BBB 2017: relacionamento abusivo como entretenimento televisivo

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Essa é a última semana do programa Big Brother Brasil 2017 (BBB). Nessa atual edição o espetáculo principal é um relacionamento abusivo. Um relacionamento em que há muita violência verbal e psicológica, em que a violência física é relativizada, em que um homem e uma mulher estão completamente atrelados num ciclo de violência constante, mas que tantas pessoas chamam de “amor”.

Assim como a Fernanda Maranha, acredito que Emilly Araújo e todas as mulheres merecem respeito. Independente do que ela faça, é visível nos vídeos exibidos pela Rede Globo que ela é ameaçada, encurralada, imobilizada, agredida. Marcos grita com ela, a acusa de inúmeras coisas, a culpa e depois chora copiosamente dizendo que tudo que quer é salvar o relacionamento deles dois. É algo terrível de ser ver, provavelmente disparam gatilhos em muitas mulheres, mas mais chocante é saber que os fãs do programa estão adorando isso. Marcos e Emilly permanecem como os participantes mais populares.

Sinto uma enorme frustração ao ver esse caso, imagino que qualquer mulher que já teve uma conhecida num relacionamento abusivo sinta isso, pois não sabemos o que fazer e geralmente demoramos a nos posicionar, já que a primeira reação ao alertar uma pessoa num relacionamento abusivo é ela se afastar. Várias mulheres da casa tentaram alertar Emilly. Mas ao mesmo tempo é bem comum culparmos a vítima. Essa é a perversidade de um relacionamento abusivo. Nesse caso sempre que é chamado atenção, Marcos afirma que está errando, que está tentando, chora, mas continua alimentando todo o ciclo, nenhum dos dois muda a dinâmica da situação.

Por que as pessoas romantizam a violência?

Se é tão angustiante assistir isso, qual a razão de tantas pessoas acharem lindo? Primeiro, ensinamos as meninas que o amor tem que ser algo “difícil”. O amor tem que ser permeado de sentimentos inconsequentes, que nos fazem querer viver intensamente o momento sem analisar como estamos sendo tratadas, as trocas que existem nas relações. Não falamos com as crianças e jovens sobre saúde emocional ou consentimento. Emilly e Marcos estão num confinamento e isso reforça os sentimento de: “só temos um ao outro” ou “só você me entende” ou “você é a única que pode me salvar”.

A mulher como salvadora do homem é um clássico. Um grande arquétipo da sociedade patriarcal para fazer com que muitas mulheres se sintam um lixo e ao mesmo tempo só se sintam valorizadas quando se relacionam com homens extremamente ciumentos e possessivos. Muitas vezes a violência e as agressões são tudo o que tem e se acham merecedoras disso.

Num programa ao vivo, Pedro (participante eliminado da mesma edição) perguntou a Emilly: “Enquanto eu estava na casa, eu vi o Marcos te zoar, vi o Marcos ser grosso com você e até fazer ciúme com você. E depois que eu saí, ele até parou de falar com você por um tempo. O que quero saber é, qual o seu limite pra esse relacionamento?”. É uma pergunta dura e Emilly está numa posição vulnerável, ao vivo e reativa, ela responde: “O que eu sinto por ele é muito forte, muito verdadeiro, gosto muito dele. Tanto que me tachei de trouxa por sentir mais saudade dele do que ficar chateada pelas coisas que ele faz. Sentia mais saudade do que qualquer outra coisa. E o limite eu não sei, talvez se ele me trair, talvez se ele me ofendesse, não sei o limite porque eu gosto muito dele”.

Marcos gritou com Emilly inúmeras vezes mas ela não enxerga como ofensa. Diariamente, o que ensinamos as meninas e meninos não é que devem respeitar os sentimentos uns dos outros e que têm responsabilidade afetiva quando se relacionam com alguém. O que ensinamos é que a monogamia é o bem mais precioso de uma relação, por isso que o imperdoável para Emilly não é ser agredida, mas sim ser trocada por outra mulher. Não falamos com crianças e jovens sobre limites e respeito dentro de um relacionamento. Portanto, crescemos achando que apertar o braço do outro numa briga é normal, que derrubar no chão e ficar por cima mesmo enquanto a outra pessoa diz ‘não’ é certo, porque tudo que se está fazendo é por “amor”. Essa falta de educação emocional é nossa parcela de culpa social no ciclo da violência contra as mulheres.

