“Parece uma travesti” então tu és linda!

Texto de Ana Flor Fernandes Rodrigues para as Blogueiras Feministas. 

Durante muito tempo as características e beleza de uma travesti foram atribuídas a partir de um olhar depreciativo. Neste caso, referir-se aos sujeitos como “travesti” significava – e em muitos lugares ainda se perpetua essa visão – afirmar que o outro é feio. Logo, escrevo com o intuito de desmistificar essa visão pejorativa que é posta sobre identidades e corpos desse determinado grupo, visando criar novas óticas que desconstruam uma visão una de beleza.

Antes de iniciar, é preciso que consigamos compreender como surge o histórico que coloca essas meninas nesse determinado local. Afinal, se identificamos alguém enquanto desprovida de beleza é porque existe uma construção que determinou o que seria o belo. Principalmente quando o fato de ser comparada com uma travesti vem com o intuito de nos pôr em uma situação vexatória.

Quando falamos no Brasil – país líder em assassinatos de travestis e mulheres trans – torna-se possível perceber que existe um processo histórico e social que proporcionou violências e equívocos no que tange o quesito beleza em relação às travestis. É notório o processo desumanizador fincado na experiência desta população. O que nos permite refletir sobre duas posições contraditórias: ou temos o direito de sermos agentes socializadores que irão contra esse processo; ou permaneceremos caladas e calados e seguiremos vivenciando as facetas da violência transfóbica.

Maria Clara de Sena. Foto de Wagner Silva.

O que nos mostra que não podemos ignorar a existência de uma origem para que travestis estejam, erroneamente, ligadas ao que para algumas pessoas acaba sendo um sentimento de vergonha.

Mesmo muitas dessas já tendo estrelado capas de revistas, editoriais de moda, sendo musas da periferia até o Miss Universo T, participado de novelas e grandes filmes, ainda estamos inseridas em um contexto que reforça, cotidianamente, que esses não são os nossos lugares.

Então, faz-se necessário questionar os padrões estabelecidos sobre os nossos corpos, visto que falar sobre travestilidade é penetrar as mais diversas formas de ser; compreendendo que não existe uma fórmula única sobre essa identidade. Ser bonita não é, nem de longe, ser igual. Bonita é ser diferente e, como muito bem pontua Tomaz Tadeu da Silva: ser diferente não significa ser desigual. Logo, é baseado nessa perspectiva que devemos nos guiar. Projetando a imagem das travestis a partir de outro contexto que fuja e destrua o que insiste nos interligar ao senso do ridículo.

Aproveito também para dizer que não devemos apenas questionar o que é lido enquanto deslumbrante e lindo, mas também o que historicamente vem sendo colocado enquanto feio.

Quando pensamos em corpos gordos, por exemplo, automaticamente ligamos ao bruto, de forma que venha a inferiorizar quem não é magro. Como se essas performances não pudessem ocupar o espaço de beleza que vem sendo construído desde décadas passadas. Não tão diferente, com pessoas negras. Não é possível esquecer quando mulheres negras eram apenas “as pretas do fogão”. Muito menos a exotificação que é jogada, desde o período escravocrata, sobre os homens negros. Gays afeminados estão sempre sendo lidos enquanto “engraçadas”, mas nunca enquanto bonitos. Mc Linn da Quebrada, artista que vem construindo uma carreira que trás consigo seu corpo enquanto ferramenta de luta que questiona a heteronorma, em uma das suas músicas, A Lenda, levanta essa questão de que se você não é branca, cisgênero e assimilada, você não é  bonita, mas sim apenas engraçada.  Percebam como todos esses eixos se interseccionam e nos possibilitam compreender qual seria a necessidade de existir os questionamentos. Afinal, existe por trás dessas definições, como citei no início do texto, uma estrutura que determina nossas leituras sobre os indivíduos.

Sendo assim, criar mecanismos para que consigamos construir narrativas e proporcionar que travestis não sejam associadas a algo ruim, é entender que para ser bonita não é preciso desejar o reflexo do que nos foi imposto, mas sim ter o direito de se construir sem que o outro interfira. Se existe hoje um padrão de beleza esse deve ser repensado e, sendo um pouca ousada, destruído. Pois, lindo é tudo aquilo que é diverso, variado. Não acredito que isso aconteça de uma hora para outra, é claro que existe uma demanda de tempo sobre as estruturas dos processos culturais, mas o alerta sobre essa urgência precisa estar sempre ligado. Ressignificar as terminologias é algo que deve ser colocado em pauta nesse futuro tão próximo. Então, se um dia alguém ousar te chamar de travesti acreditando que soará como ofensa, reaja: se pareço ou sou uma travesti, sou linda.

