Como a “Má Medicina” descarta e diagnostica incorretamente os sintomas das mulheres

Texto de Terry Gross. Publicado originalmente com o título: How ‘Bad Medicine’ Dismisses And Misdiagnoses Women’s Symptoms, no site National Public Radio em 27/03/2018. Tradução de Carina Santos para as Blogueiras Feministas.

Quando a jornalista Maya Dusenbery estava com 20 anos, ela começou a sentir dores progressivas nas articulações e acabou aprendendo que elas eram causadas pela artrite reumatóide.

A medida que ela começou a pesquisar por conta própria sua doença, Dusenbery percebeu como teve sorte em receber seu diagnóstico de forma relativamente fácil. Ela conta que outras mulheres com sintomas similares “sofreram uma longa demora no diagnóstico e sentiram… que seus sintomas não foram levados a sério”.

Dusenbery mostra que essas experiências estão incluídas em um grande padrão do viés de gênero na medicina. Seu novo livro, Doing Harm (Fazendo Mal, em tradução livre ainda sem título em português), argumenta que os sintomas das mulheres são frequentemente descartados ou diagnosticados incorretamente — em parte pelo que ela chama de “viés sistêmico e inconsciente que está enraizado … no qual os médicos, independente de seu próprio gênero, estão aprendendo nos cursos de medicina”.

“Eu definitivamente acredito que o fato da medicina ter sido histórica e continuamente dirigida por homens seja a fonte de alguns desses problemas”, ela diz. “O conhecimento da medicina que temos é desproporcionalmente inclinado a saber mais sobre os corpos dos homens e as condições que os afetam”.

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Aborto não é uma questão moral, mas de saúde pública

Texto de Niege Pavani para as Blogueiras Feministas.

O Anis – Instituto de Bioética divulgou essa semana os dados da Pesquisa Nacional do Aborto 2016O principal resultado da PNA 2016 é que uma em cada cinco mulheres aos 40 anos já fez, pelo menos, um aborto no Brasil. Em 2015, foram 417 mil mulheres no Brasil urbano, e 503 mil mulheres ao se incluir zona rural e mulheres não alfabetizadas. Assim, meio milhão de mulheres fez aborto em 2015 no Brasil. São pelo menos 1.300 mulheres por dia, 57 por hora, quase uma mulher por minuto.

No dia 29 de novembro de 2016, o STF (Supremo Tribunal Federal) deu um parecer sobre um caso específico de processo de crime de aborto. Os acusados eram médicos, indiciados por performar abortos clandestinos, e o que se avaliava ali era o pedido de prisão preventiva deles. Três ministros do Supremo negaram o pedido sob o argumento de que o ato não foi criminoso, pois o feto ainda estava dentro do 1º trimestre de desenvolvimento. Mas não, o aborto não foi autorizado ou legalizado, nem nesse caso, muito menos para qualquer outro caso genérico. Foi o parecer dos ministros do STF, e só.

Mas, pra quem já é familiarizado com o universo do juridiquês e sua plasticidade na interpretação da lei, sabe que aí entra a tal da jurisprudência. E o que isso significa? Significa que em outro processos as defesas de médicos ou mulheres acusadas de abortar, poderão usar esse parecer específico como argumento de precedente, jogando com algo do tipo “se você deixou aquele fulano lá, porquê não deixar esse fulano aqui?”. E, creiam, os conservadores se estilhaçaram com essa possibilidade, que nem é tão concreta assim.

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Mulheres triplamente penalizadas: perspectivas de inclusão social para egressas do presídio feminino de Florianópolis

Texto de Susane Amaral Veira para as Blogueiras Feministas.

Ao realizar estágio no Setor de Serviço Social da Vara de Execuções Penais do Fórum da Comarca de Florianópolis em Santa Catarina fiquei intrigada em conhecer mais sobre a situação das mulheres presas e egressas do sistema prisional.

Então, eu e a professora orientadora do meu trabalho de conclusão de curso elaboramos um projeto de intervenção, realizando entrevistas com as egressas com posteriores orientações e encaminhamentos aos recursos comunitários, visando a inclusão social. Percebemos a falta de atenção governamental para essas mulheres ao saírem das condições de aprisionamento. Todavia, essa situação de descaso não difere daquelas que se encontravam presas.

Quando nos deparamos com notícias de mulheres que cometeram crimes temos a impressão de serem exceções porque mesmo que dados estatísticos demonstrem o crescimento da população carcerária feminina não conseguimos associar a imagem da mulher e os papéis a ela designados na sociedade com o fato de praticarem um delito. Percebemos que a idéia da mulher inserida no “mundo do crime” está intrinsecamente permeada de preconceitos de gênero. A não aceitação das mulheres como autora de crimes, sobretudo aqueles que envolvem violência e crueldade, legitima a violência perpetrada a elas quando encarceradas por parte das outras presas e dos funcionários dos estabelecimentos penais e o descaso governamental quando se trata do encarceramento feminino.

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