Deleuze e a psicanálise

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

Ser feminista, isto é, me envolver na prática feminista e me declarar feminista para todo mundo, foi de extrema importância para minha vida. Muitas coisas que tinha dúvidas, viraram certezas e outras que não fazia ideia do que acontecia, se colocaram como questão para mim. Como exemplo disso, sempre pensei no quanto as mulheres sofrem algum tipo de opressão, quando virei feminista tudo fez sentido: sim, as mulheres são oprimidas. No meio dessa aprendizagem também descobri que mulher não é uma só, não é um sujeito único e portanto, as opressões são das mais variadas. Não estamos falando apenas de machismo, mas de tantas outras estruturas, como o racismo por exemplo, que agride de forma cruel milhares de mulheres.

No meio dessa descoberta, também percebi que tinha questões em mim, violências que sofri e que não me dei conta de sua gravidade, sejam psicológicas, físicas, cantadas na rua ou mesmo aquele julgamento secreto feito por um amigo. Essas violências que passei, tantas outras mulheres passam também de uma forma diferente, acredito.

Muitas vezes usei o espaço do feminismo para falar dessas situações, para tentar de alguma forma passar por cima disso, esquecer e melhorar. Sem dúvida o espaço de acolhimento de muitas feministas foi importante para que pudesse seguir, mas não foi definitivo para que pudesse lidar sozinha com minhas próprias questões. E nisso tudo, procurar um analista da linha psicanalítica e iniciar meu processo de análise foi crucial para que entendesse que sim, as mulheres sofrem violências, mas como vamos lidar com isso, como vamos continuar vivendo com nossas dores, amores, desejos.

A análise foi importante para entender o quanto o feminismo é importante para me dar voz, mas não para me “curar”. Tal cura não é feita nem pelo analista, nem pelas feministas, mas por mim mesma diante do vazio que dá lugar na análise. Essas questões me fizeram perceber que não devo fazer um feminismo pessoal, que escolhe os meus próprios traumas para levantar uma suposta bandeira feminista para todas. Veja, são os meus traumas, as minhas questões, como posso fazer disso uma bandeira para todas? Quando entrei no curso de psicologia amava a psicanálise. Depois odiei, amei, odiei, amei… Esse saber que tantas vezes me colocou em dúvida, foi de grande importância não só para minha vida profissional e pessoal, mas também para meu ativismo feminista.

Capa do livro 'Deleuze e a Psicanálise', Editora Record.
Capa do livro ‘Deleuze e a Psicanálise’, Editora Civilização Brasileira.

A psicanálise tem problemas? Claro. Assim como qualquer saber que se coloca em rotineira (des)construção, como o feminismo, por exemplo. Acontece que eu, assim como outras colegas psicanalistas nos colocamos nesse lugar de (des)construção da psicanálise e do feminismo, para tentar lidar com esses dois saberes, para tentar conversar, criticar, debater, aprender e questionar.

E assim, trago a resenha do livro “Deleuze e a Psicanálise” de Monique David-Ménard, professora de psicopatologia e psicanálise na Université Paris-Diderot. Monique também é filiada à Rede Internacional de mulheres filósofas da Unesco. É importante destacar que ela é reconhecida por seu trabalho nas áreas de gênero e sexualidade.

O livro trata sobre como a filosofia de Gilles Deleuze poderia ajudar o analista. Para tanto, Ménard conta um caso que atendeu de uma paciente psicótica e trata sobre as relações de transferência e as questões que ela teve enquanto atendia essa paciente. E comenta que:

“Consequentemente, a audácia filosófica de pensar não pode servir como regulador para dizer o que acontece entre um “louco” ou uma “louca”, e um(a) analista, já que isso suporia resolvido ou inútil o que faz com que o primeiro se arrisque a vir ser o segundo. Em compensação, pode ser agradável, delicioso e ao mesmo tempo angustiante, para o analista, ler filosofia na perspectiva definida: a evitação em ato de loucura, que conserva a lembrança desse risco conjurado.” (pg.27)

