Fiscala, oficiala, pilota

Texto de Juliana Romão para as Blogueiras Feministas.

O título não é uma brincadeira tipo trava-língua ou inventa-palavras, são flexões de profissões e cargos no feminino. O ouvido estranha como uma incorreção gramatical, erro de quem não ‘sabe falar direito’, quiçá uma piada. O descrédito aos nomes das profissões das mulheres reflete e legitima práticas de desigualdade e opressão, que transferem para a linguagem corrente a naturalização da dominação de gênero nos espaços profissionais (e sociais, legais, políticos, familiares, escolares, midiáticos).

As relações são assimétricas. O homem é o trabalhador externo, remunerado, racional e ‘provedor’, o avesso do papel prendado tatuado nas mulheres, aprisionadas ao perfil de ‘dona de casa’ ou ‘doméstica” — a depender do recorte de classe e raça – um trabalho necessariamente desqualificado, interminável e, principalmente, invisível. A palavra-imagem masculinizada oculta o feminino e perpetua a hierarquia tradicional.

Na vida cotidiana, como bem compara a pesquisadora franco-brasileira Marie-France Dépêche, nossa ‘língua materna’ está mais para ‘língua paterna’. Todo o entorno extralinguístico – o poder de quem fala, o contexto, a formação ideológica – ultrapassa a camada gramatical e orienta a construção do discurso, fazendo do descaso às flexões uma negação à identidade das mulheres. “Talvez seja a maior violência quando a linguagem dos homens apaga a presença do feminino na sociedade. Eles costumam se dirigir somente uns aos outros, ‘curto-circuitando’ as mulheres da confraria masculina” (1), resume Marie-France.

O ambiente profissional é apenas um entre os espaços de opressão pela palavra, mas que merece um olhar atento por ser, para as mulheres, um campo desafiador de luta por igualdade, reconhecimento e quebra de estereótipos. Quando a situação, função ou profissão da mulher deixa de ser falada no feminino, ela é expulsa da existência, tem negada a sua identidade. O cargo no crachá é masculino, quem o ocupa é um detalhe.

Por não reconhecer palavras como oficiala, muitas pessoas acham que essa profissão exercida por uma mulher não existe. E quando a encontram, ou com uma pilota, quem sabe uma bacharela, ou uma regenta, o arquivo mental leva centésimos de segundos para ‘chamá-la’ no masculino (a oficial) e recompor a imagem dentro da ‘normalidade’. Essa mesma que não se opõe à profissão de professorA, compatível com a marca dócil, organizada e cuidadora etiquetada ao ‘sexo frágil’. O mapa de valores não decepciona o estereótipo.

O ‘padrão’ linguístico supervaloriza o masculino como gênero e como falacioso genérico (o homem é o homem e é também todo o mundo), apagando da vida real as mulheres e quem destoa do perfil. São representações aprendidas e confirmadas na escola, em casa, nos grupos sociais, livros, leis, mídias — uma negação absoluta (porque imperceptível) à presença feminina na expressão do mundo. “Se a cultura é sexista, a linguagem tem esse tom”, confirma a linguista, educadora e escritora costarriquenha Yadira Calvo.

É necessário o rompimento com esse lugar social, a partir do uso adequado das flexões de gênero e de diversas alternativas gramaticais que coletivizam e incluem. A transformação deve começar agora, na escolha das palavras — falar é um exercício de poder, é posicionamento.

A primeira presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, fez girar a roda da linguagem. Quando eleita, pediu para ser chamada de presidenta — nem precisaria, pois a desconhecida lei 2.749/1956, assinada por Juscelino Kubitschek, lá em 1956, determina que se use a forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres. Pedido negado, lei desprezada. O recado dos meios de comunicação, poderosos agentes de socialização de valores, foi claro: “a presidente”.

Precisamos contrariar esse ‘corretor ortográfico’ que desfaz as palavras não reconhecidas e chama-lá de presidenta sim, como ato político, intervenção linguística, palavra-ação. A importância de nomear devidamente a presença e reconhecer o espaço embasam também a representativa lei 12.605/2012, assinada por Dilma, que exige que os diplomas tragam a flexão de gênero da profissão ou grau. Novos óculos para velhos olhos.

Quanto mais a língua representar a realidade e as pessoas que nela vivem, menos sexista será a nossa sociedade. Teremos um mundo mais igualitário, sem espanto ante palavras femininas, ou às mulheres no mundo profissional. Elas serão vistas em nome e pessoa. E, quem sabe, quando as crianças pensarem no seu futuro, digam e desenhem também físicas, práticas, alfaiatas, carteiras, soldadas, fiscalas, bacharelas e presidentas. Muitas delas.

Referência

DÉPÊCHE, Marie-France. Reações hiperbólicas da violência da linguagem patriarcal e o corpo feminino. In: STEVENS, Cristina Maria Teixeira. A construção dos corpos: perspectivas feministas. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2008, p. 207-218.

Autora

Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista de educação Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.

Imagem: Thinkstock/Lovetoknow.

Sobre putas e palavras mágicas

Texto de Laura Schichvarger

Quer ver como mágica existe? Vou te provar.

Pensa naquele desgraçado que te fechou no trânsito. Ou naquela vizinha insuportável. Enfim, qualquer pessoa que te irrita. Agora pensa como é gostoso xingá-la, mesmo que a pessoa não ouça.

