Sobre as Paradas da Diversidade: Precisa? SIM!

Texto de William Paranhos para as Blogueiras Feministas.

O senso comum, formado pelas mais variadas identidades, inclusive por LGBTQI’s, sempre traz este questionamento ao falarmos sobre uma Parada da Diversidade. Vigora aquele pensamento de que não é algo necessário, porque expõe, porque é “demais”, porque isso passa uma imagem à sociedade de que seríamos nós promíscuos, pois num ato vamos às ruas cantando, dançando, festejando, beijando, mostrando nossos corpos e nossos seres.

As paradas são um ato político. Político sim, pois somos constituídos pela política; somos seres políticos nas nossas relações sociais. Político também por ser um ato de resistência. Decidimos levar às ruas nossa cultura, nosso jeito de ser, a fim de termos visibilidade.

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Estamos exaustas, mas é preciso resistir ao preconceito e ao extermínio

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Outro dia, uma amiga disse que haviam cinco planetas retrógrados e que isso poderia ser uma razão pela qual vivemos tempos tão turbulentos na política nacional. É tanta coisa ao mesmo tempo que simplesmente não conseguimos acompanhar. Porém, há um sentimento crescente contra o qual lutamos constantemente e tem nos deixado cada vez mais exaustas: o ódio.

Acordar e ler as notícias de que um homem abriu fogo contra pessoas numa boate gay em Orlando, nos Estados Unidos, promovendo a maior matança a tiros no país, cria novos cenários de horror para esse ódio. Pelo menos 50 pessoas morreram e outras 53 ficaram feridas.

Junho/2016. Familiares das vítimas nos arredores da boate Pulse em Orlando, Estados Unidos. Foto de: Steve Nesius/Reuters.
Junho/2016. Familiares das vítimas nos arredores da boate Pulse em Orlando, Estados Unidos. Foto de: Steve Nesius/Reuters.

No Brasil, essa semana tivemos a divulgação de uma matéria com perfis de gays e lésbicas que apoiam o deputado federal Jair Bolsonaro e suas propostas mais excludentes. A polarização política é uma grande arma para os conservadores, para quem defende porte de armas irrestrito, pena de morte, castração química. Para quem acredita que as leis no país são muito brandas, para quem discursa usando chavões perversos como “cristofobia”. Essas pessoas não são ingênuas, nem iludidas. São conscientes de seus atos e estão inseridas nos círculos de ódio e intolerância que tem crescido socialmente. A diferença talvez esteja apenas no fato de que não há mais pudor em dizer, com um megafone nas mãos, que alguém merece ser morto, que a estrutura social precisa ter ricos e pobres e que nem todas as pessoas devem ter os mesmos direitos. Hoje, essas pessoas sentem-se apoiadas a expressar os discursos mais reacionários porque encontram eco, são aplaudidas por outras milhares de pessoas.

Não acredito que isso seja culpa da militância de esquerda, do PT ou de figuras públicas e assumidamente homossexuais como o deputado federal Jean Wyllys. O extremismo tem encontrado ambientes sociais propícios para proliferar em todos os países. O que vejo é mais uma reação violenta ao subalterno que ousou levantar a cabeça e afrontar os alicerces sociais que edificam a desigualdade social. Mulheres, crianças, jovens, pobres, excluídos, pessoas de diferentes raças e etnias, pessoas fora dos padrões corporais e heteronormativos conquistaram espaços e direitos nos últimos anos, é de se esperar que as pessoas fiquem incomodadas com mudanças em regras sociais, que só ocorrem muitas vezes por meio de legislação específica. Esse ódio e violência é a tentativa de nos amordaçar novamente pelo medo.

A militância não é perfeita e nem mesmo suas principais vozes são unânimes. Então, para lutar contra esse ódio e violência não basta estar aberto ao diálogo, é preciso reverberar as diferentes pessoas que estão nesse movimento, por isso recomendo duas listas: 31 militantes dos direitos LGBT para você acompanhar de perto30 personalidades que lutam pelo movimento LGBT que você precisa conhecer. É preciso sempre amplificar o discurso da diversidade, da empatia e da alteridade.

