Jessica Jones: abuso, resistência e mulheres que não precisam de homens para salvá-las

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a trama da série Jessica Jones, disponível no Netflix.

jessicajones

Duas pessoas começam a namorar. Algum tempo depois, uma delas se afasta da família e amigos, de sua rotina diária e até das coisas que mais gosta por vontade da outra. A situação vai piorando e ela começa a duvidar de si mesma, a não ter mais referência de quem era antes dessa relação e a fazer coisas que ela nunca faria. Essa pessoa com o tempo não consegue mais ter vontade própria, tem sua autoestima minada e vive pela outra. Poucos percebem que algo está acontecendo e muitos duvidam que alguém seja capaz de submeter alguém dessa forma.

Essa é a história da anti-heroína que protagoniza a série Jessica Jones, adaptada dos quadrinhos Alias, mas é também uma situação corriqueira na vida real (de mulheres em sua grande maioria). Jessica é uma das poucas super heroínas de destaque, e que conseguiu protagonismo em uma série de televisão, chegando a um status talvez alcançado apenas pela Mulher Maravilha. Suas falas sarcásticas e atitudes de caráter duvidoso dão a personagem uma complexidade cativante. E sua determinação em salvar as vítimas de seu abusador nos lembram Lisbeth Salander.

Tratando de temas delicados relacionados a violência doméstica, violência sexual, violência psicológica, aborto e punitivismo, considerada uma série feminista e produzida por uma mulher, Melissa Rosenber, a séria ganha pontos também pela diversidade dos personagens. Temos relacionamentos lésbicos (vividos por uma personagem que era um homem no quadrinho), mulheres inteligentes, fortes e poderosas que não usam de sua sexualidade para conseguir status e homens negros em papel de destaque que trazem alguns pontos ao debate sobre racismo. Claro que existem limitações, já que a personagem principal é branca e heterossexual assim como sua melhor amiga e muitos dos personagens da série. E, ainda que esteriótipos como o de Patricinha de sua amiga ou de dependente de drogas de um de seus vizinhos sejam desconstruídos, poderiam investir um pouco mais nesse quesito.

Jessica adquire poderes em um acidente em sua infância e acaba desenvolvendo uma superforça. Mas nem isso, nem sua personalidade forte, a protegem de virar um fantoche na mão de Kilgrave, um vilão que tem o poder de controlar mentes, e que usando apenas alguns comandos consegue obrigar as pessoas a fazer o que ele quiser, mesmo que isso signifique fazer mal a si mesmo e a pessoas queridas e amadas. Essa relação deixa marcas profundas em Jessica, a atormentando mesmo quando acredita que seu agressor está morto, e ela resiste ao trauma se afastando de outras pessoas e afogando suas mágoas na bebida. Trabalhando como investigadora particular acaba descobrindo que Kilgrave fez mais uma vítima e tem de enfrentar todos seus traumas e inseguranças para salvá-la.

Mesmo sabendo que foi manipulada e submetida, Jessica é assombrada por um grande sentimento de culpa e acaba mantendo um distanciamento de qualquer relação afetiva, até de sua melhor amiga, com medo de magoar ou machucar alguém. Não é a toa que a relação que ela começa a manter é exatamente com um homem cujo poder é não se machucar.

Com o passar dos episódios conhecemos outras relações de abuso, algumas protagonizadas por Kilgrave e suas vítimas, outras de âmbito familiar que envolvem sua melhor amiga e a mãe dela e dois vizinhos que são irmãos gêmeos.

Dois pontos muito importantes da série dizem respeito a resistência a esses abusos e também as formas vis que elas podem ser interpretadas pelos agressores e por quem está de fora. As cenas mais representativas têm relação com as declarações de Jessica sobre os estupros de Kilgrave, que diminui a violência praticada por ele em um momento chamando de “interpretação” e em outro, dizendo que não poderia ser um estupro o que ele estava fazendo pois ele a enchia de presentes e tinha vários gastos com ela.

Outro momento chave é quando Jessica crê que se ficasse ao lado de Kilgrave poderia fazê-lo mudar, dando a ele a chance de ser uma pessoa boa através de boas ações. Quantas de nós já não fomos impelidas a dar uma segunda chance mesmo quando estava claro que não haveria melhora? Felizmente, Jessica não cai nessa armadilha.

Essas situações todas podem trazer vários gatilhos de traumas para pessoas que já passaram por situações parecidas, porém, a representação de como essas vítimas resistem e sobrevivem a esses traumas e agressões pode também contribuir para fortalecer e trazer a confiança de volta a pessoas que passaram por situações parecidas, e que as vezes não acreditam que podem superar o ocorrido. Essa representatividade vêm sendo negligenciada na ficção, onde comumente apenas homens fortes e confiantes tem suas histórias representadas.

