Orphan Black: é possível fazer diferente

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a trama da série canadense de ficção científica Orphan Black.

Das obras mais famosas do cinema e da televisão do gênero de ficção científica podemos citar algumas personagens femininas icônicas como: a agente Scully de Arquivo X, Leeloo do Quinto elemento, Katniss de Jogos Vorazes,  Nyota Uhura de Star Trek, Princesa Leia de Guerra nas estrelas, Tenente Ripley da série de filmes Alien, Trinity de Matrix, Sarah Connor de O Exterminador do Futuro, além de Jean Grey, Vampira, Mística e Tempestade dos X-Men.

Porém, poucas dessas personagens são protagonistas das histórias (perdendo sempre para homens brancos), elas tem poucas, na maioria das vezes nenhuma, parceira ou amiga ou mesmo antagonistas mulheres, apenas uma é negra e parte delas tem sua trama totalmente atrelada a romances com personagens masculinos. Aliás, a participação da Trinity na trilogia do Matrix foi tão apagada com o passar da trama que se fala hoje em Síndrome de Trinity.

É aí que Orphan Black começa a surpreender. Além de ter uma protagonista forte e independente, há várias personagens femininas incríveis (inteligentes, fortes, que não atendem a esteriótipos de gênero) e a trama não está associada a nenhum tipo de romance. Não significa que as personagens não se apaixonem, pelo contrário, a série também é boa por mostrar mulheres com uma vida sexual liberta.

Personagens da série canadense de ficção científica Orphan Black da BBC America.
Personagens da série canadense de ficção científica Orphan Black da BBC America.

Não bastasse isso tudo, a série tem várias sacadas sobre autonomia, diferenças de classe e privilégios, diversidade sexual e de gênero, determinismo biológico-genético, modelos de família diversos, além de (eu particularmente ter achado) a trama ser bem construída com suspense e ação. É uma das poucas séries que trata de ciência sem escorregar em temas óbvios, mostrando que os autores tem sido bem assessorados por feministas e cientistas para construir o roteiro.

Ainda há o que melhorar em questão de representatividade. A maior parte das personagens é branca e atende aos padrões de beleza mais aceitos (magras, visual europeu/ocidental, sem deficiências, etc.). O personagem trans aparece rapidamente, o gay está ainda bem preso a alguns esteriótipos e tem sua trajetória muito presa a de outros personagens. A personagem bissexual principal não verbaliza sua sexualidade e, como se relaciona com mulheres, é lida por algumas pessoas como lésbica. Mas, frente as outras obras de ficção científica atuais existe um abismo de distância.

O que dizer de uma história que tem como protagonista uma jovem orfã e mãe solteira que busca sua autonomia e proteger a si e a filha do governo e de fundamentalistas religiosos? Ficção científica feminista e das mais representativas. Passa com folga no Teste de Bechdel de representatividade feminina e com alguma dificuldade também passa pelo Teste Vito Russo de representatividade LGBT graças a personagem Cosima.

Cosima. Personagem da série Orphan Black (2013).

E não sou só eu que estou dizendo, várias críticas apontam para estas questões:

“Para cada bom exemplo de mulheres fortes direcionados à comunidade geek (as mulheres fortes de Westeros, a supremacia de bilheteria de Katniss), há um momento esmagador de exclusão. Ainda não há um filme da Mulher Maravilha ou da Viúva Negra, e os criadores por trás do popular jogo Assassins Creed ainda acham que as personagens femininas não valem o trabalho.

É por isso que a existência e, mais importante, o sucesso recorde na BBC americana da narrativa brilhante de empoderamento feminino em Orphan Black é tão vital.” Tradução de trecho do texto Why Is Orphan Black Still Fighting a War Buffy Should Have Won Over 10 Years Ago?. Por Joanna Robinson na Vanity Fair em 25/07/2014.

“… as críticas feministas não tem como objetivo tornar cada história já contada em uma divisão meio-a-meio de personagens masculinos e femininos, ou simplesmente começar a deixar os homens de fora. Destina-se a corrigir a discrepância global do número de apresentações desproporcionalmente masculinas que são compradas e vendidas, feitas e elogiadas como intrinsecamente mais valiosas. Ela chama a atenção por mostrar onde personagens femininas poderiam melhorar a história, ou por mostrar onde mulheres são dispensadas como menos vitais.

