Sertanejo feminino: machismo para consumo das mulheres?

Texto de Daiany Dantas para as Blogueiras Feministas.

Há algum tempo estou intrigada com o sertanejo feito por mulheres. Sabemos que é um meio de hegemonia masculina. Portanto, observar a ascendência de compositoras e intérpretes mulheres torna-se uma obrigação para quem estuda e pesquisa cultura.

Entre diversas músicas que tem como tema principal um relacionamento amoroso, há várias em que a protagonista sofre por um amor perdido. Entretanto, neste meu primeiro contato, o que percebi das letras me fez refletir sobre um fenômeno mais abrangente: o machismo para o consumo das mulheres. Uma certa dose de revanchismo presente em alguns produtos da cultura pop, que surgem também porque há uma consciência dos direitos das mulheres em expansão.

Portanto, são um pouco mais problemáticos do que aparentam.

Percurso da análise: peguei uma carona Mossoró-Natal (280km), num carro cuja lotação era estritamente feminina. A trilha sonora: sertanejo feito por mulheres, super em alta no momento. Eram canções que tratavam de traição, revanche e vingança. Eu digitei trechos das letras enquanto as ouvia, até porque pensei em analisar mais tarde, e havia coisas como “judia, judia, judia que ele liga; pisa, pisa, pisa que ele quer de volta”, ou “se é pra trair, traísse com uma melhor que eu. Merecia um tapa, copo de cerveja no meio da cara”.

Tá, eu sei. Eu sei que seria falsa simetria se eu dissesse que trair é a mesma coisa para um homem que é para uma mulher. Na verdade, há uma intensa ironia nas letras que contrasta com o tipo de moral social que se aplica às mulheres. Discutir sexualidade, por exemplo, ainda é um tabu, já que o corpo das mulheres é dissociado de sua subjetividade e submetido a uma série de códigos de controle. Debater intolerância à infidelidade também pode ser visto como um instrumento de autonomia, já que somos orientadas a entender a infidelidade masculina como compulsória, desde cedo. Afinal, a honra é um código masculino.

Mas, aí é que está. Um dia desses um amigo me marcou em um vídeo de uma garota se ‘vingando’ do namorado infiel quebrando o celular dele. Lá fui eu explicar por duas horas o porquê de eu não concordar com aquilo, mesmo entendendo que a reação é diferente da opressão. Essa intolerância, nas músicas dessa vertente de sertanejo feminino, e em outras reações, são celebradas justamente em torno de um código de violência que apenas reforça o ideal de honra masculina. O mesmo ideal de honra que é o cerne do feminicídio, de que a mulher deve ser socialmente punida quando transgride a ordem de uma relação “romântica” (o casamento/noivado/namoro feito para durar para sempre), extremamente idealizada em nossa cultura.

Entendo que muita gente goste de cantar, especialmente em grupos, porque parece ter esse poder de pagar na mesma moeda, mas acredito que nosso compromisso na luta pelo fim da violência contra a mulher passa pela desconstrução desses valores sociais.

Compete-se pelo homem, tratam-no como troféu, algo que faz uma diferença tão grande na vida de uma mulher que ela é capaz de quebrar coisas e agredir outras pessoas por ele. As agressões, nas letras, são vinganças materiais e morais (como vemos nas letras de “50 reais” e “Infiel”) ou são violência física contra as supostas rivais (“não sei se dou na cara dela ou bato em você”). Ou seja, é o machismo reciclado para parecer inovador. Ninguém está fazendo nada de novo, estamos apenas passando o pano pro status quo.

Quando eu tentei explicar ao meu amigo que não havia sentido nesse tipo de vingança, ele falou: “mas eu não acredito nessa história de que ‘a vida dá o troco’, a pessoa merece sentir na pele”. Minha gente: Nada. NADA. NA-DA restaura um coração partido. Só o tempo. Não existe nada material, moral ou nenhum tipo de agressão que irá desinstalar dentro de nós a dor de não ter sido amada ou amado. Verdade que nós mulheres experimentamos a compreensão desse FATO na prática, porque nunca detivemos pátrio poder que chancelasse a violência como restauração da honra e, ainda falta muito para que sejamos vistas sequer como sujeitos autônomos neste planeta. Entretanto, absorver a lógica do revide não irá influir na dimensão do reconhecimento de nossa subjetividade.

Nessa linha de sertanejo feminino, as letras não são sobre amor e superação. Elas são sobre posse e violência machista. Sobre manipular essas duas coisas para que elas fracassem, quando já não podemos partilhá-las. Quebrar coisas, agredir pessoas não é uma lógica tão distante de desfigurar o rosto de alguém com ácido, agredir ou matar. São impulsos menores apenas porque são subalternizados, por partir de mulheres. Na luta pelo homem, as mulheres, heroínas das letras, não matam, mas agridem e revidam, não para serem sujeitos plenos, mas para demarcarem o valor social de uma mulher acompanhada de um homem. Indiretamente estão reforçando um código de honra masculino. E, não endossam apenas a posse, mas o fato de que nos cabe o lugar de objeto possuído, e, assim, dignificado.

Eu noto que temos vivido, nesses tempos de superexposição da nossa imagem, uma cultura de vingança notória, de exposição do caráter alheio, de regulação da conduta pública pela humilhação. E isso dá uma falsa sensação de poder. Há muita raiva e catarse precisando serem colocadas para fora, já que vivemos numa sociedade que nos agride diariamente. Porém, acredito que essa é uma saciedade por pequenos prazeres de revide que apenas reforçam a lógica machista de nossa sociedade.

