um descompasso no lado esquerdo do meu peito. Para piorar, na segunda precisava acordar muito cedo.

Deitei na esperança de que aquela mistura não faria efeito. Ledo engano. O tempo passava e nada do sono vir. Apenas quem sofre de insônia sabe o inferno que é. Parece que o mundo inteiro dorme e só você permanece acordado. Tantas coisas passam pela cabeça. É difícil pensar somente em coisas boas. O barulho do ponteiro do relógio é angustiante. Irrita. A noite torna-se uma eternidade.

Comecei a pensar no ônibus lotado e eu me equilibrando para não cair. Lembrei dos meus alunos da quinta-série. Minha cara toda amarrotada, olheiras profundas e aquela meninada sugando até as minhas vísceras. Coitados, seriam vítimas do meu mau-humor, assim como qualquer mortal que cruzasse o meu caminho. Em seguida, pensei nas aulas de direção. Descartadas. E pra terminar o dia, um conselho de classe. Estava perdida.

Virei para a esquerda, fiquei de barriga pra cima, virei para a direita. Nada. Parecia que havia espinhos na cama. Fiquei imóvel. Dizem que ficar rolando de um lado para outro aumenta a ansiedade e atrapalha o sono vir. Senti calor, abri a janela, mas não dispensei meu edredom. Levantei. Tomei leite morno. Liguei o computador. Não consegui escrever uma só linha. Impaciência total.

Resolvi voltar para cama. Rezei. Nossa Senhora dos Insones não me ouviu. Três, quatro, cinco da manhã. O céu escuro dava lugar aos tons de cinza. Era possível ouvir o som dos pássaros, o canto do galo, a conversa das pessoas caminhando em direção ao trabalho. E nada do sono chegar. Não sei se sobreviveria.

Seis da manhã. Finalmente dormi. Era hora de acordar. Desejei ficar na cama até o meu corpo não agüentar mais. Quis morrer. Não havia tempo. Somente um banho gelado e mais uma xícara de café. Bem forte e sem açúcar. Dessa vez, para levantar a defunta. Precisava sair correndo, mesmo zonza e cambaleante. Já havia perdido a noite. Não poderia perder a oportunidade de mais um dia. A vida me espera.

Ps: Treze de maio. Para uns, momento de reflexão. Para outros, uma farsa. Para mim, um momento oportuno para (re)pensar a condição da mulher negra no Brasil. Dedico este texto a todas elas, que mesmo sendo discriminadas triplamente – gênero, cor e classe – seguem firme na luta por um Brasil mais justo e igualitário.

Autora

Luana Tolentino é historiadora, professora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, pesquisadora da UFMG e militante do movimento negro.