Aquarius: um filme político, mas também um filme sobre Clara

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em meio a todas as polêmicas envolvendo Aquarius (2016), acredito que seja O filme brasileiro a ser visto esse ano. Isso não significa que achei o filme ótimo, nem que seja o melhor filme do ano, nem que deveria ter sido indicado ao Oscar. Para mim, em O Som ao Redor (2012), o diretor Kleber Mendonça trata com mais sutilezas as relações sociais desiguais brasileiras e o poder do mercado imobiliário. Porém, a luta de Clara (Sônia Braga) para permanecer em seu apartamento representa o atual momento político em que vivemos, em que é preciso deixar transparente de que lado estamos.

Porém, Aquarius é sobre Clara. Uma personagem feminina que foge do convencional, que junto com suas músicas apresenta uma interessante representação feminina para o cinema brasileiro. Clara convive com muitas mulheres e todas elas mostram um pouco do que é ser mulher nos dias atuais. O foco da história é Clara, uma mulher na faixa dos 60 anos, que se recusa a vender o apartamento em que viveu durante grande parte da vida para uma construtora que pretende fazer um grande prédio na orla da praia de Boa Viagem, em Recife. O filme é uma grande caixa de lembranças de Clara. Acompanhamos seus momentos no passado e também suas relações no presente com a família e amigos. Sua principal aliada é a empregada doméstica Ladjane (Zoraide Coleto).

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Imperatriz Furiosa e as mulheres feministas em Mad Max: Estrada da Fúria

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Atenção, esse texto contém spoilers!

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Quem matou o mundo? Essa é uma das perguntas feitas no filme Mad Max: Estrada da Fúria. Quem faz essa pergunta é uma mulher, ao questionar um homem sobre as verdadeiras intenções de seu líder. As críticas elogiosas tem enaltecido não apenas as cenas de ação, efeitos especiais e o enredo com vários panos de fundo, mas também o fato desse filme ser uma distopia feminista, um massacre do patriarcado. Será?

Como afirma Kate McDonough em “Mad Max: Fury Road”: where feminist revenge fantasy meets old school redemption quest: “Nós temos uma tendência cultural a analisar o feminismo de um filme por meio de uma métrica estreita (como o Teste de Bechdel), mas nunca achei esse método particularmente alegre ou politicamente útil. Há feminismo em Mad Max: Fúria na Estrada, mas a quantidade e o tipo dependem de você fazer essa análise dentro dos padrões de Hollywood ou por meio de uma ideia que reconheça que personagens femininas podem pensar, sentir, lutar e sangrar”.

Estamos falando de um blockbuster hollywoodiano. Até que ponto é possível que Hollywood, uma indústria comandada por homens brancos, ricos e conversadores, produza filmes feministas? Então, nossa base de análise será essa, afinal, o feminismo nos últimos anos passou a ser rentável em alguns aspectos, devido a “moda feminista”. Para muitas pessoas não há nenhuma revolução nisso mas, para muitas mulheres que cresceram gostando de filmes de ação, ou que na solidão nerd só tinham a Princesa Léia e Nyota Uhura, as mulheres de Mad Max podem fazer diferença para a geração atual de jovens quando pensarmos em representatividade.

Distopias feministas no cinema

Há alguns filmes de ficção científica ou de ação que contem elementos feministas. São geralmente produções com protagonistas mulheres que levantam questões sobre gênero, reprodução e poder político. Ellen Ripley da série Alien e Sarah Connor da série O Exterminador do Futuro são exemplos disso. Matrix, Jogos Vorazes e até mesmo V de Vingança são exemplos de filmes de ação recentes que também tratam essas questões. Tank Girl, apesar de não ter feito tanto sucesso, trabalha de maneira muito boa questões paralelas com relação a sexualidade das mulheres e as formas de dominação masculinas. O novo Mad Max também entra nesse conjunto e consegue ir um pouco mais além.

Na maioria desses filmes, a heroína feminista é solitária. É ela contra o mundo. Lutando para salvar a si mesma e também o mundo. No novo Mad Max somos apresentadas a Imperatriz Furiosa, que parece seguir esse mesmo roteiro. Porém, seu objetivo principal no momento é libertar mulheres e levá-las para viver em segurança num local comandado por mulheres. Em determinado momento, fica claro que Furiosa não tem um plano infalível. O que ela tem é uma oportunidade, dirigir uma máquina de guerra, a partir disso vai improvisando e aceitando ajuda de todos os lados que vierem. É aí que entra não só Mad Max, mas também Nux (um War Boy) e as cinco noivas, que tem nomes descritivos: Toast, a sábia; Angharad, a esplêndida; Cheedo, a frágil; Capable e The Dag. Está formado um comboio, que mais para frente ganhará o reforço do clã original de Furiosa, as Vuvalinis.

