Blogagem Coletiva: Dia da Consciência Negra

A presidenta da República, Dilma Rousseff, sancionou dia 10 de novembro a Lei 12.519, que institui o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, a ser comemorado, anualmente, no dia 20 de novembro, data do falecimento do líder negro Zumbi dos Palmares. O Dia da Consciência Negra já havia sido instituído em território nacional para ser comemorado em 20 de novembro pela lei nº 10.639, de janeiro de 2003. A mesma lei tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.  O texto da lei publicada neste Mês não trata da decretação de feriado. A adesão ao feriado ou instituição de ponto facultativo no Dia da Consciência Negra é decisão legal de cada município. Em 2008, mais de 300 cidades adotaram feriado no Dia da Consciência Negra.

2011 acaba por ser um ano especial para o tema, porque também é o Ano Internacional dos Afrodescendentes – instituído por Resolução da Organização das Nações Unidas (ONU). Convocamos uma blogagem coletiva para marcar a data, nos unir a outros movimentos na internet e para trazer mais informação e opiniões sobre a questão racial no Brasil.

Camila Mina. Foto de Nina Vieira no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Confira os posts participantes:

Penso que esse dia é importante não só para os negros reconhecerem ou tomarem “consciência” da sua identidade. Mas, para os não-negros, reconhecer e tomar consciência da existência do negro, como cidadão, digno de respeito, portador de direitos e deveres como qualquer outro cidadão. E que a cor da pele, não deve influenciar em nada no exercício de sua cidadania.

Por mais que a mulata pareça o símbolo máximo das maravilhas de nossa mestiçagem. Situando-se entre o branco e o negro, o fato que é socialmente cada cor tem seu lugar. E há diversos perigos ao transgredir essas fronteiras de racismo social. A raça é um marcador social importante e, para nossa mulata há também o marcador de gênero, que a limita em dois campos das relações sociais.

Senti o preconceito desde cedo, na sala de aula, na casa de vovó, que junto com titia vivia achando receitas para consertar meu cabelo, dar um jeito na juba dessa menina que tem o cabelo igual aos dos negros do Santa Cruz. Cresci ouvindo isso. Enquanto eu era pequena e não tinha direito de me rebelar e visitava vovó para ouvir sempre esse mesmo comentário maldoso, junto com a receita para fazer o cabelo ficar estirado.

 Não podemos negar que algumas mulheres queiram fazer o que bem entenderem de suas madeixas, mas o fato de dispensarem a maior parte do seu dinheiro tentanto ter as madeixas lisas e loiras me faz achar que não querem ser diferentes, e sim iguais. Iguais às européias e diferente da maioria das brasileiras, sobretudo das negras. A escravidão é uma mancha na nossa história, mas parece que o estigma negro nos traços é que tem de ser evitado, tentando fingir que ela nunca aconteceu. Os índios tem cabelo natualmente liso e uma mística ligada ao bom selvagem, o héroi nacional, o guarani. Não vou nem entrar no mérito indígena e do quem vem sido usado como desculpa para apagar toda a questão indígena.

Acreditamos não existir superioridade de uma etnia sobre a outra e esse blog é a nossa maneira de questionar a ideologia vigente onde a representação de beleza na mídia não condiz com a diversidade que compõe o povo brasileiro. Diversidade essa que gera, dentre tantas belezas mestiças, a afro-brasileira.

Imagem do ilustrador Milton Kennedy feita especialmente para o Dia da Consciência Negra de 2011.

Devemos sim clamar por direitos iguais, mas, principalmente pelo “direito à diferença”, ou seja, vivermos sem discriminação, aceitando e respeitando as desigualdades (seja ela de cultura, crença ou característica pessoal). Daí a importância da vivência da palavra Alteridade: aprender com os diferentes, sem julgar, criticar, agredir ou excluir.

Na escola onde meus filhos estudam o lápis de cor bege é conhecido com cor de pele. Eu estranhei a primeira vez que ouvi o termo, mas não dei muita bola. Achei esquisito, mas deixei pra lá. O tempo vai passando e o que nos incomoda cedo ou tarde se torna espinhoso e a gente verbaliza. Então num dia qualquer falei para os meus filhos que aquela denominação estava errada, o nome da cor é bege. Ou rosa clarinho, como quiser. Qualquer coisa, mas não é cor de pele. Porque pele pode ter várias cores, tanto mais num país arco-íris como o nosso.