Além disso, há muitos outros pontos que a série aborda de uma maneira bem legal, incluindo lidar com questões de naturalização de comportamentos x comportamentos construídos socialmente, autonomia das mulheres, procriação, abordar a sexualidade queer de maneira natural sem fazer disso um grande tabu, nunca pedir desculpas pela inteligência de suas personagens apresentando-as como sendo de alguma forma excepcionais, a despeito de sua feminilidade, e nunca pede desculpas por dar às mulheres um monte de diversão fodona na tela”. Tradução de trecho do texto Everyone Should Be Losing Their Minds Over Orphan Black. Por Tracy Moore no Jezebel em 05/02/2014.

“É comum que a ficção científica use analogias para tratar de temas próximos do mundo real (pensem nos X-Men mostrando pessoas que nasceram diferente sendo perseguidas e discriminadas). Orphan Black fala sobre a luta de qualquer mulher pelo direito de ser dona do próprio corpo, e faz isso sem muitas firulas porque não usa exatamente uma analogia – não são personagens héteros e brancos falando sobre a discriminação contra minorias fictícias, como acontece em X-Men, por exemplo – e sim de mulheres, de fato, buscando autonomia. Elas apenas o fazem em um contexto fictício”. Trecho do texto Somos todas Orphan Black. Por Letícia Arcoverde no site Spoilers em 13/09/2013.

“Orphan Black aborda, de forma direta ou indireta, a maioria das questões mais prementes do feminismo, como direitos reprodutivos, violência doméstica, dominação sexual, entre outros. O tema da clonagem é muito usado como metáfora para a luta do feminismo para dar à mulher o controle sobre seu próprio corpo (que é o mote de reivindicações como o acesso ao controle de natalidade e descriminalização do aborto). Muitas vezes você vê personagens dizendo algo como “é a minha biologia, portanto a decisão é minha“, o que soa bastante familiar para quem já frequentou discussões sobre o aborto. Pessoas (geralmente homens) tentando literalmente controlar o corpo das (mulheres) clones e fazer coisas com elas, frequentemente envolvendo reprodução, são uma imagem comum na série, e sempre algo retratado como perverso e profundamente perturbador. E isso parte tanto dos religiosos quanto dos cientistas responsáveis pela clonagem. Também há, por exemplo, um namorado abusivo de Sarah, e a série deixa bem claro que o comportamento abusivo dele ocorre não porque ela “deixa” ou mesmo “gosta”, mas apesar de todo o enorme esforço que ela faz para se livrar desse traste. E por aí vai – não é sem motivo que Orphan Black caiu nas graças das feministas”. Trecho do texto As muitas faces de Orphan Black. Por Fernando Sacchetto no site Nerd Geek Feelings em 25/06/2014.

A representatividade da diversidade sexual e de gênero, além da problematização de classe em Orphan Black traz a tona a discrepância destes temas em outras obras. E o quanto ainda temos que caminhar para que isso deixe de ser uma questão pelo menos na ficção. Se não pudermos nem ao menos vislumbrar um mundo mais igualitário não poderemos nunca alcançar essa transformação.

+ Sobre o assunto:

[+] A mulher na ficção científica. Por Lady Sybylla em Momentum Saga.

[+] Por uma ficção científica feminista. Por Antonio Luiz M. C. Costa na Carta Capital

[+] Ficção científica reflete relações de gênero na sociedade. Entrevista com  Lucia de La Rocque em Com Ciência.

[+] Os homens de Orphan Black. Por Letícia Arcoverde em Spoilers.

[+] If You Are Not Watching “Orphan Black,” You Are Crazy. Por Kate Aurthur no BuzzFeed

[+] You Should Watch This: Orphan Black. Por Stinekey em Lady Geek Girl.

A sexualidade feminina em Game of Thrones

Texto de Jussara Oliveira.

Alerta de spoiler! Esse texto contem informações sobre as primeiras temporadas da série americana Game of Thrones.

