Amamentação: leite materno não é poção mágica

Texto de Lígia Birindelli, Maíra Nunes e Xênia Mello.

Semana passada, foram divulgados os resultados de uma pesquisa que afirma:

crianças amamentadas por mais de um ano têm escolaridade 10% superior àquelas que não completaram um mês de alimentação com leite materno. O efeito sobre a renda foi o mesmo. Crianças com maior período de amamentação tornaram-se adultos com renda 33% superior a dos que não receberam leite materno por mais de 30 dias. Referência: Tempo de amamentação afeta até renda, diz estudo

Em 2014, mães e bebês se reuniram na Vila Olímpica da Maré/RJ para fazer um “mamaço”. Foto de Fabiano Rocha/Extra.
Em 2014, mães e bebês se reuniram na Vila Olímpica da Maré/RJ para fazer um “mamaço”. Foto de Fabiano Rocha/Extra.

Precisamos refletir sobre o discurso científico e como ele nos forma. Ao ser elevado ao status de “verdade”, todo resultado de uma pesquisa científica molda a forma como entendemos o mundo e nos colocamos nele. Por outro lado, a colocação da ciência como “verdade absoluta” estimula a falta de discussão, no senso comum, de como o discurso científico nunca é neutro. O problema é a falta de problematização.

Nesse estudo, o resultado de uma pesquisa sobre amamentação relaciona o tempo de amamentação com o QI e com a renda de adultos. Ou seja, vamos amamentar para produzir crianças inteligentes e bem-sucedidas. É óbvio que a crítica aqui não se trata da discussão sobre os benefícios da amamentação, que sabemos serem muitos. Mas, é o peso da responsabilidade de uma mãe que TEM que amamentar para poder dar o melhor para o seu filho. Além do fato de que você tem inúmeros outros fatores que contribuem para o bom desenvolvimento da criança (numa visão bio-psico-social), como a criação não-violenta e com apego, que não são levados em consideração.

Se amamentar aumentasse renda e QI, as pessoas mamariam em seus próprios peitos ou venderiam leite. Se leite materno aumenta renda não ia ter tanta mulher na periferia amamentando. Esse discurso científico acaba sendo mais um um discurso que culpabiliza as mulheres pelo (in)sucesso na amamentação. Amamentar é um exercício que depende de inúmeras varíaveis, e boa parte delas não depende da pessoa que amamenta. Apenas para começar: acesso a licença-maternidade e remuneração garantida enquanto se está cuidando da criança, acesso a profissionais da saúde capacitados que orientem e auxiliem o processo da amamentação, acesso a uma rede comunitária que auxilie nos cuidados e que acolha a mulher, ter um companheiro, companheira ou pessoas próximas que sejam também responsáveis pelos cuidados com a criança, ter acesso a moradia digna e uma vida livre de violência.

Por que precisamos nos preocupar com o futuro das crianças para respeitá-las? Não podemos simplesmente acolher por acolher? Respeitar por respeitar? É urgente que se entenda que os filhos não pertencem aos pais, que eles farão escolhas em suas vidas que independem da vontade dos pais. Não pensamos em criar um filho com respeito porque ele será alguém melhor no futuro. Ao criar uma criança com respeito, acreditamos que todas as pessoas merecem respeito. Amamentar porque a criança se sente confortável, segura e acolhida quando mama é motivo suficiente para amamentar, independente se isso trará um QI elevado ou mais dinheiro no futuro.

Quem são as mães que conseguem uma amamentação prolongada? São aquelas que vivem num ambiente acolhedor, livre de violência, com acesso à informação? Se sim, não seriam estes fatores que levariam a criança a poder se desenvolver melhor? Uma coisa leva a outra, portanto, não seria o leite em si a poção mágica. Mulheres que precisam trabalhar geralmente também precisam desmamar as crianças mais cedo. Quem mama por mais tempo possui o privilégio de ter um adulto a disposição para isso, então a questão parece ser mais socioeconômica que fisiológica.