As falas e atitudes de Kilgrave e de Will Simpson demonstram diferentes formas de agressão e abuso em relações afetivas e sexuais. Enquanto Kilgrave usa como desculpa os sentimentos que alimenta por suas vítimas para manipular todos a atenderem seus desejos, Will vai de policial bonzinho a stalker violento na tentativa de tentar lidar com as situações de seu jeito, por não admitir que mulheres poderiam dar conta da situação sozinhas de forma não ou menos violenta.

As violências ocorrem das formas mais sutis as mais explícitas, de obrigar uma mulher a sorrir por tempo indeterminado, a tocar um instrumento ou até o estupro. E, ainda que essas cenas não sejam mostradas, é possível ver o impacto que essas violências tiveram na vida das vítimas. Enquanto isso, os agressores se defendem: mas essa não era minha intenção, eles dizem. Vocês estão interpretando errado, insistem. Ainda que esteja bem óbvio que suas atitudes são violentas e impulsivas ambos negam que estejam fazendo algo de errado. Enquanto isso, a mãe da Trish e a irmã do vizinho de Jessica, usam como desculpa seu amor materno e fraternal, respectivamente, e seus papéis de cuidadoras como desculpa para agredir e controlar.

Diferentes vítimas buscam formas diferentes de resistir a toda essa violência física e psicológica. Trish busca aulas de autodefesa, investe em segurança. Jessica, quando tem surtos pós traumáticos, usa um subterfúgio que aprendeu na terapia nomeando ruas próximas da casa onde nasceu, busca viajar e se afastar além de beber para lidar com tudo. Outras vítimas de Kilgrave criam um grupo de apoio para falar sobre suas dificuldades em superar o impacto que a manipulação dele teve em suas vidas.

Somos apresentadas a todos os personagens e suas complexidades, em algum momento, mesmo os vilões fazem coisas boas ou os mocinhos fazem coisas ruins. A protagonista coleciona atitudes bastante condenáveis, mas isso não diminui a violência sofrida por ela, assim como o passado de Kilgrave não é o único fator determinante para suas atitudes abusivas.

Outro ponto interessante é a valorização das atitudes e qualidades de personagens que não são “super”, assinalando suas qualidades dos personagens como sendo seus superpoderes. A vontade de ferro/determinação de Trish, a empatia e dedicação ao outro de Malcon, qualidades também partilhadas pela enfermeira Claire Temple (personagem emprestada da série Demolidor). Esses personagens mostram que todos podemos resistir de alguma forma às adversidades e que amizades são bastante importantes nesse processo.

Várias situações relativas a abusos são mostradas na série: as dúvidas, a negação, a revolta, o sentimento de impotência. Mesmo assim, as vítimas resistem e persistem, seja ao buscar justiça, seja ao buscar seguir com suas vidas. Em vez de uma história comum e repetitiva de super herói em que as mulheres são salvas por eles, aqui são as mulheres que salvam si mesmas ou suas amigas de violências cometidas por esses homens e seguem suas vidas. E essa é a grande mensagem deixada por essa série. É possível sobreviver mesmo depois de passar por esses traumas e não estamos sozinhas.

+Sobre o assunto:

[+] Jessica Jones e os relacionamentos abusivos. Por Clarice França.

[+] Precisamos falar sobre Jessica Jones (e Kilgrave!). Por Andressa Dreka.

[+] Jessica Jones e as discussões que precisamos ter. Por Isadora Sinay.

[+] Jessica Jones cria retrato da misoginia cotidiana. por Gizelli Sousa.

[+] In Jessica Jones, superheroes in an abusive relationship brilliantly portray the domestic violence I knew. Por Brydie Lee Kennedy.

[+] Jessica Jones is a Primer on Gaslighting, and How to Protect Yourself Against It. Por Emily Asher-Perrin.

[+] ‘Smile!’ How a villain’s phrase in ‘Jessica Jones’ exposes modern-day sexism. Por Libby Hill.

Representações da violência doméstica nas novelas

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

25 de Novembro – Dia Internacional de Luta Pelo Fim da Violência Contra a Mulher.

Dentre as pautas feministas, acredito que a violência contra a mulher seja a que mais tem ganho atenção da mídia nos últimos tempos. Há ações institucionais sendo tomadas como o Ligue 180, a Casa da Mulher Brasileira, a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Entre as mulheres, crescem o número de campanhas e ferramentas contra o assédio nas ruas. Foi tema da redação do ENEM. E, o Mapa da Violência 2015 destaca o aumento no número de mortes de mulheres negras.

