Epidemia de sífilis, DSTs e o uso da camisinha: questão de confiança nos relacionamentos ou o machismo e outros preconceitos também influenciam?

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Apesar da necessidade da camisinha para prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) ser bastante difundida aqui no Brasil, seu uso têm diminuído por diversos fatores. As alternativas de prevenção em relações sem penetração são pouco debatidas e diversas questões morais — além da falta de observação à questões de raça, classe, orientação sexual — fazem com que determinados grupos fiquem ainda mais vulneráveis ao contágio e suas consequências. Não é a toda que uma doença como a sífilis tenha voltado a se tornar uma epidemia com um número exponencial de contágios no Brasil e no mundo. Mas, boa parte do material de divulgação desses dados se mostra bastante preconceituoso.

Como toda ação que depende de um acordo de todas as partes, muitas decisões com relação a qual método contraceptivo ou de prevenção de DSTs são consequência de relações de poder. O que isso resulta na prática? Que em relações entre homens e mulheres cis, geralmente cabe ao homem decidir pelo uso ou não da camisinha. Mesmo que a pessoa mais vulnerável às consequências negativas dessas doenças sejam as mulheres, já que lesões no canal vaginal e no colo do útero podem demorar a ser diagnosticadas dificultando a cura e até trazendo sequelas irreversíveis como: o HPV que pode levar ao câncer, a clamídia que pode levar a infertilidade e a sífilis que pode levar a malformação de fetos durante a gravidez, além é claro, do vírus HIV que não tem cura e também pode ser passado na gravidez). São os homens que costumam optar por não usar devido ao “desconforto” que seu uso gera durante as relações.

Outro dado que vejo ser ignorado quando se fala da transmissão é a falta de cuidado com a própria saúde e higiene dos homens. Números apontam que homens cis buscam menos a prevenção de doenças, vão menos ao médico e têm menos cuidado com a higiene do pênis, mas qual a consequência disso nas relações sexuais e na disseminação das DSTs? Bem, algumas que poderiam ser diagnosticadas cedo para evitar seu contágio ou potencial agravante para a saúde são simplesmente ignoradas. Isso impacta diretamente no número de contágios e até a reincidência, já que se apenas a mulher vai no médico ela pode tratar da doença e depois ser novamente infectada. Isso influencia até em casos de candidíase de repetição, por exemplo, mesmo que não seja uma DST é uma condição que pode ser sexualmente transmitida e depende do tratamento de ambos.

Existe ainda todo o falocentrismo que leva as pessoas a ignorarem o potencial de transmissão em outras formas de sexo que não envolvem apenas a penetração pênis-vagina. Diversas DSTs, como herpes, HPV e sífilis, podem ser transmitidas facilmente até no beijo se a boca tiver alguma lesão. Fora isso, há possibilidades de contaminação por sexo oral e anal, a transmissão indireta por brinquedos sexuais e, mesmo a masturbação, sem o devido cuidado com as unhas, pode gerar feridas que aumentam o potencial de transmissão de várias DSTs. A falta de atenção à essas informações faz com que as relações da população LGBT sejam apagadas ou envoltas em moralismo e ignorância.

Outro problema se dá na dificuldade do acesso à camisinha, que ainda que tenha preço baixo e uma grande distribuição pelo SUS, enfrenta algumas barreiras: seja por falta em alguns postos de saúde (e a limitação da mobilidade para a chegada nos mesmos), seu alto custo para uso contínuo, a alergia que algumas pessoas têm ao material (a maioria das camisinhas masculinas é feita de látex, no SUS todas são deste material e nas farmácias além de nem sempre existir alternativa seu custo é muito maior) e, mesmo o tabu envolto nas práticas sexuais fazendo com que muitas pessoas não busquem nunca ou de forma menos frequente que o necessário. Lembrando também que camisinha tem prazo de validade, uma camisinha velha ou mal colocada pode rasgar ou estourar.

Nesse sentido, as relações entre mulheres lésbicas e bissexuais são as mais ignoradas pelas campanhas de prevenção, existe pouco material que trate do assunto mesmo dentro das campanhas criadas pelos órgãos ligados à saúde. Os profissionais de saúde também não sabem como orientar propriamente as mulheres nestes casos. Por outro lado, o preconceito dentro e fora da comunidade LGBT faz com que se ignore o potencial de risco de determinadas práticas ou se estigmatize determinados grupos, sendo ainda muito comum o discurso que se associa o sexo entre homens gays à contaminação — por essa comunidade já ter sido a mais afetada pelo HIV, e no caso do Brasil ter voltado recentemente a ser o maior grupo de risco — ou as pessoas bissexuais serem vistas como eternos potenciais propagadores dessas doenças.

