Machismo velado

Texto de Danielle Cony.

No Brasil há uma situação peculiar quando falamos de preconceito. Ninguém assume que é preconceituoso. Quantas vezes você já ouviu que não há racismo no Brasil? Mas o elevadores de serviço nunca foram desativados, não? Foi necessário uma lei específica para taxar o preconceito de classe e raça nos elevadores.

Então, não temos preconceito ou só tentamos com muita força mascará-lo? E digo que, assim como o racismo, o machimo está nos detalhes, nas pequenas coisas do dia-a-dia.

Lembro-me uma vez que estava em Porto Alegre, num bar, e resolvi fui pegar uma cerveja. Um homem extremamente mau-educado não só furou a fila como me empurrou. Fui falar com ele e simplesmente me chamou de quê? “Sua puta. Sai para lá vagabunda”.

Fiquei absurdamente irada com aquela situação e comecei a discutir com o cara, que covardemente chamou seu amigo e começou a me ameaçar. Meu marido estava presente e quando me viu emboscada pelos dois marmanjos se aproximou. Ver a cara dos dois recuar foi muitíssimo prazeroso (meu marido tem 1,90 de altura e 150 kilos, basicamente o dobro de cada um dos “guris”). Mas diga-me uma coisa, havia necessidade disso? Havia necessidade de me tratar com desreipeito só porque sou mulher e estava desacompanhada? E não posso negar que também fiquei muito irritada por precisar “chamar ajuda”. Normalmente gosto de resolver as coisas por mim mesma. Mas atitudes covardes só podem ser repreendidas, não?

Mas e vocês mulheres? Quantas vezes passaram por situações de machismo, coação e até mesmo violência? O preconceito que sofremos está velado diariamente. Vou citar alguns exemplos:

– Quando num jantar de fim de ano, as mulheres ficam na cozinha e ao termiar a farra todas as mulheres levantam-se para lavar a louça. Isso é o que mesmo?

– Quando “naturalizam” o rosa, a saia, a princesa para as meninas. Porque mulher boa é assim. Princesa. Não tem opinião, é submissa, e bonita.

– Quando um casal está num restaurante e o garçom entrega sempre a conta para o homem. Não importa quem pede a conta.

– Quando você é contratada por um empresa, tem dez anos de mercado na função e seu salário é equivalente ao cara que acabou de sair da faculdade. Observe que os dois realizam a mesma função.

O machismo brasileiro é velado. Não admitir a existência deste é alienar-se do problema e tentar manter as coisas exatamente como estão. E, tenho certeza que todo mundo que acessa esse blog tem a certeza que as coisas ainda estão muito longe de serem igualitárias para as mulheres (ou qualquer minoria, na verdade). Então, vai dizer agora que não há preconceito/machismo no Brasil?

Gênero neutro

Texto de Barbara Lopes.

A discussão sobre a forma presidenta vem nos lembrar que não existe neutralidade na nossa língua, como não existe na nossa sociedade. Se eu for ao cinema com alguém e meu marido me ligar, vou necessariamente dizer o gênero da pessoa que está comigo, “um amigo” ou “uma amiga” – e o significado desse passeio pode mudar completamente por isso. Em outras línguas, como no inglês, a frase ficaria ambígua, mas em português é muito difícil fugir – inclusive porque as fugas nos denunciam prontamente.

Mas há quem diga que não: que o masculino funciona como masculino mesmo, mas também como neutro. Nossa língua funciona assim, no plural (“amigos” pode ser um grupo com apenas um homem e muitas mulheres) e nas formas que não flexionam (“moça meio distraída”). E também nossa sociedade funciona assim. O que precisa ser marcado é o feminino; é o que notamos primeiro, é a diferença.

O mesmo acontece com outros grupos “diferentes”. No campo da sexualidade, falamos da heteronormatividade, a expectativa é que o “normal”, o “default” é ser hétero e que a diferença é que é notada, marcada. No O que é racismo, o Joel Rufino dos Santos conta (cito de memória) de um jogo de futebol, em que toda vez que um jogador tal errava um lance, um torcedor gritava “Preto burro!”. Daí, quando um jogador branco errou, um amigo do autor gritou, para espanto de todos, “Branco burro!”.

Esses dias, um amigo criticando um comportamento no trânsito disse que achava que mulheres faziam isso mais do que homens, e me perguntou se fazia sentido. Estatísticas são complexas, talvez haja mais mulheres dirigindo; talvez mulheres realmente se comportem desse jeito. Mas me ocorreu que talvez ele repare mais quando é uma mulher e que quando homens fazem a mesma coisa, caia pra uma gaveta “neutra”.

