As mulheres brancas que dominam o discurso feminista raramente questionam sua perspectiva sobre a realidade

Trecho do artigo ‘Mulheres negras: moldando a teoria feminista’ de bell hooks. Publicado na Revista Brasileira de Ciências Políticas. n° 16. Brasília, Jan./Apr. 2015.

Problemas e dilemas específicos de donas de casa brancas da classe privilegiada eram preocupações reais, merecedores de atenção e transformação, mas não eram preocupações políticas urgentes da maioria das mulheres, mais preocupadas com a sobrevivência econômica, a discriminação étnica e racial etc. Quando Friedan escreveu A mística feminina, mais de um terço de todas as mulheres estava na força de trabalho. Embora muitas desejassem ser donas de casa, apenas as que tinham tempo livre e dinheiro realmente podiam moldar suas identidades segundo o modelo da mística feminina. Eram mulheres que, nas palavras de (Friedan 1971, p. 110)., “ouviram dos mais avançados pensadores de nosso tempo que deveriam voltar atrás e viver sua vida como se fossem Noras, limitadas à casa de boneca dos preconceitos vitorianos”.

Em seus primeiros textos, parece que Friedan nunca se perguntou se a situação das donas de casa brancas com formação universitária era um ponto de referência adequado para se examinar o impacto do sexismo ou da opressão sexista sobre a vida das mulheres na sociedade norte-americana. Ela tampouco foi além de sua própria experiência de vida para obter uma perspectiva mais ampla sobre a vida das mulheres nos Estados Unidos. Digo isso não para desmerecer o seu trabalho, que continua sendo uma discussão útil acerca do impacto da discriminação sexista sobre um seleto grupo de mulheres. Examinado a partir de uma perspectiva diferente, ele também pode ser considerado um estudo de caso sobre narcisismo, insensibilidade, sentimentalismo e autoindulgência, que atinge o seu pico quando a autora, em um capítulo intitulado “Crescente desumanização”, faz uma comparação entre os efeitos psicológicos do isolamento sobre as donas de casa brancas e o impacto que o confinamento tem no autoconceito dos prisioneiros nos campos de concentração nazistas.

Friedan foi uma das principais formadoras do pensamento feminista contemporâneo. Significativamente, a perspectiva unidimensional da realidade das mulheres apresentada em seu livro se tornou uma característica marcante do movimento feminista contemporâneo. Como Friedan, antes delas, as mulheres brancas que dominam o discurso feminista atual raramente questionam se sua perspectiva sobre a realidade da mulher se aplica às experiências de vida das mulheres como coletivo. Também não estão cientes de até que ponto suas perspectivas refletem preconceitos de raça e classe, embora tenha havido uma consciência maior sobre esses preconceitos nos últimos anos. O racismo abunda nos textos de feministas brancas, reforçando a supremacia branca e negando a possibilidade de que as mulheres se conectem politicamente cruzando fronteiras étnicas e raciais. A recusa feminista, no passado, a chamar a atenção para hierarquias raciais e as atacar, suprimiu a conexão entre raça e classe. Mesmo assim, a estrutura de classe na sociedade norte-americana foi moldada pela estratégia racial da supremacia branca; apenas se analisando o racismo e sua função na sociedade capitalista é que pode surgir uma compreensão profunda das relações de classe. A luta de classes está indissoluvelmente ligada à luta para acabar com o racismo. Conclamando a que se explore a implicação completa da classe em um de seus primeiros ensaios, “The last straw”, (Rita Mae Brown 1974, p. 15) explica:

Classe é muito mais do que a definição de Marx sobre a relação com os meios de produção. Classe envolve o comportamento que adotamos, nossos pressupostos básicos sobre a vida. Nossa experiência (determinada por nossa classe) valida esses pressupostos, a forma como somos ensinados a nos comportar, o que esperamos de nós mesmos e dos outros, nosso conceito de futuro, como entendemos os problemas e os resolvemos, como nos sentimos, pensamos, agimos. São esses padrões de comportamento que as mulheres de classe média resistem a reconhecer, embora possam estar perfeitamente dispostas a aceitar a classe em termos marxistas, um truque hábil que ajuda a evitar lidar de verdade com o comportamento de classe e mudar esse comportamento nelas mesmas. São esses padrões de comportamento que devem ser reconhecidos, compreendidos e alterados.