Problematizar o resultado do estudo significa defender a amamentação com argumentos honestos e sinceros. Não é possível pegar toda a subjetividade do ser bio-lógico e resumi-la em fórmulas prontas, deterministas no sentido de: se você fizer isso o resultado será esse. Tudo é muito mais complexo, porque mais que a gente insista em tentar simplificar. E, para finalizar, é importante pensar na constante capitalização da infância, em que a criança acaba sendo um investimento futuro, e num futuro único: o do sucesso.

Autoras

Lígia Birindelli Amenda é feminista e mãe. Vivendo uma louca paixão pela infância e pelo exercício da maternagem. Escreve no blog No princípio era a Maternidade.

Maíra Nunes é 8 ou 80. Mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer.

Xênia Mello não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo. Vadia, socialista e capricorniana, apaixonada pelos bípedes e por gatos, insustentavelmente leve.

Representação feminina nas Eleições 2014

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

É fato que as mulheres representam atualmente 52% do eleitorado brasileiro, assim como é fato que elas estão subrepresentadas no Congresso Nacional e nas Câmaras municipais e estaduais.

Encerrado o primeiro turno das Eleições 2014, ao olhar os números vemos que a participação das mulheres aumentou em relação ao pleito de 2010. Porém, números refletem apenas representação e não representatividade. Infelizmente, eleger mulheres não é garantia de melhorar a vida de todas as brasileiras, especialmente num momento em que o discurso conservador e reacionário encontra eco pelas ruas e redes sociais.

Eleitores votam em trânsito. Foto de Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.
Eleitores votam em trânsito. Foto de Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Para o cargo da Presidência da República, Dilma Roussef (PT), Marina Silva (PSB) e Luciana Genro (PSOL) conseguiram juntas 67.056.473 milhões de votos. Os outros candidatos somados resultam em 36.967.329 milhões de votos.

Percebe-se que não há um preconceito do eleitorado brasileiro em votar numa mulher, pesquisa do DataSenado afirma que 83% não levam em conta se candidato é homem ou mulher. Entretanto, tanto Dilma Roussef, como Marina Silva defendem ideias conservadoras em relação aos direitos das mulheres, apenas Luciana Genro tinha uma agenda de propostas feministas. Então, as mulheres ganham voto, mas não podem sair muito de representações e de posições de como uma mulher deve ser.

No cargo de governador, nenhuma mulher foi eleita no primeiro turno e apenas Suely Campos (PP-RR) disputa o segundo turno em Roraima. Suely Campos não era candidata. Em setembro desse ano, faltando menos de um mês para o primeiro turno, ela assumiu a vaga do marido, o ex-governador e ex-deputado federal, Neudo Campos, que renunciou à candidatura em decorrência da Lei da Ficha Limpa.

No Senado foram eleitas 5 senadoras, que juntam-se as outras 6 senadoras que cumprem mandato até 2018. Dessas 5 senadoras, tanto Kátia Abreu (PMDB-TO) como Simone Tebet (PMDB-MS) são defensoras de políticas que beneficiam o agronegócio. Portanto, políticas públicas com foco na agricultura familiar e no movimento de mulheres trabalhadoras rurais perdem nessas eleições. Também estão ameaçadas as demarcações de terra indígenas e quilombolas.

Na Câmara Federal, em 2010, foram 43 mulheres eleitas. Nesse pleito atual, foram 51 mulheres eleitas. Das 51 mulheres eleitas, 31 são de novas eleitas e 20 de reeleição.

O estado que mais elegeu mulheres foi o Rio de Janeiro, com 6 representantes. Em proporção, Amapá e Tocantins elegeram 3 mulheres de um total de 8 vagas. Alagoas, Espírito Santo, Mato Grosso, Paraíba e Sergipe não elegeram nenhuma mulher para esse cargo. O número de mulheres aumentou, mas ao olhar o perfil das candidatas vemos que várias fazem parte de partidos conservadores como o PSC (Partido Social Cristão) ou o PRT (Partido Trabalhista Cristão); ou durante a campanha declararam defender a família e os valores cristãos.

