Por que, nós, mulheres?

Texto de Ana Nery Correia Lima.

Por que, nós, mulheres que somos, que fomos e seremos, construtoras, produtoras e produzidas pela sociedade, por nós mesmas, pela subjetividade, pelo que chamamos de inconsciente, por que nos fizeram assim? Por que nos pintaram assim?

As Duas Fridas (1939). Quadro de Frida Khalo.
As Duas Fridas (1939). Quadro de Frida Khalo.

Nas histórias, nas estórias, nas práticas do dia-a-dia, por que continuamos, reproduzimo-nos dessa forma? Por que nos perpetuamos do mesmo modo que nos ensinaram?

Sim, quebramos os paradigmas e construímos outros, fazemo-nos e refazemo-nos a cada dia, mas o outono — aquele das folhas secas que caem das árvores para que ela se renove — não é capaz de tirar de nós a opressão, as limitações, os medos que ainda pairam na construção de nós mesmas.

Por favor! Garçom… Devolva essa bebida que me ofertam diariamente. Essa dose de medo de ficar sozinha. Essa dose forte, sem gelo, dupla e seca de um ideal de amor, de complemento, da necessidade de uma metade para ser/estar feliz…

Devolva! Eu não quero aceitar mais essa dose que me ofereceram desde sempre e, que aos poucos, me fizeram assim.

É por que somos feitas sentimentais? É por que dizem que somos frágeis, doces? É pelo “espírito maternal” que nos tentam empurrar goela abaixo?

É por que dizem os outros, aí fora, aí pelos quatro cantos, que ficar só é feio, é ruim?

É pelo capitalismo, que impõe a fórmula da felicidade, na individualidade, no consumo das coisas e das pessoas? É pelos livros de autoajuda que em poucos dias se tornam best sellers e nos ensinam como amar melhor, a enriquecer em casal, como seduzir, como conquistar a pessoa amada?

É pela mídia que diz que posso ser tudo ao mesmo tempo, mãe, mulher, sedutora, profissional perfeita e ainda ter um amor de sucesso, das capas de revista?

É pela opressão, pela minha própria cobrança interna?

Não, não somos vítimas! Podemos transformar, ressignificar, relativizar… Mas como dói…

Por favor, garçom… Devolva essa dose que me foi imposta, essa dose de amor romântico que me foi empurrada durante todos os esses anos e que me fez acreditar que a completude existe.

Não aceitemos mais essa dose!!!

Por que nos subjugamos, nos subestimamos por um ideal de amor ou de relação que não nos leva em conta, nem nos prioriza? A imposição de um ideal que é nosso por vezes oprime o outro e nessa “disputa” que envolve poder, tentamos convencer ao outro de que a nossa forma deve prevalecer. Acabamos por vezes aceitando certas condições nas relações pra manter um ideal que é só nosso, que nem sempre é compartilhado.

Por que acreditar num padrão de amor? Não devemos, não podemos acreditar que só no outro a felicidade repousa. A completude é incompleta, se faz e refaz todos os dias. Estar completo/a é poder se (re)construir todos os dias nesse movimento de encher-se e esvaziar…

“Bom encontrar alguém”… Encontrar? Talvez a ideia de “encontrar” evoca a busca ou então a sorte; ou ainda a certeza de que deve haver alguém, que ainda falta encontrar essa pessoa… Vamos fazendo escolhas, de acordo com necessidades do momento (o momento que pode ser curto ou durar muitos anos). Submetemo-nos (tanto homens como mulheres) a algumas coisas em nome dessas necessidades; temos por vezes uma necessidade maior de não nos submetermos; às vezes por um tempo pode não haver submissão alguma, só convergência de ideias e afinidades; e por aí vai.

“Não existe ninguém que caiba no nosso sonho”, como diria Cazuza. Nunca vamos encontrar “a pessoa”, mas nos deparamos com certa frequência com pessoas com quem formaríamos boas parcerias, com quem estaríamos dispostos a ceder em troca de algo também importante, e que, com o tempo fazem dessa parceria, talvez um sentido rico para nossas vidas…

No entanto, esse processo não pode ser a maior busca diária da nossa vida e se for, desde que uma escolha consciente, que não seja para comportar moldes fechados, prontos e estabelecidos.

