De novo? Privilégio de orgasmo, sexo casual e prazer feminino

Texto de Lauren Ingram. Publicado originalmente com o título: “Come Again? Orgasm privilege, casual sex, and female pleasure”, no site Medium em 11/10/2016. Tradução de Iara Paiva para as Blogueiras Feministas.

Nota da autora: Este artigo trata quase exclusivamente da vivência de mulheres cis, heterossexuais e suas experiências com orgasmos. Ainda que discuta vaginas, em nenhuma circunstância genitais determinam o sexo.

Nota da tradutora: o texto original apresenta, desde o título, diversos trocadilhos com a palavra “come” em inglês, que pode ser traduzida como “vir” e “gozar”.


Quando dizemos as palavras “orgasmo” e “privilégio” na mesma frase, o que vem na mente da maioria das pessoas é o privilégio que homens têm durante as relações sexuais: a capacidade de “espalhar sua semente” a maior parte das vezes, e o foco que nossa cultura dá ao prazer masculino sobre o prazer feminino.

Mas olhem só: eu tenho privilégio de gozar.

(Hashtag Ostentação).

Em um mundo onde muitas mulheres acham que orgasmos são uma ilusão, eles são uma ocorrência comum para mim, sozinha ou acompanhada, mesmo que meu parceiro na cama não se esforce muito. Posso contar nos dedos quantas vezes uma relação sexual na minha vida adulta não resultou em orgasmo, a maioria delas porque eu estava muito bêbada na ocasião. As relações sexuais consensuais e os orgasmos decorrentes delas sempre foram experiências extremamente prazerosas pelas quais eu já ansiava e apreciava de várias maneiras desde que era adolescente.

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Sobre aliadas/os e #AgoraÉQueSãoElas

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

Um componente fundamental da formação dos movimentos sociais e da luta política por direitos de grupos vulneráveis é a experiência, a vivência dos sujeitos que estão em posição de vulnerabilidade levando em conta dado (ou vários) marcador social de identidade/diferença.

tagcloud_aliadosIsso não significa que esses espaços só possam ser preenchidos por quem possui essa ou aquela experiência, ou que eu use como critério a ideia de pessoas que podem ou não ser “protagonistas” de um movimento.

Isso porque, no primeiro caso, é importante que aqueles que ocupam a posição contrária — a do privilégio — estejam abertos pra ouvir e contribuir com a luta e, que a posição de privilégio seja em si colocada em questão e não tratada de modo neutro.

No segundo caso, por um motivo mais banal e pessoal, por me parecer que eu, mulher-cis-branca-hetero-semdeficiência-classe média, só posso me dizer, com certa segurança, protagonista da minha própria narrativa e experiência. I am not every woman e ainda que tenhamos algumas experiências partilhadas, universalizações também criam novas ou reforçam velhas opressões.

Mas, nessa história toda, tem um termo que me agrada muito: aliada(o). Nós que vivemos situações de privilégio podemos ser aliadas de outras lutas. Você privilegiado pode ser aliado do movimento feminista.

E o que é ser um “bom aliado”? Eu sei lá responder, sei só fazer algumas apostas que talvez se resumam a: esteja preparado pra sair da neutralidade, problematizar a si mesmo e ser problematizado, ser criticado e para COLOCAR A CARA À TAPA.

Se você pode cogitar escolher sair da luta, abandonar a brincadeira e deixar o parquinho, saiba: ter essa escolha ou poder fazer essa escolha sem consequências para a sua vida, direitos ou experiência pessoal é parte da sua condição de privilégio. Militantes feministas, transfeministas, do movimento LGBT, do movimento negro, do movimento anti-capacitista não tem essa escolha ou ao menos dificilmente a possuem e realizam sem consequências.

Se você pode, antes mesmo de entrar pra luta como aliado(a), pensar em avaliar “como lutar” ou “qual a melhor forma de fazer isso livre de crítica” ou “não sei se entro porque já estão criticando essa ou aquela forma de fazer”, saiba que essa possibilidade prévia de avaliação e escolha é também parte do seu privilégio.

Se, antes mesmo de entrar na briga, você entra para o debate apenas para discutir as críticas dos movimentos a(o)s aliada(o)s, não se assuste se um tapete vermelho não lhe for estendido ou se sua participação não for considerada importante. Aliado que só quer fazer papel de OMBUDSMAN não serve mesmo pra muita coisa.

Se você entrou, mas a qualquer crítica você reage com “assim fica complicado, vocês não querem nossa ajuda, como podemos militar com vocês desse jeito”, não se assuste se te incentivarem a ir embora do parquinho e largar a brincadeira. Afinal, aquele/as que vivenciam a opressão estão TODOS OS DIAS ouvindo críticas, ofensas e sofrendo violência — “mulher é tudo vagabunda, feminista é tudo vitimista, o movimento negro é revanchista, tudo bem ser LGBT mas não precisa ser afeminado”. Aliado que não quer colocar a cara à tapa não serve mesmo de muita coisa.

Se antes de entrar você precisa perguntar “mas como é que faz? Como eu luto? Podem me ensinar?”, seu privilégio está gritando. O vulnerável raramente sai com essa vantagem: entra cru, verde e com “discurso DCE” mesmo, porque tem muito a perder se ficar sentado esperando uma professora.

