Padrões de beleza que adoecem

Texto de Patrícia Sebastiany Pinheiro.

Sempre fui magra. Anos após entrar na adolescência, comecei a ganhar um pouco de corpo. Mais ou menos, até os 15 anos, me sentia bonita, não tinha maiores problemas com meu peso.

Por volta dos 16 ou 17 anos, enquanto ainda estava no ensino médio, em decorrência de algumas doenças físicas e, posteriormente, traumas emocionais, comecei a emagrecer bastante. Mas eu não percebia a diferença, me alimentava consideravelmente bem e levava uma vida normal. Foi quando os outros começaram a apontar e a criticar minha magreza.

E assim, dia após dia, eu, que mais magrinha ou mais cheinha sempre havia vivido bem dentro do meu próprio corpo, passei a ouvir calada os diversos comentários negativos dispensados ao meu corpo magro, comecei a internalizá-los e a acreditar neles.

Foto de Elena Ocho no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Elena Ocho no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

O seguinte pensamento passou a martelar 24h por dia na minha cabeça: “Para ser bonita e aceita, preciso engordar”. Assim, passei a fazer milhares de tratamentos, a comer coisas que não tinha vontade mesmo quando estava sem fome, e a frequentar academias (coisa que detesto fazer).

Cada quilo que eventualmente eu perdia, acabava comigo. A cada: “Nossa, como você tá magrinha”, lá ia eu novamente tentar descobrir como juntar os pedaços e levantar da cama no outro dia sem ter medo de colocar uma calça que, aos meus olhos, iria sobrar mais ainda na cintura.

Passei a desenvolver uma espécie de síndrome do pânico, um medo patológico de emagrecer. Medo de ficar doente e emagrecer. Medo de comer uma coisa estragada e emagrecer. Colocando assim, parece bobo, mas a preocupação com o corpo, a associação que fiz entre o corpo ideal e a felicidade, me tirou grande parte da tranquilidade de viver, da espontaneidade, da segurança; me fazendo preocupada, pessimista, detalhista, extremamente ansiosa e facilmente deprimida.

Fiz e ainda faço muita terapia para conseguir lidar com esse padrão de pensamento que, mesmo que de forma um pouco menos acentuada, ainda insiste em me puxar para baixo. Mas hoje, consigo entender que apesar de eu ter permitido que todo esse medo tomasse uma proporção gigantesca na minha vida, eu não o construí sozinha.

Eu não me sentia feia, até que começaram a dizer que eu seria muito mais bonita se ganhasse uns quilinhos. Eu não me sentia menos gente, até alguém dizer que “eu era legal, mas muito magrinha”. Eu me sentia inteira antes de me dizerem que eu estava a ponto de sumir.

O que mais dói é saber que eu sou mais uma dentre as milhares de mulheres que experienciam situações como essa; que, na tentativa de engordar ou emagrecer, adoecem para atingir um padrão de beleza que nos é empurrado todo dia. E é por isso que meu estômago revira a cada capa de revista que eu vejo carregada de dietas para emagrecer. É por isso que não faço questão de ter a amizade de uma pessoa que chama uma mulher de “caveira” ou de “baleia”.

É por todos esses comentários maldosos a que eu e muitas mulheres ainda somos submetidas que precisamos do feminismo, pois, diferentemente de vitimização, como muitos o definem, ele é, sim, o abrigo de vozes que lutam contra todas essas imposições que já tiraram o meu brilho do olhar; é a certeza de que o belo e o correto sempre serão nada mais do que aquilo que NÓS MESMAS desejarmos ser.

Autora

Patrícia Sebastiany Pinheiro tem 21 anos. É gaúcha de Santa Maria, onde estudou Psicologia na UFSM por três anos. Atualmente mora em Florianópolis. É escritora, feminista, apaixonada por moda e assumidamente viciada em filmes e séries. Escreve em seu blog pessoal e mantém uma página no Facebook.

Velhice, saúde e o cuidado em nossa sociedade

Texto de Luciana Nepomuceno.

