Amarildo, o trabalhador quase com certeza morto

Texto de Paulo Candido.

Então, o Governador Sérgio Cabral se encontra com a família de um homem quase com certeza morto. Um homem assassinado, quase com certeza por policiais comandados pelo Governador Cabral.

E o Governador Cabral declara:

“Nada justifica o desaparecimento de uma pessoa que foi checada pelo próprio comandante da UPP como trabalhador”.

E, examinando a frase do Governador Cabral, fica claro porque sua polícia acha que pode fazer o que bem entender nas favelas, pacificadas ou não. Logo ali, na oração subordinada.

Elizabete, mulher de Amarildo, com quatro dos seus seis filhos no barraco de um só cômodo onde a família mora na Rocinha: “Eles (policiais) acham que pobre também é burro”. Foto de Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo.
Elizabete, mulher de Amarildo, com quatro dos seus seis filhos no barraco de um só cômodo onde a família mora na Rocinha: “Eles (policiais) acham que pobre também é burro”. Foto de Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo.

“Nada justifica o desaparecimento de uma pessoa”, deveria ter dito o Governador Cabral. Mas não. Ele não disse isso. Para o Governador Cabral, há mais requisitos para que o desaparecimento seja “injustificável”:

a) “que foi checada pelo próprio comandante da UPP”. O que torna a polícia o juiz de quem pode ou não pode existir. Os comandantes das UPP’s do Governador Cabral agora tem também o direito de “checar” pessoas da comunidade que deveriam proteger.

b) “como trabalhador”. O Governador Cabral joga no lixo a Constituição Federal, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a decência e a civilização, restando apenas um estado totalitário onde a polícia decide quem vive e quem morre, quem permanece e quem desaparece. Com base na sua própria percepção da “honestidade” do sujeito “checado”.

Para que juízes, advogados, promotores? Ora, basta a polícia “checar” se o cidadão é “trabalhador”. Se não for, quem vai se importar se ele for torturado, morto, desaparecido? Certamente não os “trabalhadores” do Governador Cabral, estes estão ocupados com o progresso e a ordem.

Ladrões, assassinos, traficantes, para que julgá-los e condená-los? Se “todo mundo” sabe que o que eles merecem mesmo é a morte? E supostos ladrões, supostos assassinos, supostos traficantes, ora, às vezes é preciso quebrar os ovos para fazer um omelete e, é melhor um inocente morto que um culpado livre, não é?

E em meio a tudo isso, o Governador Cabral não teve sequer a decência de ao menos insinuar, sequer de forma sutil, que sua polícia prendeu ilegalmente ,”para averiguações”, um morador da favela que esta mesma polícia deveria proteger e possivelmente o matou por motivo torpes, quase certamente relacionados a alguma rixa pessoal de um policial com o morador morto. Desapareceram com o corpo, certos de sua impunidade, já que, como demonstrado na Maré, a vida de um morador das favelas e comunidades carentes no Estado do Governador Cabral não vale nada.

E o Governador não responde, claro, à pergunta central, cuja resposta sua polícia sabe: Onde está Amarildo?

Campanha da ONG Rio da Paz. #OndeEstaAmarildo
Campanha da ONG Rio da Paz. #OndeEstaAmarildo

—–

Paulo Candido é Doutorando em Psicologia do Desenvolvimento e procrastina a tese escrevendo uns textinhos despretensiosos por aí… Esse texto foi publicado originalmente em seu Facebook.

[+] Manifestações no Rio de Janeiro: a repressão não pode nos calar.

Manifestações no Rio de Janeiro: a repressão não pode nos calar

Texto de J. Oliveira com colaboração de Luma Perrete e Bia Cardoso.

Dia 22 de julho, foi a terceira manifestação presencial que participei desde que esse movimento de sair às ruas tomou todo o Brasil. E o clima era esse:

Quatro viaturas e 15 policiais do Batalhão de Choque estão posicionados no Largo do Machado, em Laranjeiras (zona sul do Rio), acompanhando de longe a manifestação organizada por diversos grupos que protestam pelo Estado laico. De acordo com o comando do policiamento, a Tropa de Choque não está no local por causa do protesto, mas porque, em razão da presença do papa Francisco, estão distribuídos por pontos estratégicos da capital fluminense. Batalhão de Choque acompanha manifestação no Rio.