Tudo isso faz com que na maioria das vezes o único foco das ações de saúde pública voltadas para população LGBT seja o uso da camisinha. Com isso, não se abarcam as outras formas de transmissão de DSTs, além de ignorar as diversas pautas relacionadas a saúde física e mental dessa população. Outro problema é que poucos números (seja de saúde pública, comportamento ou para qualquer outro fim) são registrados sobre a população LGBT levando em conta seu gênero e orientação, o que dificulta a criação de políticas públicas ou mesmo a ação de organizações não governamentais para a prevenção. Muitos dados ainda trazem um viés de coleta e análise moralista e preconceito, o que nos deixa quase às cegas ao fazer campanhas de prevenção.

Daí, ainda vem toda a mística envolvida no compromisso com a exclusividade nas relações e a moralidade envolta na prática do sexo casual. No primeiro caso, muitas mulheres cedem à vontade dos companheiros (e até em relações não heterossexuais acaba prevalecendo uma lógica heternonormativa que gera consequências parecidas) para demonstrar que acreditam e confiam em sua fidelidade. Isso obviamente leva ao descobrimento tardio dessas doenças, porque a maioria não faz exames frequentes ou muitas vezes nenhum exame para verificar a possibilidade de algum dos dois ter adquirido algumas dessas doenças previamente, até em outros meios que não a relação sexual. Vale lembrar que DSTs também podem ser transmitidas por transfusão de sangue infectado, objetos mal higienizados, compartilhamento de seringas no uso de drogas, etc.

Isso também influencia na falta de orientação para aqueles que levam outros arranjos de relacionamento que não o monogâmico. Não existe nenhum protocolo para orientação de prevenção e tratamento de DSTs nesse caso. Um exemplo básico é quando o tratamento de alguma doença ou condição envolve a prática ou tratamento de pessoas com as quais você se relaciona. O protocolo é tratar a pessoa sozinha ou ela e o parceiro ou parceira fixos. O que a medicina entende como parceiro fixo é um mistério e nenhum profissional, bula ou material que eu já tenha visto ou esbarrado trouxe nenhuma orientação para o caso de existir mais de duas pessoas envolvidas numa possível transmissão.

No caso do sexo casual, ainda que atualmente sua prática não seja vista de forma tão negativa quanto era alguns anos atrás, ainda existe toda uma preocupação sobre a tal fama da pessoa ser reconhecida como “promíscua”. Pessoalmente, já vi casos absurdos de mulheres não quererem comprar ou andar com camisinha para não serem reconhecidas como “galinhas”, reportagens que culpam aplicativos de relacionamento pelo aumento na transmissão de algumas doenças entre homens gays e bissexuais, textos que recomendam o celibato para diminuir chances de transmissão de doenças e diversas pessoas que se recusam a fazer exames de sangue porque isso poderia “pegar mal”. O que leva inclusive a muitas delas usarem a doação de sangue como desculpa para serem examinadas.

Aliás, as orientações da própria Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre descarte e recusa da doação de “grupos de risco” ilustra muito bem como determinadas condutas e a orientação sexual são vistas na sociedade. Sexo entre homens e a prática sexual com mais de dois parceiros em um ano são vistos como potencial perigoso, enquanto sexo sem camisinha e falta de exames frequentes não é. Esse exemplo ilustra muito bem como as orientações de prevenção de DSTs são falhas. Também mostra como profissionais da área da saúde, e aqueles com poder que tomam as decisões sobre esse tipo de orientação, preferem fechar os olhos para a realidade e enxergar a prática sexual com uma lente moralista.

É fácil ver que o problema não está na prática sexual em si, mas na falta de debate, dinâmicas de poder e abuso nas relações, falta de cuidado com a saúde e principalmente preocupação e cuidado com os parceiros. Todos esses fatores impactam a saúde geral da população de diversas formas, mas em especial a população pobre, negra, indígena e LGBT — estando a população T mais vulnerável às consequências mais devastadoras — que possuem maior dificuldade ao acesso de informações e ferramentas para prevenção.