O assunto está ganhando mais espaço e felizmente a maioria das pessoas não tem aceitado relativizações. A violência contra a mulher está ligada ao gênero e tem suas características próprias, que diferem totalmente de outras formas de violência. As mulheres são mortas geralmente por pessoas da família ou conhecidos, por quem deveria protegê-las e apoiá-las. As mulheres morrem em casa, muitas vezes em frente aos filhos.

Como consequência desse debate, vemos cada vez mais as novelas abordando a violência doméstica em suas tramas. Geralmente há um núcleo específico para apresentar o casal em que a mulher apanha e o homem é um bruto sem razão. Há diversos estereótipos nesses personagens, mas o que continua problemático é que dificilmente as mulheres são representadas como pessoas capazes de buscar ajuda e sair dessa situação, na maioria dos casos há um homem salvador que entra na relação para mudar sua vida.

Sempre me pergunto: essas representações melhoram ou não os discursos sociais referentes a violência contra a mulher? Sabemos que o número de denúncias aumenta quando há foco no assunto, mais mulheres se sentem seguras para denunciar ou se veem naquela situação. Porém, ainda culpabilizamos as mulheres pela violência que sofrem, o foco das campanhas está sempre na denúncia e não em uma proposta preventiva dessa violência. Dificilmente encontramos ações que falem diretamente aos homens.

Sabemos que as instituições brasileiras não estão preparadas para atender as mulheres violentadas. Aconselhamos mulheres a não irem sozinhas em delegacias de polícia, temos que lutar no Congresso contra projetos de lei que exigem exame de corpo delito em caso de estupro antes mesmo do atendimento médico, leis não garantem mudanças de comportamento social e nem mesmo diminuem o machismo no judiciário. Porém, acredito ser importante que as novelas mostrem as mulheres denunciando casos de violência na delegacia, detalhando como funciona o processo, como é possível pedir medidas protetivas, o que é possível fazer em casos em que não se tem família por perto ou alguém a quem recorrer.

Atualmente, na novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo, Juca e Domingas são o núcleo de violência doméstica. Geralmente esses personagens existem exclusivamente para tratar do tema e tem até pouca interação com o núcleo principal. Para ficar apenas em alguns exemplos de como virou lugar comum ter o núcleo da violência doméstica, no caso das recentes novelas globais do horário das 9, tivemos: Jairo de Em Família (2014), Marilda em Amor à Vida (2014), Celeste em Fina Estampa (2011), Catarina em A Favorita (2008), Raquel em Mulheres Apaixonadas (2003).

Personagens Juca e Domingas em cena da novela 'A Regra do Jogo' (2015) da Rede Globo.
Personagens Juca e Domingas em cena da novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo.

O homem agressor geralmente é retratado como um bruto, sem educação e que vive às custas da mulher. A mulher vítima é representada com baixa autoestima, na maioria das vezes relativizando o que o marido faz e com muito medo de tomar qualquer atitude. Há personagens que tentam ajudá-las, como vizinhos ou amigas, mas na maioria dos casos é preciso um novo amor para que essa mulher coloque definitivamente um ponto final na relação.

Esse estereótipo com certeza corrobora discursos sociais sobre a violência doméstica, muita gente ainda acredita que a mulher permanece numa relação abusiva porque quer e não compreende as diversas barreiras sociais existentes, desde o sustento financeiro, passando pelas imposições sociais de como a mulher deve se comportar, a falta de apoio e informação sobre o que fazer, até o medo que paralisa. Porém, é preciso ir além desse retrato e apresentar opções. Mulheres sofrem violência de diferentes maneiras, dependendo de seu contexto, mas a violência doméstica está presente em todas as classes sociais e não se configura apenas na violência física.

Desde o início de ‘A Regra do Jogo’, Juca e Domingas tem uma relação abusiva com muita violência. Ele batetesta sua fidelidade e a engana para conseguir dinheiro. São várias cenas mostrando Juca humilhando e agredindo Domingas. Aí pergunto: qual o propósito? Denunciar a violência contra a mulher? Ok, mas de que forma? Adianta retratarmos mais e mais violência contra as mulheres de forma explícita e não mostrá-las buscando seus direitos? Até que ponto a mídia fetichiza esse tipo de violência? Não sou contra falar de violência doméstica na televisão, mas é preciso que esse discurso vá além, que essas mulheres sejam também retratadas como pessoas capazes de enfrentar a situação, que as instituições de apoio e denúncia tenham espaço na trama para apresentar caminhos, que a informação seja repassada.