Na primeira manifestação que fui, no dia 17 de junho, ainda no inicio dos protestos, não cheguei nem perto de ver qualquer ação de violência. Seja da policia ou dos manifestantes. O número exato de pessoas não se sabe, mas milhares de pessoas tomaram a avenida Rio Branco naquele dia. Mal se viam policiais na rua. Estes, segundo relatos só apareceram depois de alguns ataques à Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) — onde apenas um pequeno grupo da grande massa de manifestantes estava. Pareciam querer demonstrar a bagunça que a falta de policia poderia provocar na cidade. Porém, mesmo com a manipulação da grande mídia, eles não tinham como enganar todo mundo que estava lá e que viu um evento pacifico, épico.

17 de junho - Reflexo em fachada de prédio mostra o protesto contra o aumento da passagem de ônibus no Rio de Janeiro, pela Avenida Rio Branco, chegando ao Teatro Municipal, no centro da cidade. Foto de Fabio Motta/ Estadão.
17 de junho – Reflexo em fachada de prédio mostra o protesto contra o aumento da passagem de ônibus no Rio de Janeiro, pela Avenida Rio Branco, chegando ao Teatro Municipal, no centro da cidade. Foto de Fabio Motta/ Estadão.

No dia 20 de junho também havia muitas pessoas na rua. Mas, dessa vez, os ataques com bombas (de gás e efeito moral) marcaram presença. Meu objetivo era o mesmo da primeira: chegar, protestar e ir embora cedo. Porém, em vez disso, passei mais de duas horas buscando qualquer estação de metrô aberta e sendo encurralada por policiais que andavam de moto, jogando bombas no caminho de pessoas que, como eu, estavam buscando ir para casa. Aliás, nesse dia, muitas bombas foram jogadas na Lapa (que, para quem não conhece, é um grande ponto de encontro da noite carioca), inclusive na porta de bares e restaurantes.

Estava dentro de um deles nesse momento. A sensação de aspirar gás lacrimogêneo é desesperadora. Ainda mais quando você está em um lugar fechado com a saída sendo bombardeada. Encurralar e provocar medo parecia ser a estratégia contra as manifestações. E, em parte, conseguiram.

Demorei a voltar para outra manifestação e a quantidade de pessoas na rua protestando diminuiu, mas muitos outros protestos ocorreram neste meio tempo. Alunos, professores, indígenas da Aldeia Maracanã, médicos, advogados da OAB, curiosos, mídias independentes, entre muitos outros.

Protestar virou rotina no Rio de Janeiro. Teve manifestação contra a Copa e a privatização do Maracanã. Teve a Rocinha e o Vidigal descendo pra reivindicar saneamento básico. Muitas manifestações pedindo a saída do Governador Sérgio Cabral. Algumas na frente da Rede Globo contra a manipulação da mídia e as concessões governamentais que recebem.

E no meio de tudo, no dia 24 de junho, teve uma incursão da polícia na favela da Maré. Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança começou. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”. Como bem lembra Eliane Brum:

O Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré.

Os brasileiros foram às ruas, algo de profundo mudou nas últimas semanas, tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. E, se esse algo ainda mais profundo não mudar, nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação, porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um. Também somos o chumbo das balas.

24 de junho - Chegou a 10 o número de mortos no complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio. Foto de Wilson Junior/Estadão.
24 de junho – Chegou a 10 o número de mortos no complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio. Foto de Wilson Junior/Estadão.

Teve até casamento chique com direito a arremesso de cinzeiro em um dos manifestantes. E muitas manifestações paralelas em frente o prédio do governador Sérgio Cabral. Uma manifestação, em particular, ganhou repercussão pela depredação de uma loja num dos bairros mais caros do Rio de Janeiro e gerou uma reunião de emergência na sede do governo. Um dos resultados dessa reunião foi o Decreto 44.302 de 19 de julho de 2013, criando a ‘Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas’, que parece ter como objetivo uma caça as bruxas para perseguir “incitadores de violência” entre os manifestantes envolvendo a imposição da quebra de sigilo às teles e aos provedores Internet, violando a privacidade dos manifestantes.