O nosso trabalho é duplo: desconstruir esse neutro-normativo (homem, branco, hétero) e reconstruir um sentido neutro real, em que as pessoas sejam notadas pelo que são e não pelo grupo no qual foram inseridas. Nessa luta, não há campo neutro.

Update – dois links fresquinhos sobre o caso “presidenta”:

BBB, Uniban e meninas interesseiras

Texto de Nessa Guedes.

E então é natal.

(Na próxima sexta, claro, eu sei). E como vocês podem notar, eu sou uma pessoal super legal, e fiz esse post em duas versões: a escrita, e a gravada. Se vocês tiverem preguiça de ler – por causa da ressaca do fim de semana, afinal, hoje é domingo, verão, e todo mundo tá com o 13º no bolso – vocês podem simplesmente assistir o video de míseros 5min para entender a mensagem que quero passar. Se vocês não tem paciência para video, vocês podem ler o post.

E se você for muito meu amigo, se quiser me stalkear para valer, ou descer a lenha do que eu disse, faça os dois: leia o post, e veja o video. Beijos, me liguem.

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Vocês vêem, essa é minha estréia aqui. Eu, menina nova, baladeira, cheia de amor para dar, na maior vibe Dance Queen – vocês lembram? -, com aquela pinta de quem tem o mundo inteiro para tirar proveito,  e os sete mares para desbravar.

E feminista até o osso.

COMO? POR QUÊ!? OH MEU DEUS, QUE DESPERDÍCIO!!! ALGUÉM FAÇA ALGUMA COISA POR ESSA POBRE MOÇA!

É tempo de dar fim aos esterótipos. Estamos no século da aceitação, do respeito, do prazer. Hoje um analista de negócios pode ser fotógrafo nas horas vagas e ter uma exposição numa galeria obscura na cidade, ao mesmo tempo que gosta de pular de asa-delta nas férias. Uma dona de casa pode ser viciada em jogar World of Warcraft. Um médico pode ter dezenas de tatuagens no corpo. E as pessoas não precisam necessariamente desconfiar da índole ou da integridade dos outros só porque sustentam muitas atividades diferentes, e acreditam em coisas que aparentemente não fazem conexão com sua “realidade”. Há uns cinquenta anos atrás era normal ser racista. Hoje é crime. Há vinte anos atrás, uma moça solteira aos 30 anos era considerada “passada”. Hoje o 30 é o novo 21.

Os tempos estão mudando. Meninas beijando outras meninas na rua, e quer doa aos seus olhos ou não, elas vão continuar beijando cada vez mais e mais, não importa o quanto você diga “mas isso não é normal!”. Meninos vão continuar beijando outros meninos na rua quer você espanque-os, ou não. Mulheres continuarão assumindo cargos de chefia e sustentando seus lares, quer você acredite que todas são putas interesseiras ou não. Você continuará passando por ridículo ao falar numa possível ameaça a heterossexualidade (#DouradoBBB10FactsByMachõesDePlantão), e o mundo continuará abrindo espaço para a livre expressão sexual das pessoas, quer você queira ou não. Quem tem que se adaptar ao mundo é VOCÊ. O mundo não gira em torno do seu umbigo conservador e medroso.

E nesses tempos de quebra de esterótipos, o primeiro que devemos tratar de repaginar é o esterótipo da feminista.

Não, eu não tenho bigode. Não, eu não ando com roupas de homens. Não, eu não sou rabugenta – embora tenha todos os motivos do mundo para tanto. Não, eu não sou mal-comida. Não, eu não tenho sovaco cabeludo.

E não, não vou esfregar aqui, na cara de ninguém, os motivos por a+b sobre eu ser feminista. Não.

Na verdade, eu quero convida-los a uma reflexão de final de ano que saia de seus âmbitos pessoais e alcance a comunidade onde vocês vivem.

Que tal trocar o “Oh, esse ano foi bom porque eu fui promovido, porque eu comprei um carro, mas foi ruim porque minha vó morreu, porque eu engordei uns quilos, etc” pelo “Esse ano foi ótimo porque elegemos a primeira presidente do Brasil, mas foi ruim porque teve o caso Uniban e o ‘rodeio de gordas’ na Unesp. O que eu devo concluir sobre a ligação desses três fatos, aparentemente distintos? No que isso influi na minha vida? O que isso significa para o crescimento do país?“… hum?

Entendem?