Qual a responsabilidade da Rede Globo?

O outro lado dessa história é a responsabilidade da Rede Globo, uma concessão de televisão pública, mas que dificilmente tem seu conteúdo questionado pelos órgãos de fiscalização e, que também vem fazendo sistematicamente ações contra o machismo para tentar mudar sua imagem, provocando confusão na mensagem transmitida.

Semana passada tivemos um grande movimento organizado pelas funcionárias da Rede Globo em apoio as denúncias de assédio e abuso ao ator José Mayer feitas pela figurinista Su Tonani, publicadas no blog #AgoraÉQueSãoElas na Folha de São Paulo. Um espaço que nasceu justamente para dar voz as mulheres. As hashtags #ChegaDeAssédio e a frase “Mexeu com uma. Mexeu com todas”, foram divulgadas em diversas redes sociais por artistas estrelas da emissora. A Rede Globo numa estratégia de redução de danos decidiu apoiar a campanha. Também vem sendo bem elogiada pelos temas debatidos no programa Amor & Sexo. Porém, escolheu deixar nas mãos de Emilly denunciar se houve ou não violência física no BBB, mostrando que sua postura em relação ao machismo é seletiva.

A própria Rede Globo alimentou esse relacionamento desde o início. Mostravam os desentendimentos e as pequenas violências como algo comum e que gera audiência. E agora, em que a situação está ficando cada vez mais perigosa, decidiu colocar a culpa em Emilly e no público pela não eliminação de Marcos. No programa ao vivo, o apresentador Thiago Leifert avisou que a produção conversou separadamente com os dois e que Emilly pode e deve procurar a produção para denúncias e reclamações. Para os dois foi como tomar uma bronca da direção do programa, ao que parece não foram alertados sobre a gravidade da situação e que a violência contra a mulher é algo inadmissível. Na conversa posterior vemos mais uma vez Marcos culpabilizando Emilly por atitudes agressivas dele.

Hoje, saiu a notícia de que a diretora da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher do Rio (Deam), Marcia Noeli Barreto, determinou o registro de ocorrência após ver as imagens de mais uma briga entre os doisA delegada da Delegacia da Atendimento à Mulher de Jacarepaguá, Viviane da Costa Ferreira Pinto, vai acompanhar o caso e solicitar à emissora as imagens de toda confusão para que a gente possa ver se houve lesão corporal. Pelo menos é o que ela (Emilly) diz. Esse caso não pode ficar sem ser apurado — conta a diretora, que acrescenta:— A tortura psicológica que ele pratica é considerada violência doméstica, se enquadra na Lei Maria da Penha. É assim que tudo se inicia. Ele não a ameaçou de morte, por exemplo, mas houve constrangimento tão forte, que ela ficou acuada.

Em casos como esse do BBB, o que pode resultar em ação mais rápida é que a própria família da participante acione as instituições responsáveis, pois a Rede Globo tem um contrato que a responsabiliza por cuidar da integridade dos participantes. Se nada for feito nesse sentido, há a possibilidade de acionar o Ministério Público contra a Rede Globo. Por ser uma concessão pública, a emissora pode responder por legitimação da violência de gênero, por violação de diretriz estabelecida na Constituição Federal e possivelmente citada na Lei Maria da Penha, que trata de medidas integradas de prevenção a violência contra a mulher.

Também é possível denunciar Marcos, mas é preciso caracterizar violência física para que o processo siga sem a denúncia da vítima. No caso de agressão verbal, em tese, o início do processo ainda depende da vontade da vítima, em razão do “se ofender” ser algo subjetivo. Porém, o BBB é um programa que extrapola a esfera do privado e isso pode ser questionado. Mesmo assim, se a vítima nega a violência isso esvazia a denúncia.

Em 2012, o Ministério Público entrou com ação contra Daniel Echaniz, participante que foi acusado de estupro de vulnerável à companheira de confinamento, Monique Amin. O caso não chegou a virar um processo judicial e, por unanimidade, a Justiça determinou o arquivamento do inquérito policial, já que não haviam provas suficientes.