Esses dias, vi uma imagem sendo compartilhada nas redes sociais e fiquei mastigando meu desassossego vários dias. A imagem é essa:

velhice_saude

Acho que é mais ou menos consenso no universo feminista e biscate – que são, a bem da verdade, minhas bolhas – que vivemos um monopadrão de beleza que é cruel, perverso, desconfortável e deve ser combatido aguerridamente. O que eu não sei se é consenso para todo mundo dessa bolha é a impressão que tenho de que esse padrão de beleza traz a reboque a noção de juventude e saúde como valores absolutos — muito menos questionada e raramente combatida — e que pra mim é tão inquietante quanto.

Comecemos pela imagem aí de cima. O que está implícito (rá, implícito) é a afirmação de que a juventude é divertida, corajosa, ativa, inovadora e a velhice é, necessariamente, o oposto disso. Esses valores (e outros, como beleza, disposição, criatividade) costumam estar relacionados discursivamente à etapa da vida e não à pessoa ou ao estilo de conduzir-se na vida.

Se você tem, sei lá, 72 anos e por acaso tem uma ideia criativa não é porque seu “espírito” é criativo, é porque você tem “espírito jovem”. Assim, cinde-se o sujeito do seu comportamento, rótulos são criados e legitimados, determina-se mais um marcador hierárquico e valorativo. Jovem is good, velho is bad. Beleza e velhice na mesma frase? Onde já se viu? Só se for com conjunções adversativas: ela é velha, mas é bonita. Ou um elogio com depreciações implícitas: ela é tão bonita/conservada/atraente nem parece que tem XX anos. Porque, quanto mais x nos anos, claro, menos possibilidade de parecer bela. E não é só na aparência física que se condena a aceitação da passagem do tempo (affe, cabelos brancos, rugas, manchas na pele, quem quer isso? euzinha), despreza-se aprendizados, experiência e toda uma gama de conhecimentos e comportamentos construídos, especialmente, ao longo tempo.

Já me perguntaram como uma biscate aceita a passagem do tempo, se eu não ficava meio desesperada de estar ficando velha e aí não ia ter mais sexo, né. Né não. A questão tinha tantos problemas que eu demorei a aceitar que ela foi feita de verdade. Primeirinho: no meu juízo eu não tenho que aceitar ou não a passagem do tempo. Ele passa. E eu cedo aprendi com a oração do AA que é preciso serenidade para lidar com as coisas que a gente não pode mudar. Depois, tive um plus e descobri que o tempo passar só me tem feito bem. Tenho mais folha corrida em relacionamentos, li mais coisa, vi mais filmes, fiz mais reflexões, vou me tornando mais complexamente apta a lidar com o tempo que tem passado. Depois: se eu não fico meio desesperada de não ter mais sexo. Porque, claro, pessoas velhas não sentem desejo, mas se for uma velha biscate pode ser que sinta e aí não vai fazer sexo nunca mais porque velhos não fazem sexo. #SQN.

Relacionar sexualidade estritamente à juventude é outra dessas crueldades discursivas da oposição juventude X velhice. Sexualidade – como, aliás, criatividade, disposição, afetividade, alegria, ânimo, coragem, audácia, etc – é um aspecto da nossa humanidade, aliás, a acreditarmos no velhinho barbudo, é uma das coisas que nos estrutura como gente.

A essa glamourização da juventude alia-se a mitificação da saúde como valor último e imperativo ético. “É saudável” é o new “é para o seu bem”. Não importa que a pessoa não goste, não queira, não obtenha prazer, é a “sua saúde que importa” afinal “seu corpo é um templo” (#doutrinaçãofeelings), mas sempre tem um blog gostoso de ler que escapa. Porque, claro, que coisa feia a pessoa não querer ser saudável, querer só fumar seu cigarrinho em paz. E aí a conjuração fatal: vai ficar “velho e doente”.

Um intervalo para dizer que me incomoda um tanto essa coisa de moralizar os vícios alheios: cigarro, álcool, maconha, o que for. Acho que depois que a gente começa a querer controlar e julgar o que o outro faz com seu corpo fica difícil estabelecer limite até onde nossa injunção coletiva pode ir.