Imagem: Fevereiro de 2017. Campanha de Carnaval em Santa Catarina. Foto de Paola Fajonni/G1.

Como se prevenir de um estupro? A vulnerabilidade e as estatísticas que preferimos não encarar

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Quando se fala em estupro, a primeira imagem que vem a nossa mente é de um homem estranho abordando uma mulher adulta numa rua escura.

Mas as estatísticas mostram um cenário bem diferente. Além de dados que indicam que a maior parte desses casos de violência (70%) ocorre com pessoas próximas, como familiares ou companheiros, outro dado importante diz respeito a faixa etária: a grande maioria ocorre entre a infância e adolescência (70%). Dados detalhados a respeito desse tipo de violência podem ser encontrados nesse link: Estupro no Brasil, uma radiografia segundo dados da Saúde.

Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, aponta a pesquisa.

Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos. Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. 

Algumas questões que surgem e que precisamos abordar quando falamos dessas estatísticas:

– Se depois de certa idade essa violência diminui porque carregamos ainda o mesmo medo?

– Se as violências acontecem em casa, por que não se fala em “prevenção” dentro dos relacionamentos entre conhecidos?

– E a pergunta mais dolorida: como proteger as crianças e adolescentes?

A proposta desse texto é refletir sobre a última questão.

Primeiro, acho importante refletir sobre a natureza desses abusos. É bom pontuar que ainda que meninas sejam percentualmente mais vulneráveis existe também uma porcentagem significativa de meninos que sofrem abusos. Outro ponto delicado é que uma parte expressiva desses abusos são cometidos por outras crianças e adolescentes mais velhos.

E qual seria a solução? Privar as crianças e adolescentes de contato com outras pessoas? Manter uma vigília eterna?

Além de inviáveis, essas soluções são obviamente prejudiciais à convivência e ao desenvolvimento delas. O que precisamos fazer urgentemente é começar a encarar essa realidade e a desconstruir a cultura do estupro desde a infância. Mas como tratar de um assunto tão delicado com elas? Um caminho viável é começar a trabalhar com a ideia de consentimento desde cedo. Já se fala por exemplo da necessidade de parar de forçar crianças a receberem beijos e abraços de pessoas conhecidas. Crianças precisam aprender a respeitar seus próprios limites e a identificar e denunciar intimidade forçada.

Outro ponto importante é ensiná-las a não fazer o mesmo com as outras. Se a outra criança não quiser brincar/abraçar/beijar ou ainda fazer /receber cócegas então sua vontade deve ser respeitada. Pode parecer bobo, mas quantas vezes já não presenciamos a cena de uma criança puxando a outra para um beijo e abraço e achamos bonitinho? Mais uma vez, não estou defendendo que interações e carinhos devam ser proibidos, mas que desde de criança se ensine a respeitar o espaço pessoal, as vontades próprias e os limites dos outros.

Outro ponto delicado é sobre aprender a ouvir as crianças. Muitos relatos sobre violência são desacreditados, relativizados ou até ignorados nessa fase. Isso traz um impacto avassalador no desenvolvimento delas. Muitas vezes é preciso bastante tempo para elaborar a situação, em alguns casos são necessários anos para isso. Mas algumas crianças apresentam mudanças de comportamento e tentam denunciar de alguma forma e, é a forma com que esses sinais são ou não acolhidos que podem contribuir para aumentar um sentimento de vergonha e culpa, ou até desencadear alguns transtornos psicológicos e físicos. Saiba mais sobre como identificar esses sinais no link: Como identificar sinais de abuso sexual em crianças e adolescentes.

Importante ressaltar que abusos nessa fase não necessariamente vão deixar marcas, e podem muitas vezes não se tratar de um caso isolado. Por isso a observação é importante.

Entre pré-adolescentes e adolescentes outros fatores ainda devem ser observados. É nessa fase que muitas pessoas começam a explorar a própria sexualidade e como buscar intimidade. Nesse momento não apenas a família, como amigos, religião e toda cultura pop vão influenciar as decisões e a forma de encarar essa fase.

É o momento de buscar um debate mais aberto e profundo sobre sexualidade e relacionamentos. Reforçar a importância de reconhecer e respeitar limites, que existem muito mais formas (geralmente mais saudáveis) de se relacionar do que mostram filmes, novelas ou a pornografia. E buscar desconstruir mitos, por exemplo, os relacionados a “natureza masculina” de que eles não conseguem se controlar, que a vontade dos meninos tem que prevalecer ou que só eles gostam de verdade de sexo. Também importante desconstruir a ideia de que são as mulheres que “pedem” ou que a primeira vez necessariamente vai doer.

