A autoestima da mulher negra

Texto de Fernanda Pedroza para as Blogueiras Feministas.

Fernanda, carioca, moreninha, cabelo ruim, companheira e amorosa. Essa foi a definição simplificada do que consigo me lembrar de como me considerava quando criança, estudando em uma escola quase que exclusiva de pessoas brancas em Curitiba.

Poderia falar de mil maneiras que essa definição afetou minha autoestima. O fato de ser “moreninha de cabelo ruim” não me afetou tanto quanto em algumas crianças que se esfregam com a bucha para ficarem brancas, mas me afetou de outras maneiras… Quando adolescente não me sentia bonita ou atraente com meu cabelo natural, o que me levava a fazer escova para me sentir mais autoconfiante. E quando me elogiavam pela beleza eu não acreditava ou questionava, não por modéstia, mas porque eu não me sentia assim.

As revistas de beleza, de moda ou até catálogo de produtos tinham várias mulheres, mas não tinha mulher negra. Como eu podia me sentir bonita ou gostar de mim se não me via representada em lugar nenhum? Acho que se eu apenas não visse não seria tão ruim… Acontece que, não só eu não via mulheres negras em lugares de destaque, como quando aparecia era sempre no papel de empregada ou sendo humilhada e rebaixada. Durante a infância e adolescência absorvemos muitas coisas que vemos no mundo. Que tipo de coisa você acha que eu pude absorver sobre “ser mulher negra”?

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Deleuze e a psicanálise

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

Ser feminista, isto é, me envolver na prática feminista e me declarar feminista para todo mundo, foi de extrema importância para minha vida. Muitas coisas que tinha dúvidas, viraram certezas e outras que não fazia ideia do que acontecia, se colocaram como questão para mim. Como exemplo disso, sempre pensei no quanto as mulheres sofrem algum tipo de opressão, quando virei feminista tudo fez sentido: sim, as mulheres são oprimidas. No meio dessa aprendizagem também descobri que mulher não é uma só, não é um sujeito único e portanto, as opressões são das mais variadas. Não estamos falando apenas de machismo, mas de tantas outras estruturas, como o racismo por exemplo, que agride de forma cruel milhares de mulheres.

No meio dessa descoberta, também percebi que tinha questões em mim, violências que sofri e que não me dei conta de sua gravidade, sejam psicológicas, físicas, cantadas na rua ou mesmo aquele julgamento secreto feito por um amigo. Essas violências que passei, tantas outras mulheres passam também de uma forma diferente, acredito.

Muitas vezes usei o espaço do feminismo para falar dessas situações, para tentar de alguma forma passar por cima disso, esquecer e melhorar. Sem dúvida o espaço de acolhimento de muitas feministas foi importante para que pudesse seguir, mas não foi definitivo para que pudesse lidar sozinha com minhas próprias questões. E nisso tudo, procurar um analista da linha psicanalítica e iniciar meu processo de análise foi crucial para que entendesse que sim, as mulheres sofrem violências, mas como vamos lidar com isso, como vamos continuar vivendo com nossas dores, amores, desejos.

A análise foi importante para entender o quanto o feminismo é importante para me dar voz, mas não para me “curar”. Tal cura não é feita nem pelo analista, nem pelas feministas, mas por mim mesma diante do vazio que dá lugar na análise. Essas questões me fizeram perceber que não devo fazer um feminismo pessoal, que escolhe os meus próprios traumas para levantar uma suposta bandeira feminista para todas. Veja, são os meus traumas, as minhas questões, como posso fazer disso uma bandeira para todas? Quando entrei no curso de psicologia amava a psicanálise. Depois odiei, amei, odiei, amei… Esse saber que tantas vezes me colocou em dúvida, foi de grande importância não só para minha vida profissional e pessoal, mas também para meu ativismo feminista.

Capa do livro 'Deleuze e a Psicanálise', Editora Record.
Capa do livro ‘Deleuze e a Psicanálise’, Editora Civilização Brasileira.

A psicanálise tem problemas? Claro. Assim como qualquer saber que se coloca em rotineira (des)construção, como o feminismo, por exemplo. Acontece que eu, assim como outras colegas psicanalistas nos colocamos nesse lugar de (des)construção da psicanálise e do feminismo, para tentar lidar com esses dois saberes, para tentar conversar, criticar, debater, aprender e questionar.