As mulheres brancas que dominam o discurso feminista – as quais, na maior parte, fazem e formulam a teoria feminista – têm pouca ou nenhuma compreensão da supremacia branca como estratégia, do impacto psicológico da classe, de sua condição política dentro de um Estado racista, sexista e capitalista.

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Cearense? Negra? Indígena? De onde vim?

Texto de Thayz Athayde.

Durante muito tempo escondi que sou cearense. Foi uma coisa pré-adolescente, dizia para todo mundo que era paulista, mudava o sotaque e negava minhas raízes. Depois de um tempo, entendi a bobeira disso tudo e me assumi como cearense. Assumi, mas não me reconheci.

Durante minha adolescência neguei minhas raízes indígena e negra. Tenho a pele branca e sou lida como tal. Nunca passei por toda a violência que pessoas negras passam, quero deixar isso bem claro. Meus traços carregam a negritude. Meus traços não negam que minha família é indígena. Durante muito tempo sonhava em ter outro rosto, outros traços. Me achava feia. Vivia imaginando como minha vida seria mais feliz se eu tivesse o rosto da Liv Tyler.

Minhas amigas viviam dizendo que eu tinha nariz de bolinha. Eu olhava para meu rosto e sentia que nada encaixava. Por que meu nariz era assim? E meus olhos? E a boca? E meu corpo? Nada fazia sentido para mim. Eu só falava que era descendente de espanhóis e qualquer outro traço europeu que pudesse achar. Comecei a alisar o cabelo. Lutava comigo mesma para ser outra pessoa. Mesmo que não fosse.

Thayz Athayde aos 28 anos. Foto de Thayz Atahyde, proibida a reprodução sem autorização.
Thayz Athayde aos 28 anos. Foto de Thayz Atahyde, proibida a reprodução sem autorização.

Até que um dia, descobri que existe algo chamado: processo de branqueamento. É claro que o processo que passei não se compara com o que pessoas negras passam. Eu sou lida como branca na sociedade e por isso tenho muitos privilégios.

O que quero dizer é que esqueci das tardes com minha bisavó. Do jeito que ela comia com a mão, não sentava à mesa, ficava de cócoras e de como ela me explicava o motivo de estar de cócoras. Esqueci dos meus tios, tias, primos, primas e de toda sua negritude. Esqueci que dizia para minha mãe que queria ter o cabelo igual da minha prima, que é negra. Esqueci o quanto achava minha prima linda. Esqueci que vivia dizendo para minha mãe que achava a franja de minha prima linda, porque era crespa. Esqueci que minha avó era benzedeira. Esqueci quem era meu avô, minha avó. Meu tio, minha tia. Meu pai, minha mãe. Eu só queria saber o motivo de não ter olho azul. E assim esquecia o motivo de ter os traços que tenho.

Hoje, tenho orgulho das cores da minha família. Tenho orgulho do meus traços. Não aliso mais o cabelo. Descobri meu cabelo crespo. Revivi aquele sentimento de admirar o cabelo da minha prima. Hoje sei quem sou. Não nego mais de onde vim. E sou linda. Não preciso de outro rosto. Eu preciso do meu rosto. Do meu rosto que é indígena e negro. Hoje eu tenho orgulho de onde vim.

Meu nome é Thayz, nasci em Fortaleza, Ceará. Sou nordestina com muito orgulho. Sinto orgulho do meu sotaque, do meu jeito cearense, do meu cearensês. Amo minha terra. Falo com um carinho muito bonito da onde vim. Minha família por parte de pai é indígena e negra. Minha família por parte de mãe também carrega a negritude. E eu carrego tudo isso em mim. Só que agora não escondo, mas escancaro para quem quiser ver e pra quem não quer também. Minha pele é branca e assumo isso. Não sou negra, não sou indígena. Mas, o meu passado é. Não esqueço mais de onde vim. E lembro para todas as pessoas que sou tudo isso, porque lembrar também é resistir. 