O ódio tem se personificado e conquistado cada vez mais espaço em discursos públicos. Um sentimento de extermínio, intolerância e violência. É preciso não apenas eliminar o Outro, mas também o que ele significa, o que ele representa. As pessoas temem que o mundo que conhecem não seja mais o mesmo, temem dividir irrestritamente o espaço público com quem consideram uma ameaça. Os discursos intolerantes e violentos, sejam religiosos ou não, arrebatam as pessoas. Estão presentes em todas as esferas sociais. Isolados, são apenas palavras, por isso é preciso haver a interpretação do ser humano, o olhar individualista que reduz o Outro a nada. O ato de matar está aliado ao fato de não se reconhecer no Outro. E como sair desse labirinto? Onde ninguém se escuta e o medo permeia as relações? Como pode o amor entre pessoas do mesmo sexo ser uma ameaça?

Ataques extremos contra a população LGBT evidenciam a lesbofobia, homofobia, bifobia e transfobia tão presentes em nosso cotidiano. Qualquer pessoa que se desvie dos padrões heteronormativos recebe uma carga de ódio, reflexo do preconceito arraigado em nossa cultura que tem se mostrado em ações cada vez mais extremas. Diariamente gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans são mortas no Brasil. Com 600 mortes em seis anos, o Brasil é o que mais mata travestis e transexuais. O país sempre está nos primeiros lugares em rankings mundiais de assassinatos homofóbicos, chegando a concentrar, em 2012, 44% do total de mortes de todo o planeta. Esse mesmo Brasil possui 60.000 casais homoafetivos vivendo juntos, a maioria formada por católicos (47,4%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por que essa população não pode viver livremente nas ruas? Por que a resposta as diferentes formas de viver e amar é a violência? Não somos tão diferentes do atirador americano, apenas gostamos de fingir que no Brasil não existe racismo nem outros preconceitos, que somos uma mágica república da diversidade nos trópicos. Vivendo confinados em nossos nichos sociais, não enxergamos a vulnerabilidade que as diferenças enfrentam.

Em meio a comoção pública nos Estados Unidos, milhares de pessoas querem ajudar e se disponibilizam a doar sangue para as vítimas feridas. Logo descobrimos que homens gays tem regras diferentes para realizar uma doação, precisam estar celibatários há um ano para serem aptos. Essa não é a mesma regra para homens heterossexuais, mas essa restrição também é lei no Brasil, seguindo recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). A Portaria do Ministério da Saúde determina que o critério de seleção seja a prática sexual de risco e não a orientação sexual ou identidade de gênero, mas não é isso o que ocorre nos hemocentros do Brasil. A estimativa é que por ano haja um desperdício de 18 milhões de litros de sangue devido ao preconceito. Pequenas regulações como essas, quando não questionadas, também demonstram o quanto não estamos dispostos a mudar nossas relações com o Outro.

No caso do ataque a boate gay em Orlando há outro fator importante, no local se realizava uma festa latina. O atentado também não deixa de lado o componente racial e étnico que estremece as relações humanas em mais um momento de êxodo de refugiados pelo mundo. Quem se beneficia dessas mortes? Quem prefere se colocar contra o islamismo ao invés de combater a homofobia e a xenofobia? Quais discursos justificam a morte dessas pessoas? Segundo esses discursos, quais pessoas não devem existir, muito menos viver?

Como feministas lutamos por um mundo mais igualitário para todas as pessoas, por uma sociedade que reconheça seus preconceitos, privilégios e exclusões. Como ativistas, nos sentimos muitas vezes inertes, vemos companheiras caírem doentes, sentimos uma dor imensa ao ver outras sendo perseguidas. Muitas não estão mais dispostas ao diálogo ou a serem eternas professoras das mentes intolerantes, porque estamos exaustas. Porém, é preciso sempre se colocar como resistência ao extermínio.

+ Sobre o assunto:

[+] Kaique e os rolezinhos: o lugar de cada um. Por Eliane Brum.

[+] Parada LGBT no Rio faz homenagem aos mortos em atentado nos EUA.

[+] Sobreviventes do tiroteio: “Havia sangue por toda parte”.

[+] A Parada do Orgulho Gay mais triste da América com o ataque em Orlando.

A tentativa frustrada de combate à militância feminista na internet

Texto de Talita Santos Barbosa para as Blogueiras Feministas.

