Queremos mais mulheres no poder?

Texto de Bia Cardoso.

Esse mês foram divulgados os resultados da Pesquisa Ibope/Patrícia Galvão: Mais Mulheres na Política. Entre os dados mais divulgados na imprensa, fisguei a manchete de uma matéria: Quase 80% dos brasileiros querem mais mulheres no poder.

Oito em cada dez brasileiros ouvidos pelo Ibope e pelo Instituto Patrícia Galvão (78% dos entrevistados) para uma pesquisa sobre a presença de mulheres na política defenderam a obrigatoriedade de uma divisão com o mesmo número de candidatos e candidatas nas listas partidárias para eleições. Para 1,6 mil entrevistados, essa composição meio a meio da lista de candidatos deveria ser obrigatória nas eleições para o Legislativo municipal, estadual e federal.

Será que os entrevistados realmente querem mais mulheres no poder? Os entrevistados votaram em mulheres nas últimas eleições? Será possível termos um legislativo composto 50% por mulheres? Porque sabemos que atualmente as mulheres ocupam pouquíssimos cargos políticos. O número de mulheres eleitas em 2010 não teve um aumento expressivo e os partidos costumam reservar apenas 30% das candidaturas e 10% do tempo de propaganda eleitoral para mulheres. De acordo com a mesma matéria:

No Senado Federal, entre 81 vagas, apenas 13 são ocupados por mulheres, sendo que, atualmente, oito senadoras exercem ativamente a atividade. Apenas uma das 11 comissões da Casa é presidida por uma senadora. Na Câmara dos Deputados, das 513 vagas, 44 são ocupadas por mulheres e apenas uma das 21 comissões permanentes é liderada por uma deputada. As mulheres ocupam apenas 10% das prefeituras e representam 12% dos membros das câmaras municipais.

E, há mais dados sobre a situação atual na matéria ‘Ministra Eleonora defende inclusão de mais mulheres no poder em debate sobre reforma política’:

Nas eleições 2012, conforme o Tribunal Superior Eleitoral, 134.296 se candidataram aos cargos de prefeita e vereadora, o que representou um aumento de 9,56% em relação à eleição municipal de 2008. Do total de eleitos em 2012, 8.287 foram mulheres, representando 13,19%. Em 2008, 7.010 foram eleitas a esses mesmos cargos, representando 12,2%. Em todo o Brasil, foram eleitas 657 candidatas para as prefeituras, o que corresponde a 11,84% do total de eleitos. Para as Câmaras Municipais, foram eleitas 7.630 mulheres, o equivalente a 13,32% dos escolhidos.

Primeira Parada Negra na Avenida Paulista. Foto de Odival Reis/G1.
Primeira Parada Negra na Avenida Paulista. Foto de Odival Reis/G1.

Nas eleições de 2010, decidi votar só em mulheres e não consegui. Faltou uma candidata a senadora pelo meu Estado com a qual me identificasse. Havia duas opções, mas escolhi um homem. Mesma coisa para o cargo de governador, 8 candidatos, apenas uma mulher com a qual não concordava. Para deputada distrital (voto em Brasília/DF) e deputada federal votei em duas candidatas que conhecia e acompanhava há muito tempo o trabalho. As duas foram eleitas e continuo acompanhando suas ações, especialmente porque costumam usar redes sociais para divulgá-las. Também votei em uma mulher para a presidência e, como tantas pessoas, constatei o óbvio, ter uma mulher num cargo político não garante políticas públicas que beneficiem as mulheres em sua totalidade.

Porém, a maior participação de mulheres no poder é fundamental para alcançarmos a igualdade de gênero e, principalmente, para termos mais pluralidade e mais políticas públicas para as mulheres. Afinal, não é possível mudarmos a sociedade, torná-la mais igualitária e justa, se quem está no comando das decisões do país são majoritariamente homens, brancos, ricos, heterossexuais, conservadores e religiosos.

Após as diversas manifestações nas ruas que percorreram o país, está no Executivo e no Congresso a pauta de apressar uma reforma política, que pode trazer benefícios e estimular que mais mulheres se candidatem a cargos públicos e tenham chances de ser eleitas. Como lembra Barbara Lopes no texto ‘As mulheres e a reforma política’: dois pontos, em especial, podem favorecer a representação feminina (e de outros grupos sub-representados): o financiamento público para campanhas e o voto em lista fechada pré-ordenada.