Todo dia é dia de se reinventar…

A nós, que dizem e que dizemos, ser mulheres, um brinde, com nossa própria dose…

Ana Nery Correia Lima
Ana Nery Correia Lima

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Ana Nery, 31 anos, andarilha, cearense que mora em São Luís do Maranhão. Militante do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres; Graduada em Ciências Sociais e mestranda também em Ciências Sociais.

Do que é feito a feminilidade, afinal?

Texto de Sabrina Alves.

Acho necessário que ativistas e/ou pessoas que se encontram dentro de movimentos (sociais, culturais), grupos, religiões, partidos, grupos de amigos, família…etc etc, estejam o tempo todo prontos para a desconstrução. Porque vira e mexe é proposto que você saia do seu lugar confortável para olhar melhor a outra pessoa, fazer concessões, abrir o círculo, fechar.

A tensão nesses casos é perfeita pra evitar ficar falando para iguais. Do contrário, o nome disso é eco. Porque, vou te dizer, permanecer assim, meu bem, vira clubinho fechadinho e a tal pseudo-revolução proposta, fica no máximo em volta do próprio umbigo. E você sabe o que isso dá, né? (dor de barriga! ;-)) Irremediavelmente alguém pode ouvir falar da proposta por somente se identificar, sendo que, xs outrxs, podem no máximo, supor. Chato isso pra chuchu. E tem um montão de gente assim. E se vê isso em vários movimentos/propostas muito legais. O que é uma pena, claro! Eu chamo de bolhudos/bolhudas ou como recentemente eu prefiro: bolhudxs! Com o ‘X’ mesmo.

Bom, então de onde eu vou falar para questionar/revisitar/duvidar/construir essa tal feminilidade? Vou falar a partir do grupo/movimento que fiz parte. Isso mesmo, FIZ do verbo NÃO FAÇO MAIS. Que é/são os chamados “círculos de mulheres” e “Resgate ( muitas interrogações aqui – ?????) do Sagrado Feminino”. Acho que não carece aqui de linkar com nada em especial, porque a net é uma parque de diversão e, facilmente quem colocar essas palavras aí no google, irão encontrar zilhões de possibilidades. E outra que não estou afim de endossar ninguém, muito menos que amigxs (amigxs, sim) que ainda continuam nesse movimento/grupos se sintam ofendidxs.

Como tudo começou: o clã dos ciclos sagrados

A história começa assim: Eu nasci em uma família, bem bacana. Rodeada de mulheres portuguesas bem fortonas porque, sinceramente, não lhes foi dada outra alternativa. Elas tinham que se virar mesmo, porque os homens estavam em outro país tentando a sorte, ou cavando o azar, vai saber. Elas tinham uma forma peculiar de cultivar a ‘espiritualidade’. Uma espécie de culto doméstico, com muitas mesclas de coisas que já ouvimos falar e de outras que até hoje eu não sei exatamente de onde é.

O fato é que elas não dependiam do ‘pároco/padre’ da cidade pra nada. Nem de médicos (aqui vai permanecer o masculino do gênero mesmo, porque sempre foram maioria principalmente no quesito ‘corpo das mulheres’. Uma hora volto nesse assunto). Muitas pessoas das cidades onde elas moravam as procuravam para que pudessem auxiliar nos mais diversos assuntos.

Cresci, por sorte a minha, sabendo dar conta da minha saúde, da minha sexualidade, das minhas dúvidas dialéticas, filosóficas e existenciais. E em parte, por ser EU, eu mesma, questionar me é um dom. E desde que me dei conta que eu era gente, me solidarizo com pessoas, animais e causas. E tinha uma em particular, que me levou a criar um grupo, era o das mulheres. Sob todos os aspectos.