Quando escrevi o texto ‘O feminismo na internet também é importante’, abordando as razões pelas quais o feminismo de internet tem tanta importância quanto os coletivos que atuam em cidades físicas, busquei uma forma de explicitar, através de teóricos da comunicação, que o que é feito na internet possui importância dentro de suas particularidades e limitações. Dessa forma, a militância feminista virtual se encontra em diversos blogs, páginas no Facebook, perfis no Instagram, no Twitter, entre outras mídias sociais, como uma ferramenta de difusão de ideias e compartilhamento de vivências, fazendo com que o feminismo seja fortalecido tanto dentro do ambiente virtual como fora.

Apesar do que pessoas machistas ou antifeministas, e até mesmo algumas feministas, dizem acerca da militância na internet não ser válida, contrariando todos os argumentos de que militância na internet é tão eficaz quanto as que são feitas fora dela, pois para essas pessoas,  militância — seja feminista ou não — só pode ser feita na rua, no corpo a corpo. A militância na internet tem crescido, se intensificado e essas pessoas ignoram que a interatividade é o que torna o ambiente virtual um espaço de troca de saberes, onde feministas compartilham experiências da militância e não apenas assistem passivamente aos acontecimentos. A militância na internet não pode ser posta num segundo plano quando várias páginas, perfis, blogs e sites são silenciados por estarem apenas denunciando crimes e a sociedade machista em que vivemos.

Os inúmeros casos recentes de machismo vão desde as mensagens de cunho pedófilo direcionadas à participante do MasterChef Junior, seguido da campanha #PrimeiroAssedio do Think Olga e também após a divulgação de questões da prova do ENEM. Além desses, houve o racismo nos insultos virtuais a atriz Taís Araújo. Esses eventos provam que o feminismo na internet incomoda e não é pouco.

Mensagem de descrição do “Think Olga”.

Foi no ambiente virtual, através de páginas e perfis feministas em variadas plataformas digitais, que casos de naturalização da violência contra a mulher, romantização de relacionamentos abusivos e relativização da pedofilia foram expostos. Foi por meio de coletivos e grupos feministas na internet que muitas mulheres, durante essas semanas, descobriram que a violência também tem força no ambiente virtual e faz-se tão presente quanto nas cidades físicas, logo foi possível perceber o porquê do feminismo também deve existir na internet.

Após a queda de algumas páginas extremamente machistas e que possuem discursos de ódio contra diversas minorias, outras páginas que denunciam casos de machismo e violência contra a mulher sofreram ataques em massa. Através da derrubada do perfil da Stephanie Ribeiro e de páginas como “Feminismo Sem Demagogia”, “Jout Jout Prazer” e a criação de blog fake em nome de Lola Aronovovich, acreditaram que dessa maneira o feminismo perderia força, mas o que se viu foi uma grande reação das pessoas, desaprovando e divulgando o quanto a intolerância precisa ser combatida.

Embora digam que o feminismo virtual não tenha relevância, as pessoas que o combatem entram num paradoxo. Quem é contra o feminismo pode até dizer que o feminismo virtual não tem efeito e acusam as feministas de serem espectadoras passivas de atos de violência, pois só sabem militar no conforto do sofá, entretanto são estas feministas que eles buscam reprimir, combater e silenciar diariamente. Então, como que este feminismo não gera efeito?

Diante deste cenário de ódio ao feminismo e às mulheres feministas, uma frase de Simone de Beauvoir nunca fez tanto sentido: “Assim também, o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres” (O Segundo Sexo, pg. 18). Os homens que reagem com birra aos discursos feministas, que não questionam seus machismos, seus assédios, suas violências, homens que sequer possuem a capacidade cognitiva de interpretar uma citação da Simone de Beauvoir numa prova e já saem a chamando de “baranga francesa”, entre vários outros adjetivos depreciativos, são eles também que usam a internet para “militarem” contra nós, feministas.

Por fim, o ódio ao feminismo, às mulheres e a toda e qualquer pauta que fira o ego dos privilegiados não é exclusivo do século XXI. Mas, se ainda hoje, é necessário lutar por direitos básicos, isso só prova que o feminismo ainda é relevante. Logo, o feminismo incomoda, toca na ferida e gera tanta revolta dos machistas. E o feminismo na internet incomoda os privilegiados, incomoda tanto que preferem ameaçar, silenciar, expor e reprimir ao invés de promover um debate saudável. Por isso, volto a afirmar: o feminismo na internet também é importante.

Autora

Talita Santos Barbosa é mulher feminista, negra, baiana e estudante de Jornalismo. Escreve no blog Oito ou Oitenta.