Sou graduada por uma universidade pública em um curso não necessariamente elitista (porque voltado para a formação de professores) e noturno. Ainda assim, tive pouquíssimos colegas negros. Em meu primeiro dia aula na pós-graduação, em um curso lato sensu numa universidade privada, me chamou a atenção ter cerca 5 ou 6 alunos negros numa turma de 35 pessoas. Estava sendo exposta a uma diversidade que nunca havia encontrado nem na escola nem em nenhum ambiente de trabalho. E achei bem bacana.

NÓS SOMOS LINDOS

Gostaria de ter tempo para escrever sobre a importância do dia da Consciência Negra e discutir pontos importantes do racismo no Brasil. Mas fim de semestre na facu é uma loucura… Selecionei algumas leituras, que acho interessante para dar um panorama das questões que envolvem a vida da população afro-brasileira/afrodescendente.

Hoje é o Dia Nacional da Consciência Negra. É um dia para homenagear Zumbi dos Palmares, grande liderança dos povos negros do Brasil e também é mais um dia para repudiar toda forma de discriminação racial. Minha homenagem às mulheres negras. Bravas Guerreiras.

O afro-descendente, por muito tempo, foi o outro e, agravante, o outro socialmente desprivilegiado: o escravo, o explorado física, emocional, sexual e intelectualmente, aquele sujeito que só atendia como objeto. A mulher negra, no contexto do Brasil escravocrata, servia como objeto sexual, mas não poderia ser a esposa. O homem negro podia ser o amante da “sinhazinha”, mas jamais seu esposo. Isso reflete uma sociedade hedonista, que não se importa em lidar com a alteridade, desde que ela esteja servindo aos seus desejos. O escravo não era um mal a ser extirpado, ao contrário, principalmente aqueles que o consideravam um sujeito de segunda classe, o queriam como subserviente.

Mas, quem caiu agora no Apaixonados por séries, pode estar se perguntando: e o que isso tem a ver com as séries? Bom, sabemos que o racismo é um problema mundial, que é exposto quando trabalhamos com a dicotomia branco X negro. O Brasil, mesmo sendo um país miscigenado e com grande parte da população de negros, pardos e mulatos, não tem essa realidade refletida em novelas, séries na TV e filmes. Basta assistir a alguns programas para perceber que a maioria dos atores são caucasianos.

De uma certa forma, me sinto um tanto intrusa para escrever sobre isso, já que sou branca branquela, descendente de alemães, e me criei em um meio familiar que várias vezes percebi racista. Porém, a consciência negra tem a contrapartida de que posso falar com alguma propriedade, que é a consciência de ser brancx. Calma, não precisa parar de ler, não vou escrever nenhuma bobagem sobre preconceito racial contra brancos. Estou falando de perceber-se branco, perceber que isso é uma diferença e não “o normal” e que sim, eu sou privilegiada por isso.

Se a pobreza no Brasil tem cor (e também gênero, idade e localização geográfica), a culpa é da cor? Há quem acredite que sim. É o mesmo tipo de pensamento que associa a falta de mulheres no campo científico não por motivos históricos e culturais que excluíam (e ainda excluem) o gênero feminino de uma área considerada masculina, mas pelo simples fato delas serem mulheres! O pensamento de que mulheres são intelectualmente inferiores aos homens. A mesma lógica infundada que rege o pensamento de que negros são naturalmente violentos e criminosos.

Lutamos por reconhecimento do nosso povo, ultrapassando as barreiras do preconceito e discriminação nas diferentes esferas das nossas vidas, seja social, profissional, acadêmica, nos grupos de convivência, seja nas nossas relações mais pessoais. Lutamos pelo reconhecimento da nossa historia, considerando o 20 de novembro como uma data chave, importantíssima à nossa militância, reconhecendo de fato a luta e o valor do povo negro.

Sou descendente de africano, especificamente, de marroquino. Tenho muito orgulho só de imaginar que parte da minha história começou lá! 😉

Preconceito ainda existe? Existe minha gente! É o preconceito velado, mas forte. Hipocrisia seria dizer que isso não existe mais.