Voltando ao: “vai ficar velho e doente”. Foi quando eu ouvi essa frase que eu encasquetei de vez: o que é que tem? Qual o problema de ser frágil, vulnerável, precisar das outras pessoas? Mas, Luciana, ele vai ser um peso. Alguém vai ter que cuidar dele. E daí? Vivemos em relação. As relações humanas são complexas e, justamente por isso, transformadoras e enriquecedoras. Cuidar é uma possibilidade. De construção, de responsabilidade, de troca, de aprendizagem, de fruição de afeto. Vulnerabilidade e dependência não são ruins em si mesmos. Tornam-se (tornaram-se) nesse nosso contexto capitalista onde somos avaliadas pelo nosso grau de adequação ao modelo produtivo (no lugar que nos é pré-destinado, off course).

Não vivemos o cuidado, hoje, como uma troca. Vive-se como um fardo “naturalmente” a ser carregado por uma mulher. E ao mesmo tempo em que se demanda que sejam cuidadoras, esse cuidado é invisibilizado. Às mulheres é ensinado cuidar, é demandado cuidar, é cobrado cuidar. Lembro sempre do filme mexicano “Como Água Para Chocolate” e como essa imposição do cuidado como um peso acaba por afastar as pessoas, minar afetos, impossibilitar a construção de formas inclusivas de relacionamento e socialização do cuidado.

A primeira vez que vi o filme só consegui antipatizar com a mãe que impunha tal carga à filha e lhe tolhia a felicidade. Só na segunda vez é que pensei que o serviço que era imposto à Tita não era uma invenção doida da mãe dela, era um lugar socialmente legitimado. E pensei no quão assustador pode ser para uma mulher, ensinada e cobrada toda sua vida a respeito do cuidado, não ter certeza de que alguém fará por ela. Os homens não costumam se preocupar com isso, não porque os homens são naturalmente descolados e não porque os homens são uns porcos egoístas preguiçosos, mas porque enquanto as mulheres são culturalmente forjadas no cuidado eles são sistematicamente acostumados a serem cuidados.

Essa nossa sociedade é escrota demais (perdoem o meu francês) com isso e a gente vai aprendendo a não deixar ninguém entrar, a não revelar os desconfortos, os medos, as falhas. Vai aprendendo que tem que ser sempre linda, jovem e saudável ou ninguém vai nos amar, trepar com a gente, nos oferecer emprego ou mesmo ter acesso a um mínimo de vida social. O tempo vai passando e enquanto você puder fingir que não, faça-o. Depois tem que ser uma velhinha dura na queda, de alma jovem, que mora sozinha, não precisa de ninguém, saudável e que um dia, de preferência, não morre, desaparece.

Jennifer Lawrence faz com que você sinta-se envergonhada por seu corpo mais do que você imagina

Texto de Jenny Trout. Tradução de Liliane Gusmão.

Publicado originalmente com o título: ‘Jennifer Lawrence body shames you more than you might have realized’ no blog Sweaters For Days em 11/12/2013. Republicado com alterações no site Huffington Post com o título: ‘Jennifer Lawrence Body-Shames You More Than You Might Realize’ em 01/03/2014. A tradução foi feita a partir do texto republicado no Huffington Post.

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Abaixo, algumas citações que a atriz americana Jennifer Lawrence fez ao longo dos anos sobre seu próprio peso:

“Prefiro parecer rechonchuda na tela e uma pessoa na vida real” – Mirror

“Em Hollywood, eu sou obesa. Sou considerada uma atriz gorda. Eu sou Val Kilmer naquela foto na praia.” – HuffPost

“Eu como tanto quanto um homem das cavernas. Eu sou a única atriz sobre a qual não existem rumores sobre anorexia.” – Entertainment Weekly

“Eu nunca vou passar fome para fazer um personagem. Eu não quero garotas pensando, ‘Oh, eu quero ter o corpo da Katniss, então não vou jantar hoje’. […] Meu objetivo é que meu corpo fique forte e em forma, não magro e desnutrido”- Entertainment Weekly

“Se qualquer um tentar sussurrar a palavra ‘dieta’ junto de mim, minha reação é mandar se f*der” – The Gaurdian

“O que voce vai fazer? Ficar faminta todos os dias para fazer outras pessoas felizes? Isso é uma idiotice” – The Daily Mail

O Tumblr a glorifica em .gifs como um modelo de espirituosidade e aceitação corporal, mas uma coisa que talvez tenha escapado a sua atenção durante a glorificação orgástica de JLaw na internet, é que Jennifer Lawrence é uma mulher de 20 anos, atraente e em forma.