Portanto, temos não apenas mulheres buscando a liberdade, mas também unindo-se em torno desse objetivo em comum. Num primeiro momento, elas seguirão juntas em busca de um novo mundo. Porém, Max as convence que derrubar o império de Immortan Joe, pode ser mais efetivo e trazer resultados mais imediatos para uma população faminta e escravizada. Isso talvez seja o que de mais feminista o filme tenha, a ideia de não apenas libertar mulheres, mas construir um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas.

Como ressalta Fabiano Camilo em “Mad Max – estrada da fúria” ou A possibilidade de um mundo outro, fundado no feminino: “São os miseráveis, as crianças, as mulheres escravizadas – os oprimidos, aqueles cuja vida não tinha nenhum valor na comunidade governada totalitariamente por Immortan Joe – quem reconhecem em Furiosa e seu grupo as agentes capazes de liderarem-nos na instituição de um mundo outro, cuja comunidade política seja fundada em princípios políticos valorados como femininos”.

Novas representações da personagem feminina forte e de gêneros

Num primeiro momento, Imperatriz Furiosa é todo estereótipo de heroína forte que conhecemos: masculinizada, andrógina, assexual. Porém, novas camadas são apresentadas ao longo do filme e passamos a enxergá-la de diferentes formas. Porque, não nos interessa trocar o estereótipo da personagem feminina bibelô por uma personagem feminina forte cheia de padrões. Como diz Lady Sybylla no texto Personagem Feminina Forte: “É interessantíssimo colocar mulheres fortes na tela, mas em alguns casos parece mais um cala a boca do que representatividade. Além disso, o que é força? Como definir essa fortaleza em um personagem?”.

As cinco noivas, que num primeiro momento aparecem como anjos no meio do deserto, poderiam representar o oposto de Furiosa, mas o ponto positivo de Mad Max é que isso não acontece, não há dicotomias entre as mulheres. Furiosa nos mostra em diversos momentos que está em busca de redenção. Treinada e sabendo de suas qualidades físicas, tem como missão ajudar as cinco noivas a escapar, mas também cobra delas protagonismo, iniciativa e solidariedade. As cinco noivas, mulheres magras e com ar frágil, vão descobrindo suas aptidões, forças e como podem ser úteis ou até mesmo essenciais em momentos cruciais.

As cinco noivas em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).
As cinco noivas em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).

As Vuvalinis, um clã formado só por mulheres, a maioria delas idosas, apresenta mulheres independentes que sobrevivem neste ambiente de violência sem precisar da ajuda de nenhum homem. Também não são o oposto das cinco noivas, porque o filme não busca representá-las apenas como artificio de sedução, mas expande as possibilidades de todas serem guerreiras, cada uma de seu jeito. Inclusive, tanto as idosas como as grávidas participam ativamente dos momentos de conflito, apanhando e batendo.

Ao encontrar as Vuvalinis, a noiva The Dag questiona uma das idosas sobre a razão dessas mulheres também matarem pessoas, se elas não poderiam fazer diferente. A resposta é que no passado elas não precisavam matar, mas agora o fazem para sobreviver. Se antes existia um lugar em que eram iguais, hoje já não existe mais e elas devem lutar por isso. As Vuvalinis parecem estar ali para nos lembrar que as questões de gênero precisam ser vencidas e é preciso lutar para que — quem sabe um dia — elas possam voltar a ter o mesmo lugar que tiveram. Isso fica claro quando Mad Max e Nux são avistados e elas já se sentem intimidadas, mas Furiosa logo aponta que eles são confiáveis. Isso remonta as várias vezes em que mulheres não sentem confiança em certas situações com homens cis e heterossexuais, pois muito das coisas que elas tinham, da confiança que carregavam lhes foram tiradas por alguns motivos. Furiosa vem para lembrar, de um outro lado, de uma outra posição, que ainda é possível acreditar e confiar.