Autora

Ana Flor Fernandes Rodrigues, 21 anos. Graduanda em Pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Estagiária em Assistência Pedagógica na Organização Galera da Redação. Estuda e Pesquisa em temas relativos à gênero e sexualidade. Modéstia parte, uma travesti muito bonita! Militante por direitos para travestis e pessoas trans.

Quer fazer dieta? Pense algumas vezes.

Texto de Ana Carolina Pereira Costa.

Hoje é o Dia Internacional sem Dieta. Há algum tempo vivemos a moda do “fazer dieta” para perder peso. Fazer dieta é “cuidar de si”, é “abnegar-se das indulgências”, é “exercitar o autocontrole”. Fazer dieta é inclusive uma maneira de pertencer a um grupo social, no qual se compartilham dicas e estímulos para se manter “no caminho justo”.

Peço perdão pelas muitas aspas, mas elas não foram colocadas à toa. Essas aspas foram inseridas para reforçar o caráter irônico de minhas palavras, já que elas não quiseram dizer nada daquilo que literalmente representam. Explico melhor.

Estou falando de dietas restritivas de forma geral, ou seja, qualquer tipo de controle alimentar que imponha de forma genérica que a pessoa coma em menor quantidade e apenas determinados tipos de alimentos. Qualquer programa de controle alimentar que imponha uma caracterização entre alimentos “bons” e “ruins”, “saudáveis” e “não-saudáveis”. E, acreditem, muitas “reeducações alimentares” são dietas disfarçadas, como explico no texto: Dieta não é reeducação alimentar! Porque, em realidade, qualquer alimento pode ser saudável dependendo do contexto, quantidade, etc.

Mulheres fazem refeições e trabalham em restaurante popular de Manaus/AM. Foto de Manoel Vaz/Semcom.
Mulheres fazem refeições e trabalham em restaurante popular de Manaus/AM, 2013. Foto de Manoel Vaz/Semcom.

Vamos começar por um dos gatilhos que levam as pessoas a fazerem dietas restritivas: o desejo por um corpo que esteja de acordo com o padrão de beleza vigente, que para as mulheres ainda se caracteriza pelo corpo esbelto, por vezes excessiva e rigidamente magro.

Pensando no histórico do padrão de beleza feminino, muitos sabem que nos anos 50, com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve um retorno dos valores conservadores, como que para dar sentido àquela época caótica e carente de esperança. O papel da mulher era ser atraente para os homens, arranjar um marido, ter filhos e cuidar de casa, mas sem deixar de estar bonita e feliz à noite… Um corpo que simbolizava esse ideal era o de Marilyn Monroe: corpo cheio de curvas, que hoje seria até mesmo visto como “rechonchudo”.

Então, entre os anos 60 e 80, a mulher começou a assumir seu papel no mercado de trabalho, começou a ter novas prioridades, e o corpo magro veio como resposta a tudo isso: uma imagem das mulheres de assumirem um corpo que fosse menos “sex symbol” e mais andrógino, mais parecido com o corpo masculino. Tem-se como exemplo Twiggy, a primeira super modelo.

Infelizmente, o corpo magro, que talvez visasse dar um outro significado ao papel da mulher na sociedade, acabou aprisionando-as em um outro padrão de beleza, e esse bem mais rígido e cruel que o anterior. Não estou aqui tentando defender um ou outro padrão de beleza, pois sempre que houver um padrão haverá pessoas que não se encaixarão nele e, portanto, serão excluídas. Mas fazer dieta restritiva, de certa forma, é um conformismo com esse aprisionamento a qual estamos expostos.

Além disso, fazer dietas restritivas, por questões psicológicas e fisiológicas, aumenta a obsessão por comida, nos desconecta de nossos sinais internos de fome e saciedade e nos torna mais instáveis emocionalmente. Quando se faz dieta para perder peso, o tempo gasto com os rituais e regras da dieta é excessivo, impedindo as pessoas de ocuparem os valiosos momentos de sua vida com aquilo que realmente faz sentido pra elas.

