A ‘Lei do Amor’ não vale para as mulheres

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas. Atualização sobre o ator José Mayer no fim do texto.

Em 2014, escrevi sobre a novela ‘Amor a Vida’. Achava que ali seria o máximo de misoginia que veria numa novela do século XXI. Afinal, os tempos mudaram, não é mesmo? A violência contra a mulher é assunto constante na mídia, correto? Porém, veio ‘A Lei do Amor’ e não há mesmo como entender a existência dessa novela que escorre machismo e misoginia por todos os poros.

Pelo título, entende-se que o amor prevalecerá como a grande lei. Até aí, não espero muito. Não espero que novelas saiam do maniqueísmo ou da dicotomia de personagens bons e maus. Fora as constantes cenas de tapas e acertos de contas baseados em violência, o que me incomoda é como as mulheres são constantemente humilhadas, violentadas, escorraçadas e muitas vezes mortas; enquanto os homens, bons ou maus, com erros ou acertos, sempre encontram um caminho para redenção.

Até mesmo o mocinho da novela, Pedro (Reynaldo Gianechinni), que sempre pareceu tão correto acaba ficando com uma ex-namorada enquanto mantinha um compromisso monogâmico com Helô (Claudia Abreu). E a cena revive o mesmo drama da personagem quando eles se separaram 20 anos antes. Porque não basta a mocinha ter sofrido uma grande decepção amorosa no passado, ela vai ter que reviver tudo mais uma vez, além de cometer o mesmo “crime” de esconder dele uma gravidez. Enquanto o mocinho, pôde se levantar e apenas dizer que foi só uma noite entre duas pessoas que se gostam e que ela é uma pessoa muito cruel por esconder mais uma vez uma gravidez dele. A trajetória da mocinha é uma constante repetição, enquanto o mocinho pode até se dar ao luxo de cometer erros sem perder sua coroa de bom moço.

A novela tentou tratar do tema da prostituição de luxo. Três jovens bem nascidas decidiram ser prostitutas apenas por dinheiro, como consequência, deixaram suas famílias arrasadas e foram espancadas pelo vilão Tião Bezerra (José Mayer). Nenhum personagem questionou a profissão de prostituta como sendo algo que coloca a mulher numa situação vulnerável, todos condenaram as mulheres por serem vadias, por quererem vida fácil. Sabemos o quanto estamos longe de garantir segurança, oportunidades e direitos trabalhistas para as prostitutas, especialmente as que não estão no mercado de luxo, mas ver uma novela em 2017 tratar o tema como se fosse uma imoralidade cansa demais.

Inclusive, ‘vadia’ é uma palavra que saia o tempo todo da boca de Fausto Leitão (Tarcisio Meira). Um homem que começa como político inescrupuloso, fazendo negociatas, garantindo a prosperidade de seus negócios através da corrupção, mas que após um grave acidente de carro onde morre a mulher que ama, vira um santo que requer cuidados e que quer justiça, pois a culpada de tudo é sua esposa: Magnólia Leitão (Vera Holtz). Quem vê pensa que ele nunca participou de nada, um ingênuo, sabe?

Porém, o mais assustador nessa novela foi acompanhar as trajetórias de Magnólia (Vera Holtz) e sua filha Vitória (Camila Morgado). Especialmente quando comparadas a seus pares masculinos: Tião Bezerra e Ciro (Thiago Lacerda).

Desde o início, havia a expectativa de que Magnólia seria uma grande vilã. A riqueza, o cabelo platinado, a ironia. Logo descobrimos que era uma mulher impetuosa, vingativa e má. Quando jovem, ela queima o peito do peão Tião Bezerra com o ferro em brasa usado para marcar os tijolos da olaria de seu pai. É claro que imaginava que Mag ia sofrer as consequências disso, até porque ela matou pessoas, mentiu, fez todas as maldades possíveis. O problema é que a partir do momento em que é desmascarada, Mag passa a sofrer inúmeras humilhações até o fim da novela, enquanto seus parceiros de crime, Fausto e Ciro, são perdoados totalmente. Foram manipulados, coitadinhos. Tião, que também mata, violenta e faz todas as maldades possíveis não sofre humilhações públicas, no máximo gritam com ele.