Também em 2012, O Ministério Público Federal entrou com uma Ação Civil Pública contra a TV Globo e a União. Pediu liminar que proíba a emissora de transmitir cenas relacionadas, mesmo que em tese, ao que considera prática de crimes durante o programa Big Brother Brasil. Em 2015, o participante Douglas Ferreira confessou ao vivo ter agredido uma mulher com quem teve um breve relacionamento. Em 2016, algum tempo após sair do programa, o participante Laércio de Moura foi preso acusado de estupro de vulnerável.

O programa é célebre por ter participantes que fizeram comentários homofóbicos, lesbofóbicos, transfóbicos, racistas. Por ter participantes acusados de pedofilia e maus tratos aos animais. Já assistimos inúmeros casais se formarem no reality show de maior audiência do Brasil, já vimos várias cenas de agressões verbais, e até o estupro de uma mulher em situação vulnerável. Na mídia tradicional, tudo isso é chamado de “polêmica”. E assim vamos minimizando essas violências diárias que destroçam inúmeras pessoas, especialmente mulheres.

Já falei algumas vezes sobre a violência contra a mulher em novelas. E nosso foco geralmente é a Rede Globo por ser o canal com maior audiência no país, mas a televisão brasileira no geral reproduz e estimula a violência contra a mulheres constantemente.

Sabemos que não vamos salvar todas as mulheres. Sabemos que Emilly tem inúmeras fãs adolescentes que veem esse relacionamento como ideal. Sabemos que ali são duas pessoas adultas tomando decisões, mas é importante ter em mente que ninguém entra num relacionamento sabendo tudo que vai acontecer. Os conflitos emocionais são inúmeros, as maneiras como uma pessoa tem poder sobre a outra são inúmeras, as formas como as pessoas se machucam em relacionamentos são inúmeras.

Não quero ligar a televisão e ver uma mulher sendo humilhada, violentada verbalmente, imobilizada e machucada por um homem que chora e diz que a ama. Porém, vivemos tempos sombrios em que as pessoas fazem selfie com um ex-goleiro que mandou matar uma mulher, com um deputado federal que explicitamente defende ideias racistas. Ignorar isso tudo apenas desligando a televisão não vai fazer com que a violência contra a mulher suma. Minha única esperança, já que não posso impedir a Rede Globo de compactuar com a misoginia, é que algumas mulheres vejam essas cenas e saiam de relacionamentos abusivos. Que elas encontrem forças para pedir ajuda e que nós continuemos na luta para que mais canais sejam abertos para as mulheres gritarem e denunciarem essas violências.

Imagem: Marcos coloca o dedo na cara de Emilly durante uma briga em cena do programa Big Brother Brasil 2017 da Rede Globo.

[+] O relacionamento abusivo será televisionado. Por Thaisa Alves no Os Entendidos.

[+] Precisamos falar sobre a permanência de Marcos no Big Brother Brasil. Por Vanessa Panerari no Lado M.

[+] Mexeu com uma, mexeu com todas: uma reflexão sobre assédio, cultura do estupro e cultura pop. Por Anna Vitoria nas Valkirias.

Faz 3 anos que consegui sair de um relacionamento abusivo

Texto de Ana.

TW: Relato de violência física e psicológica.

Faz 3 anos que consegui sair de um relacionamento abusivo. Resolvi escrever esse relato como forma de desabafo: meu Ex nunca foi confrontado por tudo que ele me fez. Sempre tive medo, e minha esperança é que isso de alguma forma chegue aos olhos dele. Também espero que contar essa história me ajude a superar e poder ajudar mulheres que passam por uma situação semelhante (ou muito pior) que a minha.

A primeira vez que meu ex namorado mostrou quem era de verdade, foi quando ele me bateu na festa em que ele me viu ficando com outro cara. Nós não estávamos mais namorando (fazia alguns meses) e ele fez de TUDO para eu não ir na festa quando ficou sabendo que eu estaria lá. Me chantageou, me xingou, me ameaçou. Mas, pela primeira vez (uma das poucas, na realidade) eu o confrontei, e disse não. Eu estava decidida a ir naquela festa.

