Date rape: a culpa é do agressor, não da vítima

Texto de Georgia Faust.

Pensando nessa coisa de que toda mulher é ou já foi vítima de algum tipo de violência, sempre possibilitada pelo machismo, cheguei ao date rape. Uma violência que raramente é denunciada ou comentada, justamente porque a maioria das meninas acaba achando normal, ser parte do pacote cinema-jantar.

Já ouvi de muitas amigas minhas, muitas mesmo, relatos de situações onde o menino com quem estavam ficando tentou “forçar” algo. Esse tentar forçar algo já é em si uma violência. Falta quanto para eles entenderem que um não significa não? Falta muito. Porque muitos caras, muitos ainda acham que se ficarem forçando a menina vai ceder.

E pô, a regra não é TÃO difícil assim. Mulheres querem alguém que as respeitem, que as tratem com igualdade, que entendam nossas vontades e desvontades. Mas homem às vezes tem esse raciocínio tosco. Acha que mulher quando diz NÃO na verdade está só se fazendo de difícil, daí se insistir um pouco ela vai acabar cedendo.

É por isso que date rape é uma coisa tão comum hoje em dia. Date rape, para quem não sabe, é quando a menina sai num “encontro” (ou só fica com ele) e no final acaba estuprada. No Brasil isso ainda não é previsto juridicamente, porque nossa legislação é super atrasada no que diz respeito aos direitos da mulher, e além do mais, 99% das pessoas acha que, a partir do momento que a mulher aceitou sair, deixou ele pagar a conta e aceitou entrar num quarto com ele, É PORQUE QUERIA MESMO DAR E NÃO PODE RECLAMAR.

Quantas vezes julgamos a vítima, né? Vê uma menina de saia curta e diz: depois é estuprada e não sabe por quê… Coisa da nossa cultura. Novidade pra muitos: a culpa é do agressor, não da vítima. Todo mundo deveria se policiar nisso. Nenhuma menina, por mais curta que seja a sua saia, está procurando um estupro. E mesmo que ela esteja nua, nada justifica a agressão.

É o fim do mundo. E acontece muito. Homem tem que aprender que sim é sim e NÃO É NÃO, ORAS!!! E qualquer coisa além disso tem nome, é ESTUPRO.

Pra ilustrar a situação, lá vai um depoimento:

Quando eu tinha uns 19-20 anos, recém tinha terminado um namoro de 2 anos e estava curtindo a vidaloka. Tinha vários peguétes, estava curtindo ao máximo minha recém adquirida liberdade e quase independência financeira, saía muito, beijava muito e etc. Daí um dos meninos que eu ficava eu até que estava gostando, a gente se divertia muito, bebia horrores.Um dia a gente estava numa baladinha aqui e daí ele me convidou pra sair da balada e ir direto pra praia passar o final de semana. Eu topei, achei super massa essa loucurinha de tocar o foda-se e fazer o que dá na telha.Fomos pra praia, dormimos o dia inteiro e de noite fomos pra uma balada lá mesmo. Quando chegamos em casa ele estava trêbado, e daí veio querer transar – a gente, apesar de já estar ficando há algum tempo, ainda não tinha transado. Eu não quis, tava até meio com nojo, pq ele tava bêbado demais.Ele ficou insistindo, insistindo, e eu resistindo, não queria fazer. Mas sabe o que é PIOR? Eu pensava comigo mesma: Claro, eu vim até aqui, tô no mesmo quarto que ele, vamos dormir na mesma cama e agora eu não vou querer dar???? Tipo, na minha cabeça ele tinha todo o direito do mundo em exigir que eu desse pra ele, e a errada era eu em negar, eu me sentia como se eu tivesse “enganando” ele, afinal a partir do momento que eu aceitei ir pra praia, estaria aceitando o pacote completo. Eu lembro de fazer MUITA força com os braços pra afastar ele de mim, mas ao mesmo tempo me esforçar MAIS AINDA para não fazer barulho e acordar as outras pessoas que estavam no outro quarto. No final das contas ele acabou conseguindo o que queria, ele era bem grandão e forte, nunca que eu conseguiria impedir.Nunca mais falei com ele. Uns meses depois, num bar universitário que tem aqui, ele veio puxar papo, saber pq a gente não tinha mais ficado, dizer q tava com saudades. Eu respondi: você não lembra o q aconteceu aquela noite? Ele disse que não, e perguntou o que tinha acontecido… Bêbado fdp… Eu respondi: eu não queria transar com vc, vc me estuprou. Ele respondeu que não, que isso não podia ter acontecido. E ficou por isso mesmo.