E nesse caso há mais perversidade na misoginia. A grande humilhação de Mag, arquitetada pelos personagens bonzinhos, é expor numa festa um vídeo dela transando com o genro, Ciro. Ninguém sabia que os dois tinham um caso. A mulher é corrupta e assassina, mas como podemos realmente humilhá-la? Expondo sua vida sexual para as pessoas, não é mesmo? Ainda bem que não me lembro de ter ouvido algum personagem questionar a idade de Mag para transar. Ciro saiu quase ileso desse episódio.

Após isso, ela sofrerá inúmeras humilhações sendo obrigada a se casar com Tião Bezerra, um personagem tão inverossímil quanto misógino. Tião era um peão numa olaria que virou banqueiro apenas movido pelo sentimento de vingança que nutria por Magnólia. É o sonho dourado da meritocracia capitalista. A única função de Tião é infernizar a vida das pessoas sem razão. Persegue Helô sem amá-la, espanca todas as prostitutas, mata qualquer um que atravesse seu caminho, mas deixa as pessoas que sabem tudo sobre ele vivas. Em determinado momento da trama descobre-se que ele é pai de Flávia (Maria Flor) e que ela é fruto de um estupro, aí começa uma trama para Flavia ter sua paternidade reconhecida. Sim, esse absurdo mesmo. O sujeito é assassino e estuprador, mas sabe o que vai acontecer com ele no fim da novela? Vai ter um AVC e terminará a novela num quarto de hospital. Mag morrerá, se jogará na frente de um trem para fugir da perseguição de Tião.

Paralelo a tudo isso, há a trama de Vitória. Pobre menina rica que desde jovem frequentava baladas e aparecia constantemente bêbada. Apaixonada pelo professor do cursinho, foi obrigada pela mãe a se afastar dele e casar com Ciro, que nunca a amou e com quem sempre teve uma relação abusiva. Vinte anos depois, quando descobre que está grávida, se separa e retoma o relacionamento com Augusto (Ricardo Tozzi). Parece que tudo vai dar certo. Porém, Vitória descobre que o pai de seu filho não é Ciro, mas sim que ela foi estuprada. Várias vezes as pessoas dizem que ela não deve fazer a menor ideia de quem é o pai da criança, pois vivia bêbada. Vitória entra em depressão, não quer mais saber do bebê e nem do casamento com Augusto. Até que o estuprador aparece na trama, ele é Leonardo (Eriberto Leão), amigo de Augusto que a estuprou num lavabo durante uma festa.

Ao contar para Augusto que Leonardo a violentou, aconteceu o seguinte diálogo: – “Eu sinto te desapontar, mas esse teu amigo não vale nada. Foi ele que me estuprou no lavabo”. – “Você tem certeza de que o Leo é pai do Caio? Desculpe, meu amor, mas você estava embriagada! Até pouco tempo nem se lembrava que tinha sido estuprada”.

Acredite, isso é dito pelo personagem bonzinho que a ama na novela. Para finalizar, Vitória não denuncia Leonardo, mas Augusto bate nele e o manda nunca mais aparecer. Coitada da mulher que não tem um homem para defendê-la nesses casos. Separado de Vitória, Ciro posa de magnânimo por ter “assumido” um filho que não era seu, decide colaborar com a polícia para colocar Mag na cadeia e retoma o relacionamento que viveu há 20 anos com Yara (Emanuelle Araújo). No fim, será condenado a 12 anos de prisão, mas a namorada promete esperá-lo com lágrimas nos olhos. É isso, não importa se o cara passou 20 anos sendo corrupto e comparsa de Magnólia em diversos crimes, no fim ele receberá o que eu desejaria para todos os vilões, um julgamento justo.