E assim, trago a resenha do livro “Deleuze e a Psicanálise” de Monique David-Ménard, professora de psicopatologia e psicanálise na Université Paris-Diderot. Monique também é filiada à Rede Internacional de mulheres filósofas da Unesco. É importante destacar que ela é reconhecida por seu trabalho nas áreas de gênero e sexualidade.

O livro trata sobre como a filosofia de Gilles Deleuze poderia ajudar o analista. Para tanto, Ménard conta um caso que atendeu de uma paciente psicótica e trata sobre as relações de transferência e as questões que ela teve enquanto atendia essa paciente. E comenta que:

“Consequentemente, a audácia filosófica de pensar não pode servir como regulador para dizer o que acontece entre um “louco” ou uma “louca”, e um(a) analista, já que isso suporia resolvido ou inútil o que faz com que o primeiro se arrisque a vir ser o segundo. Em compensação, pode ser agradável, delicioso e ao mesmo tempo angustiante, para o analista, ler filosofia na perspectiva definida: a evitação em ato de loucura, que conserva a lembrança desse risco conjurado.” (pg.27)

Depois, a autora trata da clínica e filosofia, analisando as críticas de Deleuze contra a psicanálise. Nesse sentido, a autora traz questões importantes para fazer um “debate”. Para tanto, Ménard também traz a frase de Lacan: “Falta-a-Ser”; e de Deleuze: “ao Desejo Nada Falta”; e entra na discussão sobre o falo na psicanálise. Sobre a “diferença sexual” pensada pela psicanálise, a autora fala que:

“O falo está longe de poder servir de norma para tornar pensável tal diferença, todos os raciocínios fantasiosos que as crianças desenvolvem a respeito dele dão testemunho  – e isso é decisivo – da persistência de um problema que não tem solução. O que nos traz de voltar para bem perto de Deleuze.” (pg. 52)

Na conclusão do livro, a autora fala um pouco sobre o lugar da filosofia na psicanálise e relembra uma certa aproximação entre Freud e Kant. Ménard finaliza falando sobre a contribuição de Deleuze para o pensamento e sobre a concepção de transferência na psicanálise.

“Sob essa condição, o encontro genia, concebido por Deleuze, entre a relativa impessoalidade do fantasma (“Espanca-se uma criança”, “lobos-olhar-ele”, etc) e a filosofia estoica do acontecimento como incorporal (o acontecimento se libera dos estados de coisas como a fumaça do incêndio), poderia muito bem levar a uma nova concepção da transferência, no dispositivo inventando pela psicanálise.” (pg. 264)

Sorteio – Atualizado em 08/07/2015

Temos um exemplar do livro “Deleuze e a Psicanálise” para sortear entre nossos leitores. Confira a lista de concorrentes. O ganhador foi definido pelo primeiro número sorteado na mega-sena de 07/07/2015, Concurso 1720: Número 18, Telmo. Entraremos em contato para o envio do livro.

Visibilidade trans*, psicologia e despatologização

Texto de Thayz Athayde e Isabela Casalotti.

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A maioria dos profissionais da saúde se baseiam na Classificação Internacional de Doenças (CID) e no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) para elaboração de laudos técnicos. Isso inclui psicólogas e psicólogos.  Sendo o Brasil filiado à Organização Mundial da Saúde (OMS), a referência aos critérios do CID (que encontra-se em sua décima atualização) torna-se necessária.

Atualmente, as pessoas trans* no Brasil podem fazer o processo de hormonioterapia e a cirurgia através do Sistema Único de Saúde (SUS), porque a transexualidade está classificada como patologia no CID – 10 como “Transexualismo” (F. 64.0). Sendo assim considerada, o SUS promove um “tratamento”, chamado de Processo Transexualizador, instituído na Portaria do Ministério da Saúde (MS) nº 1.707/2008, que assegura o direito a esses serviços. Há também a Portaria n° 2803\2013 que redefine e amplia o processo transexualizador no SUS e determina, entre outros procedimentos, assistência psicológica por no mínimo dois anos para as pessoas que passam pelo processo.

