Feministas, ouçam as putas!

Texto de Jussara Cardoso. 

Já fui essa mulher contra a prostituição e quando me tornei feminista, fui por pouco tempo uma feminista contra a prostituição. Carregava um preconceito desses bem “moral cristã”, “pecadoras”, mulheres de vida fácil, pensava eu. Fui assim até entender um erro simples e complexo ao se debater prostituição, a ideia de exploração sexual ser confundida/misturada com o trabalho sexual. Muito do discurso contrário a prostituição diz na verdade ser contra o que prostitutas também são contra, e é pauta de sua luta também, o fim exploração sexual, o tráfico de pessoas (criança, adolescentes e adultas) para exploração sexual.

Aprendi que é preciso pontuar as diferenças do que é prostituição (trabalho no qual maiores de 18 anos exercem por vontade própria), o que é exploração sexual (explorar sexualmente uma pessoa, obtendo ganhos com isso) e exploração laboral da prostituição (exploração do trabalho das prostitutas, principalmente pela falta de legislação). Precisamos ter isso em mente para não deixar nenhuma mulher fora desse debate, para não silenciar nenhuma mulher, mas sim para ouvi-las melhor. Ouvir suas reais necessidades e não cairmos no risco de tentar “salvar” quem não precisa de salvação.

Lembro que em 2012 estava sentada numa mesa com mais 9 pessoas para uma reunião com prostitutas. Antes de começar a reunião a presidenta da ONG (uma puta com 40 anos de profissão) perguntou a todes ali o que era uma puta. Um a um fomos respondendo e ela disse: “A única coisa que queria ouvir nenhum de vocês disse: puta é mulher”. Nunca vou me esquecer desse dia, porque foi nesse dia que entendi o óbvio, puta é antes de mais nada uma mulher. Tem uma história, uma trajetória de vida que precisa ser respeitada.

Aquele dia aquela puta contou sua história e explicou sobre as diferenças de prostituição e exploração sexual, explicou as violências que sofrem por não terem a profissão regulamentada e falou da forma mais brilhante que já vi na vida como uma regulamentação bem feita pode ajudar a construir uma cultura de enfrentamento a exploração sexual mais séria e eficaz no país.  Daquele dia em diante passei a ouvir as prostitutas sobre prostituição e sobre exploração. Passei a buscar mais referências para aprender com elas sobre suas lutas. Passei ouvi-las para saber como eu enquanto feminista e mulher poderia ajudar.

Elas (as putas) vivem a prostituição, o lado bom e o ruim diariamente. Elas sabem muito bem como é essa realidade. Elas são organizadas, elas têm projetos e propostas para mudança reais. Elas fazem um feminismo bruto (como bem disse Monique Prada), um feminismo que nenhuma teoria que não tenha as ouvido de fato consegue fazer.

Precisamos, enquanto feministas, aprender a debater prostituição com aquelas que reivindicam o direito de exercer essa profissão e não atacá-las mais ainda. Só ouvindo vamos estar alinhadas a elas na luta contra o machismo e a misoginia masculina. Nós, enquanto feministas, precisamos olhar para essas mulheres como pessoas. Pessoas com autonomia, com vontades próprias, com uma luta enorme pela frente e como aliadas.
Nós, enquanto feministas, precisamos parar de usar senso comum violento pra debater prostituição. Precisamos parar de focar no consumidor (homem) e buscar meios de garantir que quem oferece o trabalho não seja nunca explorada e violentada.

Quer ajudar? Tem uma coisa bem simples que pode ser feita: parar e ouvir.

Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 06/06/2017

Imagem: Performance de Georgina Orellano. Feminista e puta argentina.