Como em todas as vezes que falamos sobre novelas, muita gente vai olhar esse texto e dizer: mas pra que você continua vendo isso? Novela da Globo nunca ensina nada de bom. Por isso, vale lembrar que as novelas da Globo ainda são responsáveis pelas maiores audiências da televisão brasileira, um meio de comunicação que está presente na grande maioria dos lares brasileiros. Influenciam a maneira como as pessoas se vestem e também a maneira como discutem questões sociais. São produto de entretenimento, mas que ainda agregam valor na formação da moralidade brasileira. Portanto, é preciso analisar essa violência explícita e recorrente contra as mulheres nas novelas e como os personagens homens sempre são tratados de forma absurdamente diferente. O recado continua sendo o de que a lei e o amor só devem pertencer aos homens.

Atualização em 31/03/2017: A Folha de São Paulo publicou no blog #AgoraQueSãoElas o relato de Su Tonani, figurinista que trabalhou na Rede Globo e fala sobre o assédio e abuso que sofreu do ator José Mayer durante a novela A Lei do Amor; “José Mayer me assediou”. Todo apoio a Su Tonani!

[+] Machismo, confusão e mais do mesmo: 10 erros difíceis de perdoar em ‘A Lei do Amor’.

Imagem: cenas dos personagens da novela ‘A Lei do Amor’, divulgada pelo jornal Extra.

Olhos abertos: o apagamento das pessoas asiáticas na mídia

Texto de Tayná Miessa para as Blogueiras Feministas.

Já faz um tempo que acompanho as discussões sobre o apagamento de pessoas asiáticas na mídia.  Esses dias, ao ver a estreia da novela “Sol Nascente”, da Rede Globo, só consegui pensar: alguém precisa parar essas pessoas!

Primeiro, vamos pensar um pouco sobre o apagamento das pessoas asiáticas na mídia.

Nos filmes de Hollywood é bem comum encontrar atores e atrizes ocidentais fazendo um papel que, pelo contexto, seria destinado a pessoas asiáticas. Há exemplos clássicos, como “A Estirpe do Dragão” (1944) em que a atriz americana Katherine Hepburn interpreta uma chinesa que lidera seu vilarejo na luta contra os invasores japoneses. Em dois exemplos recentes, Emma Stone interpreta uma piloto descendente de havaianos, suecos e chineses em “Sob o mesmo céu (2015)”; e Scarlett Johansson interpretará Motoko Kusanagi no filme “Ghost in the shell” (2017).

Mas, se atrizes e atores ocidentais estão ocupando os papéis asiáticos, por onde andam as atrizes e atores asiáticos? Pois bem, as mulheres asiáticas estão interpretando papéis exóticos, onde geralmente são hipersexualizadas, sempre curiosamente misteriosas e sedutoras ou são submissas, quietinhas. E os homens asiáticos, pois bem, eles são representados quase sempre negativamente, como os nerds, os fracos, não atrativos e de pinto pequeno.

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Representações da violência doméstica nas novelas

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

25 de Novembro – Dia Internacional de Luta Pelo Fim da Violência Contra a Mulher.

Dentre as pautas feministas, acredito que a violência contra a mulher seja a que mais tem ganho atenção da mídia nos últimos tempos. Há ações institucionais sendo tomadas como o Ligue 180, a Casa da Mulher Brasileira, a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Entre as mulheres, crescem o número de campanhas e ferramentas contra o assédio nas ruas. Foi tema da redação do ENEM. E, o Mapa da Violência 2015 destaca o aumento no número de mortes de mulheres negras.

O assunto está ganhando mais espaço e felizmente a maioria das pessoas não tem aceitado relativizações. A violência contra a mulher está ligada ao gênero e tem suas características próprias, que diferem totalmente de outras formas de violência. As mulheres são mortas geralmente por pessoas da família ou conhecidos, por quem deveria protegê-las e apoiá-las. As mulheres morrem em casa, muitas vezes em frente aos filhos.

Como consequência desse debate, vemos cada vez mais as novelas abordando a violência doméstica em suas tramas. Geralmente há um núcleo específico para apresentar o casal em que a mulher apanha e o homem é um bruto sem razão. Há diversos estereótipos nesses personagens, mas o que continua problemático é que dificilmente as mulheres são representadas como pessoas capazes de buscar ajuda e sair dessa situação, na maioria dos casos há um homem salvador que entra na relação para mudar sua vida.