Isso tudo pra dizer que: eu não sou muito entusiasta da nova campanha, mas estou achando interessante o espaço criado. MAS se você usar isso como carteirada, pode saber, meu amigo: no parquinho do movimento feminista, nós vamos te olhar com cara feia SIM.

Esse texto foi publicado originalmente no meu perfil pessoal do Facebook em 04/11/2015.

O falso feminismo interseccional ou o que importa é representar

Texto de Naila Chaves para as Blogueiras Feministas.

Desde quando o conceito de interseccionalidade foi difundindo pelos espaços feministas, muita coisa vem sendo (re)pensada. A existência de múltiplas formas de subordinação em um único corpo feminino fez com que repensássemos a ideia de mulher como categoria homogênea. Questões de raça, classe, sexualidade, etnia e corporalidades não hegemônicas foram sendo incorporadas nos debates feministas, que há pouco tempo restringiam-se aos problemas enfrentados pela mulher branca, magra e de classe média. Obviamente, essa visibilidade seria muito profícua e benéfica se houvesse uma real preocupação com a incorporação destas pautas de forma central. Seria. Mas não é assim que tem funcionado.

Meu objetivo com esse texto não é problematizar as discussões que tem sido travadas, muito menos menosprezar a importância deste tipo de debate, ainda que ele seja composto majoritariamente por mulheres privilegiadas. A questão aqui é fazer uma reflexão sobre os usos errôneos de alguns discursos que envolvem representação de algumas pautas, mas que nem de longe chegam a ser uma preocupação central da militância daquele grupo cotidianamente.

Foto de George A. Spiva Center for the Arts no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de George A. Spiva Center for the Arts no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Vou aqui citar dois exemplos: pense num grupo composto majoritariamente por mulheres brancas, de classe média, heterossexuais e magras e minoritariamente por algumas mulheres que reúnem em si mais características que as tornam vulneráveis a outras opressões, para além daquelas enfrentadas por pertencerem ao gênero feminino. Esse grupo cotidianamente debate e mantém ações muito importantes, mas voltadas para as pautas daquelas mulheres que estão em peso na composição do grupo. Nada de errado nisto, até chegar o dia 25 de julho – para quem não sabe, Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha – e esse mesmo grupo que jamais ousou debater cotidianamente ou incorporar o debate racial como um projeto central, resolve fazer uma nota pública publicizando seu apoio às mulheres negras, passando a imagem de ser um grupo que se coloca a frente contra a discriminação racial. Ou ainda, no dia nacional contra o genocídio da população negra, esse mesmo grupo se autodenomina combater essa prática.

E novamente aqui: isso realmente seria muito benéfico, se houvesse mesmo a incorporação destas pautas cotidianamente e não apenas como um adereço para o grupo, nos dias representativos destas outras lutas. Quero chamar a atenção para o significado de dizer representar uma luta que nas práticas cotidianas, não se representa.  A luta contra a discriminação racial, por exemplo — e estou falando mais nas questões raciais porque sou negra e quero respeitar uma coisa que se chama local de fala — é uma luta séria, que já envolve múltiplos grupos de fato negros e que estão comprometidos com estes projetos por causas que vão muito além de um simples apoio ou uma necessidade de representação supérflua: estão comprometidos por questões de sobrevivência.

Então, se você faz parte de um grupo feminista onde o foco para algumas opressões que vão além do gênero feminino hegemônico só chegam a ser visibilizadas em datas representativas ou após eventos que publicizem estas questões, provavelmente estas outras opressões não estão na agenda cotidiana porque não representam de fato questões de sobrevivência para aquelas mulheres que ali estão, ao menos na composição majoritária do grupo.

Isso não quer dizer que este grupo não deva protagonizar nenhum debate sobre o assunto, mas ao invés de se posicionar publicamente contra essas outras facetas opressoras, por que não fazer destas datas um motivo para (re)pensar fatores internos em relação ao grupo que o faz manter um feminismo hegemônico? Por que não fazer da data de 25 de julho, por exemplo, um evento para que você, feminista branca, reflita sobre os motivos pelos quais o grupo que você participa é composto majoritariamente por outras iguais você?

É muito difícil escancarar estas questões pessoalmente, mas meu texto é um apelo para que o feminismo tenha responsabilidade com as pautas que diz representar. A representação é sim muito importante para alguns grupos, mas a simples representação sem uma real preocupação com os motivos pelos quais aquilo precisa ser representado e incorporado nas pautas cotidianamente e não apenas em datas esporádicas, nada mais é do que praticar um falso feminismo interseccional, em que o que importa é a utilização de mulheres negras, gordas, pobres, lésbicas e bissexuais, trans ou com deficiência como cartas na manga para poder dizer que o seu feminismo não é hegemônico.

(Re)pensemos! Mas, desta vez, (re)pensemos de fato!

Autora

Naila Chaves é mestranda em Direito pelo UnB e formada em Direito pela UNESP. Atualmente estuda raça e gênero como tema de pesquisa e compõe coletivos negros e feministas em Brasília, onde vive.