A mídia brasileira sempre dá uma segunda chance para agressores de mulheres

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Esse mês, estreou na Rede Record, a nona edição do reality show: A Fazenda. Entre os participantes estão dois homens que foram denunciados por agredir mulheres que eram suas namoradas: Yuri Fernandes e Marcos Harter. Mesmo com o feminismo sendo pauta na mídia e cada vez mais denúncias públicas de agressões, a TV brasileira segue promovendo a naturalização da violência contra as mulheres.

Em 2014, Yuri Fernandes foi preso em flagrante por agredir Ângela Souza. Em abril de 2017, Marcos Harter foi expulso e indiciado por agressão a Emilly Araújo durante o programa Big Brother Brasil (BBB) da Rede Globo. A proposta da atual edição de A Fazenda é ser uma “segunda chance” para participantes de reality shows que não ganharam o grande prêmio final. O que leva a Rede Record a convidar dois notórios agressores de mulheres para um reality show? O que leva a mídia brasileira a nunca ser responsabilizada por enaltecer agressores de mulheres? Por que agressores de mulheres são tratados constantemente como coitados e merecem uma segunda chance?

A mídia brasileira faz escárnio e chacota da violência contra a mulher ao dar espaço e visibilidade para esses homens. A mensagem transmitida é que esses homens fizeram uma “besteira”, tiveram um “comportamento inadequado”. O histórico dos reality shows brasileiros nos mostra que agressores de mulheres tem grande apelo popular, são apresentados como “conquistadores” ou “polêmicos” pela mídia e, justamente por isso, tornam-se celebridades. Do outro lado, emissoras de TV só costumam tomar uma atitude em relação a violência que exibem quando acionadas pela polícia.

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Sobre a confissão de homicídio no Big Brother Brasil 2015

Texto de José Antônio Gerzson Linck.

“O carioca Luan Patrício, de 23 anos, afirmou ter matado um menor de 16 anos no Complexo do Alemão, em 2010, enquanto servia o Exército. Na ocasião, Luan integrava o 8º Grupo de Artilharia que ocupou as favelas da região. O Exército nega que tenha havido qualquer morte em confronto com esta unidade.”

Luan no BBB 15. Imagem: Rede Globo de Televisão.
Luan no BBB 15. Imagem: Rede Globo de Televisão.

Na maior rede de televisão aberta do Brasil há um programa que simula uma espécie de laboratório humano em que a popularidade garante ou impede a permanência do personagem. O objetivo é permanecer no programa. O personagem conta — no ar — que executou uma pessoa. Percebam: ele não poderia contar que executou a mãe. Ele não poderia contar que executou um inimigo pessoal. Ele não poderia contar que executou um desconhecido no shopping. Existe um contexto específico que autoriza a confissão deste homicídio, porque não é esperado confessar um homicídio para milhões de espectadores.

A lógica que autoriza a confissão — ou mesmo invenção — deste homicídio é bastante simples: algumas pessoas podem ser mortas. É por isso que algo aparentemente tão impressionante como confessar um homicídio em rede nacional é utilizado como instrumento de popularidade. Não é apenas uma confissão. É uma confissão que visa popularidade. E a confissão que visa popularidade é a execução de uma pessoa. O assassinato como instrumento de popularidade. Mas não qualquer assassinato, um assassinato onde o personagem exercia uma função pública.

O assassinato como função pública, como função do Estado. É uma técnica de neutralização bastante simples: aquele sujeito merecia morrer, então eu posso confessar. Não há processo, não há inquérito, não há registro. O homicídio não está formalizado em nenhuma agência estatal, justamente porque não precisa. Há uma autorização tácita para execução de tipos sociais específicos que é tão óbvia que legitima uma confissão pública.

O homicídio como criação do personagem tornará ainda mais transparente o contexto político-criminal: se não houve a execução, então deveria ter acontecido, porque é o esperado. O personagem confessa como forma de preencher a função destinada pelo Estado ainda que o assassinato não tenha acontecido. E sem burocracia.

É este imenso oceano de sangue que o garantismo não alcança, porque não é preciso formalizar nada para matar alguém, basta que o Estado seja o responsável. Como instrumento estatal, o homicídio está legitimado. Não há como garantir coisa alguma, não há vigência constitucional na guerra. É este imenso oceano de sangue que o gerencialismo de esquerda considera um “processo”, um “trajeto” rumo a algo que simplesmente não importa, porque nada pode ser mais importante do que a permanência do homicídio como função de Estado que sequer precisa de formalização.

Foi nisto que que o personagem apostou para se tornar popular: executar como função pública em um local específico — o complexo do alemão. Essa hiper-realidade que salta da tela com uma naturalidade impressionante fala muito sobre democracia contemporânea, garantismo penal e gerencialismo de esquerda. Fala tanto quanto um choque elétrico na vagina ou a inserção de arames no pênis de torturados em um porão do DOPS. Fala tanto quanto jogar corpos de aviões ou sequestrar crianças. E de novo, com amplo apoio da população civil. Um governo que não parta deste pressuposto já perdeu contato com qualquer semblante de esquerda.

