#8demarço – Por que o Feminismo é importante para o mercado de trabalho?

Texto de Thayz Athayde.

O mercado de trabalho está aquecido, é o que muitos falam. O que isso quer dizer? Que tem muito emprego por aí, inclusive as empresas estão fazendo coisas inéditas, investindo nos funcionários que já estão trabalhando na empresa e capacitando pessoas sem qualificação para entrar no tipo de segmento que a empresa trabalha.

Ótimo, maravilhoso, né? Agora é a vez das mulheres, vamos atacar esse mercado então. É minhas caras, o mercado não é tão fácil assim para as mulheres, pois ele está sufocado pelo machismo, sexismo e é exatamente ai que entra o feminismo, para discutir certas questões que são apenas repetidas.

A mulher ainda é discriminada no mercado de trabalho e um dos motivos é o velho conceito de que ela pode ficar grávida a qualquer momento, abandonando o emprego e deixando o chefe na mão. A mulher que tem filho também pode deixar a desejar, vai que o filho fica doente e ela tem que sair do trabalho pra cuidar dele? O interessante é que a empresa descarta qualquer possibilidade do pai cuidar da criança da mesma forma que a mãe. Em entrevista de emprego é comum perguntar para a mulher com quem ela deixa seus filhos,  vasculhamos a forma que a trata o filhos e quantos ela tem, dessa forma poderemos saber se ela é realmente uma boa mãe: guerreira, que sustenta e faz tudo. Ao homem é perguntado apenas se tem filhos.

A mulher negra ainda é vista como desqualificada e contratá-la, é algo exótico, é bonito e ajuda nessa imagem de responsabilidade social da empresa. Uma vez, vi um Gerente de certa empresa falando: vamos contratá-la, vai ser bom pra nossa empresa ter uma negra na recepção. Mulheres que fazem esse país são vistas como meros objetos exóticos. O mercado está aquecido pra quem, cara pálida?

Tem empresas que ainda exigem que a mulher tenha uma boa aparência, leia-se: magra, bonita, jovem e capaz de se virar em um salto alto.

Como eu sei de tudo isso? 5 anos trabalhando com Recursos Humanos e as mesmas coisas acontecem. A pauta do feminismo é extremamente necessária para interrogar atitudes, preconceitos, estereótipos, fazendo um grande debate sobre corpo da mulher, auxilio creche, licença paternidade e sobre como a mulher é capaz de assumir qualquer tipo de função.

A grande questão é fazer essas empresas pensarem nas mulheres como profissionais e não só como reprodutoras e objetos ao bel prazer de todos.

Eu tenho muito orgulho de ser feminista dentro desse mundo perverso, é difícil, mas é tão necessário , não é mesmo? Se as oportunidades de trabalho estão ai, vamos arregaçar as mangas, mostrar que podemos sim assumir esse papel, recolocar mulheres e trazer independência financeira pra elas e quem sabe um pouquinho de feminismo?

Certa vez contratei uma mulher negra para um cargo de Promotora de Vendas, depois de conseguir mostrar seu potencial, ela conseguiu ser promovida para Gerente. Eu acredito que esses casos podem acontecer cada vez mais, basta as empresas investirem no funcionário, entender que ele é sim, ele pode ter problemas e por que as empresas apresentarem soluções, como o Auxílio Creche. Em muitas empresas o Auxílio já é dado como benefício para a família. Investir no funcionário, resolver problemas é a formula perfeita para resolver o mercado aquecido.

O mercado de trabalho para as mulheres mudou. Na verdade, as mulheres mudaram também, investem mais em cursos superiores, estão se qualificando e deixando o mercado de trabalho sem argumento nenhum para contratá-las. Não basta apenas ter vagas por aí, é necessário dar oportunidade para essas mulheres. Tem muita empresa apostando e ganhando com isso, pois o resultado é perfeito: muito emprego e mulheres querendo trabalhar. Mulheres que muitas vezes sustentam toda uma família com aquele salário.

As oportunidades estão aí, muita coisa está melhorando. A Dilma disse que a mulher pode, agora ninguém nos segura. “Quando as mulheres transformam sua história, o Brasil inteiro se transforma com elas.”

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Mulher brasileira e preconceito – parte 1

Texto de Maíra Avelar.

Eu tô azeda com um episódio de racismo que vivi recentemente na Europa. Resumindo bem a situação, estou namorando com um europeu (loiro dos zôio azul) e fui considerada (pelas costas, é claro), como uma aproveitadora, que está com ele para obter cidadania.

