“Amamos mulheres independentes”. Amam? Até que ponto?

Texto de Pamela Sobrinho para as Blogueiras Feministas.

Ontem minha mãe me disse: “Tenho dó do seu futuro marido, você só pensa em trabalhar”. Fiquei assustada, não imaginava minha mãe me falando uma frase dessas. Reconsiderei, minha mãe tem os reflexos de uma sociedade machista e patriarcal que acha um absurdo uma mulher trabalhar muito.

Às vezes conversando com amigos ou até alguns caras com quem saio, eles dizem: Amamos mulheres independentes. Amam? Até que ponto?

Uma vez um cara me dispensou porque eu era bem sucedida no meu trabalho e ele não. Outra vez disse que a um cara que eu tinha saído dizendo que estava tranquila, saindo pouco e ele me disse: “Agora sim podemos voltar a sair”, é claro que eu não voltei a sair com esse cara e pouco me importei a se a masculinidade do outro foi afetada porque meu salario é maior que o dele.

Esses homens amam mulheres independentes porque talvez elas não tenham amarras, não tenham preconceitos, sejam livres e paguem metade da conta, mas na hora de assumir um relacionamento, eles estão preparados para tanta liberdade?

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Assédio: estar encurralada, viver com medo, sentir a ameaça.

Texto de Pri para as Blogueiras Feministas.

Hoje, por volta das 17:15h, sentei em uma mesa de frente para um espelho. Quem me conhece bem sabe que escovo os dentes no escuro, penteio o cabelo com um olho fechado e outro aberto, e não sou muito adepta a ficar olhando pra mim. Faça as suposições que quiser, se quiser. O que de fato acontece é que sou tão apegada em reparar nos meus sentimentos, nos meus estados da alma, nos sintomas que meu corpo apresenta que a sobrancelha e o cabelo ficam em segundo plano.

Mas hoje foi diferente.

Quando me olhei de relance, percebi mexas cobres no meu cabelo. Dos dois lados algo brilhava, era largo, intenso e diria inclusive- bonito. Há mais de 1 ano adotei a estratégia de não usar nada químico no meu cabelo e deixar que ele voltasse ao seu estado cru, original. Desde então tenho feito descobertas, como, por exemplo, de que ele tem mais curvas do que retas e que seu tom natural é uma interessante mistura genética que muito me agrada.

Bom, hoje me vi. E hoje me vi diferente.

Cada vez mais gasto menos tempo em me arrumar, cada vez mais gosto da menor interferência de maquiagem possível, e continuo me gostando mais depois de sair do spinning e enquanto faço uma máscara de argila, do que toda montada para um casamento. Aprendi que tudo bem ser assim e não estou nem aí por não ter um batom cor de uva na gaveta.

Porém, de uns tempos pra cá tenho ficado sem forças. Não tenho vontade de escolher uma roupa, pego o que tem na frente, repito o mesmo sapato praticamente a semana inteira só para poupar o pensar, e faço os coques mais bizarros da história pós-blogueiras. Um erro conceitual para quem está por ai solta pelo mundo.

Mas, por qual motivo não quero cuidar desse outro lado?

Há alguns meses, quase todos os dias meus braços em algum momento, ficam fracos. Eles adormecem a noite e preciso chacoalha-los para trazê-los de volta a esse planeta. Tenho derrubado ainda mais coisas do que fazia antes, e não tenho conseguido me dedicar a novos projetos. O que aconteceu com aquela energia toda tão presente no meu estilo de encarar o mundo?

De 7 meses pra cá venho sofrendo de algo que demorei para nomear, apesar de ser um tema em constante debate. Venho sofrendo assédio.

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Qual a métrica de tolerância dos erros? Afetividade, estima social e reconhecimento

Texto de Nathália Fonseca para as Blogueiras Feministas.

[ps1: Nesse texto eu não tenho a intenção de estabelecer verdades, mas levantar uma reflexão a partir de experiências e observações das interações entre pessoas dentro e fora do ambiente da militância]

[ps2: essa reflexão não é levantada com base em dados sólidos de pesquisa científica – até porque ela nem se situa na minha área de concentração – mas a partir da vivência como mulher, da empiria]

Um dia, em meio às reflexões daquele período entre o “acabei de acordar” e o final da primeira xícara de café do dia, um pensamento me intrigou muito: como a sociedade reage a uma falha quando um homem a comete, e qual a reação quando quem escorrega é a mulher (aquela mulher que não é um conceito universal, mas sempre interpelada por outros marcadores sociais da diferença)?

Essa discussão ganhou uma visibilidade relevante nos últimos meses, quando as mulheres praticantes do ativismo feminista digital [pois é, eu não uso mais ciberativismo/ciberfeminismo, mas isso é pano pra um outro texto] se empenharam em discutir, entre outros casos, o fato de Kevin Spacey ter sofrido as consequências dos abusos que cometeu de uma maneira mais incisiva pelo fato de suas vítimas serem homens. Abro aqui um parêntese imaginário para fazer um adendo: ele é homossexual, e não é novidade pra ninguém que a sociedade possui abordagens diferentes quando se trata de pessoas homossexuais, essa relação de poder também influenciou o acontecimento em questão.

Então, voltando ao escopo da discussão: o que me proponho a estabelecer aqui é o levantamento de reflexões acerca de situações específicas que ocorrem no cotidiano. Essa necessidade de discutir esse âmbito de interações e sua relevância é muito bem elucidada por uma autora da Teoria Política Feminista, Jane Mansbridge, quando ela afirma que as relações cotidianas também criam condições de possibilidade para estabelecimento de luta política – uma luta que não se estabelece sob os olhos do Estado, mas através de interações do dia-a-dia das pessoas. Mansbridge se ancora na célebre frase de Carol Hanisch – o pessoal é político – para argumentar que as conversações cotidianas, entre duas ou mais pessoas, criam espaço para que se perceba o sentimento de injustiça compartilhado entre as mulheres, o que nos sensibiliza para o fato de que certas experiências não são exclusivas de uma ou outra mulher, mas problemas políticos que precisam ser combatidos através da coletividade.

Com base na discussão de Mansbridge, me vi profundamente intrigada ao observar um recorte específico das relações entre as pessoas. Esse olhar me interpelou depois do contato com a Teoria do Reconhecimento, do filósofo Áxel Honneth, na qual o autor (em linhas beeeem gerais) afirma que a ausência de reconhecimento nos três âmbitos que ele discute (amor, justiça e solidariedade) influencia diretamente a maneira como os sujeitos se vêem, podendo (a) fomentar o estabelecimento de lutas políticas por reconhecimento de maneira justificada OU (b) fazer com que as pessoas além de não se perceberem em situação de opressão, ainda se sintam satisfeitas e reconhecidas dentro dessa determinada relação de poder, é o que ele chama de reconhecimento ideológico.

Decidi me embasar nesse referencial teórico – e mais a Butler, que logo aparece – porque ele me auxilia a pensar como essas formas relativas de reagir podem ser danosas e até impedir o autocuidado e a autorrealização das mulheres.

Tendo dito o que precisava dizer de antemão, encaminho-me ao cerne da questão colocada no título: como reagimos quando um homem comete um erro? E se esse sujeito for uma mulher, qual a reação, tanto da sociedade quando do indivíduo afetado? O que tenho observado, ao longo dos meus anos de militância feminista e reflexões acerca das questões de gênero e demais marcadores de desigualdades, não é novidade pra ninguém. Mas me preocupa que isso não esteja sendo discutido, pois dependemos dessa discussão, dessa publicização, para que se alcance uma real mudança social.

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