Antes dessa reunião de emergência, no dia 14 de julho, Amarildo Dias de Souza, 47 anos, pai de seis filhos, pedreiro, morador da Rocinha foi visto sendo conduzido por policiais militares para a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Desde então está desaparecido. Corre na internet e nas ruas a campanha: Onde Está Amarildo? Ao que parece, os mortos da Maré e moradores de favela desaparecidos não mobilizam o governo e a grande mídia, mas ataques a manequins e vitrines, sim.

Campanha da ONG Rio da Paz. #OndeEstaAmarildo
Campanha da ONG Rio da Paz. #OndeEstaAmarildo

Quando não fui as manifestações, ou quando cheguei em casa, pude acompanhá-las por meio da Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), que transmitia ao vivo tudo ao vivo e sem cortes, com bombas ou não, assistia os manifestantes onde quer que eles estivessem. É claro que há uma forte repressão ao grupo.

Nesse meio tempo, as tentativas de repressão por parte do governo do Estado do Rio de Janeiro e da Polícia Militar tomou várias formas: as luzes das ruas em que acontecem as manifestações se apagam inexplicavelmente, as câmeras da CET deixam de funcionar, os comerciantes recebem ordem para fechar as lojas, ruas são fechadas, bombas de gás são jogadas dentro de casas, bares, restaurantes e em locais com a presença de crianças, pessoas são presas durante e após as manifestações pelos motivos mais confusos e variados. A Polícia começou a usar o canhão de água e “armaduras”, estações de metrô próximas as concentrações são fechadas e pessoas revistadas, aumenta o numero de policiais vestidos à paisana acompanhando a manifestação, entre outras coisas.

No dia 22 de julho, resolvi ir às ruas mais uma vez para protestar por um Estado laico e democrático. Caminhei junto com outras pessoas, pacificamente e, quando planejava ir embora, as bombas começaram. A tropa de choque estava presente por todas as ruas de saída, a quantidade de policiais parecia se igualar a de manifestantes. O único caminho que parecia mais livre tinha vários policiais que assistiam a cena, sem bloquear as ruas totalmente (ainda bem), mas marcando presença em grupo nas várias vias alternativas.

Os comércios fecharam cedo mais uma vez, a estação de metrô também. Felizmente consegui sair sem ter que aspirar muito gás. Em casa, acompanhei o reagrupamento das manifestações e a prisão de dois integrantes do Mídia Ninja, acusados de incitar as manifestações e levados para delegacia para averiguação. Para trazer novidades, a polícia decidiu usar armas de choque contra manifestantes caídos e que não apresentavam resistência.

Outros manifestantes foram presos por motivos variados. Calé Merege flagrou a prisão de um manifestante acusado de portar um coquetel molotov. Rafucko foi detido por acusação de formação de quadrilha e teve provas forjadas. Bruno Ferreira foi preso em Bangu I, acusado de de porte de explosivos. O estudante de medicina Fellipe Camisão relatou que atendeu um manifestante baleado na perna: “Ele estava com a namorada e foi baleado na perna. Não foi bala de borracha. Foi projétil de arma de fogo. Ele estava com hemorragia e estancamos o sangue”.

Manifestante baleado na perna recebe os primeiros socorros. Foto de Felipe Dana/Associated Press.
Manifestante baleado na perna recebe os primeiros socorros. Foto de Felipe Dana/Associated Press.

A situação imposta pela polícia e pelo governo de Estado do Rio de Janeiro é tensa, mas não podemos sair das ruas. Outros protestos estão marcados para essa semana. Inclusive, a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro, ocorrerá no sábado, 27 de julho, a partir de 13h no Posto 5 em Copacabana.

Não podemos aceitar essa toda essa repressão, temos o direito de ir às ruas para nos manifestarmos. Não deixem de participar. Não deixem que o medo tome conta de vocês. Junt@s somos um.

Desabafo de uma mulher nem tão de aço

Este será um post desabafo. Já peço desculpas se fujo um pouco ao que costumo postar.

Isto posto…

Nas redes sociais, constantemente recebo marcações sobre casos marcantes, via de regra, escabrosos, sobre fatos envolvendo policiais, e pedindo minha opinião, minha manifestação.