Entre os resultados obtidos na pesquisa ‘Mais mulheres na política’ não há perguntas específicas sobre essas propostas, mas, 74% dos entrevistados apoiam a reforma política para garantir maior participação das mulheres e 71% consideram a reforma política importante para garantir a paridade de 50% entre mulheres e homens nas listas de candidatos dos partidos. Ao que parece grande parte da sociedade quer ver mudanças reais nas caras da política brasileira. Porém, será que as pessoas realmente estão dispostas a votar em mulheres? E, mais que isso, em quais mulheres elas estão dispostas a votar? Em negras? Lésbicas? Paraplégicas? Transexuais? Indígenas? Ex-detentas?

E, quais as chances das mulheres que não são brancas, que não são casadas, que não não são mães, chegarem aos cargos públicos? Porque, infelizmente, ainda é muito comum a associação de mulheres com o trabalho doméstico e materno na política, como se não pudéssemos fugir desse papel em nenhum momento. Durante a campanha de 2010, Dilma Roussef chegou a cozinhar em programas de televisão e entre as alcunhas que recebeu está a de “mãe do PAC”.

Outros dados interessantes da pesquisa são que 76% das mulheres afirmam ser importante que a reforma da política garanta 50% de mulheres e 50% de homens nas listas de candidatos dos partidos. Os homens se posicionam favoravelmente com percentual menor: 64%. E, que na região nordeste, que foi uma área em que muitas mulheres foram beneficiadas pelas políticas de distribuição de renda nos últimos anos, 82% dos entrevistados afirmam ser importante a paridade.

Os resultados dessa pesquisa são animadores quando pensamos que a sociedade deseja fortalecer a democracia por meio da maior participação de mulheres na política. Porém, sinto em parte que ainda não será em 2014 que veremos um aumento expressivo na eleição de mulheres. No momento da urna acredito que o machismo ainda seja grande e que o volume da propaganda partidária ainda tenha muita influência no voto das pessoas. É muito comum escutar de pessoas próximas que elas não vão votar em quem vai perder. Muitas das candidatas mulheres que possuem posturas feministas estão em partidos pequenos e são pouco conhecidas. A invisibilidade na política é também um reflexo de nossa invisibilidade social como detentoras de poder.

Debora Diniz: uma conversa e tantas outras perspectivas

Texto de Marcelo Caetano e Catarina Corrêa.

No ensolarado dia 13 de Janeiro, no bairro Sudoeste da capital federal, Marcelo Caetano e Catarina Corrêa se encontravam  com Debora Diniz, cientista social, professora da Universidade de Brasília, mulher, feminista, para realizar uma entrevista em nome das Blogueiras Feministas.

Debora Diniz. Foto: Rodrigo DalcimnUnB Agência

Detentora de um currículo invejável, não sabíamos muito bem o que nos aguardava. A ansiedade era grande; as expectativas eram muitas, e a curiosidade, enorme.  Os 40 minutos que nos foram prometidos para a conversa, foram agradavelmente tranformados em mais  de uma hora que, aliás, compreendia também a sabatinagem e conversa tranquila, enquanto conhecíamos seu ambiente de trabalho.

Falar de Debora Diniz não é uma tarefa fácil: são muitas as suas linhas de pesquisas, são variados os seus títulos, é extensa sua produção. Manter o foco da conversa era um grande desafio, uma vez que tudo nos parecia interessante e digno de um longo debate. Começamos questionando-a sobre sua trajetória, como chegou ao lugar em que hoje se encontra. Sua resposta era plena de paixão, embora nos levasse a várias outras divagações possíveis e desejáveis, mas que, em função do tempo, foram suprimidas e tivemos que ser comedidos. O tema das mulheres, mais especificamente do aborto, é recorrente e, provavelmente, aquilo que lhe rendeu mais projeção, não apenas no meio acadêmico. Contudo, vale notar que não fala das mulheres como ouvimos por aí: talvez, até sejam mulheres que vemos por aí, que poderíamos encontrar em um ônibus ou na fila da padaria, mas são as mulheres que não seriam ouvidas de outra forma, mulheres silenciadas pelas contingências diárias, pelos percalços da vida que as fizeram mudas até então.