Porque eu me achava sortuda por saber da minha sexualidade sem tabus, sobre como gerenciar e me auto-gestionar ginecologicamente longe das maleditas doutrinas médicas de saúde e domesticação do corpo. Eu supus que ‘deveria’ avisar a outras mulheres o caminho das pedras. Mas quero ressaltar aqui que, nunca em hipótese alguma, mesmo quando às vezes eu reproduzia algum discurso (sim, já fiz isso, também) eu pretendia mulheres dependentes, ou seja, que dependessem de mim ou do que eu dizia/ensinava/partilhava para se construir. Justamente ao contrário. Sempre tive pavor a dependências. Principalmente que alguém dependa de mim. Ui, tenho horror.

Bom, daí que eu criei um grupo/trabalho chamado “Clã dos Ciclos Sagrados”. Naquele momento achei que o lugar mais adequado, ou melhor, o ponto de vista mais interessante para ‘avisar às mulheres o caminho das pedras’ era o ‘movimento de círculos de mulheres’. Achei que era o mais inclusivo porque propunha uma troca ‘circular’, ou seja, não era hierárquico. Todas estariam equidistantes do centro. Era impressão que eu tinha naquele momento. Até acreditei durante muito tempo que era mesmo.

Foto de Life As Art no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Entendendo e aceitando as subjetividades

A abordagem que eu fazia era além do que é proposto biologicamente às mulheres cissexuais, que pudéssemos abrir o questionamento à vida de forma cíclica. Ora, e isso vai além do que se pode entender/vivenciar/construir dos ciclos das mulheres (cis) como a menstruação, gestação/parto e menopausa. Pode ir até a compreensão de que cada pessoa individualmente irá experimentar as suas estações pessoais. Poha, isso é vida. Era uma forma de entender que nem todo o tempo estamos felizes e que nem todo o tempo estamos tristes e que nem todo tempo somos ótimxs, quem nem todo tempo somos estupidxs, e que TUDO BEM.

Pronto, era para entender nossas subjetividades e aceitá-las, porque a indústria da felicidade mentia para gente. Era para entender que cada corpo era um corpo e, que a indústria da medicalização pretendia docilizar os corpos tratando-os sempre como iguais e/ou doentes. E isso também é uma grande mentira. Nem nossos corpos são iguais muito menos a experiência que temos com/a partir deles é igual. Era pra entender que mesmo nas religiões institucionalizadas onde as mulheres nunca, ou raramente, chegam em altos cargos, mesmo sendo maioria, poderiam ser protagonistas das próprias crenças. Daí, você deve estar pensando. Garota metida, essa aí, ela queria só isso? Tábom!

Eu falava, ou pelo menos pretendia, para as mulheres cissexuais (e só recentemente eu soube que falava para elas porque tenho aprendido sobre esse termo/conceito). Mas também, ou de novo — pretendia, falar para as mulheres cissexuais lésbicas. Eu queria, muito, que se sentissem incluídas. Mas ficaria mais feliz ainda que eu estivesse dando conta também de alcançar as que ora, eram hétero, ora eram lésbicas, ora eram assexuais whatever. Eu queria que TODAS se sentissem incluídas.

Porém, reconheço que minha abordagem na qual eu convocava as mulheres não deixava claro que se mulheres trans* também quisessem fazer parte, poderiam. Até porque eu falava de menstruação MUITAS vezes, ou a maior parte das vezes, como mote para todo o resto. Bom, nem por isso eu deixava claro que homens trans* também seriam bem-vindxs. Mas, sinceramente, eu não tinha bagagem para ser inclusiva a esse ponto. Não naquele momento.

Bom, para toda essa proposta eu fazia grupos de estudo. Além de encontros nas mudanças de estação e seguindo as luas, porque era para se ter a oportunidade de entender que a vida tinha altos e baixos e que cada uma iria experimentar essas mudanças de forma diferente. E o entendimento dependeria de como iria vivenciar sua experiência no corpo, e o corpo onde estavam. E que às vezes é escolha. Só que às vezes, não é.