Então né.

Como as pessoas julgam isso? Conhecia o rapaz, estava na casa dele, depois de uma festa, concordou em ir para a casa dele, concordou em entrar no quarto. Mas concordou em manter relação sexual? Não. Ele aceitou? Não. Caso típico de date rape. A maioria das vítimas deixa por isso mesmo, E PIOR, se sente responsável, como se estivessem “faltando com a obrigação”, afinal, concordamos com a preliminar, o desfecho é obrigatório, na cabeça de muita gente (homens e mulheres).

Você tem que casar

Texto de Georgia Faust.

Eu vejo muitas amigas minhas em uma corrida contra o tempo, lutando para conseguir atingir o seu sonho de criança. Que sonho é esse? Casar e constituir família. Acho interessante isso. Acho que toda mulher, quando criança, brincava de Barbie e imaginava como seria o dia do casamento. Todo mundo, com raríssimas exceções, quis casar. Quando eu tinha 20 anos, cheguei a pirar um pouco, porque a minha mãe com 20 já estava casada e já tinha eu. E eu com 20 não tinha nem namorado. Mas só pirei UM POUCO.

Mas daí que entre as brincadeiras de Barbie e a vida adulta a gente cresce né. E aprende. E vê pessoas ao nosso redor felizes de OUTRAS maneiras. Ou infelizes tendo a vida que a gente achou que ia nos fazer felizes.

Cena do filme ‘Noivas em Guerra’ (2009)

E, acredite, eu não tenho absolutamente nada contra filhos e casamento – apesar de não desejar isso para mim. Acredito sinceramente que isso pode sim ser uma receita de felicidade para muitas mulheres – apesar de não ser pra mim. Não milito CONTRA o casamento. Mas milito, incansavelmente, contra a mitificação dele. E contra a absurda pressão social que toda mulher sofre, diariamente. Pais, tios, amigos, pessoas que a gente acabou de conhecer dizendo que a gente tem que casar. Ou julgando que provavelmente nós, solteiras, temos algum problema, porque afinal de contas, só uma mulher com sérios problemas para não estar casada. Não pode ser opção nossa, tem que ter sido opção dos homens, não casar conosco.

Saí um dia com um cara e entre uma cerveja e outra ele chegou à mais importante pergunta: por que você não casou? Expliquei sobre alguns relacionamentos que tive e falei que nunca me importei com isso, não tenho a mínima pressa, e na verdade se eu pudesse apertar um botão HOJE para encontrar um marido, não o apertaria. Sério, eu nem sei porque cargas d’água isso vira tópico de conversa. Ainda mais nesse caso, que o cara deveria mais era estar feliz por eu não ser casada né? E no final da noite, o conselho: você tem que casar logo…

WTF?

Todo mundo acha isso, todo mundo pensa isso, e eu realmente tenho uma cabeça muito dura por não obedecer. Mas não é todo mundo. Muitas amigas minhas acabam convencidas de que realmente elas têm que casar logo, e que certamente o fato de não estarem casadas denuncia algum problema com elas: no caráter, na índole, no desempenho sexual, no temperamento, sei lá.

Tenho uma amiga que odiava e amava o ex-namorado ao mesmo tempo. Amava por N motivos, morria de saudades dele, não conseguia ficar longe,vivia correndo atrás do cara. O cara tb gostava dela, mas eles eram diametralmente opostos. Eles já tinham namorado e ela já sabia como ele era: ela não podia ter amig@s, não podia sair sozinha e tinha que cuidar com as roupas que usava. Não podia nem conversar com os amigos DELE quando eles saíam pq sempre virava crise de ciúme.