Não me importo, pelo contrário, me sinto orgulhosa (não sei bem se é a palavra certa, mas, enfim, na falta de uma melhor, fica essa mesmo) de ser uma referência para tantas pessoas queridas, como Delegada de Polícia.

Também recebo, via e-mail por este blog, pelo twitter, Facebook e meu blog pessoal, alguns pedidos de ajuda e orientação.

Da mesma forma, não me importo, pelo contrário, agradeço imensamente a confiança em mim depositada.

Ainda, não sei se vocês sabem, mas sou professora, de Direitos Humanos, da Academia de Polícia Civil de Minas Gerais. Sim, isso mesmo.

Certa vez, um cartunista que admiro (admirava?) e de quem usava charges super críticas como referência, nessas aulas de Direitos Humanos, não só para “aspiras” mas também para policiais com anos e anos de carreira, ao ser mencionado pela arroba no twitter, por mim, sobre o uso de suas charges dentro desse contexto – Direitos Humanos para Policiais – disse que eu estava tentando ensinar um crocodilo a ser vegetariano . Respondi: “Prazer, sou uma crocodila vegana.”

Sim, eu ando armada. Não, não é para o seu fetiche. E não, eu nunca matei ninguém.

Porque coloco tais memórias?

Porque, nesta semana, um chefe de Polícia, do Amazonas, claramente, emitiu (ou supostamente emitiu, não posso afirmar, afinal, não sei TODO o contexto em que ele proferiu a fala) uma expressão extremamente infeliz. Infeliz, sendo eu, generosa com o colega e, em tese, superior hierárquico.

Segundo notícia veiculada, o delegado, Chefe da Polícia Civil do Estado do Amazonas, teria dito: “Essa questão [compra] da virgindade não foi detectada, até porque, quando uma menina começou com 13 anos, ela não era mais virgem. São meninas rodadas, exatamente, são meninas que tiveram passagens por vários clientes”, afirmou, em Manaus, o delegado-geral.”

E eu, ao comentar, me peguei pensando na importância do discurso.

A Jeanne já escreveu um post fabuloso, aqui mesmo, sobre isso. A palavra tem poder.

“Mas faz pouco tempo que descobri a força da palavra, em seu sentido mais amplo. Foi por meio do feminismo, de ver como a violência contra as mulheres se manifesta, principalmente, no campo do simbólico. Foi aí que vi a força da piadinha, do apelido engraçadinho, daquele meme bobinho que reproduz a dicotomia da mulher-pra-casar e da mulher-pra-transar. Vi a força reafirmadora do discurso na propaganda, nas revistas. E vi o quanto eu, mesmo querendo ser certa, errava. Porque reproduzia a linguagem sem questionar. Nós jornalistas sabemos – ao menos em tese – que a linguagem repetida sem questionamento vira clichê. O que aprendi no ativismo é o lado mais perverso do clichê: o estereótipo. Palavra repetida tem força de criação. De profecia. Forma o mundo e inventa categorias inteiras. Agrupa as pessoas de certas formas e não de outras, e o que poderia ser apenas uma escolha de conjunto acaba sendo a escolha de um mundo.”

Eu sou Delegada de Polícia, em Minas Gerais. Antes, fui advogada. Antes, bem antes, pensava em ser jornalista. Ler e escrever sempre foi um hábito. Sei bem o poder das palavras. Sei bem como as palavras machucam. Ou constroem. Como o discurso pode convencer, absolver e condenar.

Nem sempre, quando recebo pedidos de ajuda, ainda mais de pessoas que estão longe, consigo ajudar.

Nem sempre tenho a palavra certa para oferecer para quem pede auxílio.

Escolhi a militância recentemente, em virtude do contato com uma miséria que minha vida anterior, protegida, me escondia.

Na polícia não tem jeito: a gente é confrontada com o que há de melhor e pior na humanidade.

E sinto que, pelas minhas palavras, pelo meu discurso, posso ajudar. Ou posso me frustrar.

Com a minha militância virtual, aqui e em outros espaços, eu tento compensar, quem sabe, a impotência diante de um dia a dia que nem sempre é glamouroso ou mesmo emocionante.