As pessoas que de fato precisam de uma restrição alimentar específica —por exemplo, uma pessoa com doença celíaca confirmada, que não pode comer glúten — normalmente o fazem por uma questão de saúde exclusivamente, e acabam “se conformando” com a restrição, pois sabem que não existe outra alternativa. Ao escrever esse texto, não falo desses casos, penso nas mulheres que de fato têm a mudança corporal como motivação para fazer dieta, para se adequar a padrões que não representam a diversidade de corpos das pessoas.

Ou seja: dietas restritivas não são o caminho para lugar nenhum, a não ser para o aprisionamento e para a infelicidade. Dietas restritivas não funcionam de fato. E, como disse Naomi Wolf, feminista e autora do livro ‘O Mito da beleza’: “fazer dieta é o maior sedativo político das mulheres”.

Autora

Ana Carolina Pereira Costa é nutricionista e autora do blog: O Corpo é Meu.

Desafio sem make: desafio para quem?

Texto de Jessica Romero.

Então vamos falar de desafios? Primeiramente preciso falar sobre a minha relação com maquiagem. Eu gosto de estar maquiada, me maqueio com frequência, é um fetiche de consumo e também uma vaidade. Mas saio tranquilamente de cara lavada e evito me maquiar diariamente para não agredir minha pele. Essa relação mudou completamente há pouco tempo, depois que me senti empoderada pelo feminismo. Está sendo um aprendizado descobrir que minha beleza não precisa de aprovação alheia, apenas de amor próprio. E isso não tem a ver com gostar ou não de elogios ou se achar uma deusa da Terra, mas sim com o fato de que ter autoestima e segurança faz uma mulher mais forte e feliz. Acredito que toda mulher é linda e a participação no movimento feminista nos faz compreender e perceber melhor isso.

É relevante dizer que escrevo reconhecendo que tenho privilégios diante do padrão de beleza que temos imposto na atual sociedade. Ser branca, cis e magra já me tira de algumas situações agressivas em relação à cobrança social do que deve ser a “beleza feminina”. Portanto, é mais fácil para uma mulher como eu, ter a sua beleza aceita socialmente, com ou sem maquiagem.

Foto de Carsten T. e Salvage no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Carsten T. e Salvage no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A primeira intenção do “Desafio Sem Make” foi ótima e espero que tenha dado certo para muitas garotas. Nos libertarmos da ideia de que estar maquiada seja algo importante para nos considerarmos, sentirmos ou sermos bonitas é necessário. O uso da maquiagem precisa ser uma escolha individual a partir da plena consciência de que somos todas naturalmente lindas em nossas diferenças. Acho super positivo quando famosas postam suas fotos sem maquiagem e desconstroem a perfeição inexistente das capas de revistas vendidas a nós. Mas acredito para nós, “mulheres comuns”, isso não devia ser posto através de um “desafio” público. Não devíamos precisar provar aos outros e nas redes sociais que somos bonitas “de qualquer jeito”.

Não critico as meninas que participam, acho que a ideia tem seu valor. Porém, creio que vale também questionar a real face do que está por trás dessa brincadeira: a velha necessidade de provação e aprovação de beleza que nós mulheres temos que passar o tempo todo.

O uso da maquiagem nos é cobrado desde muito cedo, quando ainda nem entendemos o que significa esse pacote todo de “ser mocinha”. A vontade ou a obrigação de usar maquiagem sempre surge de uma pressão evidente ou invisível para nós mesmas. Pode vir de todos os lados: da família, do grupinho de amigas, da mídia, da publicidade, das pessoas com quem nos relacionamos ou até mesmo como exigência para ocupar certos cargos de trabalho. Vontade e obrigação, nesse caso, se confundem e vivem se equilibrando numa linha tênue.

Acredito que essa é mais uma tensão consequente do machismo (a velha história de que mulheres existem para serem bonitas e agradar) e que se ampara no capitalismo, pois juntos eles nos vendem um ideal inalcançável de beleza que nos faz comprar e consumir maquiagens, revistas, roupas, acessórios, tratamentos, cirurgias, etc. Enfim, se a lógica fosse contrária e vivêssemos num sistema que nos criasse para sermos seguras e independentes acima de tudo, todo esse mercado da beleza estaria falido. Portanto, é intere$$ante para muita gente que as mulheres sintam-se inseguras e comprem diversas coisas para se sentirem mais bonitas ou até mesmo minimamente aceitas por elas mesmas e pelos outros.

