Inclusão de gênero na ciência: o projeto Meninas no Museu de Astronomia e Ciências Afins

Texto de Sandra Benítez Herrera para as Blogueiras Feministas.

O projeto Meninas no Museu de Astronomia e Ciências Afins (desde agora referenciado como Meninas no Museu), é uma ação de divulgação da ciência voltada para estudantes do Ensino Médio do sexo feminino – sete, nesta primeira edição – com o intuito de motivá-las a se interessarem pela ciência e prepará-las para serem mediadoras em museus de ciência. O projeto faz uso da Astronomia, como ferramenta inspiradora, visando envolver as estudantes em atividades de pesquisa e divulgação em ciências no Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). De igual forma, o projeto pretende facilitar o acesso a modelos de referência colocando as jovens em contato com mulheres pesquisadoras em várias áreas científicas, com o intuito de desconstruir a noção estereotipada do cientista.

O projeto começou em julho de 2016 e foi estruturado em três momentos diferenciados. Os primeiros seis meses, de julho a dezembro de 2016, consistiu em uma formação continuada em diferentes temas de Astronomia e outras ciências. Durante os encontros de formação abordaram-se também temas relacionados a gênero, educação em museus e a prática de mediação em exposições e atividades de divulgação da ciência.

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Nós Madalenas: uma palavra pelo feminismo

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Nós Madalenas é um projeto fotográfico com 100 retratos em preto e branco, naturais e sem edição em photoshop com o intuito de quebrar o padrão estético criado e imposto pela mídia. A proposta é pensar a beleza por meio de mulheres reais e únicas que se identificam como feministas.

Atualmente, o projeto busca financiamento coletivo para a publicação de um livro. O valor dessa obra está atrelado ao espaço que conquista, à quantidade de pessoas que tiverem acesso a esse material e forem levadas a uma reflexão acerca do tema. Portanto, registrar esse projeto em livro é uma forma de espalhar essa mensagem e alcançar um número cada vez maior de pessoas.

Você pode ajudar doando a partir de R$15 com boleto, cartão de crédito ou débito em conta por meio do site Benfeitoria, apoiando o projeto Nós Madalenas.

Imagem do projeto 'Nós Madalenas'. Para apoiar o lançamento do livro financeiramente basta ir ao site Benfeitoria - Nós Madalenas.
Imagem do projeto ‘Nós Madalenas’. Para apoiar o lançamento do livro financeiramente basta ir ao site Benfeitoria – Nós Madalenas.

Para saber mais, conversamos com Maria Ribeiro, fotógrafa responsável pelo projeto:

1. Por que trabalhar com palavras escritas no corpo em forma de protesto?

As palavras são uma forma de expressar a vivência pessoal de cada uma das participantes. Expressando uma palavra que representa o feminismo para ela, cada uma está compartilhando uma parte de sua história, a qual reflete muitas outras histórias, trazendo assim um “raio x” de toda uma situação de gênero na nossa sociedade.

Palavras como “acolhimento”, “poder”, “empoderamento”, “luta” expressam o que essas mulheres encontraram no feminismo e que muitas vezes transformou sua visão de mundo e sua própria vida. Mulheres começaram a se libertar das imposições sociais, das cobranças desmedidas e passaram a se amar e se aceitar de forma muito mais profunda.

Um outro aspecto do projeto que é questionador é a estética do mesmo. Eu sou fotógrafa e, além do projeto, faço ensaios femininos. A minha forma de trabalho é artística e naturalista, ou seja, não há photoshop, não há um processo de pós-produção para encaixar a mulher dentro de padrões irreais de estética que estão em voga na mídia. E eu trouxe essa linguagem para o “Nós, Madalenas” ou seja, tudo que é considerado como “imperfeição” é mostrado da forma mais natural possível: estrias, celulites, cicatrizes, formas, tudo é feito para mostrar que as mulheres são reais, e cada uma traz a sua própria beleza. Para mim é muito importante que haja imagens circulando que mostrem isso, pois o que eu mais vejo são mulheres sofrendo e deixando de se amar porque estão buscando um ideal de beleza impossível de ser alcançado, por ser totalmente irreal.

2. Quais os critérios pra definir a participação no projeto?

Não há uma seleção ou critérios, basta a mulher ser feminista e escolher uma palavra inédita para seu retrato. Foram feitos 100 retratos de mulheres de todas as idades, corpos, cores e vivências.

3. Como se dá o processo de realização da fotografia? Fale um pouco do comportamento e reação das mulheres participantes.

Cada participante é um caso diferente e cabe a mim ter tato e empatia para lidar com cada uma da forma que ela se sinta o mais confortável possível. Isso não é uma tarefa fácil, porque são pessoas que eu nunca vi na vida, que nunca me viram e eu tenho ali alguns minutos para fazer com que elas confiem em mim o suficiente para se abrirem e fazerem uma foto que transmita uma mensagem.

Pra elas também é um desafio pois são mulheres que não estão acostumadas a serem fotografadas (e a tensão que vem com uma lente apontada pra você não é fácil de lidar) e é uma experiência forte porque a foto traz um pouco da história dela, ela está realmente abrindo muito dela mesma.