Na cidadela de Immortan Joe, as mulheres são exploradas de diversas maneiras. Imperatriz Furiosa é mais uma de suas armas de guerra humanas. As noivas são escolhidas a dedo apenas para trazerem ao mundo filhos machos alfas perfeitos. Há uma idosa responsável por cuidar delas, que moram dentro de um cofre. Com a escassez de recursos, o leite materno tornou-se um dos alimentos mais valiosos, para obtê-lo, Immortan Joe escraviza mulheres presas a máquinas onde são ordenhadas.

Giza Sousa em Mad Max: Estrada da Fúria (Feminista) aponta sobre essas questões: “Como uma boa distopia deve fazer, Mad Max nos faz pensar na forma como validamos o consumo de produtos derivados dos animais. E se fôssemos nós a receber o tratamento que oferecemos aos animais? E por fim, as mulheres neste futuro distópico também são encaradas como um recurso, uma mercadoria. Mas não são também neste nosso mundo atual? A distopia de alguns é a realidade outros, a escravidão sexual é uma realidade em nosso mundo, ela acontece diariamente em todos os lugares, obviamente de forma ilegal mas acontece. Está aí uma das raízes da força feminista do filme, revelar como a objetificação das mulheres está ligada à violência propagada contra elas”.

A relação complexa entre as “noivas-parideiras” e os “filhos-soldados” também merece ser observada. Quando elas insistem que não devem haver mortes desnecessárias, afinal eles são filhos de outras delas na mesma condição e foram treinados para aquela violência. A representação da mulher como “aquela que provê a vida” está presente tanto nas noivas, como no fato de que as Vuvalinis carregam um estoque de sementes para plantar e ter comida em um novo mundo, mas isso não é essencializado ou sacralizado como a verdadeira função das mulheres.

No campo das representações de gênero, Otavio Cohen em Como a mitologia e o feminismo fizeram de Mad Max: Estrada da Fúria o melhor filme de ação do ano, destaca: “Falar de temas feministas no reboot de uma franquia que cheira a gasolina e pólvora sem nem mesmo citar o termo “feminismo” é um grande serviço social. Ao longo do filme, Max perde o cabelo, o carro, o sangue, o protagonismo – e tantos outros símbolos de virilidade. Mesmo assim, continua sendo um herói corajoso e habilidoso. Max não é menos homem por acreditar na causa de Furiosa. E ninguém na plateia será menos homem por gostar de um roteiro que resiste à tentação de tornar Furiosa e Max um casal ou de mostrar a protagonista feminina de um jeito sensual”.

Outras interseccionalidades: loucura e capacitismo

O capacitismo é tema presente no filme, tanto em aspectos relacionados a deficiências físicas como mentais. No que tange às questões físicas, vê-se duas proposições diferentes. Por um lado, a busca da perfeição física presente no discurso de Immortan Joe, que busca produzir filhos perfeitos para seu exército. Tal propósito parece se relacionar com o fato de que ele e seus dois filhos possuem deficiências físicas, escaras e doenças respiratórias, as novas gerações apresentam doenças como tumores. A manutenção do poder também passa por perpetuar o corpo físico ideal.

Por outro lado, em nítida oposição discursiva, vê-se a deficiência física apresentada pela Imperatriz Furiosa que tem um braço mecânico, mas que não depende dele. O braço mecânico é útil, porém ela pode prescindir dele e viver tranquilamente sem. Tendo só metade de um braço, ela não tem dependência da ferramenta que traria mais “normalidade” para seus movimentos ou que a ajustaria a uma padrão estético mais normalizado e aceitável. Furiosa também não demonstra estar triste ou abalada quando não está usando o braço. Não há traumas ou o desejo de ser fisicamente como os outros.

Imperatriz Furiosa em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).
Imperatriz Furiosa em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).

Quanto aos aspectos relacionados à loucura e à forma de lidar com ela, também identifica-se uma certa polaridade. Os War Boys, o exército de Immortan Joe, são uma ótima representação do que um poder totalitário pode fazer com nossa racionalidade. Eles são jovens guerreiros kamikazes, que sonham com o paraíso dos “Portões de Valhalla”, gritam o tempo inteiro: testemunhem! E xingam-se de medíocres. Também carregam outros simbolismos, como a tinta prateada nos dentes, evidenciando o aspecto de caveira que já possuem. Cada um estimulando a loucura do outro, cada um celebrando a morte como o grande momento de suas vidas, numa constante adrenalina em que existem até bolsas de sangue vivas. Eles são movidos por uma esperança estéril e irrefletida, não ponderada nem personalizada.