Continue lendo “Faz 3 anos que consegui sair de um relacionamento abusivo”

Jessica Jones: abuso, resistência e mulheres que não precisam de homens para salvá-las

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a trama da série Jessica Jones, disponível no Netflix.

jessicajones

Duas pessoas começam a namorar. Algum tempo depois, uma delas se afasta da família e amigos, de sua rotina diária e até das coisas que mais gosta por vontade da outra. A situação vai piorando e ela começa a duvidar de si mesma, a não ter mais referência de quem era antes dessa relação e a fazer coisas que ela nunca faria. Essa pessoa com o tempo não consegue mais ter vontade própria, tem sua autoestima minada e vive pela outra. Poucos percebem que algo está acontecendo e muitos duvidam que alguém seja capaz de submeter alguém dessa forma.

Essa é a história da anti-heroína que protagoniza a série Jessica Jones, adaptada dos quadrinhos Alias, mas é também uma situação corriqueira na vida real (de mulheres em sua grande maioria). Jessica é uma das poucas super heroínas de destaque, e que conseguiu protagonismo em uma série de televisão, chegando a um status talvez alcançado apenas pela Mulher Maravilha. Suas falas sarcásticas e atitudes de caráter duvidoso dão a personagem uma complexidade cativante. E sua determinação em salvar as vítimas de seu abusador nos lembram Lisbeth Salander.

Tratando de temas delicados relacionados a violência doméstica, violência sexual, violência psicológica, aborto e punitivismo, considerada uma série feminista e produzida por uma mulher, Melissa Rosenber, a séria ganha pontos também pela diversidade dos personagens. Temos relacionamentos lésbicos (vividos por uma personagem que era um homem no quadrinho), mulheres inteligentes, fortes e poderosas que não usam de sua sexualidade para conseguir status e homens negros em papel de destaque que trazem alguns pontos ao debate sobre racismo. Claro que existem limitações, já que a personagem principal é branca e heterossexual assim como sua melhor amiga e muitos dos personagens da série. E, ainda que esteriótipos como o de Patricinha de sua amiga ou de dependente de drogas de um de seus vizinhos sejam desconstruídos, poderiam investir um pouco mais nesse quesito.

Jessica adquire poderes em um acidente em sua infância e acaba desenvolvendo uma superforça. Mas nem isso, nem sua personalidade forte, a protegem de virar um fantoche na mão de Kilgrave, um vilão que tem o poder de controlar mentes, e que usando apenas alguns comandos consegue obrigar as pessoas a fazer o que ele quiser, mesmo que isso signifique fazer mal a si mesmo e a pessoas queridas e amadas. Essa relação deixa marcas profundas em Jessica, a atormentando mesmo quando acredita que seu agressor está morto, e ela resiste ao trauma se afastando de outras pessoas e afogando suas mágoas na bebida. Trabalhando como investigadora particular acaba descobrindo que Kilgrave fez mais uma vítima e tem de enfrentar todos seus traumas e inseguranças para salvá-la.

Mesmo sabendo que foi manipulada e submetida, Jessica é assombrada por um grande sentimento de culpa e acaba mantendo um distanciamento de qualquer relação afetiva, até de sua melhor amiga, com medo de magoar ou machucar alguém. Não é a toa que a relação que ela começa a manter é exatamente com um homem cujo poder é não se machucar.

Com o passar dos episódios conhecemos outras relações de abuso, algumas protagonizadas por Kilgrave e suas vítimas, outras de âmbito familiar que envolvem sua melhor amiga e a mãe dela e dois vizinhos que são irmãos gêmeos.

Dois pontos muito importantes da série dizem respeito a resistência a esses abusos e também as formas vis que elas podem ser interpretadas pelos agressores e por quem está de fora. As cenas mais representativas têm relação com as declarações de Jessica sobre os estupros de Kilgrave, que diminui a violência praticada por ele em um momento chamando de “interpretação” e em outro, dizendo que não poderia ser um estupro o que ele estava fazendo pois ele a enchia de presentes e tinha vários gastos com ela.

Outro momento chave é quando Jessica crê que se ficasse ao lado de Kilgrave poderia fazê-lo mudar, dando a ele a chance de ser uma pessoa boa através de boas ações. Quantas de nós já não fomos impelidas a dar uma segunda chance mesmo quando estava claro que não haveria melhora? Felizmente, Jessica não cai nessa armadilha.