O racismo, na maior parte das situações hoje, é sutil. Pouca gente tem coragem de destratar ou injustiçar, aberta e publicamente, alguém por ser preto.Talvez a polícia. Mas a maioria das pessoas faz “sem querer”, faz e disfarça, ri escondido, conta piada de mau gosto, ignora. Atitudes por vezes imperceptíveis, e supostamente inofensivas e justificáveis, do ponto de vista de quem comete e, algumas vezes, até de quem sofre. No entanto, a discriminação é clara e inassimilável do ponto de vista das crianças que a presenciam, pelo menos até que elas comecem a internalizar o preconceito. Criança vê. Vê e se pergunta.

O Dia da Consciência Negra é uma data pertinente pra nos lembrarmos daquele slogan dos anos 60 que, a meu ver, não deveria ter saído de moda: black is beautiful. E serve para pensar no Zumbi, um herói nacional que lutou pela liberdade. Já passou da hora da gente se livrar das nossas amarras. Ao adotarmos um padrão único de beleza, todos saímos perdendo.

Sem contar que estes mesmos seres invisíveis não são considerados belos. O seu cabelo não é liso, os seus olhos não são verdes, o seu nariz não é fino. Fico imaginando com é viver numa sociedade que, além de te tratar como um ser invisível ,ainda te chama de feio a todo instante mostrando a beleza dos brasileiros brancos, loiros e de olhos claros. Fico imaginando quantos negros amaldiçoam a si mesmos por não terem nascido brancos.

Quem no Brasil não é negro?

Quem aqui não é preto?

Quem aqui

Em sua alvura não tem

Sangue de escravo?

A mulher negra, particularmente, no período colonial tinha a função de servir a seus “donos”, em todos os aspectos, seja com trabalhos domésticos ou como objeto sexual. Assim, a construção histórica da identidade da mulher negra e a violência sexual perpetrada no período colonial refletem o modo como as relações de gênero e raça configuram-se atualmente. As relações sociais em nossa sociedade, ainda retratam o período escravista.

Ok, se eu disser: “se eu tivesse um cabelo assim, usaria black power”, vou ouvir: “você só fala isso porque tem esse cabelo”; então sem entrar no óbvio, o objetivo é discutir por que as negras famosas usam o cabelo liso.

Daí que eu comecei a reparar, aqui na cidade de São Paulo, em que ambientes costumava ver pessoas negras com mais frequência e em quais outros sua presença era rara ou inexistente. Andando pelos corredores e calçadas da FGV ou da FAAP, duas das principais universidades particulares da cidade, é incômoda a homogeneidade da aparência das pessoas.

Quando tivemos a ideia de escrever juntos nessa blogagem coletiva, proposta pelo Blogueiras Feministas, decidimos fazer um bate papo sobre nossa luta contra o racismo e como mostramos o negro em nossas histórias em quadrinho. Pautamos a conversa em noss@s protagonistas negr@s: Diana, profiler policial da graphic novel Valhalla (roteiro Sara Siqueira e desenho João Miranda); e os personagens da webcomic Sharpeville (criadas por João Miranda, como projeto de final do curso superior de Artes Visuais na UFJF).

Crianças e adolescentes sofrem diariamente o preconceito e a repressão por serem pobres e morarem em comunidades carentes, possuírem pouca escolaridade, e nenhuma perspectiva de mudança. Muitos são negros e feios, segundo a descriçao feita por eles mesmos, que sentem na pele a discriminação na hora de procurar uma vaga de emprego ou de transitar por determinados ambientes. “As pessoas têm medo da gente, e a polícia dá na nossa cara”, alguns me dizem.

Nos últimos anos, o movimento negro vem lutando pela valorização da beleza negra, lidando com a questão do cabelo como um elemento importante de identidade e de enfrentamento do preconceito. O mais legal é que assim as pessoas começam a lidar com a própria imagem como uma proposta política. Ter o cabelo crespo, sem alisar, nesse caso, é uma forma de resistência a um padrão de beleza imposto que diz que o cabelo liso é que é bonito e bom. Além disso, é uma forma de valorizar a própria beleza, a beleza “natural”, mais livre de tratamentos químicos agressivos como o alisamento.

Escolhi falar de mulheres negras. E de música. E de música feita por mulheres negras. Mas não vou me aprofundar, quero apenas contar sobre minha noite de ontem e compartilhar aqui, fazendo uma singela homenagem a todas as mulheres negras, as maiores vítimas do racismo e do machismo.