Dai você esta lendo ou assistindo alguma história de ficção (mais interessante imaginar que seja uma história de fantasia, aventura ou ficção cientifica) e o protagonista, ou um dos personagens masculinos principais, se atrai por uma personagem (uma mulher no caso) e, em dado momento, por vontade dele e aceitação dela (em outras palavras sem nenhum tipo ou nível de coerção), eles acabam fazendo sexo e os dois sentem prazer e se divertem com isso. Depois disso, os personagens continuam tendo uma relação saudável (pelo menos até que algo relevante na trama mude isso) e o personagem principal não sente qualquer tipo de culpa ou arrependimento sobre o que ocorreu.

Fácil visualizar essa cena, né? Se parar para pensar um pouquinho não é difícil achar diversos exemplos na maioria das obras seja em filmes, desenhos, séries, livros, quadrinhos, etc. Agora, imagine que é uma mulher a protagonista dessa história. Imaginou? Ok. Agora busque referências populares e atuais desse tipo de cena. Ficou difícil? Pois é. Se for buscar mais diversidade então dificilmente vai achar a mesma cena com personagens que saiam do padrão hétero-cis-branco-sem necessidades especiais.

Por que será que é tão difícil retratar mulheres exercendo sua sexualidade livremente mesmo em histórias e mundos utópicos? Porque é tão comum mostrar cenas de violência contra mulheres? Porque nos é tão difícil desassociar da cultura de estupro mesmo na ficção? Será que percebemos o quanto isso esta presente nas histórias de fantasia?

Na última temporada de série americana Game of Thrones, inspirada no livro de mesmo nome, a adaptação de uma passagem que teoricamente representava uma cena de sexo consentido entre os personagens Cersei e Jaime Lannister se transformou numa cena de estupro. Ao ser questionado, o diretor deste capítulo da série respondeu que não via a cena como um estupro e que a relação dos dois dava vazão para esse tipo de dinâmica de jogos de poder o que transformava o sexo em consensual… Oi? E já não é a primeira vez que isso ocorre. O mesmo ocorreu na adaptação da passagem sobre o sexo consentido no dia do casamento de Daenerys Targaryen.

Será que é tão difícil assim reconhecer a diferença entre sexo consensual ou não? Nem vou entrar no mérito da violência misógina presente na série, porque isso já foi bastante criticado. Mas, fico profundamente triste de ver como a sexualidade das mulheres tem sido explorada na televisão. Ainda mais nessa série que tem trazido grandes personagens femininas.

Personagens femininas da série Game Of Thrones. Da esquerda para direita: Cersei Lannister (Lena Headey), Melisandre (Carice Van Houten) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke). Imagem de divulgação.
Personagens femininas da série Game Of Thrones. Da esquerda para direita: Cersei Lannister (Lena Headey), Melisandre (Carice Van Houten) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke).

Veja, sou muito fã da série televisiva e dos livros. Acho extremamente válido e justificável que adaptações não sigam a risca aquilo que está no original. Também estou longe de achar o livro um exemplo de representação feminina. Mas, queria ver uma personagem tão forte e que luta tanto por sua independência, como a Cersei, ter pelo menos a agência sobre sua sexualidade respeitada. O pior foi ver comentários em fóruns sobre a série apoiando a violência, já que para alguns essa personagem é vista como manipuladora e imoral.

Na adaptação para a televisão a pouca agência das mulheres está se esvaindo. Cadê os relacionamentos afetivos e sexuais de Daenerys? Só porque ela á uma das “mocinhas” preferidas, não pode fazer sexo? Na série televisiva só exibem uma passagem rápida do contato que ela (por força/incentivo de seu irmão) tem com uma de suas aias. Depois que Khal Drogo morreu, ela parece ter se relacionado com Daario Naharis apenas uma vez, sendo que no livro ela mantém um relacionamento com ele e também se relaciona com Irri, outra aia que desapareceu nas novas temporadas da série.

Sim, no livro Daenerys tem relações bissexuais, mas na série televisiva parecem preferir ignorar sua sexualidade e enfatizar as aventuras sexuais de Oberyn Martell e Ellaria Sand da forma mais estereotipada possível. Ao que parece, os roteiros estão viciados demais na dicotomia: mocinha frágil e sexualmente recatada versus antagonista femme fatale. E, sair desses estereótipos parece ser uma missão quase impossível.