Depois, a autora trata da clínica e filosofia, analisando as críticas de Deleuze contra a psicanálise. Nesse sentido, a autora traz questões importantes para fazer um “debate”. Para tanto, Ménard também traz a frase de Lacan: “Falta-a-Ser”; e de Deleuze: “ao Desejo Nada Falta”; e entra na discussão sobre o falo na psicanálise. Sobre a “diferença sexual” pensada pela psicanálise, a autora fala que:

“O falo está longe de poder servir de norma para tornar pensável tal diferença, todos os raciocínios fantasiosos que as crianças desenvolvem a respeito dele dão testemunho  – e isso é decisivo – da persistência de um problema que não tem solução. O que nos traz de voltar para bem perto de Deleuze.” (pg. 52)

Na conclusão do livro, a autora fala um pouco sobre o lugar da filosofia na psicanálise e relembra uma certa aproximação entre Freud e Kant. Ménard finaliza falando sobre a contribuição de Deleuze para o pensamento e sobre a concepção de transferência na psicanálise.

“Sob essa condição, o encontro genia, concebido por Deleuze, entre a relativa impessoalidade do fantasma (“Espanca-se uma criança”, “lobos-olhar-ele”, etc) e a filosofia estoica do acontecimento como incorporal (o acontecimento se libera dos estados de coisas como a fumaça do incêndio), poderia muito bem levar a uma nova concepção da transferência, no dispositivo inventando pela psicanálise.” (pg. 264)

Sorteio – Atualizado em 08/07/2015

Temos um exemplar do livro “Deleuze e a Psicanálise” para sortear entre nossos leitores. Confira a lista de concorrentes. O ganhador foi definido pelo primeiro número sorteado na mega-sena de 07/07/2015, Concurso 1720: Número 18, Telmo. Entraremos em contato para o envio do livro.

Por amor a Freud

Para que haja análise, é preciso que se evoque o amor. Mas o amor é da ordem do real, é o impossível de se dizer. Já que dele não conseguimos dizer, dele não paramos de falar. Ou de marcar no e com o corpo, o discurso amoroso. Foi esse o mapa que Freud seguiu. O que não se podia dizer em palavras, ele insistiu em ouvir. É uma relação de amor, a análise. O que se constrói é um discurso de amor que, aliás, não se faz apenas de belos gestos e palavras boas mas compreende as ações odiosas e a estupidez no dito.

Porque se faz análise? Uma psicanálise não cura, diz Freud. Não explica, apesar do senso comum. Não resolve problemas. Não nos diz quem nós somos. Não nos torna pessoas melhores. Porquê, então? Para quê? Dizia o seu controverso “inventor”, entre uma baforada e um conflito pessoal: “É que ela fornece o fio que conduz o homem para fora do labirinto”. E, deixa, com uma paradinha marota, tudo em aberto: ter o fio não nos garante achar a saída.

É essa trajetória de amor, impossível de dizer, mas que se faz concreto nos dias de um analisando, que nos apresenta Hilda Doolittle no seu “Por Amor a Freud” (Zahar Editora, 2012). Hilda Doolittle fez dois pequenos períodos de análise com Freud entre 1933 e 1934. O livro se faz em 275 páginas de uma espécie de mosaico com elementos diferentes que dão sentido um ao outro e, ao mesmo tempo, se apresentam como linguagem única e específica: o prefácio escrito por Elisabeth Roudinesco, fotos, uma compilação dos diários mantidos por ela durante a análise, uma narrativa esteticamente elaborada do mesmo período e parte da correspondência mantida entre Hilda e Freud e entre Hilda e Bryher (sua amante).

O prefácio da Roudinesco é instigante e envolvente, apresentando dados históricos e biográficos que subsidiam a leitura do texto de Hilda e discutindo alguns parâmetros da teoria psicanalítica sobre a sexualidade.