Gostaria muito que superássemos esse sentimento de vingança que vem atrelado ao significado de posse e de honra nos relacionamentos. Eu nunca me preocupei em me vingar de Ex. Ao contrário, torço para que eles tenham alguém e se realizem na vida, tenho consciência que minha felicidade perpassa outros eixos bem distantes da felicidade alheia. E que certos “fracassos sociais” associados às mulheres se eliminam combatendo o machismo. Nunca a outras pessoas.

Autora

Daiany Dantas é professora, feminista, entre outras coisas.

Imagem: Portal Piranot/Banco de Imagens.

Documentário Bambas e o machismo no samba

Anná Furtado é cantora, percussionista e sambista. Recentemente nos escreveu para falar de seu projeto, o documentário Bambas, sobre machismo no Samba: “acredito na potência que este tema tem de dar visibilidade a muitas mulheres negras da nossa história”.

O samba, um dos ritmos mais populares do Brasil, como qualquer outro espaço reproduz muito machismo, invisibiliza o trabalho de muitas mulheres, especialmente como compositoras. Porém, elas sempre estiveram presentes na história do samba.

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Chico Buarque: trocando em miúdos

Texto de Luciana Nepomuceno.

Uma coisa que sempre fiquei encafifada foi com esse lance de falarem que o Chico entende (ou não) a alma feminina. O primeiro “ué” é porque eu nunca vejo textinhos e textões, elogios ou debates sobre o Chico entender a alma dos trabalhadores, dos exilados, dos malandros ou, vá lá, a alma dos homens. Não. Experimenta aí, coloca no Google: Chico Buarque e a alma masculina; assim, sem aspas. Pra mim o primeiro texto que veio se chama: as mulheres do chico buarque, o segundo foi: sou mulher e o chico buarque não me compreende. Por aí vai. Já virei a página duas vezes e nada da tal alma masculina.

chico_buarque

Do primeiro incômodo decorre o segundo (que qualifica o primeiro). Porque não se fala que ele é um bom contador de histórias de mulheres? Porque não se diz que ele cria bons personagens de mulher? Nananinanão. O foco é na alma. No “mistério feminino”. Se alguém precisa conhecer a alma das mulheres é porque somos complicadas, enroladas. E, CLARO, um grupo homogêneo. Quede, pelo menos, alguém dizendo que ele conhece as almas (no plural) de uma mulher (singular, única, sujeito)? Nopes. É difícil, duro, um trabalho arrojado, mas alguém tem que o fazer (#ironiamodeon): descobrir a alma (singular) das mulheres (comuns, iguais, padronizáveis), fazer um inventário e passar a dica pros demais.

Isso me irrita como mulher e como uma das pessoas encantadas pelo talento do Chico.

Ninguém fala da “alma masculina” porque é o default da nossa sociedade. Aos homens está autorizado serem vários, serem personagens únicos, relevantes, nomes próprios até quando não são nomeados. Se em uma canção não há evidência de gênero, logo se deduz que é um homem o sujeito.

Um exemplo fora do universo da música, mas próximo dele e de nós, é a questão da literatura. Temos a Literatura, que é feita por “pessoas em geral”. E temos a literatura feminina, que é feita por mulheres (e não venham argumentar que o critério é outro, temática ou protagonismo ou whatever, nunca ouvi dizer que Madame Bovary fosse chamada de literatura feminina, por exemplo). Mas, ora, se as mulheres estão fazendo a dita literatura feminina, sobra quem pra fazer a Literatura maiúscula e universal? Ah, os homens. De literatura masculina ninguém quer batizar, né? Se não fosse triste e excludente, seria ridículo e risível (ou talvez seja todas essas coisas).

As mulheres, somos um pacote que precisa vir etiquetado. A essencialização do feminino com sua consequente generalização — a “alma feminina” é suposta estar em todas as mulheres – naturaliza tanto a prescrição de comportamentos (mulher age assim, mulher faz assado) como o julgamento e punições possíveis pra quem sai do padrão (do bem feito, não se dá ao respeito ao quem ele pensa que é tentando ser mulher, passando por todas as ações de exclusão e inferiorização das mulheres negras, com deficiência, índias, gordas, trans, etc.).

Nós, mulheres, podemos ser ditas, narradas, classificadas mas não dizer, narrar, protagonizar. Talvez (e uso o talvez por generosidade) por isso mesmo as canções do Chico onde o sujeito da enunciação é mulher e diz de si mesma não podem ser elogiadas no que são, precisamos ser recordados de que quem escreveu é um homem que “sabe” de todas e todas são uma, ou umas: tipos.

E tudo isso aí eu acho super injusto com a obra do Chico Buarque (sim, escrevi o texto todo só pra protestar no lugar dele). O que ele faz, muitas vezes, são canções sobre pessoas. Algumas canções sobre elas, outras vezes simulando que as pessoas dizem de si. Estamos tão desacostumados a ver mulheres como gente, como iguais, que precisamos (como sociedade) criar uma delimitação a parte para quando, em uma canção, é evidenciado que é uma mulher o sujeito.

Mulher não é isso, homem não é aquilo. Somos, homens, mulheres ou mesmo os que não se identificam com nenhum dos dois gêneros, o que fazemos de nós a partir do que é feito de nós pela época, lugar, contexto, oportunidades em que estamos inseridos. E vamos fazendo nossa época, lugar, contexto e oportunidades a partir do que somos e fazemos.

Eu não acho que o Chico entende a alma feminina porque não há esse objeto “alma feminina” pra ser encontrado, nem entendido, nem descrito, nem nada. O que eu acho é que ele apresenta discursos e personagens de pessoas, ora mulheres, ora homens, ora sem definição de gênero, de uma forma complexa, bela, intrigante e cativante. Acho que ele traz personagens humanos e envolventes, em situações que, vividas de forma particular mas com elementos históricos e contexto, nos tocam e provocam.

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Vídeo – Maria Bethânia entrevista Chico Buarque – 1981