Claro que existem diversos tabus relacionados à sexualidade, mas enquanto não defendermos e buscarmos formas mais saudáveis de relacionamentos vamos continuar indiretamente contribuindo para que essas violências aconteçam.

Resumindo: se informem, conversem, ouçam, observem as crianças e adolescentes. Mesmo que não se possa evitar que determinadas violências ocorram ainda é possível diminuir o impacto em suas vidas.

[+] O que é estupro? E por que os homens se sentem a vontade para realizá-lo?

[+] Hoje eu quero voltar sozinha: a necessidade de desconstruir mitos sobre a violência contra as mulheres.

Imagem: Museu da Educação e do Brinquedo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Preservativos para gays e heteros, e as lésbicas ficam onde?

Poucos sabem, mas sou aficcionada por animações, desde as do mainstream, portfólios e experimentais. Tanto que quando cheguei em São Paulo durante alguns anos me metia durante 4 dias em julho no Memorial da América Latina para assistir as sessões do Anima Mundi. Tanto que achei o tema deste post acompanhando o Smelly Cat, blog sobre animação.

Sim, pois foi lá que encontrei a animação Sexy Fingers, parte de uma campanha da Ong francesa AIDES com o principal mote de convocar as pessoas sexualmente ativas para fazer o exame de diagnóstico do HIV. Porém não foi exatamente esta campanha que me fez parar para escrever este post, na verdade foi uma série de outras animações sobre o uso da camisinha que também é de iniciativa da mesma Ong.

O primeiro vídeo desta campanha é de 2004 e é sobre um jovem rapaz gay:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=QBqNrc_WDuE&w=480&h=390]

A idéia do vídeo é muito boa, porém não existe uma versão para lésbicas desta campanha, apenas para gays e héteros. Mostrando o quanto é necessário avançar nas discussões, formulações e políticas públicas de saúde para mulheres lésbicas, pois não há preservativos pensados para elas e muitas vezes , anos sem a realização de exames preventivos como o Papa Nicolau e afins.

As lésbicas geralmente se afastam do serviço de saúde por causa da discriminação durante o atendimento, já que os profissionais de saúde ainda não estão preparados para lidar com a sexualidade dessas mulheres. O grupo apresenta dificuldade em assumir a homo ou a bissexualidade para um médico, enfermeiro ou psicólogo. Muitas vezes, o próprio profissional deixa de considerar a diversidade sexual da paciente. (Ministério da Saúde)

A outra versão do vídeo é de 2005 e é sobre uma garota procurando o seu verdadeiro amor:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=UPTkujdOk3I&w=480&h=390]

Novamente é boa a idéia de uma garota sexualmente emancipada que determina a necessidade de usar camisinha com seus parceiros para poder dar prosseguimento ao relacionamento, mas ao mesmo tempo também fetichiza a relação monogâmica, como se não fosse necessário usar camisinha também nestes casos. Bom lembrar que o número de casos de AIDS tem aumentado entre as mulheres casadas.

Mas como disse, o único vídeo sobre a relação da mulher com uma camisinha é sendo hétero e ainda se casando no final e não acho casamento a morte, mas não acredito que todas as histórias de mulheres devam cair neste determinismo besta, você se apaixona, fica um tempão com a pessoa e aí se casa e fica mais uma eternidade. Em nenhum momento nós pensamos em como as lésbicas se protegem e se relacionam, o quanto a comunidade científica não avança de forma significativa para poder garantir a mulher se satisfazer sexualmente seja a forma que for e isto precisa ser pensado nas campanhas de saúde reprodutiva e sexual.

A iniciativa de campanhas como estas sem pudores de dizer que jovens, adultos e velhos trepam e gostam de trepar e precisam se proteger é importante, porém muitas vezes acabam caindo no senso comum da garota que quer casar e é só heterossexual, sem pensar realmente a integralidade da saúde da mulher e os diversos papéis assumidos por nós junta a sociedade e mistificando até mesmo as relações monogâmicas como perfeitas.

É nessas horas que percebemos a necessidade de concatenar os discursos sobre o que é integralidade da saúde da mulher, monogamia e o papel da mulher na sociedade de forma coesa e sem diminuir nenhuma das discussões como se fossem cerejas de bolo.