Bom, passei da fase 1 (sangue nos zóio + provar que não é verdade) para a fase 2 (tentar digerir e racionalizar o assunto). Pois bem, em plena era tecnológica, resolvi dar uma googlada em “mulheres brasileiras visto”, e eis que me deparo com a capa da revista Focus, com uma bunda e a chamada: “Os segredos da mulher brasileira”. Dispensável comentar o teor da capa, certo ?

Resolvi correr atrás da reportagem e, por incrível que pareça, ela é bem menos infame do que a capa. Em geral, traz depoimentos de casais luso-brasileiros (mulher brasileira e homem português) e também relata alguns estudos feitos por acadêmicos sobre a questão da imagem da mulher brasileira construída pelos europeus e pelas europeias. Como sou chata, resolvi deixar a parte dos depoimentos fofinhos de casais apaixonados de lado e me concentrar na questão dos estereótipos construídos sobre nós, mulheres brasileiras, aqui na gringolândia. Vale dizer que os estereótipos que vou analisar aqui partem de reflexões minhas sobre a leitura da reportagem, ou seja, advêm de um contexto específico, sem a pretensão de generalizar isso universalmente, ok ?

1. O primeiro estereótipo é aquele que tá todo mundo careca de saber: a imagem da mulher brasileira é uma imagem sexualizada. Traduzindo em bom português : “Mulher brasileira é tudo puta!”. É interessante a gente parar e se perguntar: Por quê que é assim? O que nos leva a respostas de origem histórica:

A questão da raça (sic) está inextrincavelmente ligada à questão da sexualização da mulher brasileira : a imagem englobante, por assim dizer, é a imagem da mulata, indicando as fortes relações entre as hierarquias sociais,  os estereótipos de sexualidade alterada e o passado colonial. O Brasil, sempre no lugar do mestiço, acaba sendo ele todo transformado no corpo feminine da mulata: como tal, é sexualizado. (Igor Machado, USP, p. 122)

Trocando em miúdos, a imagem sexualizada da mulher brasileira vem do período colonial. Mas aí rola o questionamento (racista, claro): “Pô, mas você é tão branquinha!” Como pode ser associada a uma mulata/ escrava/mucama? Bom, o que acontece, na contemporaneidade, é que tal imagem é reforçada, por exemplo, pelas novelas e também pela indústria do turismo, responsável por difundir estereótipos brasileiros mundo afora. O que inclui, naturalmente, o carnaval e todas as mulheres com pouca ou nenhuma roupa relacionadas a ele: “muitas pessoas pensam que a liberdade do sambódromo se extende à vida cotidiana” . (Ana Letícia Barreto, Universidade de Évora, p. 125).

Daí não importa se sou branca, preta, amarela, azul ou verde. SE sou brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa; LOGO, sou libertina. Qualquer associação com a contemporânea imagem das ‘piriguetes’, que nós mesmas fazemos no Brasil, não é mera coincidência. Aplique esse estereótipo indistintamente e pronto: a fórmula “brasileira é tudo puta” tá aí, prontinha para uso da parcela desinformada da comunidade europeia.

Ou seja, o preconceito que temos contra uma parcela das mulheres da nossa população, a parcela desinformada da comunidade europeia tem contra todas. Adicione uma boa pitada de xenofobia secular e você tem a fórmula completa, que inclui a questão da ‘mulher aproveitadora’, que vem no combo do estereótipo da piriguete, certo? Repare como a coisa é recursiva!

Sou uma mulher brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa; LOGO sou libertina; LOGO sou aproveitadora; LOGO quero subir na vida fácil; LOGO quero me casar com um europeu, PORQUE posso obter um passaporte de capa vermelha. O imaginário da pouca roupa não desaparece mesmo que usemos 500 roupas de frio, entende?

Isso nos leva à fórmula silogística mais simples: sou uma mulher brasileira, LOGO quero um passaporte europeu. Ou, como toda fórmula recursiva, pode se estender ad infimitum, neste caso, dependendo das cores que se dá ao contexto. Por exemplo:

Sou uma mulher brasileira, ENTÃO ando com pouca roupa; LOGO sou libertina; LOGO sou aproveitadora; LOGO quero subir na vida fácil; LOGO quero me casar com um europeu; LOGO quero engravidar de um europeu PORQUE posso obter um passaporte de capa vermelha e obter uma pensão em euros para sempre, amém.

No fim, todos os caminhos levam ao inevitável estereótipo relatado em quatro palavras: “Mulher brasileira é tudo puta!” Não é incrível?