Revendo conceitos e círculos

Atualmente, reconheço alguns erros que cometi, sempre tomei muito cuidado em algumas questões. Nunca, nunca usei de figuras de deusas especificas de panteão algum. Se as mulheres fossem escolher alguma figura, que fosse por conta própria. Porque de jeito nenhum eu queria configurar uma linguagem religiosa. Nunca quis influenciar a experiência que cada uma iria ter. Nunca terapeutizei os grupos. Nunca ditei vestimentas. As vezes pedia pra ir de saia quando usava nos grupos algum exercício especifico ligados à bacia, pernas, assoalho pélvico, etc. Nunca falava sobre sexualidade de um ponto de vista heteronormativo, ou pelo menos me policiava muito para não cometer esse erro.

Mais ou menos na mesma época que entrei no mestrado de Ciências da Religião pela PUC/SP, fiz uma das primeiras grandes revisões, depois de outras menores, no então “Clã dos Ciclos Sagrados”. Abrir esse ‘círculo’ para além do convívio físico. Por que eu tinha sacado que a maioria que estava nesse movimento eram grandes-pseudxs-detentorxs de grande conhecimentos inacessíveis e, a não ser que você pagasse uma quantia razoável por isso, você ficaria pairando em encontros curtos e públicos com quase nada de explicações do que era aquilo, afinal.

Iniciadas nas altas montanhas, sacerdotisas, esvoaçantes, vestidas com roupas purpurinadas à lá deusas gregas eram fadas que tratavam quase sempre as mulheres frequentadoras como crianças inábeis e muito longe de serem mulheres, realmente. Claro, afinal, havia uma produção de dependência em um nível quase “Gran-Sacerdotisas’ e/ou “Guruas-nas-artes-de-se-tornar-mulher’. Em sua grande maioria estavam mesmo preocupadxs na ‘disputa-dxs-melhores-focalizadorxs-das-galáxias’. Confesso que me vi presa nessa trama de disputa por algum momento.

Foi aí que abri o “Círculo de Visões Femininas”. Eu achava mesmo que estava sendo inclusiva ao dizer isso. Achava que ao orientar mulheres de todos os lugares do Brasil, e depois do mundo, de forma gratuita a formar seus próprios círculos de mulheres do jeito que elas achassem melhor fazer/ter a experiência, eu estava abrindo a possibilidade desse ‘movimento de círculos de mulheres’ sair dos centros urbanos, classe média, branca, tornando-o totalmente público e gratuito. Essa era minha real intenção. Mas ledo engano, porque se a única ferramenta que eu tinha para fazer isso era a internet, nem preciso explicar que não foi bem assim.

Rede de mulheres ou religião?

O que nos ligava era uma forma básica de se encontrar, e acontecia sempre no mesmo dia, e quando possível, na mesma hora. Todos os círculos ao mesmo tempo. No blog que criei para essa proposta, todo mês antes do dia do encontro eu escrevia uma espécie de editorial onde abordava os acontecimentos do mês ligados à saúde sexual, segurança e direitos das mulheres negras, brancas e índias. Tinha intenção implícita, por que eu as vezes não dizia, que elas pudessem falar e debater sobre esses e outros assuntos com autonomia e protagonismo. Além, claro, de experimentar a oportunidade ao estarem ali, de fazer uma pausa no corre-corre da vida e refletirem sobre ….qualquer coisa.

Foi, sem dúvida alguma, uma experiência interessantíssima. Enriquecedora. Durou três anos. Agradeço, claro a todas as que embarcaram essa experiência. Elas sabem disso, pois falei mais de uma vez. Eram mais de 20 círculos pela América do Sul e Europa. E eu estava mais do que nunca tão chafurdada no mestrado quanto no ‘movimento de círculos de mulheres’.

E, até ali, teria conseguido manter a proposta longe nas mentes mais ‘interesseiras’ em se autopromover. Todos os dias chegavam e-mail de terapeutas, psicólogas, sacerdotisas de todas as espécies. E, sinceramente eu só liberava (fazer parte da rede) para aquelas mulheres que, de preferencia, não sabiam nada sobre esses ‘tais círculos de mulheres’. E para quem não tinham aquelas duzentas iniciações das quais as “gran-focalizadoras-das-galáxias’ tinham. Mas claro, tudo tomou grandes proporções e aí…..