Tal comportamento difere dos protagonizados por Mad Max que logo nas primeiras cenas se questiona se é ele quem está louco e se todo mundo está louco. Ele é um personagem perturbado por lembranças do passado que volta e meia enxerga seus fantasmas. Não segue impassível diante da morte daqueles que deveria proteger. É um personagem atormentado e nunca sabemos o que realmente o leva a fazer tudo para sobreviver. Diferente de outros protagonistas masculinos que possuem um psicológico inabalável, Max é diferente. Foi afetado por seu passado e continua seguindo.

O nome da Imperatriz Furiosa não está no título do filme, mas há uma divisão grande de protagonismo entre ela e Max. Os dois são obrigados a reconhecerem suas próprias limitações em alguns momentos e, mesmo tendo personalidades independentes e autônomas, se veem tendo que ser flexíveis em determinadas situações para sobreviver. Em determinado momento, Max diz a Furiosa que “a esperança é um erro”. Cada um busca sua redenção dentro de sua própria loucura.

Não somos objetos!

Em determinado momento, Angharad fala para uma das outras noivas que recebeu uma ordem de Max: “você não tem que obedecê-lo”. Em outro momento de fuga, uma das noivas grita a seus perseguidores: “não somos objetos!”. São exemplos de diferentes momentos em que as mulheres reivindicam seu protagonismo e sua autonomia. Outro ponto de vista feminista positivo no filme é apresentar essas mulheres como catalisadoras de suas percepções. Não é Furiosa quem dá poder as noivas, ela as tira da prisão para que corram com suas próprias pernas.

Essa agenda feminista do filme não surgiu à toa. Como descobrimos pelas notícias sobre a produção, foi pensada desde o início. Eve Ensler, autora do livro e da peça “Monólogos da Vagina” e fundadora do V-Day, uma organização que luta contra a violência a mulheres e crianças prestou consultoria ao filme, especialmente para forjar as personagens das noivas. E, o diretor George Miller contou em entrevista que pediu a Margaret Sixel — sua esposa — para editar o filme, justamente para não parecer um filme de ação qualquer. Além disso, temos importantes mensagens nas entrelinhas sobre a importância de preservar, mas também de democratizar o uso da água e de outros recursos, os efeitos da escravidão e da complexidade de certos elementos em ambientes de guerra e escassez.

Charlize Theron, que interpreta a Imperatriz Furiosa, também falou em entrevista sobre o feminismo do filme: “Eu senti isso muito forte quando terminamos de gravá-lo”, contou a atriz ao Entertainment Weekly. “O que tocou forte nele é a importância que as mulheres têm nesse mundo de sobrevivência. É perceptível como a geração mais nova de mulheres foi representada, minha geração foi representada, e essa geração de mulheres mais velhas foi representada. Fiquei feliz de ser uma garota com peitos e fazer parte disso”, explica.

Então, Mad Max: Estrada da Fúria é um blockbuster melhor do que a média que vemos surgir todo ano. Há outros tantos aspectos no filme que podem ser analisados como os detalhes do regime totalitarista de Immortan Joe, sua associação com outros líderes totalitários de outras cidades, o fato de em determinado momento alguém dizer que toda confusão foi causada por um problema de família ou o fato dos exército dos War Boys serem extremamente brancos, nos levando a pensar no conceito de raça pura. Há também análises comparativas com os filmes anteriores. Esse novo Mad Max não é uma revolução feminista, mas está trazendo bons questionamentos.

Ainda há uma série de problemas que merecem críticas como a falta de protagonistas, figurantes e coadjuvantes que não sejam brancos e heterossexuais. A diversificação étnica e racial fica restrita as noivas e as Vuvalinis, que apresentam diferentes tons de cabelo além de fenótipos negros e indígenas. Num ponto que chega a parecer estranho por não se encaixarem na falta de diversidade do resto do elenco. Por isso, apesar de ser um filme empolgante, divertido e com várias perspectivas feministas, fica aquela sensação de que ainda não existe espaço no cinema para a interseccionalidade. Quando se consegue trabalhar melhor uma diversidade as outras acabam ficando de lado. Apostamos que com mais mulheres dirigindo, produzindo e editando filmes, alcancemos cada vez mais diversidade, até mesmo em Hollywood.

+ Sobre o assunto:

[+] ‘Mad Max: Estrada da Fúria’ é o filme de ação feminista que você estava esperando. Por David Perry na Vice.