Neste ano, o portal UOL colocou na sua home page a foto da atleta negra Rosângela Santos que conquistou medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de Guadalajara com o texto legenda “Pan: patinhos feios salvam Brasil com ouros inesperados”, e um link para a reportagem: Patinhos feios salvam o dia do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara. A legenda da foto causou indignação entre os internautas – até hoje os comentários estão disponíveis, questionando inclusive o motivo do portal ter mudado a chamada da matéria repentinamente, sem dar explicações aos leitores.

Dia 20 de novembro é a consciência presente e teimosa daquilo que de fato constrói a negritude. Recriação de olhar, é perceber-se valente, é inspirar-se no rompimento de algemas (timidez e pré-julgamentos), e auto-tingimento consciente, agora de dignidade.

Então as descobertas que vieram com muito debate (leiam aqui) me ajudaram a entender bem essa posição em que estou simplesmente por ser branca – e, claro, entender melhor a posição em que negras estão por serem negras. Isso simplesmente não pode ser ignorado em se falando da sociedade brasileira, ex-escravocrata, onde a escravidão africana foi o principal comércio por séculos.

Ellen Oléria: negra, lésbica e feminista

Música, cantora, compositora e atriz brasiliense. Ellen Oléria também é negra, lésbica e feminista. Sua voz entoa uma melodia poderosa e sua performance cênica cheia de atitude magnetiza a todos. Ellen canta, toca e mistura ritmos brasileiros com soul music e levadas de jazz, transparece sua negritude no palco e nas letras. Em entrevista de 2009, Ellen afirma: “Canto o universo de uma negra, lésbica, criada no Chaparral, região entre Taguatinga e Ceilândia”.

Ellen Oleria. Divulgação.

Conheci Ellen Oléria em 2009, por meio de uma estagiária. No primeiro show que assisti fui totalmente cativada. Ellen é linda e sua presença no palco, com roupas coloridas e um sorriso imenso no rosto nos faz agitar. Porém, seus versos batem forte em nossas mentes, o sentimento de resistência é visível e presente. Em músicas como “Mandala”, Ellen fala sobre a poeira vermelha que cobre a vida de tantos que vivem nas periferias do Distrito Federal e sobre a realidade de tantas mulheres:

Mandala de Ellen Oléria

Poeira, poeira lavadeira, enfeitadeira, poeira.

Poeira vermelha.

Ei, Antonina, preste atenção seu irmão.

Argemiro estenda a mão

Quando lhe for pedida.

Mãe vai na frente britiitando solução.

Buscando última empreitada.

Fechando à fogo a mandala.

Antonina, Antonina, minha filha,

Cuide da sua vida,

Não deixe parecer com a minha.

Eu fiz silêncio demais.

Na música “Senzala”, também conhecida como “Feira da Ceilândia”, Ellen retrata em longos versos o cotidiano de uma das maiores feiras do Distrito Federal e os sentimentos que perpassam seus frequentadores, além de compará-la ao elitismo preconceituoso dos shopping centers:

Senzala – Feira da Ceilândia de Ellen Oléria

A feira da Ceilândia te oferece o que quiser comprar. Peixe, sapato, retrato, colar pra te enfeitar. Cinto da moda.

Sinto vontade, grande necessidade de comprar. Roupa xadrez, meia longa, bota preta pra arrasar. Estilo colegial: brega, veste mal vamos parar. Mulheres dêem à cor o seu destaque. Esbanjem no batom e no esmalte. Muita roupa já é coisa de perua. Daqui a pouco tem gente andando nua.

Sinto vontade, grande necessidade de dançar. Danço o axé, o pagode. o rock vai ter esperar. Quarteto, quinteto estrangeiro é o som que vai rolar. Guarde seu velho cd na estante. Agora você vai curtir um funk. Lambada som da hora na senzala. Melhor dançar agora porque passa.

Sinto vontade, grande necessidade de observar. Onda do norte, coisa de nobre. Vamos copiar. Desde filme titanic à sanduíche. Virgindade lá é coisa do passado. E se voltar à moda o quê que eu faço?! Brasil, não é que há algo que te estrague, mas santo de casa não faz milagre.

