Blogueiras Feministas pela legalização do aborto

No último dia 18, aproveitando a presença de um monte de gente e o sentimento de entusiasmo da Marcha das Margaridas, houve uma plenária em Brasília da Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto. A iniciativa reúne diversas entidades, como a Marcha Mundial de Mulheres, a CUT, a UNE, a Articulação de Mulheres Brasileiras, PSOL, etc. E agora, as Blogueiras Feministas fazem parte dessa lista: fizemos nossa adesão oficial à Frente. Digo oficial, porque a gente já vem fazendo e difundindo esse debate na lista de emails, no blog, nas redes sociais, etc.

Faixa pela legalização do aborto na Marcha das Margaridas. Foto de Tica Moreno/Flickr da MMM

Durante a reunião, foi divulgado o estudo “Advocacy para o acesso ao aborto legal e seguro: semelhanças no impacto da ilegalidade na saúde das mulheres e nos serviços de saúde em Pernambuco, Bahia, Paraíba, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro”. O trabalho foi desenvolvido pelo Ipas Brasil e pelo Grupo Curumim, em parceria com organizações do estados estudados. E traz dados para entendermos que a criminalização do aborto não é apenas uma forma de criminalizar as mulheres, retirando o direito da mulher ao próprio corpo. É uma forma de criminalizar as mulheres negras e pobres.

O aborto clandestino é um problema principalmente para as mulheres pobres, que têm menos acesso a clínicas e a bons profissionais. Além de ser realizado em condições inseguras, os maus-tratos no atendimento nos serviços de saúde e mesmo o medo de procurá-los torna ainda mais graves as conseqüências de abortamentos, aumentando os riscos de morbidade feminina, da esterilidade e de mortalidade materna.

“O resultado da proibição legal ao aborto é desastroso, pois condena contingentes de mulheres a optar por métodos inseguros para sua realização em condições adversas que representam riscos para a saúde e podem levar a seqüelas físicas e psicológicas”, argumenta o estudo. Dentro disso, os maiores riscos são para as “mulheres pobres, negras, jovens, com baixa escolaridade e com pouco acesso a serviços de saúde de qualidade, tornando-o uma questão de justiça social no Brasil”, continua o texto.

Um exemplo disso vem da Bahia. “Em Salvador, município com 82% de população feminina negra, o abortamento inseguro foi a principal causa de mortalidade materna durante toda a década de 1990, diferentemente das demais capitais brasileiras, cuja primeira causa eram as hipertensões”. No Mato Grosso do Sul, a pesquisa mostrou que a “escassez de ações do Estado e a falta de informações em linguagem acessível para a população indígena sobre questões relacionadas à gestação, contracepção, mortalidade materna e abortamento, possivelmente, coloca as mulheres indígenas no grupo de maior vulnerabilidade em matéria de acesso a políticas de saúde reprodutiva”.

Veja a íntegra da Plataforma da Frente

[+] Texto – Com legalização distante, Frente pró-aborto quer conter retrocessos

Mulheres Negras, cadê?

Texto de Luana Tolentino.

Há dois anos pesquiso sobre imprensa feminina e feminismos. Encontrar as Blogueiras Feministas foi um achado. É com entusiasmo que recebo as centenas de emails diariamente sobre os mais variados assuntos. Sempre que posso, leio e comento as mensagens e os posts do blog. Aprendo muita coisa bacana aqui.

Contudo, não posso deixar de tecer algumas críticas quanto à invisibilidade da mulher negra neste grupo, que, se não estou enganada, é composto por mais de 300 mulheres e alguns poucos homens.

Com o auxílio da Srta. Bia consegui o número de textos postados no site de outubro de 2010 até a presente data: 282 no total (contando com este post). Dentre eles, apenas 3 (3!) tratam especificamente do binômio gênero e raça. Dois deles foram enviados pela Historiadora aqui.

Foto foi tirada no Fazendo Gênero de 2010. Imagem de Luana Diana dos Santos.

Lélia Gonzalez, uma das maiores feministas que este país já teve, costumava dizer que no Movimento de Mulheres, as negras, ao reivindicar uma maior representatividade e participação, eram vistas como criadoras de caso e encrenqueiras. É exatamente isso que estou fazendo neste momento: expondo uma questão que, acredito eu, precisa ser repensada.

Afinal de contas, que Feminismo é este pelo qual empunhamos bandeiras? Como falar da opressão sofrida pelas mulheres, quando não damos espaço às negras? Agindo desta forma, não estamos reproduzindo os preconceitos que julgamos combater diariamente? Além de mim, há mais afro-descendentes no grupo? Lutar, denunciar e divulgar a forma perversa como o machismo, o sexismo e o racismo incidem sobre a mulher negra é uma responsabilidade somente nossa?

Parafraseando Sueli Carneiro, acho que precisamos enegrecer o Blogueiras Feministas.