[+] O que feministas e machistas não perceberam sobre Mad Max. Por Victor Lisboa no Tempo de Consciência.

[+] Então quem matou o mundo? Por João Vítor Pessanha na Revista Fórum.

[+] “Mad Max: Estrada da Fúria” é o filme feminista que Hollywood estava precisando. Por Gustavo Abreu no IG.

[+] Entrevista em inglês com a atriz Charlize Theron: Charlize Theron on Mad Max: Fury Road, being part of a feminist action movie.

[+] The Women Pull No Punches In Fiery, Feminist ‘Mad Max’. Por Mandalit del Barco no NPR.

[+] Mad Max: Fury Road’s George Miller: “Initially, There Wasn’t a Feminist Agenda”. Por Jill Pantozzi no The Mary Sue.

Alguns seriados e personagens feministas

Texto de Danielle Cony.

Sei que tem muita gente da nossa comunidade que adora novelas, mas desculpe-me, realmente não consigo assisti-las. Acho que o que me incomoda de fato é o texto, os roteiros. Acho os personagens muito rasos, maniqueístas e me causa uma certa irritabilidade. Então, posso dizer que não assisto um capítulo de novela há mais de uma década. Mas tenho uma queda por seriados.

O criador do seriado House disse (quando esteve no Brasil) que é na tv que os roteiristas possuem mais espaço para criar. Que no cinema os altos orçamentos e investimentos limitam muito a capacidade de experimentação e, que somente a televisão possui espaço para tal. No Brasil isso é um pouco diferente. A tv aqui é o mainstream. E o cinema é o experimental. Não é a toa que gosto tanto do cinema brasileiro. Realmente gosto de ver boas histórias e um certo ar de experimentação. Porque acho tedioso demais ir assistir algo onde você já sabe como será o final.

Mas estou me alongando muito. Então, aqui vai a minha lista de melhores personagens femininas em seriados.

Mona Robinson.

10. Mona Robinson (Katherine Helmond – Who’s the boss?)

Esse seriado não passou no Brasil, exceto pelo canal à cabo. Basicamente a trama era a história de uma mulher bem sucedida, que se divorcia do marido, e arruma um homem para ser babysitter do seu filho. Mona é mãe da personagem principal. Uma mulher já idosa, mas cheia de vida. Ela possui namorados diversos e explicita seu apetite sexual mesmo após a menopausa.  É uma mulher tão liberal e divertida que chega a ser uma exceção como personagem.  Mona é dona de seu corpo, de suas vontades e de sua sexualidade, mesmo na terceira idade.  Não é a personagem principal do seriado, mas com certeza sua presença é tão forte que chega a roubar a cena.

Betty Suarez.

9. Betty Suarez (America Ferrera – Ugly Betty)

Betty é feia. Betty é desengonçada. Betty é humana. É impressionante como a única personagem “feia” (porque vamos combinar a America Ferrera faz esforço para ficar feia) é a personagem mais bela do seriado. Betty resolve todos os problemas que aparecem na frente, precisa contornar as politicagens e sabotagens para que a edição da MODE sempre esteja nas bancas. Betty é eficiente, divertida e humana. E nos faz lembrar como esse mundo da moda é oco.

Lisa Cuddy.

8. Lisa Cuddy (Lisa Edelstein – House)

Cuddy é médica, diretora de hospital e mãe. De quebra ela ainda administra um relacionamento com o House, que é o cara mais egocêntrico e infantil do universo.  É a única que consegue argumentar e não ser (tão) manipulada por ele. As vezes me irrita seu jeito “perfeito” de ser, mas vamos combinar que ela é uma mulher de muita força. Se não se posicionasse de forma assertiva ela não consegueria fazer as coisas do seu jeito.

Miranda Hobbes.

7. Miranda Hobbes (Cynthia Nixon – Sex and the City)

Miranda é uma mulher bem sucedida e que de repente se vê apaixonada por um bartender. Num outro momento ela se vê grávida do mesmo. Sem grande infra-estrutura, Miranda acaba tornando-se mãe sem muito ter desejado isso.  Seu relacionamento é sempre confuso porque não há um modelo de estrutura familiar tradicional. Miranda, uma personagem tão racional, tão lógica (e a menos fútil de todas) se vê envolvida por um homem que não tem a mesma ambição que ela. E como gerenciar um casamento e uma familía com tantas diferenças? De forma confusa Miranda acaba fazendo as coisas do jeito que dá. Um dia de cada vez.