Atriz americana Jennifer Lawrence no evento Globos de Ouro 2014. Foto de Jason Merritt/Getty Images.
Jennifer Lawrence no evento Globo de Ouro 2014. Foto de Jason Merritt/Getty Images.

Vamos admitir que ela está, talvez, um ou dois tamanhos acima do padrão aceitável para Hollywood. É admirável que, sendo ela estrela de uma franquia de filmes endereçados a jovens e adolescentes, esteja preocupada com os efeitos que uma aparência muito esbelta de sua personagem possa trazer para sua audiência, que já é diariamente bombardeada com mensagens negativas sobre seus corpos. Mas, a forma pela qual suas afirmações são feitas — e como seus zelosos fãs interpretam suas palavras — só reforçam padrões culturais e perpetuam o mito de que apenas um tipo de corpo é aceitável.

Eu não vou abordar o fato do quanto é absurdo uma garota como Jennifer Lawrence ter que justificar seu corpo maravilhoso para todos os consumidores midiáticos do mundo. Todos sabemos que isso é um absurdo. Ao invés disso, vou focar no fato de que na tentativa de acalmar nossa própria inquietude com nosso peso, nós, a internet, decidimos ignorar o quanto a imagem Animal Spirit¹ das garotas gordas do mundo, atribuída a Jennifer Lawrence, é na verdade body-shaming².

Para começar, consideremos as citações dela. Ela diz preferir aparecer rechonchuda na tela, mas parecer com uma pessoa na vida real? Essa é uma mensagem positiva só para as pessoas que se consideram rechonchudas e ainda é feita ofendendo pessoas magras. Pessoas que podem ser magras porque são doentes ou porque são esbeltas naturalmente. Mas, quando alguém diz que prefere ‘parecer uma pessoa’ do que ser magra a mensagem que se passa é que uma pessoa magra não parece gente.

Eu gostaria de saber, Internet, qual é a percentagem de gordura corporal necessária que uma mulher deve ter para ser considerada gente?

Eu estou certa que algumas das minhas companheiras gordas leram essa frase e bocejaram. Nós sabemos que ter mais peso não nos garante o direito de ser considerada uma pessoa, porque nossa suposta falta de autocontrole e dignidade é continuamente relacionada com esse percentual de gordura corporal. Pessoas gordas não são gente em nossa cultura. Elas são ‘pessoas gordas’. Então, o que essa citação faz? Ela não está empoderando ninguém a não ser as mulheres que pareçam com Jennifer Lawrence. E não é nenhuma coincidência que ela seja tão curvilínea como nos dizem que é o padrão de preferência masculina.

Eu não consigo evitar de pensar nesses .gifs flutuando pela internet. Esses .gifs  de Jennifer Lawrence falando sobre como ela ama comer, sobre o quanto ela come, sobre o quanto ela adora as batatas fritas do McDonald’s. A internet teria aceitado essa citações se elas tivessem vindo de uma atriz mais gorda? Alguém como Melissa McCarthy?

Eu percebi uma coisa engraçada sobre Melissa McCarthy. Além do óbvio: ela é engraçada. Eu notei que quando Jennifer Lawrence fala sobre peso, ela fala sobre o quanto ela come e de como ela não vai fazer dieta para ficar magra. Quando Melissa McCarthy é citada sobre o seu próprio peso ela diz isso:

“Eu não sei por que não sou mais magra. Eu não bebo refrigerantes; não gosto de doces e nós temos uma alimentação muito saudável em minha casa. Nós amamos brócolis e sopa de legumes, quase sempre temos um pote de sopa na geladeira — é uma delícia!” – Fox News

 “Eu não perco peso fácil” – People.com

“As vezes, eu queria magicamente vestir 38 e não ter que pensar mais sobre isso” – Us Magazine.

Atriz americana Melissa McCarthy no evento Globos de Ouro 2014. Foto de PerezHilton.com/AP Images.
Atriz americana Melissa McCarthy no evento Globos de Ouro 2014. Foto de PerezHilton.com/AP Images.