Desafios do Feminismo diante da questão de raça

Texto de Priscilla Caroline.

Há pouco tempo atrás um debate acirrado aqueceu as veias do Feminismo: a expulsão de um morador de rua durante a terceira Marcha das Vadias de Brasília. Quem conhece o movimento feminista sabe que se trata de uma das suas questões mais básicas e persistentes, que mostra a dificuldade em lidar com encontros entre estruturas de opressão tão profundas, como são o sexismo e o racismo. Um debate importante para nos lembrar de que sempre há o que refletir sobre o movimento feminista e o mundo que queremos construir.

Como já faz um tempo, vale a pena lembrar: durante a realização da Marcha das Vadias do Distrito Federal, um morador de rua fez gestos obscenos e insinuou tirar a roupa. A reação da Comissão de Segurança da Marcha [1] foi escrachá-lo, expulsando-o da multidão com buzinas e gritos.

O fato provocou uma grande reação da várias militantes do movimento de mulheres negras.

“Alguém explica isso: como mulheres em grande parte brancas e universitárias, hostilizando e perseguindo um homem negro, pobre, deficiente e com problemas mentais pode ser igual a luta contra o machismo? Sério que ele personifica o inimigo? A luta antimachista exclui o bom senso? Ele fez algo extremamente grave que não foi captado pelo vídeo?”, perguntou Janaína Damasceno no Facebook [2].

Para muitas mulheres que participaram da Marcha o fato dele ter feito gestos obscenos é justificativa mais do que suficiente para sua expulsão. Trata-se de um homem que somos ensinadas a temer. Por que homens negros e pobres parecem uma ameaça? Que questões o fato coloca para o movimento feminista?

Panteras Negras. "Women, Free Huey Rally, Oakland", 1968, Foto de Pirkle Jones.
Panteras Negras. “Women, Free Huey Rally, Oakland”, 1968, Foto de Pirkle Jones.

A resposta, dada pelas mulheres que participaram da organização da Marcha das Vadias de Brasília (estou inclusa nesse grupo) expôs, ao mesmo tempo, a fragilidade e alguma disposição à autoreflexão do grupo. Foi difícil para a Marcha das Vadias entender as críticas que estavam colocadas. Talvez não tenha sido possível escapar de onde a maior parte das mulheres que organizam essa Marcha se encontra: o lugar da branquitude.

Esse lugar confortável, onde muitos estudos feministas e reflexões sobre a questão de gênero se desenvolveram. Explico: onde há patriarcado, há a luta das mulheres e esta é anterior ao que entendemos como a luta feminista (cujo início pode ser vislumbrado em meados do século XX com as sufragistas). O movimento feminista, tal como o conhecemos, não resume toda a luta das mulheres, mas sim identifica um modo das mulheres se organizarem. Nas palavras de Ana Cláudia Pereira:

“Feminismo” consolidou-se como o termo mundialmente conhecido para falar da luta das mulheres pela emancipação a partir da mobilização de europeias e norte-americanas. Reivindicando melhores condições de vida, imaginavam um mundo melhor a partir de suas próprias experiências sociais: para as operárias, a prioridade era adquirir direitos, enfrentar a exploração capitalista, melhorar as condições de trabalho nas fábricas; para as mulheres de elite, o termo muitas vezes esteve associado à demanda de mulheres brancas e ricas pela participação no mundo de privilégios sociais de homens também brancos e ricos. “Feminismo” foi, desde sempre, um termo disputado por diferentes projetos de sociedade, alguns mais igualitários, outros menos. Referência: Feminismos e justiça social: as lutas das mulheres negras não cabem em uma única palavra.

Ao se estabelecer no Brasil, o movimento feminista foi obrigado a enfrentar questões colocadas pela imensa desigualdade do nosso contexto social, especialmente em relação à raça. O fato de ter sido um dos movimentos mais vitoriosos do século XX não o tornou capaz de incorporar as críticas das mulheres negras, que nele lutaram por reconhecimento.

O que é curioso, pelo menos para mim, é que as Marchas das Vadias que se espalharam pelo país atualizaram a agenda feminista de várias maneiras. Se por um lado, é preciso comemorar a retomada das ruas e o diálogo com a sociedade, por outro fez ressurgir os questionamentos sobre os seus privilégios.