Há fotos, que bom que há. São poucas, mas dão rosto e materialidade à Hilda, sujeito do livro, da análise, do discurso de amor. Também há fotos dos que ajudaram a fazer de Hilda quem ela foi: sua mãe, pai, sua filha, do marido, da amante, do amante, dos amigos. Um painel curto, mas relevante que ajuda a situar o que foi vivido e é apresentado no livro.

“Advento” é o diário de uma análise. Encontra-se, ali, o sofrimento, a surpresa, a angústia e o esforço presentes no trabalho de desvendar e re-organizar sintomas, afetos, gozos. É um relato fascinado de quem percorre-se. Não é, a princípio, pra ser entendido. Não é um relato que explica. É um convite pra percorrer as associações, os recuos. As denegações, o conteúdo latente, a dinâmica de funcionamento mental inconsciente. E o enlevo e doer que há nesse processo.

“Escrito na parede”, redigido em Londres em 1944, é uma reconstituição, estilizada, do período de análise. Com foco na memória, apresenta-se como uma prosa poética, com elementos que fazem lembrar o desenrolar não linear das associações livres, o ritmo e estilo do discurso peculiar do processo analítico.

Sigmund Freud fotografado em seu escritório, 1938. Foto: AP Photo/Sigmund Freud Museum.

A correspondência não apresenta muitas situações novas ou revelações surpreendentes, mas tem aquele gostinho de estar espiando a intimidade de outra pessoa, especialmente quando a “outra pessoa” há muito pende mais para mito que pra cotidiano. Essa parte do livro também traz muitas notas explicativas, alguns podem achar que as interrupções fazem o texto tornar-se cansativo, mas eu considero útil e saboroso deparar-me com informações peculiares.

“Por Amor a Freud” não é exatamente um livro de psicanálise e certamente não é um livro sobre a psicanálise. Se alguém for lê-lo para saber como Freud conduzia uma análise, porque as pessoas procuram a análise ou como é o manejo da técnica, vai se sentir frustrado. O livro não se propõe a ser um registro minucioso do trabalho de Freud. A autora não explica a sua demanda de análise, não descreve seus sintomas, não apresenta com detalhes o que Freud dizia ou fazia como condução do processo e nem o que disto resultou.

“Por Amor a Freud” é, parece-me, o registro de uma memória reverente e afetuosa de um tempo de trabalho conjunto. Ele nos proporciona encontrar um Freud distante da figura meio mítica e um pouco fria (ou demasiado sábia, ou enormemente charlatã, usualmente a ele atribuída) de “Pai da Psicanálise” e nos apresenta um profissional interessado e disponível que acolhe as demandas de análise e/ou formação com respeito e cuidado.

Talvez o meu olhar seja demasiado condescendente pela ligação que tenho com o tema e, mais especificamente, com Freud. Mas gostei bastante do fato do livro oferecer, especialmente na forma com ao escrita se apresenta em “Escrito na Parede”, vislumbres da experiência de descoberta do inconsciente. Creio que, pra mim, o mais interessante, não foi “o quê” a autora escreveu, mas o “como”. Na trajetória que se acompanha no livro, estão lá: o prazer e resistência de ligar com os conteúdos inconscientes, a forma não-convencional de relação instituída pela “comunicação” via associação livre, lembranças e jogos de palavras.

Não é o melhor livro que já li sobre um processo analítico, ou sobre a relação com as pessoas de referência na psicanálise, “A Morte de Um Herói Intelectual” da mesma Zahar Editora (1983), é mais complexo teoricamente e igualmente fascinante no que se refere aos aspectos de interação analista-analisando. Mas “Por Amor a Freud” é um livro cativante, bem escrito e terno.

Referência: Por amor a Freud de Hilda Doolittle. Tradução de Pedro Maia. Editora Zahar.

O Amor, esse romântico.

Texto de Bia Cardoso e Luciana Nepomuceno.