Ela sabia de tudo isso. E reclamava sempre de tudo isso. Odiava ele por isso.

Quando eles tavam “negociando” pra voltar, eu falei o que eu pensava. Então eu falei pra ela: olha, vc sabe q ele é um idiota. vc sabe isso isso isso e aquilo (descrevi tudo). sabe que ele quer uma Amélia, e sabe q vc não é uma Amélia. vc sabe q ele não vai te aceitar como vc é, q vc vai ter q mudar mto e abrir mão de mtas coisas. vc acha mesmo q vai ser feliz assim? (ah mas eu amo ele, blablabla whiskas sachet) então se vc quer fazer isso dar certo, vai ter q entrar no jogo dele, blz?

E daí eles voltaram e ela entrou nessa, fez tudo direitinho, e com MUITO pesar no coração, eu apoiei tudinho. Porque ela sabia disso tudo, não tava sendo obrigada e entrou nessa totalmente consciente porque quis.

Várias coisas aconteceram nesse tempo que eles estiveram juntos, e no final das contas ela mesma acabou terminando o namoro – de novo. E o que eu acho interessante é que ela sabe que não gosta dele. Mas ao mesmo tempo ela sente que PRECISA dele. Porque é o relógio biológico, né? (que aliás, o backlash inventou) Porque ela tá com 25 e tá na hora de sossegar o facho, virar moça direita, ter um bebê. E isso pesa muito pra ela, eu vejo que ela sofre. E é como se ficassem 2 grilos falantes nos ombros dela, um de cada lado, um dizendo que não é isso que ela quer, e o outro dizendo que ela precisa disso. E fica esse conflito interno e eterno, de ela fazer o que quer ou atingir as expectativas da “sociedade”. E a mãe dela surtando toda semana por ela ainda ser solteira.

E não que eu seja a super-mega-blaster do mundo pra ficar cagando regra, mas sei que muitas pessoas me admiram pq eu sou ultra-independente, moro sozinha, me sustento, não trago desaforo pra casa e lido muito bem com a solteirice. Apesar de ter todas as características do estereótipo da tia-solteirona-amarga-infeliz-mal-comida (to solteira há 10 meses, e nesse tempo não fiquei nem me interessei por ninguém – além do cara que acha q eu tenho que casar, moro sozinha com 7 gatos etc etc etc) ainda sou feliz, bem humorada, tenho muitos amigos… Isso é uma quebra de paradigma que choca muito as pessoas.

Esse medo de ficar sozinha é caso bem sério, e é uma epidemia entre as mulheres, eu acho. No desespero elas se agarram até em fio desencapado. Mas justamente esse é o resultado dessa lavagem cerebral da tia-solteirona – sobre a qual já falei aqui há algumas semanas atrás. Todos esperam (e têm ctz) q se vc chegar aos 30 solteira e sem filhos, é uma infeliz. Pq a gente escuta isso desde pequena né? Não faça isso se não vai ficar pra titia… Tem q arrumar um namorado logo se não vai virar a tia-chata…

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Sim, eu repeti o tema porque acho que o assunto é infinito.

E porque minha luta nessa vida feminista é justamente acabar com essa pressão que a gente sofre por ser solteira, e permitir que mulheres como eu tenham liberdade para simplesmente serem felizes!!!

Os homens inseguros

Texto de Nessa Guedes.

Se metade dos caras que detono com uma frase, com uma correção qualquer, me enfrentasse ou admitisse seu erro com a dignidade de quem não tem medo de errar, eu me apaixonaria por cada um deles.

Sabe por quê?

Não tem nada mais sexy que alguém tão seguro de si, que mesmo quando erra tem colhões suficientes para dizer: OPA! ERREI, DESCULPE!

