Sobre drag queens e o Feminino

Texto de Vlada Vitrova para as Blogueiras Feministas. 

Eu (e mais 105 milhões de brasileiras) fomos designadas mulheres ao nascer. Algumas de nós antes mesmo de nascer! Ganhamos coisas rosas, enchemos nossa família de fantasias sobre a princesa que iria vir ao mundo. Era o Feminino batendo na nossa porta e dizendo: “agora você me pertence, aprenda a viver comigo, e com as minhas regras”.

Essa entidade, o Feminino, dizia que nós não podíamos falar muito alto, senão estaríamos nos comportando igual os meninos, e ninguém espera isso de uma mocinha. Ele nos disse que pouca maquiagem é desleixo, e muita maquiagem é coisa de puta. Nos ensinou que ser magra demais é feio, e ser gorda demais também – nenhum (ne-nhum!) homem vai nos querer assim. Nos impôs uma maturidade falsa, afinal, temos que nos preparar desde cedo para cuidarmos do homem da nossa vida. E, é claro, nos deixou bem explicado que, nós vivemos para um dia encontrarmos o tal HOMEM, e aí então, estaríamos completas e realizadas no nosso papel de mulher.

Olha, eu não sei vocês, mas eu não achava o Feminino um cara muito legal, já que toda vez em que eu tentava me soltar um pouco mais, fazer um cabelo diferente, usar uma roupa mais extravagante (ou simplesmente não gostar de brincar de bonecas e ser LOUCA por Forte Apache), vinha o Feminino me lembrar do papel que eu estava fadada a desempenhar.

O Feminino é nosso carcereiro.

É nesse momento em que entram as Drag Queens. A arte do “transformismo” (embora muito mais antiga do que isso) tomou consistência no período Elisabetano, quando as mulheres eram proibidas de atuar em peças de teatro. Porém, os papéis e personagens femininos ainda existiam nas histórias contadas. Qual foi a solução encontrada para esse problema? Permitir às mulheres a participação nas peças? Não. Permitir aos homens que se vestissem de mulher. Portanto, não podemos esquecer que a arte Drag surgiu num contexto de opressão e repressão à mulher, em que a solução encontrada para o problema do teatro fora a manutenção da exclusão das mulheres.

Por conta desse contexto histórico, do pensamento patriarcal e da facilidade de assimilação do senso comum, a ideia de Drag Queens como pessoas que mimetizam o feminino se mantém até os dias de hoje.

Mas pera aí. O Feminino é aquele serzinho que aprisiona várias mulheres até hoje, lembram? Porque então insistirmos em uma arte que apenas reforça os estereótipos que alimentam o Feminino?

A resposta é bem simples: a arte Drag já deixou de ser, há muito tempo, uma arte preocupada com mimetizar o feminino (embora o senso comum e a mídia de massa reforcem esse aspecto). Na verdade, ela evoluiu: a arte Drag ( performada por Queens, Kings, Club Kids, Tranimals, entre outros) passou a ser uma arte que trata, principalmente, de quebrar as barreiras de gênero: é uma arte que destrói a ideia normativa de gênero em si. A arte Drag critica os papéis que nos são determinados ao nascer, a forma exata que temos que nos comportar. Critica o Feminino e, o irmão dele, o Masculino também. Portanto não faz muito sentido julgarmos uma Drag Queen com base no gênero com que a pessoa se identifica quando não está performando.

Nós, mulheres Drag Queens (surpresa!) lidamos diariamente com o machismo e a misoginia partindo de dentro da própria comunidade queer. Aquele mesmo machismo e misoginia que disse às nossas ancestrais, nos século 16, que não elas não podiam subir nos palcos. E o argumento ainda é o mesmo: “isso é coisa de homem”. Mal veem eles que nós, ao subir em um palco (que nos é negado há séculos), usando a maquiagem que queremos, vestindo a roupa que quisermos, falar alto, não tendo vergonha dos nossos corpos, e ocupando um espaço que nos é negado pelo simples fato de sermos mulheres é lutar contra o Feminino. É quebrar padrões de gênero. É fazer Drag. É nos libertar do nosso carcereiro.

Portanto, desmerecer e negar a participação de mulheres (cis E trans) no movimento Drag é sinal de duas coisas: ou desconhecimento da causa e contexto (o que não é um problema e tanto eu, quanto várias outras mulheres Drags, estamos sempre dispostas a conversar e tirar dúvidas) ou, infelizmente, machismo (esse sim, um grande problema).

Vai ter mulher Drag sim!

P.S.: Acessem a página das Riot Queens no Facebook, para conhecer mulheres maravilhosas, do Brasil inteiro, que fazem Queen e King.

P.S.: Não podemos deixar de lado a discussão sobre o fato de várias Drag Queens do gênero masculino estarem, cada vez mais, reforçando os estereótipos que fortalecem o Feminino – ao invés de buscarem a quebra de gênero. Se a liberdade de um grupo oprime outro grupo não é liberdade de verdade, é exercício de poder. Mas, isso é assunto pra outro momento!

Autora

Vlada Vitrova, 26 anos, é drag queen e mulher, nascida no Brasil e residente na Suécia. Utiliza a arte drag como plataforma de militância feminista e queer. Utiliza fotografias como principal suporte para a criação de conceitos e imagens que ajudem na quebra de estereótipos geralmente ligados à imagem feminina.

Imagem: Vlada Vitrova, arquivo pessoal