A ideia de aceitar-se bonita “até sem” maquiagem é ótima, mas deveria depender mais de uma desconstrução dos padrões de beleza e de uma mudança em como nos relacionamos com a beleza do que de likes alheios nas redes sociais. O Facebook, o Instagram e outras redes sociais, tornam-se só mais um ambiente em que somos cobradas a estarmos bonitas (com ou sem maquiagem), e a moeda de troca são os likes e comentários de aprovação.

Se nesse caso postar uma foto sem maquiagem é demonstrar-se segura e confiante, é preciso também analisar a importância do fator repercussão. Como sempre, na cultura machista, quando uma mulher mostra-se, aparenta ou finge estar segura, logo surgem comentários e julgamentos machistas. Coisas como “melhor com maquiagem” ou “se andar sem maquiagem vai ficar solteira pra sempre” apareceram na rede e só reforçam a ideia de que, mesmo na tentativa de desconstrução, ainda somos vistas como objetos e nossa missão no mundo é sermos belas princesas à espera de um príncipe, nesse caso, desencantado.

Comentários desse tipo nos mostram um termômetro da situação, pois mesmo com tantas provações não seremos totalmente “aprovadas” nunca. Quando uma mulher está “maquiada demais”, ela recebe críticas. Quando está sem maquiagem, também. Então, para onde caminhamos ao aceitarmos um desafio de servidão ao outro?

Outro lado do desafio é desconsiderar completamente outros tipos de relação que algumas mulheres tem com a maquiagem. Ao participar de alguns debates na internet, tive contanto com alguns relatos de mulheres trans* que me fizeram pensar. Não posso reproduzi-los, pois foram feitos em grupos fechados, mas em alguns o que percebi é que para algumas mulheres trans* poder usar maquiagem e sair na rua maquiada significa parte do sentir-se mulher, sentir-se no “corpo desejado” e consequentemente, sentir-se livre. O desafio de muitas mulheres é ter coragem de sair cotidianamente assim e encarar a transfobia por ser a mulher que é. Vi algumas mulheres trans* serem desafiadas a postar uma foto sem maquiagem, e uma delas disse que nunca o faria, pois aquilo seria uma autoagressão que nenhuma mulher cis poderia imaginar.

Dentro dessas discussões, também fui alertada para outras questões, como por exemplo: muitas mulheres têm sérios problemas de pele, cicatrizes ou marcas e usam a maquiagem para recuperar a autoestima e sentirem-se mais pertencentes do que socialmente é considerado uma mulher bonita. Desafiá-las a expor suas marcas não é necessariamente incentivá-las a se amarem e a sentirem-se bonitas como são, mas sim a dependerem de likes para que se amem e sintam-se bonitas. Isso vai na contramão de qualquer lógica de empoderamento feminino, pois creio que esse deva ser sempre um processo autônomo e colaborativo, não dependente.

Acredito no poder do compartilhamento da informação como arma para o empoderamento. As redes sociais me proporcionam diversas descobertas e trocas de experiências que considero importantes no meu processo de formação feminista. Porém, percebo que assim como isso pode ser usado a nosso favor, também é muito usado contra nós ou até mesmo em nosso favor, mas invisibilizando ou agredindo mulheres que fazem parte de minorias. É preciso ter cuidado com essa faca de dois gumes.

Na internet, os desafios da vida real parecem fáceis pelo caráter superficial que ganham devido à rapidez dos compartilhamentos. Nós mulheres sabemos que os reais desafios exigem mais de nós. Exigem uma luta cotidiana de combate às opressões e as construções machistas da nossa cultura. Para eles, tome sua dose diária de feminismo. E, em vez de esperar os likes alheios, curta-se. Você é linda!

Autora

Jéssica Romero é mulher, feminista e jornalista em construção. Escreve no site Desvio Livre e em sua página no Facebook.

+ Sobre o assunto:

[+] A loucura pela beleza. Por Karen Polaz no Biscate Social Club.

[+] Por que eu não participei do Desafio Sem Make. Por Gizelli Souza no Lugar de Mulher.

[+] “Parem com a loucura da beleza”: escritora confronta padrões em projeto de campanha publicitária.