[+] Mulher brasileira e preconceito – parte 2

[+] Como manter um homem loucamente apaixonado

E o lixo do banheiro, quem tira?

Texto de Tica Moreno.

Quem nunca se preocupou em trocar o lixo do banheiro, que sempre achou que este desaparecia num passe de mágica, deve ter ficado preocupada ao ler a matéria sobre a dificuldade de se encontrar empregadas domésticas nas grandes metrópoles, que saiu domingo na Folha Cotidiano: Achar doméstica vira desafio e famílias tem que mudar hábitos.

Limpar o banheiro, a cozinha, lavar roupa suja, estender e passar, lavar o box do chuveiro, o vidro da janela, o chão da área de serviço. As empregadas domésticas fazem todo aquele serviço que ninguém gosta de fazer. As diaristas tem um trabalho ainda mais intenso. Muitas vezes, tem que fazer o trabalho de uma semana em um dia. É um serviço penoso, pesado, que dá dor nas costas, que te expõe a produtos de limpeza que podem fazer mal para saúde.

Fora cozinhar, não conheço outras tarefas domésticas que as pessoas dizem gostar de fazer.

O enfoque da Folha escancarou a preocupação de um setor da sociedade que está, ou estava, (mal) acostumado a ter alguém 24 horas disponível. Os exemplos tinham a ver com as empregadas domésticas que dormem no serviço, trabalham nos finais de semana, folgam a cada 15 dias.

Gente, nem quem adora muito o emprego que tem gostaria de dormir nele, né?

Alguma coisa está errada em uma sociedade que acha super normal que você repasse para outra pessoa uma série de tarefas necessárias para seu bem estar. Tarefas que você não gosta de fazer, mas não vive sem. A outra pessoa pode ser sua mãe, sua avó, sua irmã, sua namorada – que fazem de graça. Ou pode ser uma empregada doméstica, ou diarista, que faz por um salário bem baixo. E aí tem gente que ainda reclama que “tá caro”.

Cena do documentário Domésticas (2012) de Gabriel Mascaro.

O mínimo, para começo de conversa quando a gente fala de emprego doméstico, deveria ser considerar que as mais de 7 milhões de pessoas que são empregadas domésticas — mais de 90% mulheres, a maioria negras — são trabalhadoras/es que deveriam ter direitos trabalhistas garantidos, como a obrigatoriedade do FGTS e 40 horas de jornada semanal. Mas a realidade é outra, como a própria reportagem aponta: apenas 27,5% tem carteira de trabalho assinada.

E, um entrevistado mencionou que, como nos países ricos, a tendência é que ter empregada doméstica viraria luxo. Ele só esqueceu de comentar que em vários países da Europa, que não tinham a tradição do emprego doméstico como nós temos aqui no Brasil, o emprego doméstico está crescendo. Babás, cuidadoras, empregadas domésticas. Ganham pouco, pouquissimo. Na maior parte das vezes são imigrantes em uma situação irregular no país.

Acho que é muito difícil discutir o assunto do emprego doméstico sem olhar para o trabalho doméstico como um todo, incluindo o trabalho doméstico não remunerado que nós fazemos todos os dias.

E parto aqui da premissa de que o trabalho doméstico não é responsabilidade natural das mulheres. Mas o que ainda acontece é que somos nós que gastamos mais horas das nossas vidas fazendo esse trabalho. A média semanal é de 25 horas para as mulheres e 10 horas para os homens. E, vejam só, a média entre as mulheres casadas aumenta pra 29,2 horas! Ou seja, ser casada/dividir a casa acaba dando mais trabalho!

É a combinação da desigualdade social, de gênero e racial que permite que 16,4% das mulheres ocupadas no Brasil sejam empregadas domésticas. É a principal ocupação feminina. Para esse número diminuir, precisa ainda de muita coisa: mais alternativas de empregos decentes e com garantia de direitos para as mulheres, ampliação dos serviços públicos, garantia de creches públicas e educação infantil em horário integral e uma profunda alteração na divisão sexual do trabalho.

Ou seja, o Estado tem que assumir a garantia de serviços que rompam com a idéia de que a produção do viver deve se dar só dentro de casa. Restaurantes populares, lavanderias coletivas e creches são um caminho. E os homens tem que assumir sua responsabilidade nas tarefas domésticas. Não basta só ajudar de vez em quando a trocar uma lâmpada ou lavar a louça. Precisa dividir e assumir as tarefas.

Um país com justiça social não pode ter como principal ocupação feminina um serviço que ninguém mais quer fazer.