Tratar do aborto a partir da questão do aborto de fetos anencéfalos foi uma escolha política, um passo estratégico e bem calculado, uma vez que sempre esteve ciente dos “desafios argumentativos” que o tema carrega consigo. Nossa sociedade ainda não estava (já está, hoje, no momento presente?) pronta para enfrentar face a face o dilema moral do aborto, para aceitar que esta é uma escolha da mulher sobre o que fazer com o seu corpo. Desenharam-se os primeiros passos rumo a esse entendimento, mas partindo de um pressuposto anterior. Ainda assim, questiona: “Por que obrigar uma mulher a ficar grávida contra sua vontade?”

Assita aqui ao documetário “Uma História Severina”

Reiterando a diferença entre o valor político e o caráter de verdade (ou de vontade de verdade)  – como já debatemos em um outro post – , Debora Diniz trata do feminismo em sua vida de uma forma peculiar. Pelas suas práticas e posicionamentos, diríamos que Diniz é uma mulher feminista. Todavia, ela não considera que isto seja uma qualidade, um adjetivo: “feminismo é substantivo”. Hoje, entende que já pode colocar seus posicionamentos mais livremente, pois tem seu lugar de fala assegurado e respeitado; em outras circunstâncias, era preciso dar um passo para trás para fazer-se ouvida, para conquistar a atenção dos que se dispunham a debater com ela. Dar um passo atrás em não se afirmar feminista em determinados espaços era uma manobra política, era a garantia da possibilidade de diálogo que pretendia transformar de dentro espaços aprioristicamente fechados ao feminismo.

A questão da loucura tem exercido um fascínio particular nos últimos tempos. Debora Diniz parece ser levada por interesses ‘flutuantes’; os temas vão surgindo e acabam por lhe fisgar, cada um de maneira particular, mas todos de forma muito intensa. Entender os desafios que a loucura coloca sobre nosso corpo social ainda hoje, diante das pressões, controles e repressões, é seu mais novo desafio. Questiona o controle da ‘anormalidade’ a partir do uso do castigo: como e para que punir o ‘desviante’ quando nem muita certeza temos sobre seu desvio? O castigo como forma de conter as diferentes expressões e representações não nos parece fazer muito sentido, mas é isto que a pesquisadora tem observado que se dá na realidade concreta; nós sabemos mesmo que é isto que acontece, mas continua a não fazer sentido, ainda que empiricamente observado.

Diniz sabe da importância de sua produção audiovisual e reconhece que é esta que, mais do que seus artigos, tem atraído estudantes até ela. Um dos trechos de seu documentário “A Casa dos Mortos” já foi visto mais de um milhão de vezes no YouTube. Ainda que a cena específica reproduza o estereótipo de alguns virais em que se ri da ‘loucura’ e falta de jeito alheios, o número é significativo. Um público que não seria alcançado pela produção acadêmica tradicional está sendo paulatinamente fisgado. Eventualmente, acabam por ver o documentário na sua integralidade e acabam, também, por conhecer outras produções, ou mesmo outros materiais que não são da autoria de Diniz, mas que contribuem para o debate.

"A Casa dos Mortos": documentário sobre a situação de um manicômio judiciário

No momento, os planos e projetos são muitos. A questão da homofobia é uma que tem se apresentado fortemente. A pesquisadora nos contou que acredita mesmo que a história a ser contada seria a das travestis, o segmento mais marginalizado e violentado da população LGBT. Porém, entende que esta é uma história que o público ainda não está pronto para ver: ela conta aquilo que lhe interessa, mas também não deixa de pensar politicamente, pensar naquilo que mais pode atrapalhar do que ajudar nos avanços políticos.

A conversa foi longa e proveitosa. Muitas histórias podem e ainda serão contadas. Muitas ideias, muitos projetos. Importante é dizer que Debora Diniz tem alcançado espaços de difícil acesso, espaços que dificilmente seriam preenchidos por outras pessoas. Gostaríamos, finalmente, de agradecer sua disposição em nos receber e por dar voz aos que são cotidianamente calados;. algumas vezes, a mordaça do silêncio é tão grande que não há nem como pedir por voz e, então, precisamos de alguém que nos dê esta voz, mas que não se precipite a querer falar por nós.

Entrevista de Debora Diniz a UnB Agência: “A pergunta sobre o início da vida é uma armadilha para o debate sobre aborto no Brasil”.