Sempre me pergunto: essas representações melhoram ou não os discursos sociais referentes a violência contra a mulher? Sabemos que o número de denúncias aumenta quando há foco no assunto, mais mulheres se sentem seguras para denunciar ou se veem naquela situação. Porém, ainda culpabilizamos as mulheres pela violência que sofrem, o foco das campanhas está sempre na denúncia e não em uma proposta preventiva dessa violência. Dificilmente encontramos ações que falem diretamente aos homens.

Sabemos que as instituições brasileiras não estão preparadas para atender as mulheres violentadas. Aconselhamos mulheres a não irem sozinhas em delegacias de polícia, temos que lutar no Congresso contra projetos de lei que exigem exame de corpo delito em caso de estupro antes mesmo do atendimento médico, leis não garantem mudanças de comportamento social e nem mesmo diminuem o machismo no judiciário. Porém, acredito ser importante que as novelas mostrem as mulheres denunciando casos de violência na delegacia, detalhando como funciona o processo, como é possível pedir medidas protetivas, o que é possível fazer em casos em que não se tem família por perto ou alguém a quem recorrer.

Atualmente, na novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo, Juca e Domingas são o núcleo de violência doméstica. Geralmente esses personagens existem exclusivamente para tratar do tema e tem até pouca interação com o núcleo principal. Para ficar apenas em alguns exemplos de como virou lugar comum ter o núcleo da violência doméstica, no caso das recentes novelas globais do horário das 9, tivemos: Jairo de Em Família (2014), Marilda em Amor à Vida (2014), Celeste em Fina Estampa (2011), Catarina em A Favorita (2008), Raquel em Mulheres Apaixonadas (2003).

Personagens Juca e Domingas em cena da novela 'A Regra do Jogo' (2015) da Rede Globo.
Personagens Juca e Domingas em cena da novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo.

O homem agressor geralmente é retratado como um bruto, sem educação e que vive às custas da mulher. A mulher vítima é representada com baixa autoestima, na maioria das vezes relativizando o que o marido faz e com muito medo de tomar qualquer atitude. Há personagens que tentam ajudá-las, como vizinhos ou amigas, mas na maioria dos casos é preciso um novo amor para que essa mulher coloque definitivamente um ponto final na relação.

Esse estereótipo com certeza corrobora discursos sociais sobre a violência doméstica, muita gente ainda acredita que a mulher permanece numa relação abusiva porque quer e não compreende as diversas barreiras sociais existentes, desde o sustento financeiro, passando pelas imposições sociais de como a mulher deve se comportar, a falta de apoio e informação sobre o que fazer, até o medo que paralisa. Porém, é preciso ir além desse retrato e apresentar opções. Mulheres sofrem violência de diferentes maneiras, dependendo de seu contexto, mas a violência doméstica está presente em todas as classes sociais e não se configura apenas na violência física.

Desde o início de ‘A Regra do Jogo’, Juca e Domingas tem uma relação abusiva com muita violência. Ele batetesta sua fidelidade e a engana para conseguir dinheiro. São várias cenas mostrando Juca humilhando e agredindo Domingas. Aí pergunto: qual o propósito? Denunciar a violência contra a mulher? Ok, mas de que forma? Adianta retratarmos mais e mais violência contra as mulheres de forma explícita e não mostrá-las buscando seus direitos? Até que ponto a mídia fetichiza esse tipo de violência? Não sou contra falar de violência doméstica na televisão, mas é preciso que esse discurso vá além, que essas mulheres sejam também retratadas como pessoas capazes de enfrentar a situação, que as instituições de apoio e denúncia tenham espaço na trama para apresentar caminhos, que a informação seja repassada.