Bom, aí, um belo dia me dei conta que tudo estava mais configurado como uma ‘espécie de religião’. Muito embora, eu pessoalmente estivesse cada vez mais longe dessa possibilidade. Mas as então mulheres que organizavam os círculos por esse mundão à fora, em sua grande maioria, estavam ligadas à gurus, à doutrinas, à panteões, etc, etc….Isso sem falar que no contexto geral (Brasil e mundo) do ‘movimento círculo de mulheres’ muitas coisas que sempre me incomodaram estavam (e estão) cada vez mais dominantes.

Como, por exemplo, o essencialismo extremado que pretende doutrinar os modos, os corpos e resgatar as mulheres. Estava instaurado e legitimado uma imagem da mulher que necessita sob todas as coisas ser ‘feminina’. Que precisa re-construir a ‘feminilidade’. E nesse pacote tem uma conduta, modos, trejeitos, roupas, cabelos e palavras-chaves. Tudo misturado a muito moralismo. Isso sem contar que, lamentavelmente, pairava de uma forma velada a exclusão das mulheres cissexuais lésbicas dos círculos. E, recentemente, fiquei sabendo que esse padrão atingiu limites surreais. Nos círculos de mulheres dos EUA algumas ‘focalizadoras’ famosas resolveram dizer que mulheres trans* não entram, quando estas demonstraram intereresse em participar, tudo regado a muitas barbaridades vociferadas pela internet.

Cai doente quando me dei conta que 80% do que era tudo aquilo nem de longe me representava. E que na verdade eu estava me desgastando tentando de muitas formas dizer: “ei, cuidado com seu preconceito. Cuidado com o que você escreve, cuidado com o que você prolifera. Isso é um patriarcado de saia”. Mas para a grande maioria que olhava de fora, eu estava nesse meio. Não poderia continuar. Precisava sair.

Foto de naturalturn no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Mas e a feminilidade, a quem pertence?

Organizei estrategicamente a finalização de todos os grupos e a minha saída. Demorei quase seis meses pra isso. E, claro, o mais complicado foi a finalização do “Círculo Sagrado de Visões Femininas”, a rede de círculos. E se a proposta era a liberdade de escolha das mulheres, ela assim se fez. Pronto, elas estavam cada uma por si. E, lóoogico, se elas quisessem poderiam se organizar de modo a formar uma nova rede. Mas muitas continuam por aí com os círculos. E posso dizer que algumas tem feitos revisitações da proposta e de si mesmo, bem interessantes.

Mas voltando ao nosso questionamento: era essa a proposta inicial desse resgate simbólico de ancestralidade? E (d) essa (construção de) feminilidade? Quem pode falar dela? Quem tem autoridade para usar? Só as mulheres que tem útero? E quem não tem e é mulher, precisa dela (feminilidade) igualmente? Ou quem é mulher e não tem útero nunca chegará a ser – Feminina?

Por que diabos a humanidade leva tudo para o caráter religioso doutrinário? Bom, e tudo bem se for, mas, e se, pode ser religioso/espiritual, e o “resgate do sagrado feminino” é conceitual, porque não tomar para exemplo (também) alguns deuses e deusas que mitologicamente TRANSitavam entre gêneros?

E desse ponto de vista podemos dizer que respeitar os ritmos e sua cadencia tem a ver com os indivíduos e não exatamente com homens e mulheres, somente. E se o movimento “círculo de mulheres” e “sagrado feminino” prevê a quebra da dicotomia da subordinação ao capital/patriarcado/massificação por que normatizar? E, principalmente, por que algumas pessoas veem nesse momento uma chance insuportável de controlar as outras pessoas? Por que mesmo usando um discurso que prevê a autonomia das mulheres, outras mulheres e homens se acham no direito à subjugação e manipulação? Por que as pessoas tem tanto medo da diversidade? E precisam para se proteger, normatizar e tornar as coisas, animais e pessoas previsíveis?