Então?! Alguém topa o desafio?

[+] Texto – Enegrecer o Feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero, de Sueli Carneiro.

25 de Julho: Lembrando de Benedita da Silva

Texto de Luana Tolentino.

Na adolescência possuía dois sonhos: ser uma pessoa inteligente e conhecer o Rio de Janeiro. O primeiro, não serei eu a dizer se alcancei ou não. Já o segundo, realizei no ano passado.

Em dezembro participei do Seminário Mulher e Mídia 7, realizado na capital fluminense. A organização do evento não divulgou a programação antecipadamente. Foi uma grata surpresa encontrar Nilcéia Freire, Luiza Bairros, Liv Sovik, Nalu Faria e o Rodrigo Vianna por lá. Único convidado do sexo masculino, o jornalista e blogueiro progressista se saiu muito bem ao falar sobre temas feministas. Durante os três dias do seminário, nada me tocou tanto quanto Benedita da Silva, de quem lembro neste 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Ao lembrar de Benedita Sousa da Silva Sampaio, lembro também de todas as mulheres negras deste país.

A platéia estava lotada. Eram mais ou menos 250 mulheres. Benedita e eu éramos umas das poucas negras presentes. Quando a vi, meus olhos brilharam. Uma mulher linda, viva, forte. Nem de longe aparenta ter 69 anos. Benedita quebrou todos os protocolos. O que era para ser apenas uma comunicação, transformou-se num brado contra a discriminação de gênero, classe e raça sofrida pelas afro-descendentes. Não poderia ser diferente. Fiquei emocionada. Ao final da apresentação, corri em direção à Bené e pedi um abraço. Mais que um afago, recebi um sorriso e o direito de tirar uma foto. Tremi. Tive a sensação de estar diante de um espelho, onde a minha imagem era refletida.

A história de Benedita da Silva é semelhante a da maioria das mulheres negras do Brasil. Nascida na favela da Praia do Pinto, Rio de Janeiro, a atual Deputada Federal pelo PT, viveu por 57 anos no Morro do Chapéu Mangueira. Assistente Social por formação, antes de ingressar na carreira política, Bené trabalhou durante longos anos como empregada doméstica. Como ela costuma dizer, lavou muito chão para as madames até pisar no tapete vermelho do Palácio do Planalto, quando tomou posse como Deputada Federal em 1986.

Imagem de Luana Diana. Arquivo Pessoal.

Benedita da Silva foi a primeira mulher negra a ocupar uma vaga no Senado e a governar um estado. Antes disso, fora eleita vereadora em 1983. Com a renúncia de Anthony Garothinho para concorrer à Presidência da República, Benedita assumiu o governo do Rio em 2002.

Feminista e ativista do Movimento Negro, Benedita da Silva fundou o Departamento Feminino da Associação de Moradores da favela em que passou boa parte da vida. Participou também da criação das primeiras associações de mulheres negras nos anos de 1980. Tema pouco estudado na Academia, o Feminismo Negro foi uma resposta à pouca visibilidade dada pelas feministas às especificidades das afro-brasileiras no que concerne à saúde, educação e participação no mercado de trabalho. Eliza Larkin do Nascimento considera a situação da mulher negra o próprio retrato da feminização da pobreza. Pesquisas revelam que as não-brancas formam a maior parte da população analfabeta do país, estão empregadas em grande parte no setor de serviços, encontram barreiras no acesso aos serviços de saúde e sofrem com os estereótipos construidos durante os quase quatro séculos de escravidão.

Ao ser perguntada sobre o que significava ser mulher negra, Benedita da Silva sintetizou com as seguintes palavras:

O meu orgulho é a missão de ser negra. Mas eu já quis deixar de ser negra. Era maltratada, riam de mim, puxavam meu cabelo, me chamavam de nega maluca, de macaca, e até de Benechita. Ah, mas macaca não foi há tanto tempo! (…) De vez em quando aparece alguém para me chamar de macaca”. (Revista Eparrei, 2º semestre de 2005, p.27)

 Nós, mulheres negras, sabemos exatamente o que significam cada uma dessas palavras…

Em dezembro, realizei um dos maiores sonhos da minha vida. Pisei em solo carioca. Conheci o Cristo Redentor e Copacabana. Dancei samba na Lapa e tomei cerveja no mesmo “Amarelinho” que abrigou João Nogueira por diversas noites. Mesmo de longe, vi o Maracanã e o Engenhão. Em uma feijoada na quadra da Portela, ganhei autógrafos do Monarco e da Tia Surica. Mas a vida, que é muito generosa comigo, ainda me concedeu a oportunidade de conhecer Benedita da Silva, por quem tenho grande admiração.

Certamente Benedita da Silva não se lembra daquele abraço, daquela foto tirada no dia 3 de dezembro de 2010. Eu jamais esquecerei.