Crônica da Madrugada

Texto de Luana Tolentino.

Adoro um cafezinho. Logo cedo, para acordar. Após o almoço, para espantar o sono. Á tarde, para ver se o dia passa mais depressa. Aos sábados pela manhã, para acompanhar a leitura do jornal. Sem pressa. Acho chique. A xícara, o jornal, a varanda, o sol e eu. Costumo dizer que essa é a minha porção burguesa.

Outro dia fiz uma mistura bombástica. Estava exausta. Passei o domingo inteiro trabalhando e não havia terminado de elaborar as provas para o dia seguinte. Só mesmo um café novinho para ajudar. Três colheres e meia de pó, quinhentos ml de água e meia xícara de açúcar. Pronto! Com essa receita não há trabalho que fique inacabado. Tomei três talagadas como quem se delicia com um copo de cerveja estupidamente gelada. Porém me esqueci, e logo depois bebi um pouco de coca-cola.

Foi quase um envenenamento. Minhas pupilas dilataram. Como costumam dizer os adolescentes, fiquei acesa, ligada. Nada faria com que eu dormisse. Meu coração batia acelerado. No momento, só isso mesmo para causar um descompasso no lado esquerdo do meu peito. Para piorar, na segunda precisava acordar muito cedo.

Deitei na esperança de que aquela mistura não faria efeito. Ledo engano. O tempo passava e nada do sono vir. Apenas quem sofre de insônia sabe o inferno que é. Parece que o mundo inteiro dorme e só você permanece acordado. Tantas coisas passam pela cabeça. É difícil pensar somente em coisas boas. O barulho do ponteiro do relógio é angustiante. Irrita. A noite torna-se uma eternidade.

Comecei a pensar no ônibus lotado e eu me equilibrando para não cair. Lembrei dos meus alunos da quinta-série. Minha cara toda amarrotada, olheiras profundas e aquela meninada sugando até as minhas vísceras. Coitados, seriam vítimas do meu mau-humor, assim como qualquer mortal que cruzasse o meu caminho. Em seguida, pensei nas aulas de direção. Descartadas. E pra terminar o dia, um conselho de classe. Estava perdida.

Virei para a esquerda, fiquei de barriga pra cima, virei para a direita. Nada. Parecia que havia espinhos na cama. Fiquei imóvel. Dizem que ficar rolando de um lado para outro aumenta a ansiedade e atrapalha o sono vir. Senti calor, abri a janela, mas não dispensei meu edredom. Levantei. Tomei leite morno. Liguei o computador. Não consegui escrever uma só linha. Impaciência total.

Resolvi voltar para cama. Rezei. Nossa Senhora dos Insones não me ouviu. Três, quatro, cinco da manhã. O céu escuro dava lugar aos tons de cinza. Era possível ouvir o som dos pássaros, o canto do galo, a conversa das pessoas caminhando em direção ao trabalho. E nada do sono chegar. Não sei se sobreviveria.

Seis da manhã. Finalmente dormi. Era hora de acordar. Desejei ficar na cama até o meu corpo não agüentar mais. Quis morrer. Não havia tempo. Somente um banho gelado e mais uma xícara de café. Bem forte e sem açúcar. Dessa vez, para levantar a defunta. Precisava sair correndo, mesmo zonza e cambaleante. Já havia perdido a noite. Não poderia perder a oportunidade de mais um dia. A vida me espera.

Ps: Treze de maio. Para uns, momento de reflexão. Para outros, uma farsa. Para mim, um momento oportuno para (re)pensar a condição da mulher negra no Brasil. Dedico este texto a todas elas, que mesmo sendo discriminadas triplamente – gênero, cor e classe – seguem firme na luta por um Brasil mais justo e igualitário.

Autora

Luana Tolentino é historiadora, professora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, pesquisadora da UFMG e militante do movimento negro.