Basta observar o comportamento sexual das principais personagens femininas vistas como heroínas ou mocinhas: Daenerys Targaryen, Ygritte, Sansa Stark, Margaery Tyrell, Brienne de Tarth; em comparação com as outras personagens: Shae, Melisandre, Cersei Lannister, Lysa Arryn. Enquanto no primeiro grupo as mulheres são virgens ou se dedicam a apenas um parceiro, no segundo as personagens usam sua sexualidade como arma para manipular personagens masculinos e são retratadas como ardilosas e/ou egoístas.

Outras personagens que no livro tem uma sexualidade mais livre como Yara Greyjoy (Asha no livro) tem sua participação compactada na série. E, Ellaria Sand teve a adaptação mais fiel ao livro, o que deu a personagem pouquíssimos diálogos. Fora o fato de que no livro existe uma diversidade e quantidade maior de prostitutas que influenciam diretamente as tramas, mas na série essas personagens se tornaram apenas item de decoração/diversão.

Triste ver o quanto sexo ainda é tabu na ficção e o quanto a sexualidade feminina é ainda determinante para o julgamento de nosso caráter. As principais personagens femininas que tem feito sucesso no cinema ou na televisão vivem dilemas afetivos e sexuais bem distantes da liberdade e diversidade dos personagens e protagonistas masculinos.

Para não falar que não temos algum exemplo diferente, pesquisando e buscando referências com amigos, as poucas personagens famosas que encontrei que saem dessa esteriótipo foram:

  • Sookie da série de televisão True Blood. Protagonista da série que trata sobre a convivência entre humanos e vampiros que se envolve durante as temporadas da série com vários personagens, mas vive sendo julgada por seus relacionamentos com eles.
  • Barbarella. Protagonista de uma série em quadrinhos de aventura espacial adaptada para o cinema nos anos 60. Apesar da hiper sexualização da personagem dada a época em que este filme foi lançado (e a pouca mudança na caracterização das heroínas) depois de criar polêmica acabou virando um ícone feminista e pode ser considerada uma referência até hoje.
À esquerda, imagem de divulgação da 3° temporada da série True Blood com Sookie (Anna Paquim) ao centro. À direita, cartaz de divulgação do filme Barbarella (1968).
À esquerda, imagem de divulgação da 3° temporada da série True Blood com Sookie (Anna Paquim) ao centro. À direita, cartaz de divulgação do filme Barbarella (1968).

Espero que na próxima temporada de Game of Thrones ao representar as mulheres do povo livre e as Dornesas (que possuem no livro papel fundamental nos próximos acontecimentos) e os próximos passos de Asha/Yara Greyjoy a série não caia nos mesmos erros.

+ Sobre o assunto:

[+] Temporada de Game of Thrones chega ao fim confundindo o público.Por Isabelle Moreira Lima na Folha de São Paulo.

[+] Uma reflexão sobre estupro e violência contra as mulheres em Game of Thrones. Por Lidiany CS em Game of Thrones BR.

[+] A cena de estupro de Game of Thrones foi desnecessária e desprezível (em inglês). Por Madeleine Davies no Jezebel.

[+] Jaime Lannister é feminista: Porque a cena de estupro em Game of Thrones importa (em inglês). Por Ariana Quiñónez no Hypable.

As mulheres de García Lorca

Texto de Fernanda Mayer.

A dramaturgia de Federico García Lorca pode ser considerada como uma grande reveladora de tradições, poesia polifônica, organizações sociais e expressões da individualidade através da figura feminina em tensão, aprisionada nos rígidos moldes patriarcais.

Em suas obras, o poeta andaluz desenhava um triste retrato da Espanha no começo do século XX. A Igreja Católica, principal responsável pela construção dos conceitos morais, executava um férreo controle social, de modo a oprimir e delimitar o espaço feminino. A condição reprodutora legitimava a função social da mulher e relegava-a a um plano subalterno daquele conferido aos homens. O arquétipo da mulher espanhola no início do século XX é claramente definido por suas características biológicas.

Neste contexto, destaca-se a trilogia rural de García Lorca, composta por “Yerma”, “Bodas de Sangue” e “A Casa de Bernarda Alba”.