Quando Domingas beija outro homem logo se sente culpada. Ha notícias de um personagem misterioso que entrará na novela para salvá-la. Por que achamos que uma mulher que está fragilizada precisa automaticamente de um novo amor para  se reerguer? Por que uma mulher espancada e humilhada só é feliz nas novelas se houver um homem que a queira? Parece não haver possibilidade de liberdade para as mulheres vítimas de violência nas novelas. Nos spoilers há a promessa que em breve Domingas irá expulsar Juca de casa, com um diálogo que até cita a Lei Maria da Penha, mas que promete mostrar mais violência gráfica e ameaças contra sua vida:

Tudo acontece depois que Domingas é socorrida pela enfermeira que chega em sua casa aos beijos com Juca. Solidária, a “rival” chama um médico e aconselha-a a pôr um fim no casamento. Ainda se recuperando da febre, Domingas vai enfrentar Juca pela primeira vez quando ele chega em casa e diz: “Aproveita que tu tá melhor e faz um ovo pra mim”. Ela pega o prato em que ele está comendo e joga na parede. “Não vou fazer ovo nenhum, nunca mais!”, esbraveja.

O malandro pergunta se a mulher está maluca, mas ela responde, firme: “Maluca eu tava antes, mas agora acabou! Dá o fora daqui!”. “Tu tá louca mesmo! Quer apanhar?”, ameaça o cafajeste. E Domingas desta vez não se intimida: “Bate pra tu ver! Eu vou pra delegacia agora, te enquadro na Maria da Penha e te ponho na cadeia, desgraçado!”. Juca diz que vai matá-la, e a morena não se abala. “Mata! Mata que é melhor! Tu vai preso por mais tempo, vai passar o resto da vida numa cela cheia de macho, sem ver mulher nunca mais na vida! Eu vou rir na minha cova!. Vai embora, eu tô mandando!”, responde.

Com certeza há catarse ao enfrentar o agressor. Gostamos de ver uma mulher ser altiva e corajosa nesses momentos. Porém, sabemos que muitas vezes enfrentar de igual para igual não é algo que todas conseguem ou podem fazer. Portanto, acredito ser muito importante buscarmos mostrar opções, apresentar o que pode ser feito para denunciar a violência e tentar garantir alguma segurança para as mulheres ameaçadas. Porque, atualmente são elas quem tem suas vidas destruídas, são elas quem tem que abandonar o trabalho, são elas que tem que viver escondidas em abrigo. Por que nossa sociedade ainda acoberta agressores de mulheres e aceita que eles andem tranquilamente pelas ruas sem receber nenhum olhar de reprovação?

O recente caso do secretário de governo do Rio de Janeiro, Pedro Paulo Carvalho é um exemplo disso. Há denuncias graves registradas em boletins de ocorrência. Há violência física e até mesmo ameaças contra a filha do casal. Porém, o prefeito Eduardo Paes insiste em dar declarações do tipo“aconteceu entre quatro paredes, não se sabe as circunstâncias”. Pedro Paulo foi capaz de expor a ex-mulher numa entrevista coletiva para que ela o inocentasse e repete frases absurdas como: “Quem não exagera numa discussão?”. Enquanto um homem se sentir no direito de expor uma mulher e relativizar a violência que cometeu contra ela sem receio nenhum de que seja mal visto, sabendo que não receberá nenhuma reprovação de seus pares, ainda estaremos paralisados na velha história de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. É essa cultura machista que precisamos mudar urgentemente.

Há impunidade, mas não acredito que apenas medidas punitivas resolvam a questão da violência contra a mulher. É preciso um conjunto de ações, especialmente educacionais, não apenas para os agressores, mas também para os jovens, para que a sociedade repense e questione a maneira como a violência contra a mulher é parte do cotidiano, como está nas entranhas das relações sociais. Como o pequeno assédio tem reflexos nos casos de estupro. Como a morte das mulheres em sua grande maioria é banal e torpe. A mídia precisa ser parte desse movimento, para que se possa mudar concretamente os discursos e as maneiras como tratamos essa questão.

Como aponta Rachel Moreno, a mídia e nem mesmo a Globo são responsáveis por inventar a violência contra a mulher, mas cabe a sociedade cobrar a função e responsabilidade social da mídia, especialmente no caso do Brasil, quando falamos de uma mídia de massas, que também é uma concessão pública. Quando uma novela termina não há resgate possível, mas há consequências para a naturalização daquela situação entre a sociedade.

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