Por que precisa-se “resgatar” tanto as mulheres? Me dei conta disso um dia fazendo um texto em que ia citar isso. Se por tanto tempo se precisa resgatar as mulheres, quando elas chegarão a ser? Ora se é pra elas serem protagonistas da própria história, elas não precisam ser salvas/resgatadas, elas são as próprias heroínas de si mesmas. Sim, claro, eu sei que muito precisa ser feito para que as mulheres tenham seu protagonismo reconhecido, mas é isso, elas já tem, não seria reafirmar que “elas AINDA não tem” lançando tantos workshops de resgate, cura e purificação?

Eu ainda não tenho essas respostas.

A única certeza que tenho até aqui é que, todxs, sem exceção, tem direito à dignidade, liberdade e um pouco de poesia, e podem experimentar isso da melhor maneira que puderem. Mas olhar em volta e reconhecer os próprios privilégios em que se está inseridx ajuda muito.

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Sabrina Alves não responde a perguntas como “qual a sua profissão”, “o que você faz” e nem a “qual a sua religião”. Às vezes, tenho planos de grandes revoluções, em outros momentos, só de fazer um bom pão glúten-free.

Mulher, aliste-se!

Aliste-se, inscreva-se, cerre fileiras, faça parte do contingente, junte-se a nós, venha conhecer, venha aprender, inclua-se.

A quantidade de possibilidades educativas à disposição da mulher impressiona. Não falo de escolas no sentido formal do termo, de instituições educativas tradicionais, nem da obtenção de graus acadêmicos ou de proficiências técnicas. Falo de oportunidades para que a mulher incorpore conhecimentos que supostamente estão faltando e farão uma diferença substancial em sua vida.

Essas informações estão em capas de revista, em chamadas de notícias de portais online, na programação televisiva, mensagens de spam, redes sociais, em todo lugar. Eu diria para você experimentar quinze minutos de navegação e reparar em quantas dessas chances imperdíveis você tropeça: um tutorial de maquiagem aqui, um apanhado de dicas infalíveis de sedução acolá, um guia para aprender a lidar com a selvageria do mercado de trabalho pero sin perder la ternura jamás, cursos de pole dance, pompoarismo, resgate da feminilidade, matérias cheias de “certo x errado” para se vestir direito.

De que são feitas as meninas? Busque no Google por “mulher”, “feminina” ou “feminilidade” pra ver no que você deveria se transformar. (imagem de Paul Tomlin em CC no Flickr, alguns direitos reservados)

Às vezes paro para pensar e fico com um pouco de medo de enxergar tudo com olhos excessivamente críticos. Afinal, qual o problema de oferecer informação que pode ser valiosa para que a qualidade de vida da mulher melhore?

Aí está a questão, não acho que sejam iniciativas que tragam informação efetivamente. Não considero esse tipo de informação útil (termo complicado…) ou necessariamente valiosa. O problema é que parte-se em geral de um pressuposto de que a mulher cissexual  precisa ser educada, ou antes domesticada em sua aparência, seus desejos, seu modo de viver. E, imagino que sobretudo para mulheres trans*, seja mais difícil, porque talvez sintam mais a pressão para ser uma mulher “completa”, para se adequar ao que se prescreve e se vende como a forma legítima de ser mulher. Porque se não for desse jeito, meu bem, você não é mulher, não do jeito “certo”. E por isso precisa se corrigir, se instruir, se aperfeiçoar.

Um apelo ao “resgate da feminilidade”, tão “fundamental nesses tempos modernos em que os valores tradicionais se perderam” soa, ao menos para mim, como um rolo compressor que passa por cima de subjetividades, que instaura e legitima uma imagem-padrão da mulher que “precisa ser feminina”, e de uma forma preestabelecida. Precisa por quê? Para quê? E se não for feminina?

Existem mil maneiras de ser mulher e elas não são ensinadas em cursinhos, dos mais chinfrins aos mais caros e recheados de pseudocelebridades ofertando sabedoria e experiência. Outro erro está aí: a minha experiência em relação a uma questão tão particular — ser mulher — não é e não deve ser espelho para ninguém, porque ela vem de um contexto específico em que se desenrola a minha vida, ainda em andamento. Então, como eu chegaria nas pessoas para “ensinar” alguma coisa? (ah sim, vamos trocar o verbo tão alusivo a uma relação verticalizada por outro termo, “compartilhar conhecimento”. Beleza, se o conhecimento não é passado, é compartilhado, então um dos lados não deveria pagar e o outro não deveria receber por isso, não?).