Bette Porter.

6.  Bette Porter (Jennifer Beals – The L Word)

Ver Bette Porter tão sexualmente resolvida, tão determinada em seus relacionamentos e tão dona do seu próprio nariz, faz com que questionemos a nossa própria sexualidade. Bette Porter é a Fonzie feminina. Cool, inteligente, bem sucedida e dona da própria vida. Tem como não se apaixonar?

5.  Miranda Bailey (Chandra Wilson – Grey’s Anatomy)

Miranda Bailey.

Miranda Bailey é uma personagem negra, baixinha e gordinha. É a melhor cirurgiã geral do Seattle Grace, hospital fictício do seriado Grey’s Anatomy. Miranda gerencia as cirurgias e os internos. É sempre a pessoa que está lúcida nos momentos de crise e dá bronca em quem quer que seja. Ela literalmente fala o que vem a cabeça. É erroneamente intitulada de “nazi” por falar o que pensa e argumentar brilhantemente.  É lindo ver uma negra, sem os atributos “padrão de mercado” ter um papel tão importante e humano num seriado.

4. Lisa Simpson (Yeardley Smith – Os Simpsons)

Lisa Simpson.

Lisa é a filósofa dos Simpsons. Ela está sempre pronta para questionar o status quo, o comportamento e o mundo do jeito que é. Lisa é brilhante, talentosa, mas sempre aparenta ser invisível. Quantas vezes não nos sentimos como Lisa? Questionamos o mundo e quando argumentamos somos tratadas como uma criança, porque o “mundo é assim mesmo”. Lisa é ecológica, humanista, questionadora e adora os animais. Não é a toa que é considerada a chata do seriado. Só nós e o Matt Groening (criador da série, que já afirmou que ela é sua personagem favorita) é que gostamos dela. Porque a Lisa nos faz pensar…

3. Olivia Benson (Mariska Hargitay – Law and Order: Special Victms Unit)

Olivia Benson.

Tem como não gostar da Olivia Benson? Sua profissão é caçar estupradores e colocá-los na cadeia! Olivia sempre consegue se colocar no lugar da vítima. Ela investiga cuidadosamente crimes de violência sexual. Sem dúvida a detetive Benson é uma mulher com uma agenda feminista num ambiente altamente machista (delegacia de polícia). Seu único defeito é ter uma queda por seu parceiro machista, Elliot Stabler. Mas de qualquer jeito ela possui um olhar feminino sob a violência doméstica e sexual. Acho essa personagem (e a temática do seriado) muito importante para a discussão de direitos humanos e violência contra a mulher.

2. Dana Scully (Gilliam Anderson – Arquivo X)

Dana Scully.

Scully é investigadora, médica e cientista. Se ela fosse homem com certeza sentaria da cadeira de diretora-assistente. Como ela é mulher, no clube do bolinha do FBI, ela vai ser a babá do agente Fox Mulder. Um investigador excêntrico que gosta de ficar caçando homenzinhos verdes.  É óbvio que Scully é impressionantemente competente, inteligente e dona de uma capacidade de argumentação sublime. E acaba tornando concreto, embasando cientificamente as teorias paranormais de seu parceiro. É interessante ver a sintonia dos dois e o respeito mútuo, mesmo possuindo visões antagônicas do mundo. Scully é uma nerd. Técnica e acadêmica, ela rouba boa parte das cenas. Seu maior defeito é ser católica (o que sendo uma cientista acaba sendo bem contraditório). Mas não tem como não gostar da Scully enfrentando a alta cúpula do FBI, argumentando ou enfrentando o sexismo dos policiais estaduais nas investigações.

1. Alexandra Cabot (Stephanie March – Law and Order: Special Victms Unit)

Alexandra Cabot.

Eu gostaria de ser Alexandra Cabot quando crescer. Vê-la argumentar é um show de maestria. Alexandra é promotora do seriado Law and Order-SVU e, se Olivia Benson prende os estupradores. Alexandra tranca-os em jaulas e joga a chave fora. Seus diálogos em corte, suas estratégias argumentativas, suas manobras políticas para defender as vítimas de crimes sexuais são de tirar o fôlego. Foi uma pena quando ela saiu do seriado para ir trabalhar na ONU, defendendo mulheres em crimes de guerra. Tem como não tê-la como referência?