Então, a gente começa com um papo, relaxa o corpo, vamos pro estúdio, fazemos alguns testes e aí que começa o processo de buscar naquela pessoa o retrato que simboliza aquela mensagem. Geralmente existe um minuto em que fotógrafo e fotografado se conectam e é naquela segundo que sai a foto. Parece que por uma fração de tempo aquela pessoa não está ali como modelo, não está tensa, não está auto- consciente, ela simplesmente se abre, e é aí que temos que pegar a foto. É um momento mágico que demanda habilidade e tato para ser atingido, mas é extremamente gratificante.

4. Como foi a repercussão das primeiras fotos publicadas?

O projeto começou pequeno e com algumas amigas. Fizemos um Tumblr para nós mesmas e não tinha divulgação. Mas as amigas fizeram, outras amigas quiseram fazer, aí as amigas das amigas também queriam e aí o projeto foi crescendo. Sem eu mesma saber ele começou a ser publicado em algumas plataformas virtuais e redes sociais e a repercussão foi bem grande. A partir desse ponto é que o projeto cresceu bastante e novas metas foram surgindo.

5. Como o livro pode expandir o projeto?

Primeiramente o livro vai trazer não apenas os 100 retratos feitos ao longo de um ano, mas também um relato de cada fotografada. O meu contato com todas essas mulheres me fez conhecer muitas de suas histórias, que são um material rico e envolvente e eu senti a necessidade de compartilhar isso também. E foi aí que surgiu a ideia do livro.

Além disso um material publicado é muito expressivo, ele traz uma marca e um sentimento de conclusão para o projeto, pelo menos de uma primeira fase dele. Como disse, considero muito importante encher essa mídia de imagens de mulheres reais, mostrar que o natural é belo e que não é preciso estar dentro dos padrões impostos pela mídia tradicional para ser bonita. Quero que as mulheres se amem e amem seu corpo independente da aprovação alheia.

E quero trazer o tema do feminismo e do seu impacto da vida das mulheres a tona, quero gerar discussão sobre o tema, gerar reflexão, quero que a questão de gênero se torne pauta cada vez mais presente em todos os ambientes pois é um tema que ainda precisa de muito trabalho de conscientização, tanto para homens quanto para mulheres.

E aí, vamos apoiar o projeto Nós Madalenas? Nós apoiamos!

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Vídeo: Nós Madalenas – Uma palavra pelo feminismo

Regularizar a prostituição para quem?

Texto de Caroline Bernardo.

Projeto de Lei Gabriela Leite – Parte I*

O tema da minha monografia é exatamente a analise deste projeto de lei, suas aplicações, traçando um parâmetro de condições dignas de trabalho, sexualidade liberdade e autonomia. Enfim, pretendo sintetizar em alguns textos, aqui no Bloguerias Feministas, minha visão geral sobre o pl e a regularização da prostituição, de antemão acho importante frisar que não possuo uma opinião fechada, alias tentarei ao máximo não pender para nenhum lado da moeda, minha vontade é apenas externalizar meus questionamentos internos. Outro importante esclarecimento é que somente os últimos textos terão uma linha teórica feminista, nos anteriores tentarei buscar o lado mais justo e igualitário para o trabalho dxs prostitutxs.

Por ensejo do Projeto de Lei 4.211/12 de autoria do Deputado Jean Willys, que pretende entrar em vigor antes da copa do mundo – para a copa do mundo. O debate em torno do PL tem sido simplificado em ser contra ou a favor da regularização da prostituição, apesar disso tenho encontrado consonância entre esses argumentos tão distintos.

Baseada em uma conclusão empírica podemos observar que os seis artigos do projeto não tem condições de gerar trabalho decente para xs prostitutxs. Segundo a Organização Internacional do Trabalho – OIT trabalho decente seria “aquele desenvolvido em ocupação produtiva, justamente remunerada e que se exerce em condições de liberdade, equidade, seguridade e respeito à dignidade da pessoa humana”.

Destarte, não tenho conhecimento de nenhum texto/debate favorável ao PL que acredite/defenda que os seis artigos do projeto de lei vão gerar condições de trabalho decente. Todas as publicações que tenho visto, ou no seu teor ou nos comentários, abordam que ele trará benefícios, mas, que ainda não será o suficiente para garantir todos os direitos.

Uma boa perspectiva para fazer esse debate é a perspectiva de classe, na luta histórica dos movimentos sociais, que não é desatrelada da luta histórica por direitos humanos e por direitos iguais, nunca se abriu mão de direitos, direito conquistado não pode ser retirado, não existe pauta de mitigação de direitos ou de negociação de direitos.

Crédito da Imagem: Alice Matos no Flickr, em Creative Commons.
Crédito da Imagem: Alice Matos no Flickr, em Creative Commons.

Desta forma, não podemos dispor sobre direitos fundamentais de ninguém, então a PL 4.211/12 reconhecidamente, não trará as medidas necessárias para garantia do trabalho dxs prostitutxs, ou pelo menos todos parecem concordar com esse raciocínio tautológico.

Se for fato que os artigos dessa lei não geram condições mínimas de trabalho, podemos refletir sobre algumas questões: A quem beneficia essa lei? Será que é para xs trabalhadorxs ou para o mercado? Ou para xs turistas dos grandes eventos?

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Caroline Bernardo é estudante de Direito da UFPA.