Mulheres de Aço – imagem de divulgação – GNT

Ainda não assisti ao seriado da GNT, Mulheres de Aço. Apenas um trecho. Mas uma colega comentou que assistiu, e apesar de achar legal a abordagem, achou chato. Porque é exatamente a rotina de uma delegacia. Qualquer delegacia: horas de tédio, afogadas em papéis e cobranças, sem reconhecimento, sem valorização. Sem estrutura decente para trabalhar ( e olhem, as delegacias do RJ, onde se passa a série, que acompanha a rotina verdadeira de quatro Delegadas de Polícia, são bem arrumadinhas perto do que é a realidade desse Brasil. Eu, atualmente, não posso reclamar, em termos de prédio, equipamentos, estrutura física, material para trabalho – papel, tinta, carros, computadores, mas ainda assim, reclamo: a demanda é absurda, é sobre humana). E, junto com o tédio, os momentos de pura adrenalina. É quase uma trincheira, ainda que não goste de comparações com guerra.

E continuo tentando agir no micro: ajudar quem a gente pode. Acionar os órgãos competentes, tentar ser ágil na conclusão dos procedimentos, ser honesta, ser decidida, não ser violenta. Ser líder e referência positiva.

No entanto, não sou perfeita. Ainda bem, a perfeição deve ser bem monótona.

E ainda, mais importante: não sou a única. Sou, talvez, das poucas que se expõe, que dão a cara para bater, que mostra quem é, e como é, tentando me mostrar sem máscaras.

Mas, ainda bem, felizmente, não sou a única. O próprio fato de poder me manifestar, livremente, da forma como me manifesto, demonstra que existem, em todos os lugares, pessoas que acreditam em mim, e se acreditam em mim, acreditam nas causas que defendo.

Mesmo que não compreendam, ainda, se mostram abertos a um debate.

E volto ao discurso: eu falo, em sala de aula, sobre feminismo, racismo, homofobia. Tudo isso, obviamente, faz parte não só de uma temática de Direitos Humanos, mas de uma rotina de trabalho policial.

Lidamos com machismo, todo dia. Aquele machismo que mata, que espanca, que estupra, que humilha, que agride.

Lidamos com a homofobia. Com o racismo. Com o ódio e a intolerância.

E é fácil esquecer que existem, nas policias, pessoas que lutam contra isso, e que são essas pessoas, que estão de alto a baixo nas escalas de hierarquia, que permitem que eu possa ser como sou. Que possa escrever aqui, que possa não só divulgar a Marcha das Vadias, mas possa participar e mostrar minha cara e meu nome.

Essa semana, tive demonstrações do que há de pior e do que há de melhor nas pessoas, só em um pequeno círculo de policiais. E de aspirantes a policiais.

Não que eu seja boa, nem boazinha. Também sou falha, imperfeita, peco por orgulho e vaidade, peco por omissão, ainda que tente não ser hipócrita. Peco por pensamentos, atos e palavras. Sou agressiva, incisiva. Não me desculpo por isso, é por uma causa em que acredito. Mas as vezes, posso ultrapassar limites. Já ultrapassei. As vezes, dá para se desculpar. As vezes, não dá.

Mas me policio, sem trocadilhos, por favor, para não chamar a próxima de puta. Para não cair no preconceito de classe. Para não acreditar que estereótipos que se repetem sempre vão representar a realidade.

E aqui, eu encerro, com um apelo: não coloque, no mesmo saco, todos os policiais do mundo, até aqueles que você não conhece. Não cometa o mesmo erro pelos quais os policiais são criticados: categorizar e classificar pessoas em virtude de sua cor, de sua classe, de sua origem.

É difícil, mas é possível.

Se você é militante, procure se aproximar, sem medo, de uma unidade policial, de uma instituição que ainda possui uma imagem negativa, mas essa imagem não vai mudar enquanto não nos conhecermos uns aos outros, sem conceitos pré concebidos, sem julgamentos de todos por alguns.

Não sei se os bons são maioria.

Mas ainda que poucos, somos muitos.

Nos ajude a ajudar a sociedade a mudar, e a mudar junto com ela.

Juntos, podemos agir no macro, também.

 

(Pesquisando por imagens da série da GNT, achei uma crítica. Não vou tecer comentários, porque, apesar de positiva, tem que cair nos estereótipos de que já falei aqui e aqui)