Também tendo a enxergar um viés perigoso de submissão da imagem e da atitude femininas. Como se coubesse à mulher a posse de conhecimentos, truques, sortilégios e mumunhas para que aquela noitada seja inesquecível ou para que a casa fique sempre em ordem.

O homem, este ser portador de uma masculinidade-padrão que o torna passivo e desprovido de agência e que, como já aprendemos com o mercado publicitário, não consegue pensar direito à vista de um corpinho bonito vestido em lingerie sexy, deita na cama e aguarda ou se senta à mesa esperando que tudo seja servido/providenciado/proporcionado.

Se não é isso, por que há menos tutoriais, menos guias de comportamento, menos cursos de sedução para homens? Por que não há evocações para que o homem “resgate sua masculinidade”? Ainda que haja uma ideia, igualmente equivocada, de masculinidade dominante, não se ouvem os mesmos chamados que pedem que aquele indivíduo se eduque, se discipline, “aprenda”.

Evoco mais uma vez o antigo caderninho de economia doméstica da minha avó, encontrado em uma mudança. Nos longínquos anos 40 uma disciplina formal ensinava às moças de que é feita uma dona-de-casa exemplar, uma mulher decente, mãe e esposa valorosa. Vejam só que beleza garimpei lá:

Por excelente que seja a educação científica, literária e artística de uma jovem, ou a sua profissão, ofício ou negócio, não servirá ela para mulher casada (dona de casa) se não tiver os indispensáveis no matrimônio para governo de casa do que tudo quanto lhe possam ensinar nas escolas. O valor do dinheiro e a sua aplicação; o valor nutritivo dos alimentos, e a melhor maneira de os preparar sem desperdício ou prejuízos; o arranjo e a limpeza dos aposentos, o cuidado com os enfêrmos, a manufatura de bordados e peças do vestuário, a judiciosa distribuição do tempo, do lugar, do trabalho e do dinheiro são outros tantos temas capitais dos estudos e da aprendizagem para as aspirantes ao matrimônio ou a boa dona de casa.

Passa o tempo e continuam tentando enfiar uma passagem direto para Stepford na mão da mulherada. (cena do filme Stepford Wives, dirigido por Bryan Forbes em 1975 e baseado no romance homônimo de Ira Levin)

Ficam faltando na lista acima as qualidades indispensáveis para que a mulher “cative seu marido”, mas truques de alcova jamais seriam ensinados às claras, em aulas formais. Até porque na época, ainda vigorava a ideia de que havia determinadas coisas às quais uma mulher direita não deveria se prestar. Porém, nada que a conversa informal com mulheres mais experientes não resolvesse.

Chamo a atenção para o fato de que é constante e atemporal a busca pela mulher “educada” e “instruída” da década de 1940. Mudou o que, afinal? Há mais “modalidades” disponíveis para a mulher que precisa aprender algo, da maquiagem ao sexo oral, mas permanece clara a noção de que não importam suas qualidades (como diz o trecho destacado do caderninho), ela é um ser incompleto e passível de correção, supostamente em busca de aperfeiçoamento contínuo.

A vida não admite recrutamento obrigatório. Não permita que te convoquem, que te disciplinem, que te digam o que e como você deve aprender e para quê. Inscreva-se no curso de dança sensual, se isso for lhe proporcionar deleite, prazer, realização pessoal, mas não atenda a imposições. Quem se educa é você, quem decide é você. E quem “se encaixa” é pecinha de Lego.

Você não é um pedacinho prefabricado, asséptico, inerte, liso e plano de plástico, é?

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Agradeço a Mari Moscou, Camila Gläser, Kika Del Piero, Maria C. Ribeiro, Alê Trindade, Lilian Borges e Aline Freitas pela leitura e pelos pitacos fundamentais.