Mas o que você precisa mais na feira não se pode encontrar: razão, consciência, senso, inteligência, uma cabeça pra pensar. Isso só no shopping lá do centro você vai achar. Se tiver dinheiro pra comprar. Boa aparência pra entrar. Não tenho dinheiro pra comprar. Hoje eu vou voltar pra feira. Pra feira de Ceilândia. Hoje eu vou voltar pra feira. Lá tem pastel e tem caldo de cana.

Ellen Oléria em show de 2010. Foto de Sávia Gabi. Divulgação.

Ellen começou a se apresentar publicamente aos 16 anos, atualmente já completou dez anos de carreira. É visível que não foi um caminho fácil. Onde uma mulher negra e lésbica poderia encontrar espaço para mostrar sua arte e se expressar? Ellen é uma grande vitória e uma pessoa muito especial na cena cultura de Brasília, mas não podemos esquecer que ela é a exceção. É por isso que seu cotidiano e sua guerra diária está presente em suas letras, para nos lembrar de tantas Ellen Olérias que tristemente ficam em silêncio.

Em seu site oficial, há uma curta autobiografia em que Ellen nos conta mais sobre seus sentidos, aprendizados e olhares. Faz um retrato 3×4 de uma vida marcada por poucas oportunidades, mas por um desejo constante de mudar essa realidade:

tudo que aprendi a tocar depois do b – a – bá que meu irmão me ensinou, aprendi olhando e principalmente ouvindo e experimentando. estudei quatro meses de teoria musical e não restou nada na minha cabeça desse tempo nem a “sê-menina” nem a “colcha-cheia”. assim como os quatro meses de escola técnica que fiz, pra ser uma eletrotécnica, assim como o mês trabalhando em floricultura, o mês de assistente de caixa na loja de sapatos, ou o ano de telemarketing. nada disso eu lembro direito. lembro mesmo das músicas de abertura dos desenhos que eu vi (e vejo!), das séries japonesas, das novelas mexicanas das antigas.

lembro do gosto da vitamina de abacate, da cor do vestido da moda das vizinhas e das bonecas delas. lembro da minha mãe me dando apoio mesmo sendo contra o curso de artes cênicas, mas contando pra todo mundo da vizinhança que eu estudava na universidade de brasília, com o maior orgulho. lembro do primeiro beijo, mas lembro melhor do último. lembro de cantar pra pagar as contas e de vez em quando de não conseguir. e lembro de muitas vezes conseguir. lembro de dar bronca na minha irmã porque ela era preguiçosa pra decorar as letras e os arranjos da músicas. porque eu era sim, a “louca-do-ensaio!”: odiava ensaiar, mas insistia, pra sair bonito.

Em 2009, Ellen Oléria lançou o disco independente “Peça”. E em 2011, seu primeiro clipe oficial. A música é “Testando”. Sua letra fala especialmente sobre a insegurança das mulheres nas cidades: “A mulherada já sabe o cotidiano da rua. Anoiteceu sozinha cê não tá segura”. E sobre o racismo velado brasileiro: “Andando na rua de noite muita gente branca já fugiu de mim. A minha ameaça não carrega bala mas incomoda o meu vizinho”.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=3SNIpTcn5RE&w=560&h=315]

Para saber mais:

Ellen Oléria – Site Oficial

Ellen Oléria – Twitter

Ouça músicas de Ellen Oléria no Myspace

*Participe da nossa Blogagem Coletiva com o tema Dia da Consciência Negra. Dias 20 e 21 de novembro escreva um post no seu blog sobre o tema e nos envie o link. Ele entrará numa lista de posts participantes que será publicada no dia 22/11.

Mulheres negras na internet

O Geledés – Instituto da Mulher Negra foi criado em 30 de abril de 1988. É uma organização política de mulheres negras, que tem por missão institucional a luta contra o racismo e o sexismo além da valorização e promoção das mulheres negras. O Instituto atua em diversas áreas relacionadas a questão racial como: educação, direitos humanos, violência, gênero, comunicação, saúde, políticas públicas e mercado de trabalho. Em todos esses temas, o Geledés desenvolve projetos próprios ou em parceria com outras organizações de defesa dos diretos de cidadania.