No caso que nos interessa aqui, o da expulsão do morador de rua, branquitude só pode ser entendida como um privilégio que salvaguarda algumas pessoas de uma série de processos de discriminação cotidianos. Não custa lembrar que se tratam de processos muitas vezes cruéis, violentos e, obviamente, injustos.

Segundo Ruth Frankenburg, a branquitude é “um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê aos outros e a si mesmo, uma posição de poder não nomeada, vivenciada em uma geografia social de raça como um lugar confortável e do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não atribui a si mesmo” [3].

A minha branquitude, assim como a de várias outras feministas, me distancia de vivências de construção de uma solidariedade fundamentada na questão de raça. Numa sociedade racista, eu, mulher branca, não sei o que é me identificar com um homem branco, porque ele é o opressor por excelência. Mas, para as mulheres negras, homens negros podem ser iguais diante da opressão das mulheres brancas.

A isso, mulheres brancas podem questionar: então um homem negro não poderá ser punido por alguma violência sexista que tenha cometido? Há uma hierarquia entre a identidade racial e a identidade de gênero?

Não há hierarquias nesse caso. Racismo e Sexismo são problemas análogos. Identidade, nesse caso, pode ser mais uma maneira de tornar abstrata uma tensão complexa. A política tende a fixar essas identidades, cristalizá-las de algum modo, mas o Feminismo deve buscar caminhos para dar sentido a elas em torno de um projeto comum. Não se trata de reforçar a ideia de um sujeito coletivo homogêneo, em que todas as mulheres devem ser vistas como iguais.

Trata-se de encontrar as intersecções possíveis na nossa luta, aquelas em que se eliminem as opressões que insistem em permanecer. O lugar comum da nossa luta é o da construção de um Feminismo antirracista, que se for possível não está ancorado em categorias abstratas e sim em soluções concretas.

Em termos de ação política, defendo que as pessoas privilegiadas devem assumir o compromisso (revolucionário?) de abrir mão de seus espaços de poder, para que as outras pessoas — que historicamente foram excluídas — o assumam. Isso não tem nada a ver com “ajudar” ou ser “boazinha”. Tem a ver com o reconhecimento da nossa posição e da necessidade de transformação do nosso olhar sobre os processos políticos dos quais fazemos parte.

Como disse bem disse Sueli Carneiro:

O atual movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos movimento negro e de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a feminização das propostas e reivindicações do movimento negro. Referência: Mulheres em movimento.

É um desafio colocado para todo o movimento feminista, mas em especial para a Marcha das Vadias. Mesmo diante das dificuldades das Marchas estruturarem coletivos e estenderem a sua ação para além do dia do evento, aprofundar estas e outras reflexões sobre as condições estruturantes para a vida das mulheres é fundamental para todas as que se entendem como parte de um projeto de transformação da sociedade.

Referências

*Esse texto é resultado de uma série de conversas, debates, reflexões feitas em conjunto, e, portanto, reflete uma construção que não é só minha. No momento da escrita eu estive só, então a responsabilidade é minha, mas preciso agradecer a todas as que vem me fazendo pensar sobre questões tão importantes para o nosso movimento.

[1] A Comissão de Segurança da Marcha das Vadias de Brasília tem como principal ação expulsar os homens identificados como agressores da marcha, afim de garantir que as mulheres se sintam seguras para participar da marcha. Para que alguém seja identificadx como agressor, basta que a mulher procure qualquer pessoa da comissão e o denuncie. A reação da comissão é promover um escracho, com buzinas e gritos, até que o homem saia da marcha. A ação toda foi pensada para dar um sentido de empoderamento, já que naquele momento as mulheres enfrentam seus inimigos coletiva e simbolicamente.

[2] Citada em “Do trágico ao épico: a Marcha das Vadias e os desafios políticos das mulheres negras”, texto de Ana Flávia Magalhães para as Blogueiras Negras.

3] Citada em “A branquitude está nua” por Ana Maria Gonçalves para as Blogueiras Negras.