Em “Yerma”, a personagem principal sofre por não conseguir conceber um filho. Yerma recorre aos meios mais absurdos para tentar engravidar e se depara com a indiferença do marido, que não compartilha de seu sofrimento. Ao descobrir que Juan não quer ser pai, ela se desespera e o estrangula, pondo fim também à possibilidade de ser mãe. No decorrer da história, observa-se que a esterilidade de Yerma é muito mais de cunho emocional do que fisiológico e causada por um marido indiferente, por uma obrigação moral de manter-se em um casamento sem amor, pelo confinamento e pela cruel vigilância a qual é submetida pelo marido e suas cunhadas.

“Bodas de Sangue” conta a história de uma noiva que decide abandonar o noivo no dia do casamento para fugir com o homem que ama, deixando de ser mais uma mulher passiva em relação aos desejos matrimoniais. Esta escolha culmina em um fim trágico e sangrento.

Teatro do Movimento apresenta peça em homenagem a Garcia Lorca. (Foto: Divulgação)
Teatro do Movimento (UFBA) apresenta o espetáculo ‘Um rito de mães, rosas e sangue’ que homenageia os 75 anos de morte do Garcia Lorca. O ato poético é uma livre adaptação das três tragédias rurais do autor: “ Bodas de Sangue” , “Yerma” e “ A Casa de Bernarda Alba”.  Foto: Divulgação/G1.

No entanto, é em “A Casa de Bernarda Alba” que encontramos uma crítica mais forte e explícita. Após a morte do segundo marido, a matriarca dominadora, Bernarda Alba, impõe um luto de 8 anos a suas cinco filhas, submetendo-as a uma cruel reclusão sobre sua implacável vigilância e ordena: “aqui se faz o que EU mando”. Todas são obrigadas a se vestirem de preto, o que retrata a perda da identidade, a impossibilidade de mostrarem suas verdadeiras cores. A casa é uma masmorra impenetrável, cuja única saída é o casamento. A submissão incontestável das filhas de Bernarda é desestruturada por Pepe Romano, noivo da filha mais velha, Angústias, mas que se apaixona por Adela, a corajosa filha caçula, com quem se encontra às escondidas e também é objeto de desejo de Martírio, a irmã soturna e considerada como a menos atraente das irmãs. Reprimidas e solitárias, as filhas de Bernarda transformam a casa em um espaço hostil, resultando em um trágico desfecho.

Lorca adotou a idéia de uma casa sem homens para construir a história. No entanto, mesmo com a ausência quase total destes personagens, o domínio masculino está sempre presente de forma implícita nas cenas, especialmente através da própria Bernarda Alba, o que nos relembra que o machismo não é exclusivo dos homens, mas também está presente na mentalidade de muitas mulheres, como fica bem explícito na fala de Bernarda: “agulha e linho para as mulheres, chicote e mula para o varão; é assim que deve ser”; configurando uma definição de função e espaço baseada no gênero.

A primeira e a última fala de Bernarda são a palavra “silêncio!”, o que simboliza como aquelas mulheres eram condenadas à submissão e proibidas de demonstrarem seus sentimentos. Adela é a única filha de Bernarda que tem coragem de se rebelar contra a autoridade da matriarca e se entregar aos seus desejos. É por meio da fala de Adela que Lorca simplifica o que era ser mulher naquela época: “nascer mulher é o maior castigo”. É justamente esta personagem a única capaz de romper as convenções sociais do sistema que a sufoca. É a única que ousou vestir um vestido verde. É a única que não se importava com as aparências. E é a única que se declarou dona do seu corpo, de sua sexualidade e de seu destino.

Assumidamente homossexual, García Lorca construiu uma incrível crítica ao machismo e aos valores hipócritas da sociedade em que vivia. É triste observar como até hoje esta crítica ainda é necessária, já que apesar dos significativos avanços a mulher ainda precisa lutar por igualdade e para reafirmar a sua liberdade perante a sociedade.

As três obras possuem desfechos trágicos. A tragédia no grego significa romper com o que estava predestinado, com o que fora imposto. Em uma realidade na qual há ainda tantos resquícios de machismo, homofobia e racismo, a literatura de García Lorca ainda pode ser considerada atual, já que suas personagens, assim como milhões de pessoas hoje em dia, lutam, acima de tudo, por suas liberdades individuais.

Autora

Fernanda Mayer é cirurgiã-dentista pela Universidade de Brasília, brasiliense, 23 anos. Gosta de música, cinema, cavalos e literatura clássica.