Que alívio após chamar aquela pessoa de: “Sua vaca”, “Seu cuzão”, “Vai tomar no seu cu, filho da puta”. Uau, já me sinto mais leve. Xingar é que nem ir ao banheiro depois do almoço. É uma função excretora verbal. Acredito mesmo que, quando a vontade se faz, é melhor xingar ao léu do que enfezar-se (embora muitos sofram de prisão de ventre verbal).

Parece normal que quase todos os palavrões em português refiram-se a atividades ligadas ao sexo (o que inclui “viado”, “corno” e partes do corpo: “caralho”, “boceta”) ou a funções corporais (“merda”, “porra”, “cagar”, etc). E tudo o que parece normal é invisível (calma, você já vai ver onde quero chegar).

Foto de Ana C. Nemes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Ana C. Nemes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Por que não sentimos tamanho alívio gritando, por exemplo, “berinjela” ou, sei lá, “catapora”? Oras, porque tudo bem uma berinjela. Olha que lustrosa, que cor profunda, que suculência. Mas um caralho? Uma boceta? E veja bem, é caralho, não pênis, que pertence ao contexto médico e suas luvas de látex. Pênis cheira a desinfetante. Ou alguém grita “pênis!!!” quando prende o dedo na porta?

Os caralhos e as bocetas estão por aí, entre as pernas de cada pessoa que você cruza na rua, mas estão todos bem escondidos sob camadas de pano. Exibir o caralho ou a boceta em público é crime de atentado ao pudor. Xingar também é crime, mas se você não tiver status de autoridade dificilmente conseguirá punir alguém que te xingou pelas vias da lei.

E, falando em lei, podemos estabelecer uma já: quanto mais proibida é a coisa a ser nomeada, mais nomes ela tem. Os órgãos sexuais, a cachaça e o diabo que o digam, campeões do subterfúgio. O exemplo do diabo é bastante elucidativo: proferir o seu nome era chamá-lo. O nome é a chave que abre os portais infernais.

A mágica também funciona assim: basta uma palavra (e não qualquer uma — é preciso saber a palavra mágica) e uma coisa se transforma em outra. E se você acha que mágica não existe, o que faz o juiz (ou o padre) ao declarar dois seres “marido e mulher”? Ou o policial ao dar “voz de prisão”? Ou você ao seu chefe, ao dizer “me demito”? Mágica existe. E ela é feita de palavras que são, em si, ações.

Agora que provei que mágica existe, vou explicar porque comecei a falar disso.

Tudo bem certos xingamentos entre adultos, assim como tudo bem em balançar o balangandã pelado entre as quatro paredes do lar. Entre amigos, xingar é quase um atestado de intimidade: “ô seu viado, quando a gente vai beber aquela cerveja?”. Mesmo as palavras ditas durante o sexo (assunto que merece per se um texto inteiro) é um caminhar na navalha entre o fofinho e a excrescência. Em suma, o falar sacana consiste geralmente em descrições do ato realizado no momento ou a ser realizado em breve. Como a arte se mostra bem cabeluda na prática (depilação é para os fracos), uma técnica bastante utilizada consiste no recurso dos palavrões atenuados por um diminutivo: “vira essa bocetinha pra cá”, “me dá esse cuzinho”.

Mas, mesmo a intimidade tem seus limites. Em um episódio do seriado americano Sex and the City, a personagem Charlotte, a mais certinha das quatro protagonistas, começa a sair com um cara lindo, simpático, fofo, etc… mas que só conseguia gozar se gritasse “SUA PUTA”, o que a deixava bem intrigada.

Isso porque, ao chamar uma mulher de “puta”, especialmente na hora do sexo, cruza-se uma fronteira: é como se dissesse “sua função aqui é me satisfazer, o seu desejo não me interessa”. Sim, com uma só palavra é possível transformar uma relação de igual para igual em uma relação de poder. Mas isso tudo só acontece porque a palavra “puta”, em português, é também um xingamento. O efeito não seria o mesmo se o namorado da Charlotte gritasse “mulher da vida!”. Na palavra “puta” existe o proibido, e com ele o desejo reprimido (nada é proibido por acaso). Aquele que grita “puta” para gozar é como aquele que grita “socorro” enquanto se afoga — tem medo de se perder, despossuído pelas vias do próprio desejo.

Gabriela Leite. Foto: divulgação.
Gabriela Leite. Foto: divulgação.

É por isso que meu olho brilhou quando vi aquela senhora empunhar o microfone em uma palestra e dizer algo mais ou menos assim: “há muitos nomes para a nossa profissão. Mulher da vida, acompanhante, prostituta, meretriz… mas o que eu mais gosto, mesmo, é puta”. O nome dela é Gabriela Leite, autora do livro “Filha, mãe, avó e puta”, militante pelos direitos das putas e que faleceu no início desse mês. Lutava pelo reconhecimento da profissão, com direito a tratamento digno e aposentadoria. Aquela mulher pega essa palavra, um xingamento, e a transforma em orgulho. O mesmo aconteceu com “vadia” e a Marcha das Vadias.

[+] Puta de respeito – Entrevista com Gabriela Leite.

Tudo isso me veio em mente enquanto eu xeretava um site que é uma aula de antropologia, o GPguia, um fórum de clientes de profissionais do sexo. Entre os muitos elogios e críticas, um me chamou a atenção: “a garota é linda, mas tem cara de puta”. Rapaz, uma bóia salva-vidas pra você.

Laura Schichvarger.
Laura Schichvarger.

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Laura Schichvarger tem 31 anos, nasceu e mora em São Paulo, é tradutora e mãe. Deformou-se em jornalismo, reformou-se em letras na Sorbonne Nouvelle e estudou artes e linguagem na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) em Paris. Twitter.