Uma carta para todos os machistas que já conheci

Texto de Jenifer Lucarelli para as Blogueiras Feministas.

“O silencio mantém o status quo. Eu decido falar. Eu decido me levantar.” Isatou Touray*

A dor corroeu meu corpo, minha alma, minha mente e coração. O seu machismo meu deixou em cacos, me desculpei por coisas que não deveria me desculpar, seu machismo transcendeu meu corpo. Feriu, ardeu e queimou todas as memórias boas que tinha sobre você. Talvez, porque eram fantasiosas da minha parte.

Idealizar demais alguém foi meu erro, pensar que você cabia em mim, você é pequeno e eu sou uma imensidão. Qualquer sinal de doçura vindo da sua parte, um olhar, uma mensagem bonita, um elogio, sanava de alguma forma toda a grosseria. Como aquele agrado que a gente recebe depois de um tapa.

Você provavelmente foi criado num lar onde a mulher é menosprezada e submissa, mas o mundo aqui fora não é o seu lar, existem outros indivíduos com pensamentos diferentes e valores também, a mulher não é sua submissa, não é seu objeto de prazer e não é sua serva.

Seu círculo social pode muito bem concordar com suas ideologias machistas, mas desumanizar e objetificar não é o correto, é cruel e deixa marcas muitas vezes que não se apagam em quem sofre com isso.

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Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual?

Texto de Lorena Varão para as Blogueiras Feministas.

13 de Dezembro, Recife-PE.

Fiz terapia por uns três anos. Na verdade, acho que ainda faço. Uma das técnicas que minha terapeuta estimulava era o uso da escrita. Geralmente, ela me indicava uns filmes e eu fazia uma resenha ou escrevia livremente sobre qualquer coisa que eu estivesse sentindo. O esquema era: eu escrevia e enviava tudo por e-mail. Era libertador. Nunca liguei muito pra gramática, nunca liguei muito pra textos muito densos e prolixos, apenas escrevia. Perdi isso nos últimos dois anos.

Ocorre que 2016 e 2017 foram anos extremamente intensos pra mim. Muitas coisas aconteceram comigo e com pessoas próximas. Fui guardando tudo isso e elaborando textos na minha cabeça, mas os mantive em silêncio.

Essa semana fui questionada sobre o meu processo de “saída do armário”. Como eu me descobri uma mulher lésbica? Na verdade, como eu me descobri uma mulher não-heterossexual? A tão temida “saída do armário” sempre é um tema recorrente em todas as rodas ou papos sobre a vivência LGBT. Eis que resolvi escrever sobre o assunto.

A intenção não é formular um texto de formação política ou coisa do tipo, mas tão somente registrar minha vivência enquanto mulher lésbica. Sempre vejo esses textos nos blogs feministas e penso: poxa, eu poderia ter escrito isso! Então, o objetivo é simplesmente socializar essa vivência e aproveitar a coragem que duas garrafas de vinho me deram.

Assim sendo (adoro essa expressão, não sei porquê!), tudo começou quando eu tava na alfabetização. Teresina, Piauí. Bairro Bela Vista II, zona Sul. Eu era extremamente apaixonada por uma professora minha. Tinhamos aula dela umas duas vezes por semana. Nesses dias, eu sempre acordava bem cedo, me arrumava mais, me perfumava, ficava extremamente ansiosa. Sempre que a via meu coração disparava loucamente! Acho que foi minha primeira paixão de fato. Não recordo minha idade na época, mas tudo era tão inocente que não conseguia dimensionar aquilo que eu sentia. Era uma admiração, uma vontade de tá perto, uma necessidade de que ela me enxergasse e me quisesse por perto também… Pra vocês terem noção, eu cheguei a entrar na igreja dela só pra poder vê-la todos os domingos no culto.

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Eu não pensei que o problema era minha cor

Texto de Jenifer Bruna Lucarelli para as Blogueiras Feministas.

Quando você cresce ouvindo que deve se portar feito uma mulher correta e digna, quando os televisores, o rádio, os jornais e a sociedade grita isso no seu ouvido diariamente, fica difícil enxergar que quando se é negra, ser mulher em um âmbito acadêmico, social, amoroso, e familiar torna-se um peso difícil de carregar.

Cresci em um bairro pobre, criada pela minha irmã branca, que trabalhou para me sustentar, e tinha como única preocupação manter –me alimentada e com acesso ao estudo. Fui criada por uma mulher branca, uma mulher guerreira. Não achava que minha cor era diferente dela, estava familiarizada com isso, eu e ela, uma família, mas a gente pegou o transporte público para ir no centro da cidade, e na roleta do ônibus o cobrador fez questão de nos diferenciar, “Você pagou a passagem?”, minha irmã, brava, “ela está comigo, eu dei o dinheiro da passagem de nós duas”. A roleta daquele ônibus mostrou que as pessoas não nos olhavam com a igualdade que eu olhava pra ela.

Ridicularizada, feia, cabelo ruim, gorda, nossa quantos insultos ouvia na escola, as crianças não perdoam, como dizem ainda mais na adolescência, mas será que o preconceito é algo que se ensina? Sim, ninguém nasce preconceituoso, aprende a ser, futuros adultos preconceituosos.

A adolescência sem se envolver, sem beijar, não era adequada, mas na rua quando ia a padaria comprar pão, minhas curvas chamavam a atenção, eu só tinha 13 anos, não eram para me olharem assim. Aos 18, o incrível aconteceu, passei a ser olhada como uma mulher bonita, mas o que fazer com esses olhares? Eu queria um namorado.

Me envolvia, beijava, eu deixava, eu não sabia, achava que iam colocar uma aliança no meu dedo, mas eram só beijos, só, eu suprindo o fetiche deles, afinal, quando tinha 20 anos, a beleza negra estava ainda mais sendo exaltada, eles me olhavam, a mulata linda do cabelo Black Power, mas eu não me via assim.

Quando a gente começa a se amar? Aprendi a responder essa pergunta quando, me beijaram e soltaram a minha mão na frente de terceiros, quando a curva do meu corpo era mais bonita do que meus sonhos, quando dizer não, tornou-se difícil, quando riam do fato de eu querer um namorado, quando eu me via como a única pessoa negra de um lugar, quando eu não queria mais beijar escondido, quando me olhei no espelho e via que era mais que um fetiche, eu era a mulher que ia guiar meu caminho. Eu não queria mais um namorado, queria um diploma, um emprego e o respeito que nunca tive, mas eu não achava que o problema era minha cor. Eu sou a mulher negra que você não apresenta.

Autora

Jenifer Bruna Lucarelli tem 21 anos. Estuda farmácia e reside no interior de São Paulo. É filha adotiva, criada por uma mulher guerreira branca, aprendeu a ver o racismo. “Sou uma mulher negra na universidade buscando seu espaço”.

Créditos da imagem: Obra de Tainá Lima, a Criola. Artivista negra, ilustradora e grafiteira. Instagram: @criola___