Imagem de Stephen Pott, no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Olhe para seu lado, veja as propagandas na rua, os comerciais de tv, as músicas que fazem sucesso, o choro dos seus amig@s com coração partido, os conselhos de pessoas sobre casamento, os livros de auto-ajuda, os filmes hollywoodianos. Ele está presente em todos os lugares, até na embalagem da paçoca. O amor romântico é um dos nossos maiores fenômenos de massa. Todos querem amar ardentemente. Corações vermelhos explodem neste mês de junho e ninguém escapa de panfletos com promoção do dia dos namorados. Mas e aí? Todo mundo tem que encontrar a metade da laranja para ser feliz? Até que ponto o conceito do amor romântico limita nossas formas de amar e de sermos amados? Será ele a única forma de amor possível?

Convidei a Luciana Borboleta para escrever este post comigo. Nossa intenção não é em nenhum momento condenar o amor romântico à morte lenta e dolorosa ou dizer que o casamento é simplesmente uma prisão. Queremos questionar os ideais que estruturam o amor romântico e como, principalmente, as mulheres sofrem com tantas promessas idílicas. Não julgamos o amor e nem as pessoas, mas gostamos de conversar com ele e com você.

Só é possível amar uma pessoa?

De acordo com os preceitos do amor das love songs e comédias românticas, sim. Só posso amar uma pessoa, só posso me relacionar com essa pessoa, só devo sentir tesão por essa pessoa, devemos viver nesse vínculo em que dois se tornam um. Mas para que tanta unicidade? Porque o amor deve ser apenas único, mágico e especial? O amor romântico vendido em toda sociedade ocidental é um mito. Um produto da imaginação coletiva, sem desenvolvimento científico ou racional e que para nós é profundamente real. Sentimos esse amor e todas as suas consequências, como o ciúme. Note que o amor romântico é extremamente dependente e exclusivo, colocando cercas em nossos sentimentos e emoções. E apontando uma série de regras que estruturam relacionamentos tradicionais e conservadores, muitas vezes machistas. O amor romântico é aperfeiçoado, recontado e redimensionado com o passar dos anos, fortalecendo cada vez mais seu significado coletivo.

Freud, constatou no amor um espaço relevante e valioso de vínculos entre os humanos, mas registrou que no caminho do amor, a felicidade é experiência difícil. O discurso que coloca o vínculo amoroso como crucial para a experiência de felicidade tende a produzir frustração e sofrimento. Sabe-se que o amor é um engano, seu encontro revelar-se-á faltoso inevitavelmente. Porque procuramos no que amamos o que nos falta. E o que nos falta não existe. Não há nada que nos pudesse completar e, ainda assim, insistimos. E vivemos o amor, mesmo que por espaços datados de tempo, com um absoluto sentimento de certeza. Idealizamos o enlace com nosso objeto de amor de forma tal que a vida nos parece um breve intervalo entre delirantes idílios sexuais quando, a bem da verdade, o sexo é que é um rompante temporário numa sucessão de instantes que nos ocupam. O amor, que deveria nos levar ao paraíso segundo o discurso amoroso que se repete ad nauseam na mídia, insiste em ser caminho de desilusão.

O amor romântico é a armadilha das mulheres?

Entre as Deusas Gregas, a que mais valoriza o amor é Afrodite. A própria tem como filho Eros, o Deus do Amor. Porém, é fácil perceber que Afrodite não aprecia o amor romântico idealizado, ela deseja é ser amada. Temos essa Afrodite luxuriosa num passado feminino. E na realidade, temos uma série de mulheres reprimidas em relação a seus instintos. Mesmo hoje, vemos muitas jovens que se sentem um lixo por serem solteiras. Não se valorizam enquanto alguém não demonstre migalhas de sentimentos, que são logo confundidas com amor. O amor romântico parece ser uma prisão para mulheres e homens. Para nós é quase um espartilho do século XIX, pois até quando compramos absorventes íntimos precisamos lembrar que tudo que fazemos deve garantir que os homens lançarão seus olhares para nós nas ruas e desejarão nos amar. Só assim seremos verdadeiramente valorizadas. Enquanto estivermos solteiras, seremos “as perdidas”. Aquelas que precisam sempre arrumar seu jardim para serem encontradas.

