Os estupros são coletivos, mas a sociedade não se sente responsável

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Esse mês este blog fez 6 anos. Fui olhar rapidamente os textos que publicamos esse ano. Publicamos muito sobre violência contra a mulher, e desde 2012, temos publicado vários textos sobre estupros coletivos. Uma realidade que sabíamos existir, mas que parece ter sido descoberta recentemente pela mídia devido a quantidade de casos que foram noticiados nos últimos tempos no Brasil e no mundo.

Para a maioria das mulheres não é fácil ler, nem mesmo pensar sobre casos de estupro. Muitas vezes nos perguntamos porque nem mesmo amigas feministas estão divulgando o “caso de estupro coletivo do mês”. E a resposta é que muitas não tem mais estômago para ir além das manchetes. E, nesse momento, falo de mulheres que nunca foram estupradas. Não me atrevo a tentar imaginar como se sentem as muitas mulheres que viveram — ou que ainda vivem — essa realidade violenta e brutal.

Se falamos tanto sobre estupros, por que essa ainda é uma violência tão próxima de tantas mulheres? Por que a violência sexual ainda é minimizada? Por que as pessoas ainda culpabilizam a vítima? Podemos resumir tudo em machismo, mas sabemos que não é só isso. Também nos perguntamos, desde o ano passado, o que leva milhares às ruas na Argentina e em outros países da América Latina? O que falta para que as pessoas no Brasil se indignem da mesma forma?

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A primavera secundarista será toda feminista!

Texto de Marcielly Moresco para as Blogueiras Feministas.

As adolescentes que ocupam as escolas estaduais do Paraná renovam o feminismo e avisam que sem igualdade de gênero não há democracia, nem resistência, nem luta.

Todo dia tem escola sendo ocupada no Estado, já são mais de 800 escolas, além de algumas universidades e núcleos de educação, segundo o site oficial do #OcupaParaná. Nas ocupações, o que eram para ser palestras-aula sobre feminismo, gênero, empoderamento, diversidade sexual e questões étnico-raciais se tornam, muito mais, rodas de conversas e trocas.

Assim como as ocupações de 2015 que começaram em São Paulo, as desse ano também são protagonizadas, sobretudo, por meninas e LGBTIs; e a maioria delas se intitulam feministas.

Em quase todas as ocupações, as meninas assumem a função de “líderes” ou “organizadoras”, falam com a mídia e com a comunidade escolar, organizam as comissões para limpeza, segurança, alimentação, comunicação e saúde, assumem o discurso nas assembleias e reuniões. Muitas vezes, esse protagonismo acaba acontecendo de forma muito natural quando a opressão e o machismo já são presentes no cotidiano escolar e durante o próprio processo decisório para ocupar.

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A página da história que as brasileiras estão escrevendo

Texto de Adriane Rampazzo para as Blogueiras Feministas.

Há 8 meses acompanho, de longe, a efervescência do Brasil. Se é verdade que de longe se consegue ver e perceber melhor a vida de todos os dias, tanto melhor quando o observador, ainda que geograficamente distante, continua muito próximo – e talvez mais do que antes – do seu pequeno universo.

De tudo que vi acontecer até agora, o que mais tem me chamado atenção – e alegrado muito, é bem verdade! – tem sido a ampliação dos debates “feministas” (e as aspas aqui me socorrem da necessidade de, nesse momento, discorrer sobre conceitos e ou teorias, ao que não me pretendo). Brasil afora, nos últimos meses, pulularam discussões que perpassaram pela recorrente tentativa de culpabilização da mulher, como meio para legitimar a violência de gênero, como no caso do vídeo amplamente divulgado em que um marido agride a mulher ao flagrá-la saindo de um motel com outro homem, pela denúncia de abusos através da #meuamigosecreto, pela polêmica ‘do shortinho’ em Porto Alegre até as recentes manifestações em apoio à adolescente carioca vítima desta ignomínia que é o estupro, terrivelmente agravado em seu modus faciendi coletivo.

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