Agora, na Câmara Federal temos 9,9% de mulheres. A relação é de menos de uma mulher para cada dez deputados homens eleitos. No Senado, elas representarão 13,6% da Casa.

Também nota-se o crescimento da “Bancada da Bala” formada por militares, policiais, ex-policiais e agentes de segurança que defendem mais atuação das polícias na repressão e penas cada vez mais duras, além da diminuição da maioridade penal. Portanto, junto com o crescimento da “Bancada Cristã” temos um Congresso Nacional mais conservador e com legendas partidárias de centro, que podem mudar de posição em determinados temas dependendo da situação. Tornando o processo político cada vez mais viciado no sistema de troca de favores.

O levantamento do Diap mostra que o número de deputados ligados a causas
sociais caiu, drasticamente, embora os números totais ainda estejam sendo
calculados. A proporção da frente sindical também foi reduzida quase à metade: de 83 para 46 parlamentares. Junto com a redução desses grupos, o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a descriminalização das drogas – temas que permearam os debates no primeiro turno da disputa presidencial — tem poucas chances de serem abordados pelo Congresso eleito, que tomará posse em fevereiro de 2015. Referência: Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, afirma Diap.

Em números gerais há mais mulheres presentes na política brasileira. Há 3 mulheres entre os 4 candidatos mais votados para Presidência da República. Barreiras estão sendo vencidas, apesar da falta de apoio dos partidos, que priorizam candidaturas masculinas. A representação feminina tem crescido. Porém, a representatividade das pautas feministas e progressistas está ameaçada pela defesa de propostas conservadoras que ameaçam especialmente os direitos das minorias.

Há ainda diversas outras análises a serem feitas. Não procurei descobrir qual o percentual de negras e negros eleitos, pessoas trans* e nem deficientes físicos. Indígenas há anos não tem representante direto da etnia nos quadros políticos nacionais. Teremos um longo trabalho pela frente nos próximos anos, será preciso resistir, justamente para mostrar que não aceitaremos retrocessos.

+ Sobre o assunto:

[+] Mulheres e eleições: os desafios colocados para nós em 2014. Por Luka Franca.

[+] Cresce o número de mulheres no Congresso Nacional, mas nenhuma governadora é eleita. Por Maíra Kubik.

[+] Luiza Erundina: “Demos um passo inacreditável pra trás na representação da Câmara”.

Da necessidade de militar (e do direito de abortar)

Texto de Simone da Silva Ribeiro Gomes.

Setembro de 2014, quarenta e três meses após a posse de Dilma Rousseff como presidente do Brasil, e nós, feministas, seguimos em duras frentes de luta pelos direitos sexuais e reprodutivos das brasileiras, o aborto esse, o mais flagrante (e urgente). Após a chegada à presidência da primeira mulher, militante, presa e torturada na ditadura militar, seguimos frustradas com os (des)compromissos políticos assumidos na campanha eleitoral e com as práticas vagarosas do Legislativo e Judiciário em admitir e corrigir práticas históricas perpetuadoras de desigualdades como a criminalização do aborto.

Em que pese às opiniões pessoais: “eu pessoalmente, sou contra o aborto, nunca faria”, ou “apesar da minha religião condenar, eu sou a favor do aborto”, é chegada a hora de encaramos o aborto de forma mais ampla. É necessário o trabalho por uma mudança legislativa. O aborto é sim, uma questão de saúde pública, uma vez que a atual legislação que criminaliza é também a responsável por uma prática (quase) invisível em que mulheres pobres morrem em leitos do SUS, vítimas de consequências da curetagem uterina mal-feita e de corolários de abortos caseiros, ao passo que mulheres de classe média expõem-se a clínicas clandestinas de alta rotatividade, também encarando a morte, como no caso de Jandira Magdalena dos Santos.

Se a legislação não atende aos anseios da sociedade, o descompasso precisa ser debatido, afinal, leis que seguem encarando corpos de mulheres como corpos meramente reprodutivos, não podem continuar regendo uma realidade de vidas femininas com desejos e ensejos muito mais complexos.