Não vejam o personagem como um alucinado, vejam ele como alguém tão lúcido que escancara um genocídio que vai matar alguém hoje e vai matar outro alguém amanhã. E depois de amanhã. Vai estuprar, vai sequestrar. Preferencialmente negros, preferencialmente pobres, preferencialmente mulheres. E geral discutindo a Indonésia.

Autor

José Antônio Gerzson Linck é educador e pesquisador no campo das ciências criminais. Não acredita no Estado Democrático de Direito e crê que não há mais diferença entre academia e burocracia. Elegeu a sala de aula como o espaço para aprender e compartilhar emancipação.

Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 23/01/2015.

[+] Sobre o assunto:

Maria, a amiga íntima

Texto de Fabiana Motroni.

Este texto foi inspirado neste da Nina Lemos, que dialoga com este da Clarissa Corrêa e torce pelo que pode simbolizar a vitória da Maria no BBB11.

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Sou cada vez mais Maria. E hoje, um dos meus maiores desafios pessoais é equilibrar essas Marias dentro de mim, mantendo-as vivas e operantes, evitando que alguma Maria se sobressaia tanto a ponto de apagar as outras — e me fazer esquecer da existência de todas elas.

Mas, para além do exercício pessoal, meu ativismo feminista também me lembra da responsabilidade que tenho em falar das coisas sobre as quais acredito, e defendê-las — no caso, a nossa liberdade de escolha de como ser e viver o sexo — por isso enfrentei recentemente meus medos sociais e fiz até mesmo um exercício de ‘confissão pública’ na reportagem: ‘Chegar ao orgasmo é fácil, ficar satisfeita é difícil‘.

Acredito que esse exercício da sexualidade é fundamental — tanto o agir quanto o falar sobre — e me fez dar saltos quânticos em várias dimensões da minha vida. E, não é só pelo exercício em si da sexualidade, esse lance de se conhecer e respeitar seus desejos, mas especialmente pelo exercer a sexualidade fora de discursos de certo e errado, fora de acordos sociais tácitos que fizeram por você, sem te pedir opinião.

Li o texto da Clarissa Corrêa esses dias e gostei, claro, pois ela descreveu, toda prosa (e poética), a Maria que somos e que evitamos ser. Mas algo me incomoda muito na frase com que ela fecha o texto: “A Maria, minha amiga, é a inimiga íntima de toda mulher“.

Maria Melillo, participante do BBB 11.

Lógico que pode haver poesia aí, dialética, inversão semântica, que seja. A questão é que realmente acho que, mesmo com todas as licenças poéticas, não devemos nunca usar “inimiga íntima” — nem literal, nem simbolicamente — na representação dessa Maria, esse lado ‘piriguete’ e fundamental na vida da gente.

Pode ser que nesse “inimiga” a Clarisse tenha invocado as representações do feminino, shakti, o lado oculto da lua, as deusas da criação e da destruição. Mesmo assim, longe de ser um bom recurso linguístico, é uma valorização da contradição ‘bem x mal’ que nós mulheres realmente não precisamos viver (ainda mais) — nem no discurso nem na vida real. E, especialmente quando se trata da nossa dimensão sexual, das nossas manifestações sexuais, do nosso agir sexualmente, fato e assunto que se tenta insistentemente caricaturizar e endeusar — mantendo isso bem dentro dos livros (a mente) e bem longe das ruas (o corpo).

Para mim, Maria é nossa amiga mais íntima, nossa maior amiga, nossa maior amiga íntima. O íntimo tem duplo sentido também, pois a sexualidade é nossa espinha dorsal, nossa força, nossa fonte de energia física, espiritual e todos os outros nomes que você usa para descrever as suas dimensões de ser humano.

No tarot — que é um dos vários sistemas arquetípicos que o ser humano criou, um espelho simbólico pra facilitar nossa leitura de nós mesmos — existe um arcano chamado a Imperatriz. Ela simboliza uma mulher em sua completude, que vive e/ou tenta viver todas as suas dimensões e potencialidades, seja sendo uma profissional, seja sendo mãe (não necessariamente tendo filhos seus, olha só), seja sendo amiga de seus amigos, companheira de seus companheiros, seja sendo a mais piriguete das amantes. É a Rainha, dona de si, do seu destino, da sua história.

Maria é uma dessas várias mulheres que fazem de uma mulher a Imperatriz. A soberana da sua vida, tendo o compromisso consigo e com o mundo de ser e viver sua plenitude de mulher e de ser humano.

Ah, e falando em plenitude de ser humano e em sexualidade livre da normatização, sabe o homem? Essa criatura aparentemente livre no exercício da sexualidade e nas escolhas? Ele está precisando — e muito — de uma revolução sexual pra chamar de sua. Mas isso é papo para outro texto, pois hoje é dia de Maria.