Quando Domingas beija outro homem logo se sente culpada. Ha notícias de um personagem misterioso que entrará na novela para salvá-la. Por que achamos que uma mulher que está fragilizada precisa automaticamente de um novo amor para  se reerguer? Por que uma mulher espancada e humilhada só é feliz nas novelas se houver um homem que a queira? Parece não haver possibilidade de liberdade para as mulheres vítimas de violência nas novelas. Nos spoilers há a promessa que em breve Domingas irá expulsar Juca de casa, com um diálogo que até cita a Lei Maria da Penha, mas que promete mostrar mais violência gráfica e ameaças contra sua vida:

Tudo acontece depois que Domingas é socorrida pela enfermeira que chega em sua casa aos beijos com Juca. Solidária, a “rival” chama um médico e aconselha-a a pôr um fim no casamento. Ainda se recuperando da febre, Domingas vai enfrentar Juca pela primeira vez quando ele chega em casa e diz: “Aproveita que tu tá melhor e faz um ovo pra mim”. Ela pega o prato em que ele está comendo e joga na parede. “Não vou fazer ovo nenhum, nunca mais!”, esbraveja.

O malandro pergunta se a mulher está maluca, mas ela responde, firme: “Maluca eu tava antes, mas agora acabou! Dá o fora daqui!”. “Tu tá louca mesmo! Quer apanhar?”, ameaça o cafajeste. E Domingas desta vez não se intimida: “Bate pra tu ver! Eu vou pra delegacia agora, te enquadro na Maria da Penha e te ponho na cadeia, desgraçado!”. Juca diz que vai matá-la, e a morena não se abala. “Mata! Mata que é melhor! Tu vai preso por mais tempo, vai passar o resto da vida numa cela cheia de macho, sem ver mulher nunca mais na vida! Eu vou rir na minha cova!. Vai embora, eu tô mandando!”, responde.

Com certeza há catarse ao enfrentar o agressor. Gostamos de ver uma mulher ser altiva e corajosa nesses momentos. Porém, sabemos que muitas vezes enfrentar de igual para igual não é algo que todas conseguem ou podem fazer. Portanto, acredito ser muito importante buscarmos mostrar opções, apresentar o que pode ser feito para denunciar a violência e tentar garantir alguma segurança para as mulheres ameaçadas. Porque, atualmente são elas quem tem suas vidas destruídas, são elas quem tem que abandonar o trabalho, são elas que tem que viver escondidas em abrigo. Por que nossa sociedade ainda acoberta agressores de mulheres e aceita que eles andem tranquilamente pelas ruas sem receber nenhum olhar de reprovação?

O recente caso do secretário de governo do Rio de Janeiro, Pedro Paulo Carvalho é um exemplo disso. Há denuncias graves registradas em boletins de ocorrência. Há violência física e até mesmo ameaças contra a filha do casal. Porém, o prefeito Eduardo Paes insiste em dar declarações do tipo“aconteceu entre quatro paredes, não se sabe as circunstâncias”. Pedro Paulo foi capaz de expor a ex-mulher numa entrevista coletiva para que ela o inocentasse e repete frases absurdas como: “Quem não exagera numa discussão?”. Enquanto um homem se sentir no direito de expor uma mulher e relativizar a violência que cometeu contra ela sem receio nenhum de que seja mal visto, sabendo que não receberá nenhuma reprovação de seus pares, ainda estaremos paralisados na velha história de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. É essa cultura machista que precisamos mudar urgentemente.

Há impunidade, mas não acredito que apenas medidas punitivas resolvam a questão da violência contra a mulher. É preciso um conjunto de ações, especialmente educacionais, não apenas para os agressores, mas também para os jovens, para que a sociedade repense e questione a maneira como a violência contra a mulher é parte do cotidiano, como está nas entranhas das relações sociais. Como o pequeno assédio tem reflexos nos casos de estupro. Como a morte das mulheres em sua grande maioria é banal e torpe. A mídia precisa ser parte desse movimento, para que se possa mudar concretamente os discursos e as maneiras como tratamos essa questão.

Como aponta Rachel Moreno, a mídia e nem mesmo a Globo são responsáveis por inventar a violência contra a mulher, mas cabe a sociedade cobrar a função e responsabilidade social da mídia, especialmente no caso do Brasil, quando falamos de uma mídia de massas, que também é uma concessão pública. Quando uma novela termina não há resgate possível, mas há consequências para a naturalização daquela situação entre a sociedade.

+ Sobre o assunto:

[+] Assédio sexual: como denunciar e se defender legalmente.

[+] Estupro coletivo na novela Em Família e o desempoderamento das vítimas.