Em 80% das vezes esses “homens” correm de mim. E sério, tô cansada de ser temida. Principalmente pelos meus objetos de desejo. Eu não passo de uma jovem mulher de 20 anos que leu livros demais na sua época de gorda-nerd-pré-adolescente e desenvolveu um senso crítico aguçado para rebater qualquer um que subestime a intelgiência que tanto prezo em mim mesma. Mas, já diziam os velhos sábios, elogiar a si mesmo é o mesmo que afirmar que você não é aquilo que afirma ser, logo, eu não devo ser nada inteligente.

Disse minha mãe que, se eu fosse inteligente DE VERDADE, eu tentaria parecer burrinha para os homens. E assim que eles caíssem de quatro por mim, eu poderia mostrar para eles que eu sou um pouquinho mais do que um rostinho bonitinho e um papinho simpático. Diz ela que eu nunca deveria citar meu emprego, e meu curso na universidade, até conquistar um dito-cujo. Porque, segundo ela, e eu suspeito que tenha razão, os homens tem medo de mulheres que mostram interesse por coisas muito além do que banalidades geralmente atribuídas unicamente ao público feminino.

Segundo, minha mamãe querida, uma guria que chega e fala que estuda física, e que trabalha com o que eu trabalho, seria carta descartada do baralho de qualquer guri da minha idade — e provavelmente até os dez anos mais velhos. Meu maior erro, aparentemente, é falar demais, dar palpite demais, e dizer que sou gremista, mas estou pouco me importando se tem jogo do Grêmio quarta-feira, menosprezando uma das coisas mais importantes para 90% da população masculina. Ou, fazer coisas do tipo, cortar um cara, mesmo que sem querer, ao corrigir o que ele falou, ou desmentir algo que ele disse, sem que eu perceba que estou fazendo. E eu sei que eu faço, mesmo que inocentemente, mesmo que só querendo trazer a verdade para o conhecimento das pessoas, e não deixá-las com uma informação errada pairando sobre suas cabeças.

Outra coisa que faço errado também, é fazer as contas certo. É. Se alguém erra um cálculo e eu percebo, eu corrijo. Agora pára e imagina uma mesa de bar cheia de gente, e na hora de pagar a conta, quem toma a atitude de fazer os malabarismos matemáticos para dividir a conta entre a galera seja o macho-alfa da situação. Agora, imagine que ele erre as contas, mesmo depois de ter usado um papelzinho ou o celular. Agora imagina se eu corrijo a conta que ele fez, sem usar papelzinho ou calculadora do celular. E quando as pessoas chegam no caixa, a conta que eu fiz estava certa e a dele não. Pois é. Aprendi com a minha mãe que esse é o tipo errado de atitude a se tomar quando se está afim de homem qualquer. Porque eles detestam se sentir para trás, ou algo do tipo.

Óbvio que eu — no estado de solteirice irremediável que estou, mas ao mesmo tempo, sem ninguém para dar uns amassos por aí (pelo menos não alguém que eu queria né) — ponderei sobre a sugestão da minha mãe. Pensei que, poxa, pelo menos para finalidade de apenas sexo esse método — de bancar a múmia-da-roda-que-só-ri-das-piadinhas-alheias-e-não-tem-opinião-sobre-nada — talvez fosse válido. Mas depois eu pensei; putaquepariu, onde eu enfiei a minha cabeça? Um cara que superestima minha suposta falta de inteligência, e que me levaria para cama só por eu aparentar burrice iminente e ter um sorriso simpático jamais mereceria estar ao meu lado numa cama, oras.

Porque, se os homens tem problemas em se sentirem inferiorizados, o problema é DELES. Não meu. Se esses cidadãos porto-alegrenses se sentem intimidados por uma guriazinha metida de vinte anos que ainda mora na casa dos pais – embora divida as contas com eles -, ainda está na faculdade, e fica bêbada com apenas uma capirinha, o que eu vou fazer? Acho que vou dar é graças a deus por ter m livrado de tamanho número de gente imbecil. Porque, fio, insegurança é broxante, sabe.

Só que, eu peço encarecidamente à vocês, homens de Porto Alegre e arredores (por que não?), que parem de ser inseguros.

Para o bem-estar da minha (inexistente) vida amorosa.

Ok? Combinados?

Digam que sim, please.