Essas situações todas podem trazer vários gatilhos de traumas para pessoas que já passaram por situações parecidas, porém, a representação de como essas vítimas resistem e sobrevivem a esses traumas e agressões pode também contribuir para fortalecer e trazer a confiança de volta a pessoas que passaram por situações parecidas, e que as vezes não acreditam que podem superar o ocorrido. Essa representatividade vêm sendo negligenciada na ficção, onde comumente apenas homens fortes e confiantes tem suas histórias representadas.

As falas e atitudes de Kilgrave e de Will Simpson demonstram diferentes formas de agressão e abuso em relações afetivas e sexuais. Enquanto Kilgrave usa como desculpa os sentimentos que alimenta por suas vítimas para manipular todos a atenderem seus desejos, Will vai de policial bonzinho a stalker violento na tentativa de tentar lidar com as situações de seu jeito, por não admitir que mulheres poderiam dar conta da situação sozinhas de forma não ou menos violenta.

As violências ocorrem das formas mais sutis as mais explícitas, de obrigar uma mulher a sorrir por tempo indeterminado, a tocar um instrumento ou até o estupro. E, ainda que essas cenas não sejam mostradas, é possível ver o impacto que essas violências tiveram na vida das vítimas. Enquanto isso, os agressores se defendem: mas essa não era minha intenção, eles dizem. Vocês estão interpretando errado, insistem. Ainda que esteja bem óbvio que suas atitudes são violentas e impulsivas ambos negam que estejam fazendo algo de errado. Enquanto isso, a mãe da Trish e a irmã do vizinho de Jessica, usam como desculpa seu amor materno e fraternal, respectivamente, e seus papéis de cuidadoras como desculpa para agredir e controlar.

Diferentes vítimas buscam formas diferentes de resistir a toda essa violência física e psicológica. Trish busca aulas de autodefesa, investe em segurança. Jessica, quando tem surtos pós traumáticos, usa um subterfúgio que aprendeu na terapia nomeando ruas próximas da casa onde nasceu, busca viajar e se afastar além de beber para lidar com tudo. Outras vítimas de Kilgrave criam um grupo de apoio para falar sobre suas dificuldades em superar o impacto que a manipulação dele teve em suas vidas.

Somos apresentadas a todos os personagens e suas complexidades, em algum momento, mesmo os vilões fazem coisas boas ou os mocinhos fazem coisas ruins. A protagonista coleciona atitudes bastante condenáveis, mas isso não diminui a violência sofrida por ela, assim como o passado de Kilgrave não é o único fator determinante para suas atitudes abusivas.

Outro ponto interessante é a valorização das atitudes e qualidades de personagens que não são “super”, assinalando suas qualidades dos personagens como sendo seus superpoderes. A vontade de ferro/determinação de Trish, a empatia e dedicação ao outro de Malcon, qualidades também partilhadas pela enfermeira Claire Temple (personagem emprestada da série Demolidor). Esses personagens mostram que todos podemos resistir de alguma forma às adversidades e que amizades são bastante importantes nesse processo.

Várias situações relativas a abusos são mostradas na série: as dúvidas, a negação, a revolta, o sentimento de impotência. Mesmo assim, as vítimas resistem e persistem, seja ao buscar justiça, seja ao buscar seguir com suas vidas. Em vez de uma história comum e repetitiva de super herói em que as mulheres são salvas por eles, aqui são as mulheres que salvam si mesmas ou suas amigas de violências cometidas por esses homens e seguem suas vidas. E essa é a grande mensagem deixada por essa série. É possível sobreviver mesmo depois de passar por esses traumas e não estamos sozinhas.

+Sobre o assunto:

[+] Jessica Jones e os relacionamentos abusivos. Por Clarice França.

[+] Precisamos falar sobre Jessica Jones (e Kilgrave!). Por Andressa Dreka.

[+] Jessica Jones e as discussões que precisamos ter. Por Isadora Sinay.

[+] Jessica Jones cria retrato da misoginia cotidiana. por Gizelli Sousa.

[+] In Jessica Jones, superheroes in an abusive relationship brilliantly portray the domestic violence I knew. Por Brydie Lee Kennedy.

[+] Jessica Jones is a Primer on Gaslighting, and How to Protect Yourself Against It. Por Emily Asher-Perrin.

[+] ‘Smile!’ How a villain’s phrase in ‘Jessica Jones’ exposes modern-day sexism. Por Libby Hill.