Foto de Alvaro Gonzalez Novoa no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Alvaro Gonzalez Novoa no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

O aborto é um problema da sociedade inteira: meu, seu, e de todas as brasileiras que já tiveram que passar por essa experiência. Em 2010, pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) revelaram que uma em cada cinco brasileiras de até 40 anos já fez ao menos um aborto. E ainda assim, persiste um pensamento conservador, carregado de moralismos e crenças religiosas (sobre os direitos de corpos alheios), que acaba refletindo como termômetro eleitoral, em que candidatos/as devem se posicionar contra a descriminalização do aborto.

No ano de 2010, uma pesquisa demonstrou o peso da temática na discussão eleitoral: nas eleições municipais os candidatos que defendem o aborto perdem votos. Caso se declarem contrários, ressalvando, porém, seu respeito às normas legais (que autorizam o aborto em caso de estupro, risco de vida para a mãe e anencefalia), tendem a ganhar votos. E os que se manifestam contra toda forma de aborto, não perdem nem ganham.

O debate presidencial até o momento endossa essa realidade aterrorisante. Dos candidatos à presidência, dentre as quais figuram três mulheres — duas com reais chances de se elegerem — somente Luciana Genro (PSOL) e Eduardo Jorge (PV) posicionaram-se a favor da descriminalização e legalização do aborto.

Contudo, não é de hoje que o pêndulo eleitoral tem no aborto, questão de saúde pública, mas paradoxalmente de foro íntimo, um trunfo ao contrário. Ou seja, cabe evitar a temática nos debates, para que a grande bancada conservadora não se posicione contra o/a candidato/a. O resultado dessa discussão em âmbito nacional pode ser observado na campanha eleitoral de 2010. A polêmica entre a candidata Dilma Rousseff, que no segundo turno assinou uma carta compromisso contra a descriminalização, e o candidato José Serra, que contou com a exposição de um episódio passado de sua esposa, Monica Serra, e uma posição contrária a legalização do aborto, é emblemática a esse respeito: o termômetro eleitoral aponta para um voto conservador em âmbito nacional.

Sobre o voto conservador (e sua procedência religiosa e incidência legislativa), é importante enfatizar que o Estado brasileiro é laico — sem religião oficial, e a esfera religiosa íntima não deve sobrepujar-se às questões de saúde pública. Para a antropóloga Débora Diniz* da UnB: “O aborto não pode ser discutido em termos religiosos. A religião é matéria de ética privada, as pessoas acreditam ou não […] Se uma em cada cinco mulheres aos 40 anos já fez um aborto, muita gente do seu entorno soube. A verdade inconveniente é que o aborto faz parte da vida cotidiana no Brasil, mas ninguém quer falar a respeito, prefere ignorar”.

Novamente estamos em ano eleitoral e a conjuntura, no que tange à vida e morte de muitas brasileiras, é semelhante a de quatro anos atrás. Já estamos em setembro e a sociedade brasileira persiste endossando uma realidade cruel com a vida de mulheres pobres e não tão pobres. Seus direitos sexuais e reprodutivos seguem a mercê de interesses da classe política e as crenças religiosas de alguns — no caso do Legislativo leia-se, uma maioria masculina, no que ficou conhecido como a bancada evangélica — sobrepõem-se ao corpo de terceiro/as. Ademais, moralismos no âmbito da saúde, acabam pesando mais no debate do que a saúde pública – principalmente a de jovens mulheres negras e pobres – dado que são recorrentes os julgamentos como: “na hora de abrir as pernas você não pensou” em postos de saúde e hospitais, em todo o país.

É preciso que o debate do aborto esteja na ordem do dia. Para isso, vale debater e militar para o convencimento de estruturas mais amplas, de forma que consensos sobre a saúde das brasileiras, seus corpos e suas vidas não sejam somente o objeto de escrutínio e interesses moralistas de diferentes classes (política, religiosa, médica).

Autora

Simone da Silva Ribeiro Gomes é feminista e doutoranda em Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).