É como ficção que o amor se faz possível. Ou ainda, amar é um tipo de auto-engano em que nos fazemos amáveis, fingindo ter e dar o que não temos e procurando seduzir o outro para que não repare no que nos falta mas, ainda assim, se ofereça a nos completar. Este outro que amamos, nós o revestimos de todas as qualidades necessárias a nós, toda a perfeição que supomos. Ficamos a esperar que alguém nos ame e, nesse amor, recuperar um estado de completude que nunca existiu, mas que permanece, imagem ideal, em nós. E é isto que exigimos do ser amado: que ele nos complete, agora, já; que ele não nos deixe mais sentir falta de nada, melhor, que ele não nos deixe sentir falta deste algo que não existe, nunca existiu e que a ausência nos incomoda horrivelmente. Obviamente o impossível é algo que não pode ser realizado por muito tempo, mesmo como ficção. E a humanidade e insuficiência do outro (que aponta, irremediavelmente a nossa) nos desilude e ofende: o desamor. Porque a promessa de felicidade sem fim é insustentável, as felicidades comezinhas perdem, nesta lógica, o encanto.

O casamento é o objetivo final?

Para as mulheres, a liberdade pode estar no desenvolvimento de sua própria consciência ou psique. Dentro dos mitos gregos, Psiquê é aquela que nasceu de uma gota de orvalho que caiu sobre a terra. O grande ápice do amor romântico é o casamento. Após a profecia de um oráculo descobre-se que Psiquê deve se casar com a morte. A donzela morre no dia do seu casamento, que é também o dia de seu funeral. Trágico, não? Pois se pararmos para pensar nas milhares de piadinhas de que o casamento é a prisão de um homem, será que estamos tão distantes? Enquanto isso, para a mulher o casamento é vendido como um evento branco, feliz, etéreo. Não abrimos espaço para a idéia da morte no dia das bodas. Porém, Psiquê não morre no mito. Afrodite, ludibriou os pais da jovem fingindo ser o oráculo, e decide que Psiquê ira se casar com um monstro.

Você pode alegar que não há liberdade para o amor porque nos apaixonamos. Eros, surge no mito de Psiquê porque Afrodite manda que ele faça a jovem se apaixonar por um monstro. Porém, ao vislumbrar Psiquê na montanha da morte, ele acidentalmente espeta o dedo em uma de suas flechas e apaixona-se por ela. Imediatamente decide casar-se e levá-a ao topo do rochedo no vale do Paraíso. Não é assim que nos sentimos quando estamos apaixonados e somos correspondidos? Literalmente no topo de um rochedo bem alto chamado paraíso, onde temos tudo o que desejamos. Mas todos os paraísos são suspeitos, certo? Eros não deixa que Psiquê faça perguntas e nem que ela veja seu rosto. Ele parece querer ter um paraíso sem as responsabilidades que isso implica e sem um relacionamento consciente. Sua vida continua, enquanto Psiquê está lá em cima do rochedo, com seu casamento.

Seria ingênuo pensar que a feminilidade foi um discurso imposto às mulheres, que o aceitaram passivamente apenas porque a educação oitocentista as acostumara à submissão. Muito pelo contrário: o casamento fundado nos ideais do amor romântico, a posição de rainha do lar responsável pela felicidade de um grande grupo familiar, a posse quase inquestionada dos filhos, tudo isto representou para a maioria das mulheres do século XIX um destino intensamente desejado, e para muitas um caminho de verdadeira realização pessoal. O que venho chamando de desajuste entre as mulheres e a feminilidade na sociedade burguesa não significa que maternidade e casamento sejam destinos impostos a uma multidão de mulheres infelizes contra o seu desejo, mas que sejam caminhos estreitos demais para dar conta das possibilidades de identificação a atributos e destinos tidos como masculinos, que começavam a se apresentar ao alcance das mulheres com a crescente circulação de informações e contatos produzida pela modernidade. (Deslocamentos do Feminino, Maria Rita Kehl, pgs. 93-94)

Há liberdade para o amor?