O Portal Geledés é a face do Instituto da Mulher Negra na internet e uma das melhores fontes atuais sobre a questão racial em língua portuguesa, com notícias diárias sobre racismo, sexismo, consciência negra, cultura e  preconceito no Brasil e no mundo. No portal é possível encontrar diversos artigos sobre a questão racial no Brasil; planos de aula para professores entre outros documentos importantes para consolidar a discussão sobre o racismo e a defesa da cidadania. O Portal Geledés é o espaço de expressão pública das ações realizadas pela organização no passado e no presente e de seus compromissos com a defesa intransigente da cidadania e dos direitos humanos.

Sueli Carneiro - Portal Geledés

Sueli Carneiro, que esteve presente no nosso Encontro Nacional em 2011, é coordenadora executiva do Portal Geledés. Além de filósofa e doutora em Educação pela Universidade de São Paulo. No artigo Raça, cultura e classe no Brasil, Sueli aponta diversas contradições que impregnam o racismo brasileiro:

A fragilidade da democracia racial brasileira evidencia-se também quando se constata a desigualdade nas decisões judiciais: dados coletados em processos criminais em São Paulo atestam que negros e brancos sofrem penas diferentes para os mesmos crimes: processos referentes a roubo qualificado, por exemplo, mostram que 68,8% dos réus negros e 59,4% dos brancos foram condenados. Mesmo entre réus que constituem advogado particular, a diferença persiste: a defensoria particular logrou obter absolvição para 60% dos réus brancos, más apenas 27% dos negros foram absolvidos. Em 480 processos analisados, 27% dos brancos respondiam em liberdade e somente 15% dos negros encontravam-se na mesma situação.

No Estado do Maranhão, onde a população negra representa perto de 80% da população total, encontramos um dos maiores índices de esterilização feminina do país: 75% das mulheres maranhenses em idade reprodutiva estão esterilizadas. Em contrapartida, em Estados de maioria branca, como por exemplo no Rio Grande do Sul, o índice de esterilização de mulheres fica abaixo da média nacional, que é de 44%. Embora a incidência de miomas em mulheres negras seja substancialmente maior em relação às brancas, há uma proporção excessivamente elevada de mulheres negras histerectomizadas: 15,9% contra 3,6% das brancas: úteros desvalorizados, a poucos interessa preservar. Por outro lado, há maior incidência de perdas fetais entre mulheres negras: (17,%), do que entre as brancas, (10%).

A discriminação do negro nos instrumentos didáticos ou pedagógicos é apenas um aspecto da desigualdade no acesso à educação, que se manifesta nos índices superiores apresentados pelos negros quanto a repetência e evasão escolar, e nos índices de analfabetismo e a participação percentual ínfima nos níveis universitários. Articulada com a discriminação no acesso à educação, encontramos no mercado de trabalho a divisão racial do trabalho, encarregada de frear qualquer esforço de mobilidade social para o negro.

Assim sendo, para além da dominação de classes convive-se com a dominação de raça. Se a luta de classes sem trégua que se trava no Brasil tem por sentido estratégico assegurar os privilégios das classes dominantes, a violência racial funciona como mecanismo insubstituível de garantia de todas as posições de mando e de poder no país para o grupo étnico dominante, ou seja, os brancos. O resultado concreto destas práticas sociais é o fato de que os negros estão fora de todas as instâncias de poder da sociedade brasileira.

Portanto, no Brasil desenvolveu-se uma forma muito mais sofisticada, perversa e competente de racismo, através da qual, a intolerância racial mascarou-se em igualdade de direitos no plano legal e concretizou-se na absoluta desigualdade de oportunidades no plano das relações sociais concretas.

O racismo brasileiro está presente em situações cotidianas, mascarado por nossa pretensa falta de conflito. Por isso precisamos repensar nossas próprias atitudes, além de apoiar e divulgar ações de mulheres negras na internet. Dentro do nosso grupo há a busca pela reflexão em relação as mulheres negras e o desejo de buscar sempre o caminho da diversidade.

Charô e Lara Januário, blogueiras no encontro do LuluzinhaCamp em São Paulo/2009. Foto de Lidi Faria no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Outros sites e blogs que trazem a voz da mulher negra para a internet são:

  • Sem Medida, blog de culinária da Lara Januário.

Se você souber de outros blogs e sites sobre mulheres negras indique nos comentários. E participe da nossa Blogagem Coletiva com o tema Dia da Consciência Negra. Dias 20 e 21 de novembro escreva um post no seu blog sobre o tema e nos envie o link. Ele entrará numa lista de posts participantes que será publicada no dia 22/11.