Porque Melissa McCarthy é uma mulher gorda, ela não tem direito de fazer comentários impertinentes sobre aceitação corporal. Ela tem que se desculpar por seu corpo. Todas as citações poderiam dizer a mesma coisa: “ Desculpe eu ser gorda e vocês terem que olhar para mim, minha gente.” E isso é só o que ela está autorizada a dizer pelos moldes da nossa cultura. Se Melissa McCarthy dissesse: “Se qualquer um tentar sussurrar a palavra ‘dieta’ junto de mim, minha reação é mandar se f*der”; a resposta certamente não seria: “Que forte e corajosa! Que ótimo modelo a ser seguido!”. A resposta seria: “Que péssimo exemplo! Encorajar as pessoas a serem doentes. Nós vivemos um epidemia de obesidade! Abram seus olhos, gordura não é saudável, sexy ou aceitável! Como ela ousa dizer uma coisa assim.”. Mesmo as afirmações mais leves que ela fez sobre ser feliz com seu próprio corpo e consigo própria já foram suficientes para que a internet reagisse ferozmente falando sobre saúde e escolhas saudáveis de estilos de vida. Imagine se Melissa McCarthy tivesse feito tantas declarações sobre comida e McDonald’s. Não teria  sido nem fofo, nem engraçado, teria sido grotesco. Olhem aquela gorda se comportando como uma humana com fome e desejando comer coisas que não são saudáveis. Como é grotescamente engraçado ver pessoas gordas comendo. Quando Jennifer Lawrence faz esses comentários é aceitável, porque o corpo dela ainda preenche os requisitos de voluptuosidade feminina de quadris largos e pescoço fino, ditados por nossa cultura.

Quando Jennifer Lawrence diz que é : “idiotice” passar fome para fazer outras pessoas felizes; ela diz isso com a leveza de quem provavelmente jamais vai precisar fazer essa escolha para ser aceita ou adaptar-se a um padrão. Sim, vão pedir a ela que faça dieta para interpretar uma personagem. Sim, ela está exposta a mesma pressão para adequar-se a uma expectativa cultural como todo mundo. Mas, uma mulher que tem a aparência de  Jennifer Lawrence não tem que comprar roupa pela internet porque as lojas físicas não tem o tamanho dela. Uma mulher que tem a aparencia de  Jennifer Lawrence provavelmente não vai ter que lidar com a intervenção de um estranho numa Pizza Hut por que ele está preocupado com sua “saúde”. Se uma mulher que tem a aparência de  Jennifer Lawrence vai ao médico se queixar de uma doença vão lhe oferecer exames diagnósticos e não uma dieta alimentar. Jennifer Lawrence pode dizer que é “idiotice” fazer dieta, mas ela não tem que lidar com preconceitos ou doenças relacionadas com seu peso. Jennifer Lawrence, provavelmente, não vai ter que passar fome para emagrecer ou ter que fazer uma cirurgia para reparar a bacia ou a rótula aos 35 anos.

A razão que autoriza Jennifer Lawrence a ser um modelo de positividade corporal para jovens e adolescentes rechonchudas é o fato dela ser uma representante da beleza padrão. A imagem pública de Jennifer Lawrence foi construída baseada na ridicularização de meninas gordas. Ela pode dizer que é obesa pelos padrões de Hollywood, mas essa afirmação é risível quando mulheres como Melissa McCarthy trabalham para mesma industria e não gozam do privilégio de se auto-afirmarem sem remorsos. E Lawrence só está autorizada a fazer esta afirmação por estar dentro do padrão de beleza convencional.

A mensagem de aceitação corporal baseada nas declarações de Jennifer Lawrence só empodera aquelas que estão dispostas a ignorar o fato de que suas afirmações reforçam os padrões culturais existentes, ao invés de subvertê-los.

Notas da Tradução 

¹ Animal Spirit –  Em religiõespagãs, um espírito animal ou totem deve representar as características ou habilidades que uma pessoa deveria aprender ou ter. Na internet, dizer que alguém ou alguma coisa é seu espírito animal significa afirmar que determinada pessoa ou coisa é o que você gostaria de ser.

² Body-shame ou body-shaming – É a ação de ridicularizar ou constranger pessoas pela sua forma corporal ou peso ou os dois. Não existe no português uma tradução literal para a expressão.

Autora

Jenny Trout é escritora e blogueira. Siga-a no twitter.

+ Textos sobre o tema:

[+] O privilégio magro de ser feminista e poder ignorar o que a gordofobia da Jennifer Lawrence representa.

[+] (Mais um pouco) sobre a gordofobia.