Nós, Blogueiras Feministas, lutamos pela despatologização da transexualidade. No entanto, aprendemos também, com várias pessoas trans* militantes nessa causa, que não podemos apenas lutar pela despatologização sem assegurar o atendimento para essa população. Ainda que o atendimento através do SUS seja alvo frequente de críticas sobre ética, tempo de espera, situações de violência,  ainda é a única forma de assistência gratuita às pessoas trans*. Por isso, é necessário lutar para que esse atendimento continue acontecendo com qualidade, ética e a atuação dos profissionais sempre repensada.

Manifestação pelo Dia da Visibilidade Trans 2013 em Curitiba/PR. Foto de Lari Schip no Facebook.
Manifestação pelo Dia da Visibilidade Trans 2013 em Curitiba/PR. Foto de Lari Schip no Facebook.

É comum ouvirmos relatos de pessoas trans* que foram ao consultório de uma psicóloga ou psicólogo e ouviram comentários transfóbicos, cissexistas e/ou machistas. Não é incomum um profissional de psicologia falar para uma mulher trans* que ela é doente e deve se vestir como homem. Ou falar para um homem trans* vestir-se com roupas femininas. Há outros tipos de violência praticadas por profissionais de psicologia, como associar brincadeiras e atitudes a padrões femininos ou masculinos e querer que pessoas trans* se comportem exatamente igual a estereótipos do que é ser homem ou mulher.

Espera-se que uma mulher trans* deseje ter uma vagina, goste de rosa e tenha brincado com bonecas. Também devem ser heterossexuais e ter o desejo de casar e cozinhar para seu marido. Para homens trans* vão perguntar se brincaram de carrinho, se gostam de azul e vão averiguar seu desejo por mulheres e por ter um pênis. Se as pessoas trans* não seguirem esse padrão, logo ficarão sob suspeita. Afinal, psicólogas e psicólogos costumam investigar aquilo que está fora do que se entende por “normalidade”.

Para a maioria desses profissionais estudar a questão trans* é muito importante. Porém, essa atitude não é para despatologizar ou mesmo fazer com que esse debate seja inserido de forma ética na psicologia, mas sim para fazer exotificar e objetificar pessoas trans*, fazendo com que cada vez mais a psicologia determine a identidade de uma pessoa.

Vejo que muitas perguntas rondam as cabeças de colegas psi: Qual a origem da transexualidade? Como acontece? É biológico? É hormonal? Como isso acontece? Acontece com quantos anos? Há muitos arrependimentos? E a cura? (Insira aqui todas as perguntas bizarras que puder imaginar). Minha resposta para tudo isso é sempre inverter a pergunta: Qual a origem da cisgeneridade? E insisto em fazer as mesmas perguntas. Está na hora da psicologia mudar a pergunta. Está na hora da psicologia parar de produzir cada vez mais a noção de normalidade.

Por que não perguntar-se sobre o conceito de normalidade? Por que não interrogar-se sobre a violência que existe quando o profissional de medicina anuncia que é um menino ou uma menina? Por que não investigar a cisgeneridade e a heterossexualidade? E, finalmente, por que não questionar a psicologia compulsória?

Atualmente, as pessoas trans* são obrigadas a irem em um profissional de psicologia por conta do laudo psicológico obrigatório para terem atendimento no SUS. Por conta dessa obrigatoriedade, infelizmente esse tipo de prática está virando um nicho de mercado, no qual psicólogas e psicólogos cobram taxas para fornecerem o laudo psicológico. Essa é apenas uma das práticas que acontecem em várias cidades do Brasil.

É necessário que a psicologia avance nas questões de gênero e sexualidade. É imprescindível que comecemos a sair das clínicas, consultórios, hospitais, escolas e tantos outros lugares em que a psicologia está para irmos às ruas. E assim, talvez, possamos vivenciar uma psicologia militante, que possa debater e interrogar o status quo. É urgente que a psicologia entenda que existe uma sociedade transfóbica e cissexista, que é violenta e cruel com pessoas trans*.

Não é papel da psicologia “autorizar” pessoas trans* a vivenciarem suas identidades. Não é papel da psicologia dizer o que é ser homem e o que é ser mulher. Não podemos deixar de nos posicionar em relação as diversas violências que acontecem com as pessoas trans* dentro e fora da psicologia.

Por uma psicologia ética, por psicólogas e psicólogos mais críticos e militantes. Por uma psicologia sem transfobia e cissexismo!