Todo paraíso tem sua serpente. E por mais que estejamos apaixonados uma hora o mundo real desaba sobre nossas cabeças. O belo Eros idealizado, de quem nunca vimos o rosto, mostra sua faceta mais egoísta e talvez sinistra. Para onde ir? Onde deixei cair meu amor romântico perfeito exposto em cada grama de chocolate no formato de coração? Sentimos a solidão a espreita. E é justamente no breu da noite que se acende a consciência de si. Psiquê teve que desenvolver habilidades para se constituir inteira, enquanto Eros teve que deixar a apatia de lado e lutar por seu amor. Separados descobriram o que lhes faltava para ficarem juntos. Todos temos dentro de si o masculino e o feminino. Uma dualidade que nos influencia e deve ser vivida. Desenvolver nossas duas partes no faz menos dependentes da pessoa exterior, especialmente de quem amamos. É essa completude que permite a cada um de nós, mulheres e homens, cair de cima do rochedo do paraíso, juntar os cacos e retornar a ser quem somos. O que nos mantém vivos é o amor que temos por nós mesmos.

O amor não é um discurso sobre seu fim, mas sobre reinvenção. A brecha possível é o espaço da criação. Do criar-se a si mesmo que ama. Falamos de amor para melhor vivê-lo. É na narrativa que nos dispomos a construir sobre ele, não mais no campo da perfeição mas no entrecruzamento entre corpo e linguagem, que ele opera. É contar uma história, era uma vez e outra vez e mais uma vez e, de tanto repetir, adiar o fim. É permitir-se ser narrador e personagem, sujeito e objeto do amor. O amor se torna possível na aceitação do limite do outro, seja o limite de completar-nos, seja o limite da sua possibilidade de ser completo. É na aceitação de que haverá sempre algo além de nós para onde o desejo do outro se volta e sempre algo para além do outro para onde se inclina nosso desejar. É no reconhecimento de que o único sempre presente é a fome que se renova apesar da saciedade de a pouco.

O amor puro, o amor em si e não o amor romântico, esse ilusionista, é ele que pode representar a liberdade plena. Como um deus, o amor comporta-se como uma “pessoa” no inconsciente, um ser independente na psique. Amor é distinto do meu ego; ele já estava no mundo antes de meu ego chegar, e quando este se for, o amor continuará a existir aqui. Ainda assim, o amor é alguma coisa ou “alguém” que habita dentro de cada um. É uma força que atua do interior para o exterior, que permite ao ego enxergar além de si mesmo, e com isso ver os outros seres humanos como algo que deve ser valorizado, estimado e não usado. (We, Robert A. Johnson, pg. 254)

Lacan disse que amar é dar o que não se tem e sob esta farsa alicerçamos o porvir. Mas disse também que o amor verdadeiro é sempre recíproco. É porque permitimos que o outro seja sujeito do seu desejo e não apenas objeto de nossas idealizações. É quando se coloca que se eu amo é porque o outro amável. O meu amor diz algo dele que talvez ele mesmo desconheça e seu olhar me devolve um dito sobre mim que me recoloca enquanto sujeito do meu desejo. Para a psicanálise, o lugar do amor é o lugar da ética, do saber que a incompletude é inerente à estruturação humana, em verdade, que a falta é o que estrutura o humano e permite a linguagem que permite o gozo do amor quando dele falamos. Como escreveu Adélia Prado: “o amor é a coisa mais alegre, o amor é a coisa mais triste, o amor é a coisa que eu mais quero”. Só é possível enunciar este saber enuciando-o. E se oferecendo como lugar de enunciação. O amor é a coisa que mais quero: a fome e não a saciedade.

[+] A Crise do Amor Romântico em Tempos de “Fast Love” de Anasha Gelli

Referências:

KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

JOHNSON, Robert A. We: a chave da psicologia do amor romântico. São Paulo: Mercuryo, 1997.